Make America great again

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 28 jan° 2017

Todos entenderam que a desintegração da União Soviética, na última década do século 20, anunciava o fim do bilateralismo. De fato, o fracasso de setenta anos de coletivismo demonstrou que os trilhos do comunismo não serviam. O sistema implantado por Lenin e aperfeiçoado a ferro e a fogo por Stalin chegou ao apogeu ao derrotar a Alemanha nazista mas foi incapaz de trazer prosperidade e bem-estar ao próprio povo. Acabou apodrecendo sozinho, de dentro para fora, sem bomba, sem guerra, sem choro nem vela.

Durante os vinte anos seguintes, a hegemonia americana instalou-se soberana. Nenhuma potência lhe batia nos tornozelos. Tinha chegado ao primeiro lugar por mérito e também, sejamos francos, pelo fracasso do adversário. Quando o inimigo joga a toalha, o vencedor, ao sentir-se todo-poderoso, baixa a guarda e amolece. Foi o que aconteceu.

Poucos se deram conta de que a Rússia, empobrecida e com o orgulho ferido, não se havia resignado a assumir o rótulo humilhante de «nação emergente». Quem já foi rei não perde a majestade assim tão fácil. As portas se escancararam para a entrada em cena de um salvador da pátria. E ele surgiu de onde ninguém esperava.

bandeira-eua-2No caos que se seguiu à débâcle do império, uma oligarquia formada por um punhado de novos-ricos tomou o lugar da antiga «nomenklatura». O grupo decidiu entregar as rédeas do país a um obscuro funcionário de carreira, na certeza de que, por detrás do pano, continuariam a dar as cartas. Erro fatal. Pinocchio, Dilma e tantos outros demonstram que esse tipo de acerto costuma falhar. Falhou.

Em quinze anos, Vladimir Putin botou pra correr a turma de padrinhos e, com mão de ferro, instalou-se no comando. Um pouco por sorte, um pouco por se ter rodeado de gente competente, conseguiu elevar espetacularmente o nível de vida do povo. Sua popularidade, já nas alturas, continua subindo. A prosperidade do país permitiu-lhe quintuplicar o orçamento militar. Sem estardalhaço, a Rússia voltou a meter medo. Retomou a Crimeia, considerada desde sempre como território nacional. Apossou-se de facto da região oriental da Ucrânia. De olho na base naval que detém em território sírio, não hesitou em apoiar o ditador do país, com o objetivo de conservar as preciosas instalações militares.

Por seu lado, a China encontrou em Xi Jinping o homem forte que lhe faltava. Sereno, mas firme e esperto, o mandatário entendeu que seu país tem tudo a ganhar com a nova paisagem multilateral. Menos belicosos que os vizinhos russos, os governantes de Pequim dão prioridade ao poderio comercial. Cada vez mais, capitais chineses se apoderam de marcas tradicionais, fato que passa batido para a maioria.

E os Estados Unidos, como ficam nestes tempos de transição? Têm ainda, ninguém duvida, o maior mercado e o mais forte poderio bélico do planeta. Mas a assunção de Donald Trump à Casa Branca, contrariando as aparências, ameaça esse predomínio. Sua campanha baseou-se no lema «Make America great again». (Repare o distinto leitor que, num lapsus linguæ, o «again» traz embutida a ideia de que o país já deixou de ser grande.)

bandeira-eua-2Em si, a ideia até que faz sentido: todo mandatário tem obrigação de aprimorar o desempenho do país e a prosperidade da população. O problema é o caminho escolhido: um agourento isolacionismo. Num mundo que tende à multipolaridade, construir muros e romper tratados de comércio internacional não é a melhor maneira de evoluir. Eliminar a versão castelhana do site da Casa Branca, então, é recuo infausto que demonstra estreiteza cultural. «Cê é grande, mas cê não é dois» ‒ responde a sabedoria popular às ameaças do valentão. Deslumbrado com o próprio umbigo, o presidente narcisista não se dá conta de que o mundo gira e o país vai acabar ficando pra trás.

A árvore plantada pelo ingênuo e parlapatão presidente dos EUA não dará os frutos que ele espera. Não tendo entendido como funciona o frágil e sutil equilíbrio entre as nações, optou por entrar de sola, como elefante em loja de cristais. Se for realmente rico como diz ser, deve saber que dinheiro é imune a patriotismo. Caso se sintam incomodados, os grandes capitais de que seu país dispõe não hesitarão em procurar portos mais seguros. E aquele que prometeu fazer «America great again» periga armar um desastre. A continuar por essa vereda, quando se apagarem as luzes do mandato, sua «America» vai estar «smaller» ‒ apequenada.

Lapsus linguae

José Horta Manzano

Recorre-se à erudita expressão lapsus linguæ para descrever um erro cometido por distração, ao falar. Estudos psicanalíticos descrevem o fenômeno como expressão involuntária de pensamentos reprimidos. Seja como for, é aquela palavra «que saiu assim». O sujeito nem estava pensando naquilo, mas, quando se deu conta, já tinha dito. Às vezes, chega ao fim da fala sem se dar conta do lapso.

O senhor Mantega, ministro da Fazenda, concedeu entrevista ao Estadão. Não ficou claro se os jornalistas pediram ao ministro que os atendesse ou se terão sido convocados. A segunda hipótese me parece mais plausível, mas, no fundo, pouco importa.

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

Estes últimos anos, a sem-cerimônia com que autoridades brasileiras vêm manejando as contas do Estado tem deixado inquieto o planeta financeiro. Estamos nos aproximando demasiado das artimanhas de que se valem nossos hermanos transplatinos para melhorar a aparência de suas descarnadas finanças. Os que comandam os grandes fluxos mundiais do capital não apreciam particularmente essas excentricidades.

Ao operar com dinheiro dos outros, gestores pouco escrupulosos não raro se aventuram em negócios nebulosos. As estrepolias eleitoreiras praticadas pelo governo brasileiro com nossos impostos estão aí para provar o que digo. Por outro lado, administradores zelosos ― e isso existe, acreditem! ― evitam traquinar com dinheiro alheio. Eis por que o mundo anda meio desconfiado com as manipulações contábeis que têm caracterizado o Estado tupiniquim ultimamente.

Sentindo que a credibilidade do Brasil anda se esgarçando e que a água já está batendo no tornozelo, nosso prezado ministro foi instruído a subir ao patíbulo e bater seu mea-culpa em público. Não o fez num palanque, que isso não é assunto para militantes embandeirados nem para multidões atraídas por um boca-livre. Suas declarações foram dadas ao jornal mais respeitado do País.

Disse o que todos esperavam que dissesse. Falou do mais e do menos, deu voltas, girou em torno do assunto. O mais importante ― mais que isso: a razão da entrevista ― foi tranquilizar o mercado com a garantia de que o governo de dona Dilma não mais recorrerá a nenhuma operação «que não pareça correta».

Era o que todos queriam ouvir. Invertendo os termos de conhecida máxima, digo que «à mulher de César, não basta parecer honesta, tem de ser honesta». Ou, como dizem os franceses, de boas intenções, o cemitério está cheio. O próprio Signor Mantega, de origem genovesa, talvez já tenha ouvido o sábio ditado italiano: «tra il dire e il fare, c‘è di mezzo il mare», entre o dizer e o fazer, há um oceano no meio.

Contra bravatas provenientes da alta cúpula brasileira, o mundo já está vacinado. As boas palavras terão de se traduzir por atos concretos, sob pena de não serem levadas em conta.

by Regi, do Amazonas em Tempo

by Regi, desenhista do Amazonas em Tempo

Lapsus linguae
O governo atual tem certeza de que a presidente será reeleita. A prova está num estranho plural que escapou no meio do pronunciamento do ministro. Todos sabem que falta um aninho só para o término do mandato da atual presidente. Daqui a dez meses haverá eleições que tanto lhe podem ser favoráveis como decepcionantes. Caso ela não consiga ser reeleita, é impensável que o ministro Mantega continue ocupando seu posto no novo governo, não é assim?

Pois reparem bem na frase pronunciada pelo ministro: «A ordem neste ano e nos próximos é que uma transação deve também parecer correta.». Ele não disse no próximo, mas nos próximos. É sinal evidente de que, para o Planalto, a vitória nas eleições do ano que vem são favas contadas.

Tomai cuidado, incautos futurólogos! Nada é garantido. Irônico, o destino às vezes prega peças em gente presunçosa. Pode dar uma uruca danada.