O efeito George Clooney

José Horta Manzano

Você sabia?

Ninguém jamais assistiu, em terra suíça, ao belíssimo espetáculo de um cafezal em flor. Por uma razão simples: nestas terras, nem em se plantando, não tem jeito: café não dá, nem com reza braba.

cafe-7Cascatinha & Inhana, dupla caipira bastante popular meio século atrás, cantou a beleza de uma plantação de café, o grande produto de exportação do Brasil de então. Durante décadas, a venda do «ouro verde» garantiu praticamente a totalidade das vendas brasileiras ao exterior. Ainda hoje, o Brasil é o maior cultivador de café do mundo. Reparem que eu disse cultivador. Foi de propósito.

Na Suíça, não se planta café. O grão é importado, transformado e reexportado com impressionante mais-valia. E o fenômeno, relativamente recente, cresce ano após ano. As exportações suíças de café processado têm aumentado exponencialmente. As estatísticas de 2013 assinalam que o país exportou 65,5 toneladas naquele ano, perfazendo um valor total de 2,2 bilhões de dólares.

cafe-6Em valores, as vendas suíças de café equivalem a três vezes as vendas de chocolate e a quatro vezes as exportações de queijo. E como é possível? Com bom humor, atribui-se o milagre ao «efeito George Clooney». O distinto leitor há de ter visto ou ouvido falar da máquina Nespresso, genial criação popularizada pela multinacional suíça Nestlé. Falo daquela cafeteira que utiliza pó de café acondicionado em cápsulas coloridas. O ator americano George Clooney é o garoto-propaganda. É importante saber que todas as cápsulas de café Nespresso são fabricadas na Suíça. Uma ínfima parte é para consumo interno, o resto serve para abastecer o planeta.

Chegamos à paradoxal situação em que países plantadores (e exportadores) de café acabam reimportando o produto transformado e espremido dentro de cápsulas de alumínio.

george-clooneyO café verde, que o Brasil despacha em sacas de 60kg, vale por volta de 2,50 dólares o quilo. Uma vez encapsulado o produto, o valor salta para 33,50 dólares o quilo.

Como se diz por aqui, «en Suisse on n’a pas de pétrole, mais on a des idées» ‒ na Suíça, não temos petróleo, mas temos ideias. Ou, para utilizar o bordão de George Clooney: Nespresso, what else?

3 pensamentos sobre “O efeito George Clooney

  1. Lamentável que nosso Brasil não consiga sair da sua patinagem apesar da fecunda imaginação e criatividade do seu povo.

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  2. Fiquei impressionado com o preço da tonelada: 38 milhões de dólares. É isso mesmo???
    Quanto ao conteúdo em si, claro, mais um produto que exportamos para ser “refinado” no exterior e revendido por um preço muito maior. Quando será que faremos esses “acabamentos” em nossos produtos para conseguir maior valor por eles?

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    • João, tirei as informações das estatísticas suíças de exportação. Assinalam que 65,5 toneladas foram exportadas. Parece enorme, mas é o que marcam. O valor foi de 2,2 bi (francos ou dólares, é praticamente igual) de valor total. Dividindo um pelo outro, cheguei aos 33.500 dólares por tonelada, que dão 33,5 por quilo.

      Só por curiosidade, sei que o açafrão, especiaria fina e rara, sai por 35.000 por quilo, praticamente o valor do ouro 24K. Uma tonelada de açafrão ‒ se tal colheita fosse possível ‒ sairia por 35 milhões! Um espanto.

      Forte abraço.

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