Santo de casa ‒ 2

José Horta Manzano

Hoje em dia, vendem-se menos discos. Métodos de «streaming», de compartilhamento ou de pura piratagem fazem concorrência pesada à venda de gravações. Não era assim trinta anos atrás. Primeiro as ‘bolachas’ de vinil preto, depois os cedês (discos compactos) dominaram o mercado e reinaram, soberanos, por décadas.

Em 1989, uma canção estourou nas paradas de sucesso na França. Cantada em português brasileiro, chamava-se «Chorando se foi» e anunciava a chegada de novo ritmo, a lambada. Gravado por uma desconhecida moça chamada Loalwa, o disco vendeu mais de um milhão de meio de exemplares, fato notável. Na França, estações de rádio tocavam a música o dia todo. O disco foi o mais vendido no país durante 12 semanas seguidas ‒ praticamente o verão inteiro.

Loalwa Braz Vieira

Loalwa Braz Vieira

O sucesso perdeu todo brilho quando, no ano seguinte, estourou o escândalo: a música não passava de vexaminoso plágio da canção boliviana «Llorando se fué», lançada anteriormente pelo conjunto Los Kjarkas. O roubo tinha sido feito por um produtor musical francês que, ao vislumbrar potencial sucesso, simplesmente mandou botar letra em português e registrou-se como autor oficial da música, sob o pseudônimo de Chico d’Oliveira.

Em seguida, o espertalhão formou um conjunto disparate, com instrumentistas de nacionalidades diversas. Para o canto, escolheu Loalwa Braz, carioca residente na França, praticamente desconhecida pelo público, tanto lá como cá. O bom arranjo musical e o marketing frenético fizeram efeito. O sucesso foi retumbante.

Como não podia deixar de ser, os verdadeiros autores da canção entraram com processo por plágio. Mesmo sem ser musicólogo, qualquer um percebe que se trata da mesmíssima música, sem tirar nem pôr uma nota. Naturalmente, o falsário perdeu o processo e teve de devolver o dinheiro ganho indevidamente.

Depois disso, produtor, cantora e conjunto desapareceram da paisagem musical francesa. O ritmo dito ‘lambada’ sumiu pelo mesmo ralo. Hoje, passados quase trinta anos, o nome da cantora e de seu único sucesso voltaram às manchetes em notícia trágica.

lambada-1Foi assassinada por três assaltantes na modesta pousada que mantinha em Saquarema, no litoral fluminense. O corpo foi encontrado carbonizado. Jazia dentro do automóvel da própria cantora, incendiado pelos homicidas. A polícia informa que os criminosos já estão atrás das grades.

A entronização de Mister Trump na Casa Branca e a dramática morte do ministro Zavascki dominam hoje a atualidade, o que explica que a tragédia que atingiu a artista carioca tenha passado quase despercebida no Brasil. Em compensação, a mídia francesa não deixou de noticiar e lamentar o ocorrido. Todo francês cinquentão ainda se lembra dos movimentos eróticos ‒ e até lascivos ‒ aos quais a hoje esquecida lambada predispunha os pares.

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Aqui está o clip original do conjunto boliviano Los Kjarkas.

E este é o clip de promoção de Loalwa e do grupo Kaoma.

Rapaziada do Brás

Você sabia?

José Horta Manzano

Corria o ano de 1917 quando Alberto Marino (1902-1967) compôs uma valsa. Fosse hoje, é possível que tivesse inventado um rap, mas o gosto musical da época era outro. O autor tinha apenas 15 anos de idade (quinze!). Sua criação era despretensiosa, nem letra tinha. Veio-lhe assim como brotam os primeiros amores adolescentes.

Como bom descendente de italianos, Alberto tinha nascido e crescido no paulistano bairro do Brás, reduto de imigrantes peninsulares. Naqueles tempos, metade da população da cidade era estrangeira e, dessa metade, um vivente em cada dois era italiano. A composição recebeu o nome de Rapaziada do Brás, ou do «Braz», como se usava então.

Não se pode dizer que tenha estourado nas paradas de sucesso. (Para quem não conhece a velha expressão, traduzo para o moderno vernáculo: hit parade.) A primeira gravação, pelas mãos do próprio autor, não se faria senão uma dezena de anos mais tarde. Quanto à letra, só foi acrescentada 40 anos depois, criada pela pluma do próprio filho do compositor.

Pouco importa se estourou nas paradas ou não. A Rapaziada do Brás é lembrada até hoje, passado quase um século. Ficou na memória coletiva como um símbolo do passado da cidade.

Alberto Marino continuou sua carreira na música. Diplomou-se como violinista e, mais tarde, como compositor e regente. O que ele estava longe de imaginar é que, após seu falecimento em 1967, seu nome se elevaria a uma altura de… 30 metros. Não estou brincando: um viaduto foi batizado com seu nome, honraria que não é concedida a qualquer um.

            1950 Porteiras do BrásFlechas azuis: postes ainda existentes

1950 Porteiras do Brás
Flechas azuis: postes ainda existentes

Governantes, figurões da política, seus amigos e familiares transformam-se, muita vez ainda em vida(!), em nome de logradouro público. Já com músicos e maestros, o acontecimento é menos frequente.

Todos os que conheceram a cidade de São Paulo antes de meados dos anos 60, hão de ter visto, ou pelo menos ouvido falar, nas porteiras do Brás. Para os que pularam esse capítulo, conto.

Desde o último quartel do século XIX, estradas de ferro cortavam a cidade. Foram, em grande parte, responsáveis pelo acelerado progresso do acanhado burgo. Enquanto o tráfego urbano se restringia a pedestres, a carroças puxadas a burro e a um ou outro automóvel, as vias férreas não representavam grande empecilho. Quando passava um trem, os que tinham de atravessar para o outro lado esperavam. Sem pressa e orgulhosos que se sentiam com o sinal tangível de modernidade, ninguém reclamava.

Foi assim até meados dos anos 40. A partir de então, o aumento da população expandiu os limites urbanos. O tráfego de automóveis e de caminhões cresceu. A Zona Leste povoou-se rapida e densamente. Muitas fábricas se estabeleceram ao longo da ferrovia. No entanto, imperturbáveis, os trilhos continuaram no exato lugar onde haviam sido assentados.

           2010 Porteiras do BrásO prédio verde perdeu suas venezianas

2010 Porteiras do Brás
O prédio verde perdeu suas venezianas

Nos anos 50, as porteiras do Brás já tinham se tornado um dos maiores pesadelos da cidade. A frequência dos trens crescia e, à passagem de cada composição, as porteiras baixavam, represando o pesado tráfego da importante avenida Rangel Pestana.

Falava-se muito em resolver o problema. Entrava prefeito, saía prefeito, e nenhuma providência era tomada. Foi preciso esperar até o meio dos anos 60 para que, finalmente, durante a gestão do carioca Faria Lima, então prefeito de São Paulo, um viaduto fosse construído. Como presente à cidade ― que faz anos em 25 de janeiro ― a obra foi inaugurada dia 24 de janeiro de 1968.

 Eu já não estava mais no Brasil, mas imagino que deva ter sido uma festa. E um alívio para os que costumavam atravessar a linha férrea, fosse a pé, de carro ou de ônibus.

Este é um (raro) exemplo de obra pública de nome acertado. Quem mais poderia ter emprestado seu próprio nome a um viaduto que resolveu o angustiante problema das porteiras do Brás?

O desaparecimento das porteiras não nos trouxe de volta a poesia da antiga rapaziada do Brás. A de hoje já não faz mais serestas. Se as fizesse, teriam outro tempero. Sobrou, como consolo, a quase centenária composição. Ainda há de nos encantar por muito tempo.

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Se alguém quiser recordar a valsa, na voz de Francisco Petrônio, que clique aqui.

NOTA: Clique sobre as fotos para ampliá-las.