Reforma contínua

José Horta Manzano

Faz semanas que o Brasil se alvoroça com a reforma trabalhista e com a reforma da Previdência Social. Discute-se, explica-se, atiram-se pedras. Manifestações pipocam, autoridades preveem catástrofes se não agirmos imediatamente. Coquetéis Molotov, bombas de efeito moral e gás pimenta marcam presença. Esse alarido, ao qual não estávamos mais acostumados, tem razão de ser. Estamos pagando hoje a fatura de mais de meio século de desleixo.

De fato, aprendemos todos a nos orgulhar do avanço alcançado durante a ditadura Vargas, quando centenas de leis, costumes, regras e regulamentos foram consolidados num todo coerente ‒ a conhecida CLT. Só que isso aconteceu em 1943, três quartos de século atrás. De lá pra cá, afora um ou outro arranjo cosmético, nenhuma atualização importante foi aplicada a essa lei.

by Salvatore Malorgio (1948-) artista italiano

Nesse meio tempo, o Brasil evoluiu. A economia, que então se baseava quase unicamente nas exportações de café, se libertou da monocultura. Nossas exportações incluem hoje a soja, o suco de laranja, o minério de ferro e até pequena porção de industrializados ou semi-industrializados. Estradas de ferro deram lugar a rodovias esburacadas. A agricultura de subsistência minguou em favor do cultivo em escala industrial. As relações entre patrão e empregado se transformaram. A esperança de vida espichou.

Regulamentos que dizem respeito a toda a população, como as leis que regem o trabalho e a Previdência Social, não podem parar no tempo. Têm de ser revistas periodicamente. Poucos anos depois de promulgadas, começam a entrar em obsolescência. Para parecer simpáticos e, assim, garantir reeleição, políticos sempre ignoraram essa verdade. E a defasagem foi-se ampliando até se aproximar perigosamente do ponto de ruptura.

O atual presidente já declarou mais de uma vez que não pretende se recandidatar. Será essa a razão pela qual decidiu ser lembrado, daqui a meio século, como aquele que instaurou a CLT 2.0. Bem haja, senhor presidente!

Mas que ninguém se engane. As reformas e revisões têm de ser contínuas, têm de acompanhar a evolução da sociedade. Uma vez que a atualização em curso esteja terminada, já é bom começar a ir pensando na próxima. O ritmo de transformação da sociedade não é mais o dos anos 1940. O comboio vai mais rápido.

Observação
Na Suíça, a Previdência Social universal foi instituída em 1948. De lá pra cá, já foi reformada 21 vezes, incluindo 11 maxirreformas ‒ daquelas que mexem com a estrutura do sistema.

Não há razão para que o Brasil, país onde a evolução da sociedade é mais dinâmica, não faça o mesmo. O importante é dar o primeiro passo. À medida que as condições vão se modificando, as leis têm de ser adaptadas. É simples bom senso.

Natal ortodoxo

José Horta Manzano

Você sabia?

O Grande Cisma deu origem à separação entre dois grandes ramos do cristianismo: os católicos da Europa ocidental e os ortodoxos da parte oriental do continente. Nos países ocidentais, a divisão é conhecida como Cisma do Oriente, enquanto os orientais lhe dão o nome de Cisma do Ocidente. Questão de ponto de vista.

A história registra o ano de 1054 como ponto de ruptura. Mas a divergência não ocorreu assim, da noite para o dia. Foi um processo longo e complicado, que durou um milênio e envolveu interesses que foram bem além do âmbito puramente dogmático. Rivalidades pessoais, interesses nacionais, cobiça, guerras intermináveis, cruzadas, expedições punitivas, litígios territoriais entraram na disputa.

Embates que tiveram início já no século V culminaram, ao final da Idade Média, na separação definitiva entre cristãos ocidentais e orientais. Grécia, Ucrânia, Sérvia, Bulgária fazem parte do território de maioria ortodoxa. A maior concentração, sem dúvida, se encontra hoje na Rússia. O período comunista reprimiu toda expressão religiosa durante décadas. Depois do desaparecimento da Cortina de Ferro, a devoção voltou com força total.

Feliz Natal!

Feliz Natal!

Os romanos haviam instituído o calendário juliano para registrar a passagem do tempo. Mas ele continha imprecisões que se fizeram notáveis com o correr dos séculos. Ao final da Idade Média, a defasagem entre o tempo civil e o astronômico já somava mais de dez dias, o que perturbava a vida de uma civilização essencialmente agrícola. As estações do ano chegavam cada vez mais cedo.

A correção, imperativa, foi imposta pelo papa Gregório XIII. Ficou combinado que a quinta-feira 4 de outubro de 1582 seria seguida pela sexta-feira 15 de outubro. Onze dias desapareceriam. Os países católicos rapidamente adotaram a nova contagem do tempo. Já os ortodoxos levaram séculos para se conformar.

A medida foi tomada em consequência de uma bula papal. Dado que não reconhecem a autoridade do papa romano, os cristãos orientais continuam ‒ até nossos dias ‒ a fixar suas festas religiosas pelo calendário antigo, ignorando a reforma gregoriana.

A diferença entre os dois sistemas de contagem do tempo atinge atualmente 13 dias. Eis por que russos e outros ortodoxos não festejam o Natal em 25 de dezembro, mas em 7 de janeiro. Hoje é dia de festa em terra ortodoxa. Catedrais e igrejinhas celebram a data com ritos tradicionais.

Feliz Natal a todos! E também “С новым годом”, feliz ano-novo!

Interligne 18cNota etimológica
Uma raiz indo-europeia bastante produtiva deu o grego skhisma com o sentido de divisão, separação. A voz foi retomada pelo latim eclesiástico sob a forma schisma, de sentido idêntico.

Alguns filhotes aparecem em nossa língua, tais como: cisão, cindir, rescisão, cismático. Todos trazem a ideia de separação de um tronco principal.

Tresnoitados

José Horta Manzano

Relogio CFF

Hoje, que é domingo, ainda não está dando pra perceber, mas amanhã é que todos vão sentir na pele. Ou na pálpebra. Sentir o quê? A mudança de hora, ora! Todos os países europeus ‒ com exceção da Rússia e de dois ou três vizinhos ‒ entraram na hora de verão este fim de semana.

Como no resto do mundo, a justificativa para impor esse desagradável ritual bianual é poupar energia. Muitos contestam argumentando que os inconvenientes pesam mais que a diminuta economia. É discussão sem fim, que vem dando pano pra mangas e não vai se extinguir tão já.

A primeira experiência concreta de instaurar hora de verão teve lugar na Alemanha, em 1916, em plena guerra mundial. A ideia, considerada genial, foi adotada pelo Reino Unido e pela França naquele mesmo ano.

De lá pra cá, a adoção da mudança de hora foi esporádica. De quando em quando, um país decidia instaurá-la, enquanto vizinhos não tocavam no relógio. Nos tempos em que as comunicações internacionais em tempo real eram reduzidas, a discrepância não incomodava muito.

Mas os tempos mudaram, e a uniformização da prática foi-se fazendo necessária. A partir do início dos anos 80, um após o outro, todos os países europeus foram-se alinhando à rotina.

Relógio solar

Relógio solar

Nos primeiros anos, o Reino Unido, embora adotasse a hora de verão, não mexia em seus relógios ao mesmo tempo que os demais países europeus. A mudança entrava em vigor com defasagem de algumas semanas com relação aos vizinhos. Maldosos, os franceses aproveitavam para repetir que «os ingleses não conseguem mesmo fazer nada como os outros».

Essa excepcionalidade terminou em 1998. Naquele ano, a União Europeia normatizou a prática. Ficou combinado que a hora de verão passasse a vigorar da 1h (GMT) do último domingo de março até às 2h (GMT) do último domingo de outubro.

Relógio moleAgricultores e criadores de gado detestam a medida. Argumentam que vacas, que não usam relógio, devem ser ordenhadas sempre à mesma hora. É grita inútil. A norma que estabelece a dança das horas periga continuar ad vitam aeternam.

Anotemos pois: a partir deste 29 de março, Brasília está distante quatro horas de Lisboa, Dublin e Londres. E cinco horas dos outros países da Europa ocidental.

Falando nas agulhadas que ingleses e franceses adoram aplicar-se mutuamente, ocorre-me que nossa expressão sair de fininho se traduz assim:

Interligne vertical 13em inglês: «take a French leave» (sair à francesa)

em francês: «filer à l’anglaise» (escapar à inglesa).

Mal-educados são sempre os outros, nunca nós mesmos. Interessante, não?

Vamos terminar parodiando o fecho com que Millôr Fernandes costumava encerrar suas historietas: pano rapidíssimo.