Visita de Estado

José Horta Manzano

Não sei se o rancor aparece entre os traços de caráter marcantes dos chineses. O que sei que é que, apesar da aparência fria e distante, são muito sensíveis. Apegados a valores tais como a acolhida a visitantes, dão grande importância à maneira como são recebidos no estrangeiro.

Talvez pelo pouco caso com que foram tratados durante séculos pelos europeus, mostram susceptibilidade exacerbada ao mínimo deslize no modo como são recepcionados quando estão de visita ao exterior. Altas personalidades do governo chinês fazem questão de ser tratadas nos conformes.

Presidente da China: Xi Jingping & esposa Presidente da Suíça: Doris Leuthard

Presidente da China: Xi Jingping & esposa
Presidente da Suíça: Doris Leuthard

Tradicionalmente, a Suíça só recebe uma visita de Estado por ano. Dirigentes estrangeiros podem vir ao país quando desejarem, mas somente uma vez por ano se oferecem honrarias oficiais ao dirigente de um país. Este ano, é vez da China. A última visita de Estado de um presidente chinês tinha ocorrido no século passado, em 1999.

Naquela ocasião, a passagem do dirigente oriental tinha constituído verdadeiro desastre. No exato momento em que o ilustre visitante atravessava a praça em frente ao Palácio Federal, um grupo de cidadãos munidos de faixas, bandeiras e cartazes iniciou uma ruidosa manifestação contrária à anexão do Tibete ‒ assunto supersensível em Pequim.

No discurso que pronunciou logo em seguida, o presidente da China não escondeu a fúria. Mostrando-se amargo e ofendido, disse não entender como a Suíça não tinha capacidade de controlar o próprio povo. Azedo, acrescentou: «Vocês acabam de perder um bom amigo». Pegou muito mal.(*)

suisse-28-xi-jinping-1Mas o tempo dissipa querelas. O presidente mudou, os tempos mudaram. Mais poderosa que vinte anos atrás, a China se esforça para mostrar que merece o lugar de destaque que lhe vinha sendo negado por séculos. Para provar que o antigo comunismo já não existe e que o país se transformou em economia de mercado, o presidente Xi Jinping está na Suíça há dois dias. Veio chefiando a delegação de seu país para participar, pela primeira vez, do Fórum Econômico de Davos. É excelente ocasião para mostrar aos donos dos dinheiros do mundo que vale a pena investir na China.

O governo suíço, escolado pelo fracasso da visita anterior, fez o necessário para não ofender os visitantes. Os entornos do Palácio Federal transformaram-se em praça de guerra. O exército foi chamado para dar uma mão. Há barreiras por toda parte. Atiradores de elite estão posicionados em cima dos telhados. Ninguém circula pelas ruas. Até mesmo moradores da vizinhança têm de ser filtrados, identificados e revistados. Para não tolher completamente o direito de livre expressão, uma manifestação em favor do Tibete foi autorizada ‒ longe do palácio e horas antes da chegada do ilustre visitante.

suisse-29-xi-jinping-2Desta vez, pelo menos até agora, nenhuma gafe foi registrada. Apesar das estonteantes diferenças entre os dois países ‒ a região de Pequim, sozinha, abriga três vezes a população da Suíça ‒ há interesses comuns. A Suíça, que não faz parte da União Europeia, está de olho no imenso mercado chinês. A China, por seu lado, está interessadíssima na tecnologia de vanguarda que lhe faz tanta falta e que a Suíça domina.

Está aí uma das vantagens de não pertencer a nenhum bloco econômico ou político: a liberdade de estabelecer tratados e relações privilegiadas com outras nações. Amarrados por pactos rigorosos, membros da União Europeia ou do Mercosul nem sempre podem agir como melhor lhes parece. Têm de obter anuência prévia dos sócios.

No que diz respeito ao Brasil, está chegada a hora de afrouxar certos nós que nos mantêm atados ao bloco «devagar quase parando» ao qual nosso destino está unido.

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(*) Esse episódio já foi mencionado em artigo meu de quatro anos atrás.

Dividir para reinar

José Horta Manzano

Dividir para reinar. Os registros mais remotos dessa máxima vêm da antiguidade grega. Dois milênios mais tarde, foi adotada pelos latinos como «Divide ut regnes». Mil anos depois, Maquiavel acudiu-se dela sob a forma «Divide et impera». E não é que a máxima chegou até nossos dias? E olhe que continua valendo sem arredar. Exprime o exato oposto de nosso conhecido «unidos, venceremos».

O atual quiproquó(*) entre Trump e Putin deixa alguns preocupados enquanto enche outros de esperança. Levando em conta que ‘onde tem fumaça tem fogo’, a esquizofrênica troca de acusações e de gentilezas entre os dois líderes não é anódina. Há de haver um fundo de verdade nessas declarações de amor e ódio. Desde o fim da Guerra Fria, trinta anos atrás, não se via tamanho morde e assopra entre os líderes das antigas superpotências.

putin-trump-xi-jinpingPutin, matreiro como raposa, há de ter julgado que a eleição de Trump, populista meio bobão, seria proveitosa para a Rússia. É de crer, portanto, que tenha tentado influir nas eleições americanas. A suposição está longe de ser absurda.

E não é só: o mandachuva de Moscou pode muito bem ter ido além. Como antigo dignitário dos serviços secretos soviéticos, aprendeu a pegar cada um por seu ponto fraco, especialidade da casa. Trump é mulherengo, todos sabem disso. A existência de vídeos comprometedores do quase empossado presidente é arma poderosa, que Putin pretende usar, com parcimônia, em proveito próprio.

Enquanto isso… a milhares de quilômetros de Washington e de Moscou, senhor Xi Jinping, provavelmente o líder chinês mais poderoso desde Mao Tsetung, enche-se de júbilo. O comércio internacional já se tornou jogo de cartas marcadas, em que a China sai sempre ganhando. Essas são favas contadas. Mas o domínio do comércio não basta para levar um país ao topo do pedestal. Há outros requisitos.

by Marine Fargetton, artista francesa

by Marine Fargetton, artista francesa

Enquanto Trump e Putin trocam amabilidades e sopapos, que faz Xi Jinping? Já programou visita ao Forum Internacional de Davos (Suíça), marcado para a semana que se inicia. Pragmático, o líder chinês vem reafirmar que seu país mudou, que se tornou economia aberta, que está no mesmo nível dos demais países. Ninguém acredita muito, mas a economia mundial não vive de ideologia, mas de dinheiro. A presença do chinês na meca dos donos do dinheiro só pode ser benéfica para seu país.

Mr. Xi, ao ignorar o bate-boca entre EUA e Rússia, age como abre-alas da entronização de seu país como economia de mercado. Segue à risca outra máxima: «Os cães ladram e a caravana passa.»

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(*) O desastroso AO-90 ‒ acordo ortográfico firmado quase trinta anos atrás entre Brasil, Portugal e mais alguns pequenos países onde se fala, em certa escala, alguma variante da língua lusa ‒ cassou o direito de existir do simpático trema. Certas sumidades, julgando-se donas da língua, suprimiram o diacrítico. O resultado já se faz sentir.

O ensino do latim na escola regular tendo sido banido, os mais jovens não estão familiarizados com o que a língua dos césares nos legou. Quiproquó costumava escrever-se «qüiproquó». Na hora de ler, mesmo sem conhecer a palavra, ninguém se enganava. Todos liam «kuiprokuó». Já não é mais assim. Deve ter muita gente por aí lendo «kiprokó», que soa como nome de ilha grega.

Não é o caso, naturalmente, de nenhum de meus cultos leitores. Todos sabem que a expressão latina qüiproquó traz a ideia de «isto por aquilo», «uma coisa pela outra». Em suma, uma confusão.