A cúpula e os vândalos

José Horta Manzano

O ano era 2003. No Brasil, Lula era presidente de primeiro mandato, embriagado pelos eflúvios do sucesso, nadando de braçada num ambiente propício. FHC havia deixado a casa em ordem, contas em dia, máquina bem lubrificada. Já Bolsonaro era deputado e se aninhava no ‘baixo clero’, mais preocupado com seus assuntos particulares que com a boa marcha da nação.

No mundo, os dirigentes de turno eram o inefável italiano Berlusconi, o francês Chirac, o inglês Tony Blair, o americano George Bush filho e o principiante Vladimir Putin, da Rússia. Esses personagens, junto com alguns outros líderes, formavam o G8 – grupo dos 8 países mais industrializados, que mais tarde se tornaria G7, com a exclusão da Rússia na esteira da anexação da Crimeia, em 2014.

A cúpula daquele ano estava para realizar-se na França. Para sediar a reunião, Paris havia escolhido uma pequena mas aprazível estação de águas chamada Evian, situada ao pé dos Alpes franceses, à beira do Lago Leman. A cidadezinha fica numa região perdida, longe de qualquer centro urbano francês. A referência mais próxima é a cidade suíça de Genebra, plantada à beira do mesmo lago. Ali está, por exemplo, o aeroporto mais próximo que deve servir a receber os dignitários estrangeiros. Além dos líderes do G8, há convidados, entre os quais estão Lula da Silva mais uma meia dúzia de outros chefes de Estado.

Em 2003, a invasão do Iraque pelos Estados Unidos – sem mandato da ONU – provocou uma onda mundial de indignação. Na sequência, levantou-se um forte movimento anti-G8. Para prevenir que manifestações viessem perturbar o sossego dos líderes reunidos, o governo francês bloqueou as estradas que levam a Evian. Diante disso, que fizeram os manifestantes? Pois decidiram manifestar em Genebra, a cidade grande mais próxima do evento.

Ao ficar sabendo das manifestações previstas pelos jovens bem-intencionados, afluíram, de todos os países vizinhos, vândalos profissionais que têm prazer em quebrar vitrines e pilhar lojas. Pode parecer inacreditável, mas há gente que vem de longe, toma trem, gasta o dinheiro da viagem, só pelo prazer de estourar vitrines, atirar coquetel Molotov e, se der, carregar alguma mercadoria, nem que seja uma lembrancinha.

O período de 31 maio a 3 junho de 2003 trouxe o caos a Genebra. Felizmente não morreu ninguém, mas houve feridos, incômodos, bloqueio de vias, perturbação do funcionamento da cidade e, principalmente, muita destruição. A polícia, pouco habituada à violência daqueles dias, ficou sobrecarregada, desnorteada, e perdeu as condições de operar. Foi assustador, e todos ficaram felizes quando a cúpula acabou e o pessoal graúdo foi-se embora.

O tempo passou, poucos ainda se lembravam desse episódio. Hoje, 23 anos passados, cabe de novo à França organizar a reunião anual do (agora) G7. E que lugar eles escolhem para o convescote? Adivinhou: de novo, Evian, a estaçãozinha termal ao pé dos Alpes. E pertinho de Genebra.

Como anfitriã, Paris tem o direito de escolher receber os confrades onde quiser, mas bem que podiam ter escolhido uma outra localidade. Fico desconfiado que escolhem Evian justamente porque sabem que os convivas ficarão encantados, e que os espinhos vão para os suíços. Se tivessem preferido outra cidade francesa, colheriam os espinhos.

É verdade que, em quase um quarto de século, o mundo mudou. Talvez os idealistas ingênuos daqueles tempos já não existam. Talvez o sentimento anti-G7 tenha se arrefecido. Mas um fato é certeza: vândalos sempre existiram e sempre existirão.

A manifestação deste ano está marcada para 14 de junho.

Nota:
Para instalar um tapume de proteção diante de uma pequena loja de uma vitrine, os (espertos) profissionais estão cobrando nada menos que 16 mil francos (103 mil reais). Pensava que espertinhos só havia no Brasil, é?

O fim do dólar

by Gilmar Fraga (1968-), desenhista gaúcho

José Horta Manzano

O que Luiz Inácio já deu de declarações estapafúrdias não está escrito – como se diria em linguagem coloquial. Por ignorância, por excesso de autoconfiança, por entusiasmo momentâneo incontrolado, ou seja lá qual for a razão, já foram dúzias e dúzias de falas machistas, fora de contexto, ofensivas, errôneas, incompreensíveis.

Uma delas, que certamente deixou o interlocutor sem jeito. Foi em 2007, quando George Bush (filho) estava de visita por aqui. Desinibido, Lula quis dizer que as conversações entre Bush e ele estavam avançando bem. Usou os termos seguintes: “Estamos andando com muita solidez para encontrar o chamado ponto G e para fazermos alguma coisa”. Acompanhou as palavras de uma risadinha maliciosa. Bush esboçou um vago sorriso e ninguém ficou sabendo se ele entendeu a pesada alusão. O público americano certamente não entendeu, mesmo porque o locutor da transmissão omitiu esse trechinho.

Estes dias, em Djacarta, às vésperas de um possível encontro em tête-à-tête com Donald Trump previsto para ocorrer em Kuala Lumpur (Malásia), Luiz Inácio fazia um discurso ao lado de seu anfitrião, o presidente da Indonésia. Entre os afagos e as flores, Lula voltou a bater na tecla do abandono do dólar nas transações externas do Brasil, um de seus cavalos de batalha.

Não era o momento e nada exigia botar o assunto sobre a mesa, mesmo porque não consta que a aposentadoria do dólar esteja entre as prioridades indonésias. Mas Lula fez questão de levantar o tema, resoluto como de costume.

Nas redes, não sei se houve eco, mas os analistas que li e ouvi estavam contrariados. Reclamaram todos que não era hora de falar nisso, especialmente a poucos dias do encontro com Trump. O presidente americano é frontalmente contrário a toda tentativa de contornar o dólar e uma vez alertou os incautos que, se insistissem, perigavam receber tarifas de 100%.

Sei que Luiz Inácio é impulsivo. Sei também que o funcionamento do mundo não é exatamente sua especialidade. Assim mesmo, sei que não é tonto. Aliás, neste particular, se distingue do ex-presidente Bolsonaro. Assim, acredito que, se introduziu em seu discurso considerações aparentemente fora de contexto, não foi por descuido, mas com intenção.

Acrescentar mais uma camada aos diferendos entre o Brasil e os EUA bem às vésperas de encontrar o “ogro” pode ser uma estratégia. Ousada, sim, temerária até, mas calculada. Funciona assim.

Em toda negociação, como a que vai haver, há sempre trocas tipo toma lá dá cá. A abolição do dólar como moeda das trocas internacionais é muito mais uma birra pessoal do Lula do que um objetivo do comércio exterior brasileiro. Dado que não é moeda conversível, o real não pode ser usado como moeda internacional. Portanto, que seja o dólar, o yuan, o euro ou o franco suíço, será sempre necessário adquirir moeda estrangeira para comerciar.

Na hora do toma lá da cá, é interessante ter na pauta alguns itens que atrapalham nosso interlocutor, mas que não são realmente importantes para nós. Assim, poderemos sempre nos comprometer a não mais reclamar o fim do dólar em troca desta ou daquela concessão da parte adversa. Por exemplo, podemos prometer tirar de pauta nossa birra contra o dólar em troca do abandono, por parte de Trump, de sanções contra autoridades brasileiras.

Se a inclusão da fala sobre dólar no discurso de Djacarta tiver seguido essa estratégia – e espero que assim tenha sido –, foi boa ideia. Mostra que há esperança sempre, e que o governante de espírito empedernido sempre acaba aprendendo.

Discurso para a militância

José Horta Manzano

Pronto, o ciclo se fechou. Ou se abriu, fica ao gosto do freguês. Mister Trump subiu ao trono que já foi de George Washington, de Abraham Lincoln, de Richard Nixon e de George Bush.

O ritual aperfeiçoado ao longo dos anos foi seguido à risca. Numa época como a nossa, em que, cada vez mais, descerebrados se devotam a urdir atentados contra tudo e contra todos, forças policiais foram compelidas a tomar excepcionais medidas de segurança. A plateia teve de enfrentar bloqueios, filtros, verificações.

A Folha de São Paulo qualifica de "agressivo" um discurso enérgico, incisivo, vigoroso, robusto, mas que passou longe de ser agressivo.

A Folha de São Paulo qualifica de “agressivo” um discurso enérgico, incisivo, vigoroso, robusto, mas que passou longe de ser agressivo.

Felizmente, excetuada alguma baderna orquestrada por bléquiblóquis locais, nenhuma ocorrência grave veio perturbar a passação de poder. A sensação ficou por conta da esperada cerimônia de tomada de posse. Centenas de equipes de reportagem do mundo inteiro se tinham abalado para não perder uma migalha do grande momento.

E que se viu? Nada de empolgante, nada de novo, nada de massacrante. Foi manchete em todo o planeta a indumentária da nova primeira-dama, dado de capital importância para o futuro da humanidade. Graças à argúcia de repórteres a quem nada escapa, sabemos que Mrs. Trump estava vestida de azul-bebê, tom afeiçoado por Jacqueline Kennedy. Quem poderia ir dormir sem esse precioso relato?

trump-1E que se ouviu? Nada de empolgante, nada de novo, nada de massacrante. Quem foi ouvir Trump, saiu saciado: ouviu Trump. O novo presidente gastou vinte minutos repetindo exatamente os mesmos slogans que já havia martelado na campanha, todos do tipo «me engana, que eu gosto».

Fiquei sabendo que gente conhecida no mundo do espetáculo boicotou a cerimônia. Percebi que, na falta de um grande nome, tiveram de dar a uma adolescente o encargo de entoar o hino nacional. Tive notícia de que uma ou duas dezenas de parlamentares descontentes recusaram-se a comparecer ‒ atitude que, francamente, não combina com a democracia americana, justamente por acentuar o antagonismo entre «nós & eles», tão deletério e tão nosso conhecido. Ainda que muitos não tenham apreciado o resultado da eleição, esta não é a melhor hora para acentuar divisões no país.

O Estadão qualifica de "agressivo" um discurso enérgico, incisivo, vigoroso, robusto, mas que passou longe de ser agressivo.

O Estadão qualifica de “agressivo” um discurso enérgico, incisivo, vigoroso, robusto, mas que passou longe de ser agressivo.

Li análises alarmistas. Até gente fina, articulistas que costumo respeitar se deixaram impressionar pelo que disse o novel presidente. Bobagem. Vamos repor as coisas no contexto apropriado, minha gente. O pronunciamento de Mr. Trump foi o discurso final de campanha, o agradecimento aos que nele votaram. O homem não podia dizer outra coisa senão o que já vinha dizendo havia meses. Nem todos os analistas entenderam, mas a fala era dirigida aos que o elegeram, um discurso para uso interno sem nenhuma intenção de impressionar o mundo.

Vamos, camaradas! O diabo não é tão feio assim. Novato em política, Mr. Trump entra na arena galopando e encabritando-se como potro novo. O dia a dia vai-lhe mostrar que o mundo não funciona exatamente como ele imagina. O presidente vai deixar de galopar. Vai maneirar na andadura e acabará trotando como fizeram todos os seus predecessores.