Como desalojar Maduro

José Horta Manzano

De duas semanas pra cá, o drama venezuelano se exacerbou. Ao sofrimento diário de ter de encontrar comida para os filhos, juntou-se o medo de sair à rua e dar de cara com distúrbios violentos. Para o cidadão comum, o sofrimento ‒ que parecia ter chegado ao máximo ‒ piorou. Por ‘cidadão comum’, entendo os que não são militares, nem altos funcionários do regime, nem milicianos a soldo do governo, nem apaniguados de todo tipo.

Juan Guaidó, presidente da Assembleia, destituiu Maduro por conta própria e proclamou-se presidente provisório. Boa parte da população, cansada de guerra, deu apoio. Brasil, EUA e mais uma pancada de países latino-americanos aproveitaram pra desconhecer Maduro como presidente. Por seu lado, a União Europeia deu-lhe ultimatum marcando prazo de oito dias para convocar novas eleições. Caso assim não ocorra, a UE promete fazer coro com os que apoiam doutor Guaidó. Como respaldo, o ditador ainda conta com a Rússia mais um punhado de países, entre os quais alguns menos recomendáveis como Cuba, Irã, Turquia.

Se Maduro, aboletado no Palácio Miraflores, ainda posa de mandachuva, não é por abundância ou falta de apoio estrangeiro. No fundo, pouco importa a gesticulação de Washington, de Brasília ou de Bruxelas. Apesar das ameaças, os EUA continuam sendo o maior comprador do petróleo do país. Nenhum dos que apoiam Guaidó impôs boicote nem embargo comercial. Nem adiantaria. A razão da inamovibilidade do ditador, todo o mundo sabe, é o apoio que recebe da cúpula das forças militares. Enquanto durar essa sustentação, Maduro vai continuar no trono, ainda que a Venezuela continue a sangrar.

by Darío Castillejos, desenhista mexicano

E por que é que o apoio dos militares é inabalável? O fato de estarem no bem-bom não explica tudo. A fibra humanitária também conta. Um fato revelador, ocorrido este fim de semana, dá boa pista pra esclarecer a questão. Señor José Luis Silva y Silva, coronel da Guarda Nacional Bolivariana, é adido militar junto à embaixada da Venezuela em Washington. Agarrando sua coragem com as duas mãos, o militar fez defecção e renegou o compromisso de lealdade para com a corporação. Lançou nas redes sociais um pronunciamiento em que se põe à disposição de Guaidó, o presidente interino.

Na exposição de motivos, o coronel explicou que há militares que, como ele, gostariam de abjurar a fé bolivariana, mas hesitam por dois motivos. Caso trabalhem fora do país, temem pelas represálias que a família, que ficou na pátria, possa sofrer. Caso vivam na Venezuela e consigam escapar do país com a família, receiam não ser bem acolhidos, dado que estarão fugindo de uma ditadura que sustentaram por muitos anos.

Taí a razão: os militares, base de sustentação da ditadura, temem o que lhes possa acontecer caso Maduro seja destituído. Não é a cara feia de Brasil, EUA e outros países que vai abalar o pedestal. Nem a simpatia de Rússia, Cuba & alia que vai ajudar. Para fazer cair o ditador, garantias têm de ser dadas ao chefes militares. Internamente, doutor Guaidó, em primeiríssimo lugar, teria de acenar com anistia ampla, geral e irrestrita. Externamente, EUA ‒ em primeiro lugar ‒ mas também Brasil e os demais deveriam dar sinais de estarem dispostos a acolher, com simpatia, todo dirigente militar que deseje se expatriar com a família.

Enquanto os militares venezuelanos não enxergarem um futuro desanuviado, não deixarão de apoiar a ditadura. A agonia do regime e o calvário do povo hão de se espichar.

Frase do dia — 100

«Há milhares de cubanos no Brasil com olhos, ouvidos e corações ligados nessa aventura, por ora solitária, de Ramona. Se ela tiver êxito ― e a condições são favoráveis ―, poderá servir de exemplo e criar uma legião de desertores do Mais Médicos. Uma tragédia política para o governo.»

Eliane Cantanhêde, jornalista, em sua coluna da Folha de São Paulo, 7 fev° 2014.

O teste

José Horta Manzano

Os milhares de médicos importados de Cuba são, evidentemente, seres humanos como todos nós. Têm qualidades, defeitos, riem, choram, comem, dormem, exatamente como o resto da humanidade. Não são autômatos.

Para alcançar a graça de ser enviado ao estrangeiro por um período, o profissional cubano tem de dar a seu governo escravocrata alguma garantia de que vai cumprir a «missão» abnegadamente e, principalmente, de que vai voltar à miserável ilha. Em resumo, o missionário pode partir desde que um cordão umbilical o mantenha atado à terra de origem.

O espírito caritativo dos Castros é enorme, mas tem seus limites. Os bondosos irmãos estão de acordo em arrendar a países estrangeiros o serviço de seus cidadãos. Contudo, entregar seus profissionais assim, de mão beijada, ah, isso não!

Solidariedade mercantil à cubana é mais mercantil que solidária. Funciona assim: eu te empresto contra remuneração. De graça, não te dou nada. E não te esqueças de minha (polpuda) comissão.

Solidaridad... pero no mucho

Solidaridad… pero no mucho

Até que demorou, mas era inevitável: a primeira defecção acaba de acontecer. Trata-se de uma corajosa profissional despachada para exercer seu ofício no interior do Pará. Não há de ser uma adolescente descabeçada: exerce a medicina há 27 anos. Apesar de ter deixado uma filha na ilha-prisão, deu o passo arrojado: escapuliu de seu cativeiro amazônico e buscou refúgio em Brasília, junto a um dos (raros) partidos de oposição.

Pode até parecer estranho. Em princípio, pedidos de asilo costumam ser apresentados a autoridades alfandegárias ou policiais. Nossa valente profissional, que já deve ter-se dado conta de como as coisas funcionam no País, achou melhor evitar esse caminho. É possível que tenha tido notícia do caso dos esportistas desertores que foram despachados de volta a Cuba em 2007. Melhor evitar esse risco.

Fez bem a doutora. Cuba é um dos 58 membros fundadores da Organização das Nações Unidas. Em 1948, a ONU aprovou a Declaração Universal dos Direitos Humanos, válida para todos os seus membros. O Parágrafo 2 do Artigo 13 do documento reza: «Toda pessoa tem o direito de abandonar o país em que se encontra, incluindo o seu, e o direito de regressar a seu país». Mais claro, impossível.

Essa primeira deserção ocorre num momento delicado e tem valor de teste. O momento é sensível porque, pouco a pouco, os olhos do planeta começam a se voltar para o Brasil por causa da copa que vem aí. O tratamento que for dado a esse primeiro pedido de asilo vai ter eco planetário.

Demorou, mas chegou a hora do vamos ver.

Frase do dia — 91

«En el último año un promedio de tres mil cubanos, en su mayoría médicos, llegaron a Estados Unidos desertando de los distintos programas sociales que ejecutan en Venezuela, lo que representa un incremento de 60% con respecto a 2012.»

Frank López Ballesteros in El Universal, jornal diário de Caracas, Venezuela.