Estatísticas de 1912 – corrigenda

José Horta Manzano

Faz dez dias, publiquei um artigo que detalhava a produção industrial do Estado de São Paulo cem anos atrás. Na ocasião, confessei minha ignorância quanto ao significado de «chapéu de chuva», oposto a «chapéu de cabeça» ‒ que apareciam entre os itens industriais.

Uma amiga minha, habituada ao falar luso, trouxe a boia salva-vidas. Ela me ensinou que em Portugal, ainda hoje, guarda-chuva se diz chapéu de chuva.

Mas é claro! As estatísticas paulistas de 1912 faziam a diferença entre os dois tipos de chapéu. De um lado, estavam os «chapéus de cabeça». De outro, os «chapéus de sol e de chuva», ou seja, sombrinhas e guarda-chuvas.

Agradeço a minha amiga pela argúcia e pela preciosa informação.

Estatísticas de 1912

José Horta Manzano

O Brasil de cem anos atrás era bem diferente do que conhecemos. Naturalmente, faltava toda a família de objetos e de hábitos que se alimentam da informática: celular, computador, internet & companhia. Além disso, faltava uma infinidade de artigos que simplesmente não existiam.

Em pleno boom do café, o Estado de São Paulo já começava mostrar que tinha potencial para desenvolver-se rapidamente. Sua indústria, no entanto, ainda era primitiva e resumia-se a artigos básicos. O resto vinha de fora ‒ do Rio de Janeiro ou do exterior. As estatísticas da produção industrial paulista para o ano de 1912 comportavam uma dúzia de itens, nada mais. Produzia-se o necessário pra suprir necessidades primárias.

O item campeão, com mais de 58 mil contos de réis de valor produzido, eram os tecidos, categoria que tem hoje o sofisticado nome de indústria têxtil. Logo abaixo, como é lógico, apareciam os calçados, cuja produção atingia um total de 50 mil contos de réis.

Fabricação de alimentícios era coisa pouca, que tudo se fazia em casa. Ninguém imaginava que um dia se pudesse comprar goiabada ou palmito em lata. Para gente antiga, os velhos hábitos persistiram. Mesmo nos anos 1950 e 1960, a avó deste blogueiro nunca se acostumou a comprar alimento industrializado. Nem panetone escapava à regra. Semanas antes do Natal, a velhinha preparava dúzias deles ‒ em casa ‒ pra distribuir para a família.

Nas estatísticas de 1912, eram as bebidas que apareciam em terceiro lugar, com 40 mil contos de produção. É compreensível. Nem todos têm alambique em casa.

Produção industrial paulista – anos 1912/1913

Um surpreendente artigo aparecia no quarto lugar: chapéus «de cabeça». Faziam contraponto aos chapéus «de sol e de chuva». Se entendo o que seja um ‘chapéu de sol’, confesso não imaginar o que possa ser um ‘chapéu de chuva’ oposto a um ‘chapéu de cabeça’. Quem tiver a resposta já sabe: cartas para a redação, por favor. Um século atrás, numa época em que ninguém saía à rua de cabeça descoberta, dá pra entender que a indústria de chapéus vicejasse. Vender chapéu era como vender celular hoje.

Depois desses quatro campeões, vinham, lá atrás, o tabaco e derivados, as perfumarias, os phosphoros e as especialidades pharmaceuticas. Fechando a lista dos produtos industriais paulistas, apareciam três últimos artigos: as conservas, os vinagres e, surpreendente para os dias de hoje, as bengalas. Mais nada. Deduz-se que artigos feitos a partir de papel, vidro, metal tinham de vir do Rio ou do estrangeiro.

Era um mundo mais ecológico que o atual. Plástico, não havia. Aparelhos elétricos tampouco. Objetos de vidro e de metal eram usados até gastar. Assento de cadeira era empalhado com palha de verdade. Leite era vendido em garrafa de vidro, devolvida no dia seguinte. Roupa puída ia pra cerzideira, profissão eminentemente feminina, hoje desaparecida. As especialistas faziam, à mão, um trabalho de paciência. A roupa esburacada voltava como nova.

Será que os viventes de 1912 eram mais felizes que os de 2019? No meu entender, não eram mais nem menos felizes. Era igual. Não passavam privação. O sentimento de que falta algo decorre do conhecimento que se tem de que esse algo existe. Ninguém pode sentir falta daquilo que nem sabe que existe.

Este artigo foi corrigido e completado em 21 fev° 2019. Veja aqui.

Escola em fatias

José Horta Manzano

Onibus 6Longe do Brasil e há muitos anos apartado da escola, confesso que não acompanhei o diferendo que resultou em ocupação de estabelecimentos escolares no Estado de São Paulo. De notícia boa, a gente corre atrás. De notícia ruim, a gente foge – só lê por obrigação.

Uma cara amiga e fiel leitora me fez, em poucas linhas, um resumo da situação. Foi um relato claro como manual de English for beginners. Se não me tornou especialista, deu-me visão global do problema. Fica aqui registrado meu agradecimento.

Se bem entendi, as autoridades que cuidam da educação em São Paulo propõem que a escola pública seja compartimentada por ciclos. Cada escola se dedicaria unicamente a um deles. Assim, escola de ciclo básico não acolheria alunos do intermediário nem do secundário. E assim por diante.

Escola 1Se raciocinarmos no absoluto, passando por cima dos considerandos, a ideia não é absurda. Combina com o que se faz no resto do mundo. Aqui na Suíça, por exemplo, é assim que funciona, a começar pela creche: berçário para crianças muito novinhas e creche para os maiorzinhos não estão necessariamente no mesmo vilarejo. Quem tem duas crianças em idade pré-escolar tem de depositar cada filho numa creche diferente, situada noutro lugar. Mais tarde, o problema desaparece, porque o transporte escolar se encarrega de levar e trazer os guris a partir de sete anos de idade.

Feliz ou infelizmente, Brasil não é Suíça. As condições de vida diferem muitíssimo de um país ao outro. A mobilidade urbana – que, em metrópoles brasileiras, melhor seria descrita como «imobilidade urbana» – é fonte de graves problemas no Brasil. A predominância de famílias de renda baixa é outro estigma nacional.

Na outra ponta, muitos professores brasileiros só conseguem sobreviver se acumularem dois (ou mais) empregos em ciclos diferentes. Se o dia a dia desses profissionais já é carregado, ficará infernal caso a reforma vingue.

Onibus 7Não há garantia de que sistemas testados e aprovados nalgum lugar continuem a funcionar bem quando transplantados a outras plagas. Para que a especialização de cada estabelecimento de ensino possa ser adotada no Brasil, há que estar atento ao transtorno que possa trazer a pais e alunos. Não se fala aqui de problemas de adaptação de um pequerrucho a nova escola. Nossos empecilhos são reais, palpáveis, espinhudos, às vezes intransponíveis.

No dia em que as condições de vida do cidadão brasileiro tiverem evoluído e atingido nível civilizado, será chegado o momento de criar estabelecimentos especializados para cada ciclo. Por enquanto, o quadro geral não permite dar esse passo.

Dilma campeã!

José Horta Manzano

Você sabia?

Segundo informações do mui oficial TRE paulista, repercutidas pela revista Veja, dona Dilma foi campeã estourada de votos. Obteve 51% do total, seguida de longe por dona Marina (22%). Deixou na rabeira o senhor Aécio, que não passou de 9%.

Prisioneiro 2Vale ressaltar um detalhe assaz importante: o levantamento se refere ao voto dos inquilinos dos presídios do Estado. Se dependesse da vontade dessa fatia do eleitorado, dona Dilma estaria reeleita já no primeiro turno.

Como disse? Afinidade de objetivos? Vire essa língua suja pra lá, sô!