Antepassados analfabetos

José Horta Manzano

Primeiro, uma afirmação peremptória: todos nós temos antepassados que nunca aprenderam a ler nem a escrever. Basta lembrar que, como ninguém foi trazido no bico da cegonha, descendemos todos de seres selvagens. Que tenham vindo das savanas africanas, das cavernas europeias, das grutas extremo-orientais ou das florestas tropicais, todos temos antepassados analfabetos. Podem ser mais distantes ou mais próximos, mas, lá na origem, a realidade é sempre a mesma.

Cento e cinquenta anos atrás, só ínfima porção da população do país era letrada. Também dos estrangeiros que aportavam, boa parte era constituída de analfabetos. Não há que se envergonhar disso, que era assim no mundo todo. Do encontro desses dois contingentes de semiletrados, algumas consequências nos afetam ainda hoje. Uma delas é a deturpação na grafia do nome de família de imigrados.

Vários fatores se conjugaram para generalizar erros na transcrição:

  • A dificuldade de compreensão mútua entre o que chegava e o encarregado de registrar a entrada
  • A imprecisão de documentos de viagem
  • O iletrismo que grassava à época
  • A necessidade de transcrição de nomes que, na origem, não eram grafados em alfabeto latino
  • O stress do momento

Ainda está para ser feito estudo para quantificar a frequência de erros de grafia de sobrenomes importados. Eu arriscaria dizer que um em cada quatro ou, quem sabe, até um em cada três nomes está mal escrito e não bate com o original.

Estes dias, duas figuras de primeiro plano estão em todas as bocas. São os doutores Bolsonaro e Bebianno, respectivamente presidente da República e (quase ex-) ministro da Secretaria-Geral da Presidência da República. Além do título imponente, têm ambos um ponto em comum: a grafia estropiada do sobrenome.

Bolsonaro
Tudo indica que Bolsonaro é transcrição errônea do original Bolzonaro. Etimologistas e genealogistas não estão totalmente de acordo, mas deveria tratar-se de topônimo, isto é, nome de lugar geográfico. O patriarca da família ‒ aquele que, lá pelo século 13, legou sobrenome à descendência ‒ há de ter sido originário do município de Bolzano Vicentino, situado na província de Vicenza (Vêneto), Itália. Outra corrente propõe o vocábulo dialetal vêneto ‘bolzon’ como origem. É palavra-ônibus de múltiplos significados. Na Itália, Bolzon sobrevive como nome de família.

Bebianno
O original italiano se escreve Bibbiano, com dois bb e um só n. Esse sobrenome é um patronímico, ou seja, deriva do prenome do patriarca que deu nome à estirpe. Esse antepassado longínquo há de ter recebido o prenome de Bibiano, que lhe terá sido dado em devoção a São Bibiano (São Viviano). Na Itália, restam pouquíssimas famílias com esse sobrenome, concentradas no sul do país.

Pessoalmente, não gostaria de carregar um nome mal grafado. Parece que emperra a vida. Faria o possível e o impossível pra consertá-lo. Seja como for, com nome certo ou errado, é importante ser sempre claro em gestos e palavras. Os dois protagonistas citados neste post caíram na cilada da comunicação truncada e obscura. As intrigas palacianas, que saltam sobre qualquer ocasião, deram conta da cordialidade que terá um dia existido entre os dois. Nesse episódio, só houve perdedores. Por falta de clareza, saíram ambos chamuscados e diminuídos.

Tenha modos, menino!

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 26 agosto 2017.

Antigamente não havia pensão por velhice nem por viuvez. Tampouco havia bolsa família, seguro-desemprego e outras benesses para socorrer os menos favorecidos. O que funcionava mesmo era a solidariedade familiar. Debaixo do mesmo teto, viviam duas ou três gerações. Avó, tio solteiro, prima viúva, amiga necessitada e outros agregados integravam o núcleo ‒ naturalmente gerido por um patriarca ou uma matriarca.

Este escriba ainda pegou um finzinho dessa era em que uns se apoiavam nos outros. Comunidade familiar era como as casas de Veneza: se uma delas for derrubada, cai a cidade inteira. A convivência nos ensinava a lidar com diferentes caracteres. Este tem gênio difícil, aquela levanta sempre de mau humor, aquele outro não suporta barulho, uma gosta de gato, a outra fala cuspindo, aquele outro não come doce. E assim por diante, cada um com seu jeito.

Uma advertência dirigida aos pequeninos saía constantemente da boca dos mais velhos: «Tenha modos, menino!». O pito servia em muitas ocasiões. Mostrar a língua era falta de modos; falar mal dos outros também; desrespeitar alguém, então, era pecado capital. Não agradecer por um presente recebido, chamar a irmã de boba, fugir na hora de tomar o óleo de fígado de bacalhau rendiam bronca. «Tenha modos, menino!»

Era um sábio conselho. É inegável que, gostemos disso ou não, somos obrigados a viver em sociedade. Assim, é muitas vezes imprescindível sofrear-se para desarmar conflitos no nascedouro. Imagine se cada um dissesse o que lhe passa pela cabeça, a todo momento, a quem estivesse por perto. É a perfeita receita do caos garantido, um saco de caranguejos. A ralhação da avó nos ensinava a baixar a crista e a ter recato ‒ mercadoria hoje rara na praça.

Não sei se por má orientação quando pequenos ou se por desfrutarem de ego superinflado, políticos e figurões da alta administração da República mostram-se faltos de princípios elementares de savoir-vivre. Alguns anos atrás, a gente se divertia quando o então presidente se gabava de ser autor de façanhas mirabolantes, sempre arrematadas com o bordão «como nunca antes neste país». Ninguém podia imaginar, àquela altura, que a fanfarronice era apenas o sinal de largada para bravatas bem mais ousadas.

Ainda estes dias, o país assiste perplexo a declarações do arco da velha, incompatíveis com o cargo ocupado por quem as profere. O presidente da República, acossado por acusações de malfeitos, pede a suspeição do procurador-geral. Um deputado federal, eleito pelo povo, se exibe seminu ostentando tatuagem com o nome de um correligionário. O presidente do TRF tece comentários pessoais sobre sentença criminal imposta a um ex-presidente da República. A presidente do Supremo Tribunal Federal, chefe-mor de um dos Poderes da República, revela ao populacho que tem detectado machismo contra ela, seja lá o que essa expressão queira dizer. Um ministro do mesmo STF diz, com todas as letras, que o atual titular da Procuradoria-Geral da República é o mais desqualificado que por lá já passou.

Eu poderia alongar a lista de citações, mas o espaço de que aqui disponho é limitado. Acrescento apenas que é constrangedor ver que somos conduzidos por gente tão desenvolta e sem-modos. No fundo, alguns podem até ser competentes. No entanto, esses medalhões se esquecem de que não basta à mulher de César ser honesta ‒ tem também de parecer honesta.

O Sol costuma nascer todos os dias, e ninguém repara. Esta semana, bastou que ele fosse eclipsado pela Lua por dois minutos para que os que se encontravam sob latitudes adequadas se deliciassem com o espetáculo. Nossos figurões, que visivelmente não aprenderam a lição da vovó, deviam refletir sobre isso. Vale lembrar da regra três, que explica que menos vale mais. Aquele cuja palavra é rara costuma ser ouvido com maior atenção. Aquele que fala em voz baixa gera silêncio: todos querem saber o que ele tem a dizer. Muito antes do eclipse de 2017 e da fogueira de vaidades dos figurões da política brasileira deste começo de milênio, os romanos ‒ sensatos ‒ já ensinavam que «Æternum sub sole nihil» ‒ sob o sol, nada é eterno.

Mãe de todas as bombas

José Horta Manzano

Ainda bem que a memória humana é curta. A esmagadora maioria dos fatos acontecidos em passado próximo ou distante já nos teria saído da lembrança se não fossem registros escritos e livros de história.

Nos tempos que correm, a enxurrada de tragédias de que a gente fica sabendo deixam a impressão de que vivemos tempos terríveis, extraordinários, pontos fora de toda curva. Achamos que o mundo está sendo conduzido por desequilibrados e irresponsáveis dos quais nada de bom se pode esperar. Os impressionantes delírios de um Trump, de um Bachar, de um Maduro, de um Kim Jong-Un nos fazem esquecer que Hitler, Stalin, Mussolini, Napoleão já seguraram as rédeas e já fizeram das suas.

Dementes atuais relegam mentecaptos antigos ao baú do esquecimento. É melhor que seja assim. A cada época bastam seus desatinados.

Donald Trump se gabou, estes dias, de ter lançado a «mãe de todas as bombas» sobre um covil de djihadistas. Fica-se sabendo do prodigioso poder desse artefato bélico. Não se passaram dois dias, e Vladimir Putin manda dizer que dispõe de dispositivo de potência muito superior. Dá-lhe o nome de «pai de todas as bombas» e informa que sua arma tem poder ainda maior que o do rival. Seu potencial de explosão é quatro vezes superior ao dos EUA. Diz que já foi testada com sucesso e que está pronta para ser lançada se e quando necessário.

Hoje é Sábado de Aleluia, dia de malhar o Judas. Data venia, vamos sonhar um pouco, que não faz mal a ninguém. Sonho, qualquer dicionário confirma, é plano ou desejo absurdo, sem fundamento. Nestes dias em que grande parte da humanidade comemora a chegada da primavera, com sua simbologia de renascimento e renovação, por que não dar asas à fantasia e sonhar com algo (por ora) impossível?

Vamos imaginar que, no futuro, cientistas espremam seus miolos para inventar um engenho que, ao explodir, não destrua mas construa. Imagine o distinto leitor que se fabrique a «patriarca de todas as bombas». Ao ser acionada, consertaria, em um instante, as cidades e vilas destruídas na Síria. Reporia de pé monumentos milenares dinamitados por talibãs fanáticos. Reconstruiria localidades arrasadas por terremotos.

Essa, sim, seria uma criação digna de despertar respeito e admiração. Eu iria até mais longe. Lançaria a «patriarca de todas as bombas» sobre o Brasil, na esperança (e na expectativa) de que repusesse o país nos trilhos, que desse fim à corrupção que arruina o futuro de milhões em benefício do enriquecimento de um punhado de seres desprezíveis.

Infelizmente, acho que já estou pedindo demais. Certas coisas não são imagináveis nem em sonho.