O gato e o biscoito

José Horta Manzano

Não somos os únicos a achar que gato, só porque nasceu no forno, é biscoito. Outros também incorrem nesse erro primário.

A lei argentina de nacionalidade diz o seguinte:

“Son argentinos todos los individuos nacidos en el territorio de la República, sea cual fuere la nacionalidad de sus padres, con excepción de los hijos de ministros extranjeros y miembros de la legación residentes en la República.”

Portanto, a nacionalidade do pais hermano é garantida a todos os nascidos no território salvo a filhos de funcionários estrangeiros que estiverem no país a serviço. Nesse ponto, a lei argentina e a brasileira são idênticas.

A propósito da morte do jornalista Ricardo Boéchat, o jornal Clarín, de Buenos Aires, estampou a manchete abaixo.

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Na tentativa de se apoderar do ilustre falecido, escorregaram no biscoito do gato do forno. O jornalista realmente nasceu em Buenos Aires. No entanto, seu pai, diplomata, estava a serviço do governo brasileiro. Sua situação é claramente definida, tanto na lei de nacionalidade de lá quanto na de cá: não nasceu argentino, mas brasileiro. Se tivesse desejado adquirir a nacionalidade do país hermano, teria tido de enfrentar processo ordinário de naturalização, como qualquer estrangeiro.

Boéchat nasceu e morreu brasileiro. Portava um sobrenome suíço, da região das montanhas do Jura. Não estou a par dos segredos da família dele mas, se tiver sido realmente descendente de suíços, teria tido direito a reclamar o passaporte helvético. Não sei se chegou a fazê-lo.

Serendipidade – 2

José Horta Manzano

Você sabia?

Velcro 1

Outro dia lhes falei sobre a estranha palavra serendipidade que, embora seja abonada por bons dicionários, ainda não foi reconhecida pelo Vocabulário Oficial da Academia. Uma distração, sem dúvida.

ArquimedesO termo serendipidade exprime a faculdade ou a sorte de inventar algo ou fazer alguma descoberta por mero acidente ou por dedução impelida pelo acaso. O exemplo clássico é a história de Arquimedes – aquele grego antigo que, ao ver flutuar um sabonete na banheira, descobriu um princípio da física. É verdade que a história não registrou a marca do sabonete, mas isso não vem ao caso.

Uma notável invenção suíça seguiu o caminho da serendipidade. Trata-se de um objeto comum, que utilizamos com frequência, sem imaginar como era o mundo antes que ele existisse. Falo do velcro, aquelas geniais tirinhas que grudam e desgrudam sem precisar colar nem costurar. Um achado!

Velcro 2Pois saibam meus distintos leitores que o velcro foi criado pelo engenheiro suíço George de Mestral (1907-1990), originário de família abastada. Numa tarde do outono de 1941, Monsieur de Mestral passeava com seu cachorro num bosque. Horas mais tarde, já de volta a casa, notou que tanto suas roupas quanto o pelo do animal estavam apinhados de pequenas bolinhas, daquelas que chamamos carrapicho.

George de Mestral

George de Mestral

Velcro 4

Chateado, pôs mãos à obra para arrancar, uma a uma, aquelas bolinhas espinhudas. Tomou especial cuidado com o cachorro que, sozinho, não conseguiria se livrar daqueles incômodos penduricalhos.

Enquanto executava a tarefa, a ideia do velcro começou a germinar em sua imaginação. Examinou os carrapichos no microscópio, comparou com o tecido de sua roupa, e… acabou entendendo o princípio. A partir daí, Monsieur de Mestral cuidou da parte comercial. Dez anos mais tarde, patenteou seu invento na Suíça e, no ano seguinte, nos demais países.

Castelo da família De Mestral

Castelo da família De Mestral

Velcro é contração de velours + crochet (veludo + crochê). Como gilete e xerox, é marca registrada que se tornou nome comum. Sem sombra de dúvida, é a criação suíça mais difundida no mundo. Há muito mais tirinhas de velcro em circulação do que canivetes. A NASA, por exemplo, não dispensa esse material para fixar objetos no interior de cápsulas espaciais.