O anjo negro e o pitbull

José Horta Manzano

Como todo homem de mão forte, Getúlio Vargas contava com um círculo fechado de devotos abnegados e dispostos a tudo a fim de proteger o capo. Seus irmãos Lutero e Benjamim encaixaram-se no papel de fiéis escudeiros mas o fiel entre os fiéis, o devoto entre os devotos, o leal entre os leais, era Gregório Fortunato.

Chamado de Anjo Negro, Fortunato era de origem humilde. Seus pais tinham sido escravos. Desde muito jovem serviu à família Vargas, ainda no Rio Grande. À medida que Getúlio assumiu posições importantes na vida política, a presença discreta do ‘anjo da guarda’ se afirmou. Misto de guarda-costas e faz-tudo, Fortunato chefiava a guarda pessoal de Getúlio.

Getúlio Vargas e Gregório Fortunato, o Anjo Negro

Em 1954, quando Vargas já estava no quarto ano de mandato presidencial, os ventos sopravam de quadrante adverso. Intensa campanha política, capitaneada pelo tribuno Carlos Lacerda, não dava trégua. Dono do jornal Tribuna da Imprensa, Lacerda não passava um dia sem lançar mais um ataque feroz ao presidente ‒ um ‘tirano corrupto’, em sua opinião.

Na noite de 5 de agosto daquele ano, Lacerda caminhava em companhia de um amigo pela rua Tonelero, em Copacabana, quando foi vítima de um atentado. Ambos foram alvo de tiroteio. O tribuno se safou com um ferimento no pé, mas o major Vaz, o amigo que o acompanhava, foi atingido mortalmente. Dado que o major não tinha inimigos, ficou claro que o destinatário das balas era Lacerda.

A emboscada provocou terremoto no país. Foi a gota d’água pra acelerar o desenlace da tensa situação. Menos de três semanas depois, pressionado pelos próprios ministros a renunciar ao mandato, Getúlio resmungou que ‘só deixaria o Catete morto’(*). Naquela mesma madrugada de 24 de agosto, suicidou-se.

Acusado de ser o mandante do crime, o Anjo Negro foi julgado e condenado a 25 anos de cadeia. Sucessivamente, os presidentes Juscelino e Jango lhe concederiam graça parcial, reduzindo a pena a 15 anos. Não deu tempo. Quando já levava seis anos encarcerado, Fortunato foi assassinado na prisão. Pareceu queima de arquivo, mas as investigações deram em nada. Ninguém estava interessado em revolver a poeira. Acabou ficando por isso mesmo.

Tribuna da Imprensa, 5 ago 1954
Relato da emboscada de que Lacerda foi vítima

Doutor Bolsonaro, subido recentemente a posto de relevo, ainda não formou círculo íntimo consistente. Em volta dele, agitam-se pretendentes. Desde já, tudo indica que o filho Carlos se esteja impondo como anjo da guarda maior. Apesar de ter recebido do povo carioca um mandato para representá-lo na Câmara Municipal, o moço não sai do pé do pai. Dizem que assiste, com o beneplácito paterno, às conversas reservadas do presidente com todos os visitantes. Há de ser constrangedor pra quem chega desprevenido.

Num século 21 menos aveludado que o anterior, desprezam-se as formalidades. Em vez de ‘anjo’ (negro ou branco), doutor Bolsonaro prefere descrever o filhote como ‘meu pitbull’. Está longe de ser engraçado. Essa atmosfera de família real, em que o chefe precisa da presença constante de um cão de guarda feroz, é inquietante. Aparentemente, ainda estamos longe de desembocar numa tragédia como a de agosto de 1954, mas doutor Bolsonaro deveria dar uns retoques no desenho da guarda presidencial. Nunca é bom facilitar.

(*) O Catete funcionava como palácio presidencial antes da transferência da capital para Brasília. Hoje está instalado ali o Museu da República.

Política de cotas à inglesa

José Horta Manzano

Com tantos reis e rainhas espalhados pelo mundo, é difícil entender a razão pela qual a realeza britânica fascina tanto. Qualquer fato ligado à família real é bom pra animar a mídia : um nascimento, uma separação, um discurso da rainha, um casamento. Falando em casamento, temos um este fim de semana.

Um dos netos da rainha Elizabeth vai se casar com uma jovem americana. A moça, apresentada como «negra», é na verdade mestiça, mulata clara. Tem 50% de sangue negro e 50% de sangue branco. Se não se pode dizer que é branca, tampouco se deve dizer que é negra. Não vejo por que uma das metades anularia a outra.

Abdicação de Eduardo VIII, em 1936

União fora dos padrões, na Inglaterra pudibunda do século 19, seria inimaginável. E olhe que nem precisa ir muito longe no tempo. Nos anos 1930, o rei Eduardo VIII foi forçado a abdicar o trono por insistir em se casar com uma mulher divorciada ‒ americana, por sinal. Hoje, passados oitenta anos, Charles, filho da rainha e herdeiro da coroa, divorciou-se da primeira esposa e está casado com Camila, uma divorciada. E tudo bem.

A entrada de uma mestiça na realeza inglesa vem a calhar. É de lembrar que 8% dos habitantes do reino são de origem asiática, negra ou mestiça. A futura princesa quebra a tradição de uma família real exclusivamente branca. Faz bem à imagem do país, donde a aprovação geral.

O casamento deverá ser acompanhado, pela televisão, por dois bilhões de terráqueos, uma enormidade. Cem mil turistas são esperados em Londres. Calcula-se que a venda de souvenirs e o comércio diretamente ligado ao evento movimentarão 600 milhões de euros ‒ uma bênção para uma economia castigada pelo Brexit. As bodas são excelente operação comercial, benéfica para todos.

Carl XVI Gustaf e Sylvia, reis da Suécia

Nem todos os brasileiros sabem, mas Sylvia, a rainha da Suécia, é brasileira. Filha de pai alemão e mãe brasileira, nasceu na Alemanha mas cresceu no Brasil dos 4 aos 14 anos de idade. Tem duas línguas maternas: português e alemão. Fala nossa língua como qualquer um de nós.

Apesar dessa proximidade, ninguém se interessa pelos fatos e gestos da família real sueca. Não se ouve notícia, não se publicam fotos, não se lê nada. Enquanto isso, basta um espirro da realeza londrina para a mídia se assanhar. Enfim, que é que se há de fazer? Así nos están saliendo las cosas.

De má-fé?

José Horta Manzano

Aspas 2Aspas são sinal gráfico utilizado em praticamente todas as línguas. Forma e hábitos de uso podem variar de um idioma a outro. Vários desenhos são empregados. Nestes tempos de globalização, tanto faz, todos os modelos dão o mesmo recado.

Em nossa língua, as aspas são utilizadas em dois casos principais: em citações e em ironias. Embora alguns gramáticos torçam o nariz, há quem use aspas rodeando palavras estrangeiras.

Tem gente fina que hesita no uso das aspas. A indecisão as faz aparecer mais frequentemente do que deviam. Raramente faltam – em geral, sobram.

Aspas 1Exemplo de aspas usadas em citação:
«Nada se cria, nada se perde, tudo se transforma» – é máxima atribuída ao químico francês Antoine Lavoisier (1743-1794), embora já tivesse sido enunciada pelo filósofo grego Anaxágoras, 500 anos antes de nossa era.

Exemplo de aspas usadas para denotar ironia:
Na floresta equatorial, quando a temperatura desce abaixo de 20°, os habitantes se queixam do «frio polar».

Chamada da Folha de São Paulo, 15 ago 2015

Chamada da Folha de São Paulo, 15 ago 2015

«Descendente da ‘família real’ brasileira é um dos líderes de grupo anti-Dilma» – é o título que a Folha de São Paulo deu a artigo publicado na edição online de 15 ago 2015.

Por que, raios, a «família real» aparece cercada de dois pares de urubus? Pode ser que o autor do título sofra de falta de familiaridade com regras gramaticais. Nunca se sabe, tudo é possível nestes tempos estranhos – há até escriba brigado com as letras, um despropósito.

Manif 10Tenho tendência, no entanto, a privilegiar outra hipótese: o responsável pela manchete terá agido de caso pensado, guiado por razões vaga e burramente ideológicas. O autor da frase deixa transpirar irritação com os protestos contra o partido do governo marcados para este domingo. Valendo-se de expediente típico dos que nos governam, misturou alhos com bugalhos. Na tentativa de depreciar os manifestantes, houve por bem cercar de aspas a família real brasileira, como se a expressão não passasse de fantasia da zelite.

Vamos passar por cima do erro factual: Luiz Philippe de Orléans e Bragança é membro da família imperial, não real. O regime republicano, imposto pelo golpe militar de 1889, não desterrou um rei, mas um imperador.

Sobra a bizarrice de ver descendentes do imperador tratados com ironia por gente que deve imaginar que o Brasil começou em 2003. «Família real», entre aspas, pode-se aplicar à dinastia dos Kirchner argentinos, dos Kim norte-coreanos, dos Castros cubanos, dos Al-Assad sírios. Os descendentes de Dom Pedro dispensam os urubus.

Chamada d'O Globo, 16 ago 2015

Chamada d’O Globo, 16 ago 2015

Digno de ser mencionado:
Mostrando orientação menos enviesada, O Globo tratou do assunto com delicadeza. Chamou o príncipe de príncipe. Sem aspas.