Jeitinho venezuelano

José Horta Manzano

Os tempos estão duros pra ditadores e tiranetes à moda antiga. Os únicos que, bem ou mal, ainda conseguem se segurar são os que reinam sobre povo sem acesso à informação. É o caso, por exemplo, da Coreia do Norte, país trancado, onde ninguém tem celular, nem parabólica, nem internet livre. Ignorando o que se passa fora das fronteiras, os habitantes se alimentam de cobras e lagartos, convencidos de estar comendo caviar. Há ainda o caso de países muito atrasados, onde nem é necessário trancar o país, pois a própria ignorância serve de freio. É o que ocorre com diversos países africanos.

Como se deduz do parágrafo anterior, o xis da questão é o acesso à informação. Na medida que desconhece o que está ocorrendo em casa e no mundo, o povo fica mansinho. A partir do momento em que tem acesso a informações escabrosas, ninguém mais segura a massa enfurecida. Foi, por exemplo, o que aconteceu no Brasil com a ampla difusão dos ‘malfeitos’ da classe dirigente: uma ‘presidenta’ caiu, um ex-presidente está na cadeia e partidos outrora dominantes foram dizimados.

Na Venezuela, país de povo antenado, o braço de ferro continua entre o ditador Maduro e o desafiante Guaidó. A população, como se sabe, está em situação desesperada, sem comida, sem remédios, sem itens básicos para uma vida digna. Toneladas de alimentos e remédios oferecidos como ajuda humanitária estão atualmente estocados às portas do país. A cada dia, aumenta o volume de bens doados. Concentram-se em Cúcuta, cidade colombiana na fronteira com a Venezuela. Começam a surgir também no Estado de Roraima, junto à fronteira. Há ainda gêneros estocados em Curaçao, país insular situado a duas braçadas da costa venezuelana.

by Patrick Chappatte (1966-), desenhista suíço

Maduro mandou fechar as fronteiras e suspendeu o zarpamento em todos os portos do país. Ordenou ainda o bloqueio de voos privados e comerciais além da interrupção dos ferries que ligam o país às ilhas de Aruba, Bonaire e Curaçao.

Se deixar entrar essas toneladas de víveres, señor Maduro estará admitindo que uma crise humanitária está instalada no país ‒ fato que nenhum ditador quer reconhecer. Se não deixar entrar, ele mostrará ao mundo a face cruel e insensível do homem que prefere esfomear o povo a admitir que errou. Um dilema e tanto.

Saltando sobre a oportunidade, señor Guaidó ‒ o desafiante já reconhecido por 50 países como presidente legítimo ‒ está organizando marcha popular para ir apanhar os víveres do outro lado da fronteira. A caravana será animada com concertos ao ar livre. A estrutura do palco do show «Venezuela Aid Live» já está sendo montada ao lado da ponte internacional que liga o país à Colômbia. Artistas da Venezuela, da Colômbia, da Espanha, da República Dominicada e de Porto Rico participarão. Deve ter lugar no sábado.

Esta quinta-feira, señor Guaidó já está deixando Caracas em direção à fronteira colombiana. Viaja de automóvel, seguido pelos deputados da Assembleia Nacional, que vão de ônibus. Não se sabe ainda de que maneira a carga passará a fronteira. Mas esse é problema de menor importância. O povo há anos está habituado a dar jeitinho pra obter tudo aquilo de que precisa. Não será desta vez que vão fraquejar.

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