As festas de junho

Igreja de Sto Antonio
São Paulo, século 18
by J. Washt Rodrigues

José Horta Manzano


“A noite de São João é a mais fria do ano.”

“Santo Antônio encontra tudo, é só pedir.”

“São Pedro é humilde e corajoso, é por isso que foi o primeiro papa. Santo forte.”


São coisas em que todo o mundo acreditava antigamente. A moça solteira costumava pôr a imagem de Santo Antônio de cabeça para baixo, avisando ao santo que só voltaria à posição natural quando lhe encontrasse um bom marido. Dizem que Antônio não apreciava nada esse castigo, vai daí que não encontrava marido nenhum.

Não sei se a tradição perdura, mas até os anos 1950 e 1960, o 13 de junho era um dia especial. Os padeiros do centro de São Paulo, que eram quase todos de origem portuguesa, mandavam braçadas de pães para a igreja de Santo Antônio, praça do Patriarca. O povo então fazia fila. Cada um recebia, então, um pedaço de pão que havia sido previamente benzido. Devia-se guardar esse pão em casa, pra garantir fartura o ano inteiro. Se foi isso, não sei, mas em casa nunca faltou comida.

Assim como o metrônomo marca o tempo musical, os dias de cada santo do mês – Antônio, João e Pedro – marcavam o ritmo dos festejos juninos. Rifas e quermesses engalanavam aqueles dias sem internet e, muitas vezes, sem televisão.

Vejo hoje muito anúncio de “arraiá”(sic). Mas os personagens que deram origem a esses agapes não são mais mencionados. É como o Natal, que perdeu suas origens para tornar-se a época em que se come peru e panetone. E em que se dá presente a toda a família. Os “arraiás” sobrevivem soltos no organograma, sem ligação a nenhuma tradição nacional.

  • Aqui entre nós: o arraial, tradição interiorana, deveria ser pronunciado “arraiaR”, com um erre retroflexo no final, bem enrolado, bem acaipirado.

O jogo inaugural do Brasil na Copa 26 caiu bem no dia de Santo Antônio. Não me lembro de ter visto nenhuma referência à data em todas as reportagens e análises que li.

Nossos bem pagos jogadores, por mais milionários que estejam, não deveriam julgar-se acima do bem e do mal. Um pouco de respeito às tradições  e de confiança nelas não lhes faria mal nenhum. Se o Brasil ainda terminar em primeiro lugar em seu grupo, o que não é impossível, vai jogar no 29 de junho, dia de São Pedro.

Pra ganhar, não vale botar o santo de ponta-cabeça, que ele não gosta. Dê-lhe um sorrisinho, ele há de apreciar.

Estatísticas de 1912 – corrigenda

José Horta Manzano

Faz dez dias, publiquei um artigo que detalhava a produção industrial do Estado de São Paulo cem anos atrás. Na ocasião, confessei minha ignorância quanto ao significado de «chapéu de chuva», oposto a «chapéu de cabeça» ‒ que apareciam entre os itens industriais.

Uma amiga minha, habituada ao falar luso, trouxe a boia salva-vidas. Ela me ensinou que em Portugal, ainda hoje, guarda-chuva se diz chapéu de chuva.

Mas é claro! As estatísticas paulistas de 1912 faziam a diferença entre os dois tipos de chapéu. De um lado, estavam os «chapéus de cabeça». De outro, os «chapéus de sol e de chuva», ou seja, sombrinhas e guarda-chuvas.

Agradeço a minha amiga pela argúcia e pela preciosa informação.

Estatísticas de 1912

José Horta Manzano

O Brasil de cem anos atrás era bem diferente do que conhecemos. Naturalmente, faltava toda a família de objetos e de hábitos que se alimentam da informática: celular, computador, internet & companhia. Além disso, faltava uma infinidade de artigos que simplesmente não existiam.

Em pleno boom do café, o Estado de São Paulo já começava mostrar que tinha potencial para desenvolver-se rapidamente. Sua indústria, no entanto, ainda era primitiva e resumia-se a artigos básicos. O resto vinha de fora ‒ do Rio de Janeiro ou do exterior. As estatísticas da produção industrial paulista para o ano de 1912 comportavam uma dúzia de itens, nada mais. Produzia-se o necessário pra suprir necessidades primárias.

O item campeão, com mais de 58 mil contos de réis de valor produzido, eram os tecidos, categoria que tem hoje o sofisticado nome de indústria têxtil. Logo abaixo, como é lógico, apareciam os calçados, cuja produção atingia um total de 50 mil contos de réis.

Fabricação de alimentícios era coisa pouca, que tudo se fazia em casa. Ninguém imaginava que um dia se pudesse comprar goiabada ou palmito em lata. Para gente antiga, os velhos hábitos persistiram. Mesmo nos anos 1950 e 1960, a avó deste blogueiro nunca se acostumou a comprar alimento industrializado. Nem panetone escapava à regra. Semanas antes do Natal, a velhinha preparava dúzias deles ‒ em casa ‒ pra distribuir para a família.

Nas estatísticas de 1912, eram as bebidas que apareciam em terceiro lugar, com 40 mil contos de produção. É compreensível. Nem todos têm alambique em casa.

Produção industrial paulista – anos 1912/1913

Um surpreendente artigo aparecia no quarto lugar: chapéus «de cabeça». Faziam contraponto aos chapéus «de sol e de chuva». Se entendo o que seja um ‘chapéu de sol’, confesso não imaginar o que possa ser um ‘chapéu de chuva’ oposto a um ‘chapéu de cabeça’. Quem tiver a resposta já sabe: cartas para a redação, por favor. Um século atrás, numa época em que ninguém saía à rua de cabeça descoberta, dá pra entender que a indústria de chapéus vicejasse. Vender chapéu era como vender celular hoje.

Depois desses quatro campeões, vinham, lá atrás, o tabaco e derivados, as perfumarias, os phosphoros e as especialidades pharmaceuticas. Fechando a lista dos produtos industriais paulistas, apareciam três últimos artigos: as conservas, os vinagres e, surpreendente para os dias de hoje, as bengalas. Mais nada. Deduz-se que artigos feitos a partir de papel, vidro, metal tinham de vir do Rio ou do estrangeiro.

Era um mundo mais ecológico que o atual. Plástico, não havia. Aparelhos elétricos tampouco. Objetos de vidro e de metal eram usados até gastar. Assento de cadeira era empalhado com palha de verdade. Leite era vendido em garrafa de vidro, devolvida no dia seguinte. Roupa puída ia pra cerzideira, profissão eminentemente feminina, hoje desaparecida. As especialistas faziam, à mão, um trabalho de paciência. A roupa esburacada voltava como nova.

Será que os viventes de 1912 eram mais felizes que os de 2019? No meu entender, não eram mais nem menos felizes. Era igual. Não passavam privação. O sentimento de que falta algo decorre do conhecimento que se tem de que esse algo existe. Ninguém pode sentir falta daquilo que nem sabe que existe.

Este artigo foi corrigido e completado em 21 fev° 2019. Veja aqui.