Badalação

José Horta Manzano

Surgida no fim dos anos 70, a palavra ‘tietagem’ é relativamente nova. Nos tempos em que ela não existia, usava-se bajulação ou ainda badalação, mais coloquial. Aluno que trouxesse presentinho para a professora era chamado de «badalo» ou, de forma mais crua, «puxa-saco».

Outro dia, a mídia se deliciou com a notícia de que um juiz do Rio de Janeiro tinha tietado Lula da Silva, por ocasião de um depoimento no âmbito da Lava a Jato. É que o magistrado fez confidência pública já no finzinho da audiência. Revelou já ter comparecido a comício, vestindo camiseta e boné com o nome do então candidato ‒ hoje encarcerado.

Dia seguinte, numerosos magistrados e criminalistas vieram a público manifestar indignação com a fala do juiz carioca. Qualificaram as declarações de inconvenientes. De fato, são.

Depois de viver décadas em sociedade carrancuda, estou em posição de observador privilegiado. Posso dizer que o brasileiro me surpreende pela cordialidade, me encanta pela prestatividade, mas me irrita pela exagerada sem-cerimônia.

Em sociedades mais reservadas, a fronteira entre formalidade e familiaridade é fosso intransponível. Um exemplo revelador: colegas de escritório, ainda que de idade equivalente, podem chegar a trabalhar anos e anos lado a lado sempre tratando-se por senhor. Parece lorota, mas ocorre com frequência. No Brasil, assistimos ao extremo oposto. Uma familiaridade ‒ que, às vezes, soa falsa ‒ invade terreno sério. Foi o que aconteceu na conversa entre o Lula e o juiz.

In medio stat virtus, a virtude está no meio-termo. Nenhum dos comportamentos é desejável: nem a formalidade castrante, nem a familiaridade invadente. Enfim, que fazer? Cada um é como é, difícil será mudar. Mas, convenhamos, não custa fazer um esforço pra refrear exageros. O juiz escorregou.

Destino que ir

José Horta Manzano

Este ainda passa como erro de datilografia ‒ ou digitação, que é a mesma coisa. Faltou releitura, mas ficou engraçado.

Chamada do Estadão, 20 dez° 2016

Chamada do Estadão, 20 dez° 2016

Interligne 28a

Já este aqui dá engasgo. Não é confusão de teclado. É bem pior: falta de intimidade com a norma culta da língua, fato espantoso num encarregado de redigir manchete de jornal.

Chamada do Estadão, 19 dez° 2016

Chamada do Estadão, 19 dez° 2016

Quem vai, não vai “algum lugar”, mas A algum lugar. Havia mais de uma opção para acertar.

Se fizessem questão de manter o verbo ir, simplesinho e eficaz, deveriam ter escrito:
●  Cinco destinos aos quais você pode ir sem passaporte.

Ficaria melhor ainda se tivessem usado outro verbo. Assim:
●  Cinco destinos que você pode visitar sem passaporte.
●  Cinco destinos que não exigem passaporte.
●  Cinco destinos que dispensam passaporte.
●  Cinco destinos para conhecer sem passaporte.
●  Cinco destinos para quem não tem passaporte.

E assim por diante. Bastava espremer um pouquinho os miolos. Mas, que fazer? Ninguém pode dar mais do que tem.