A prova pela imagem

José Horta Manzano

No Brasil, o ofício do policial está ficando cada dia mais difícil. Antigamente, não era assim. Polícia chegava, batia, arrebentava e tudo ficava por isso mesmo. O espírito corporativo funcionava, as versões dos participantes concordavam e não havia como contestar. Hoje em dia, com a onipresença de câmeras de vigilância e de filmadoras incorporadas em telefones de bolso, vai ficando mais complicado trapacear.

Se, antes, era comum policiais alegarem ter agido «em legítima defesa», hoje, imagens de vídeo podem contradizer o relato. Todo cuidado é pouco. Para complicar, imagens editadas de vídeo amador feito com telefone celular podem comprometer agentes da lei, dando a impressão de que tenham exagerado na violência sem real necessidade.

policia-5O fenômeno não é exclusivamente nacional ‒ é comum em outras partes do mundo. Para remediar, nova experiência está sendo tentada na França. A partir de primeiro de janeiro próximo, policiais municipais e agentes de segurança dos trens estarão equipados com uma minicâmera incorporada ao uniforme, fixada na altura do peito. Quando de uma ocorrência particularmente movimentada, bastará acionar o dispositivo que filmará a cena.

Dizem que uma imagem vale mil palavras. Se a experiência for levada adiante ‒ e se der resultados ‒, muita acusação mútua poderá ser evitada. Contestações, que hoje desembocam em processo judicial, não terão mais razão de ser. Em princípio, parece ser boa medida. Talvez fosse o caso de nossa polícia experimentar o método.

Não é só aqui

José Horta Manzano

Dizem que os brasileiros não botam muita fé nas autoridades. É compreensível, cada um tem suas razões: gato escaldado tem medo d’água fria. Tanto já nos mentiram, que a gente já anda precavido. O não imaginamos, no entanto, é que, em sociedades menos problemáticas, o mesmo sentimento esteja presente.

Na quarta-feira, a mídia planetária deu notícia do cerco que a nata da polícia francesa tinha feito a um imóvel da periferia de Paris onde, segundo informações confiáveis, se escondia o «cérebro» dos atentados da semana passada. (Boto «cérebro» entre aspas porque, por definição, quem assassina a esmo é descerebrado.)

Metralhadora 1Na quinta-feira, a mídia planetária repercutiu a confirmação oficial das autoridades francesas. O exame de ADN (=DNA) tinha dado o veredicto: o tal «cérebro» – o chefe do bando – estava realmente entre os que tinham sido pulverizados pela polícia. Todos festejaram, mas, no fundo, cada um guardou um pezinho atrás. Será verdade mesmo? Não estariam dizendo isso só pra tranquilizar o bom povo?

Nesta sexta-feira de manhã, os jornais falados abriram com grande manchete. Está realmente confirmado que o chefe do bando estava em Paris no momento dos atentados. A prova? O registro de uma das milhares de câmeras do metrô. Distingue-se claramente o indivíduo numa das imagens, tomada minutos após as primeiras deflagrações.

Desta vez, todos acreditaram. Jornalistas não se preocuparam em disfarçar o alívio que sentiam diante da comprovação de que as autoridades não haviam mentido.

Pra você ver, distinto leitor: não é só em Pindorama que a gente toma pronunciamentos oficiais com grande precaução.