A vida é um palco iluminado

José Horta Manzano

Nem tudo o que legal é conveniente. Nem tudo o que é conveniente é legal. Discernir entre o que se deve e o que não se deve fazer é questão de bom senso. Li hoje de manhã ‒ e ouvi pelo rádio ‒ o patético diálogo travado entre senhor José Dirceu e o juiz Sergio Moro, no âmbito da operação Lava a Jato. São ambos personagens singulares do Brasil atual.

negociation-2O primeiro, o setentão José Dirceu de Oliveira e Silva, já foi guerrilheiro, degredado, foragido, anistiado, mentor de campanha eleitoral, ministro, lobista, prisioneiro. Passa atualmente, pela terceira vez na vida, uma temporada na prisão. Está condenado a uma vintena de anos de cadeia. No diálogo, alega ser pobre e implora por clemência. Acredite quem quiser.

O segundo, o quarentão Sergio Fernando Moro, é juiz federal em Curitiba. Dono de conduta atípica e nunca dantes vista no Brasil, tem-se mostrado inflexível para com criminosos de colarinho branco, sejam eles empresários ou poíticos. Destemido ‒ eu diria até temerário ‒, tem condenado gente graúda a longos anos de privação de liberdade. Sua mão pesada anda atemorizando muita gente, inclusive ex-presidentes da República.

É compreensível que o cidadão que recebe sentença de prisão apele para o «jus sperneandi», que tente o possível e o impossível para amenizar a pena. Dá pra entender. Acredito que qualquer um de nós, se estivesse em situação assim, seguiria caminho parelho.

O que não dá pra entender é que conversa entre juiz e apenado seja divulgada à mídia, como se entrevista de talk show fosse. O simples fato de saber que uma conversa periga ser divulgada ao grande público tolhe a naturalidade dos participantes.

negociation-1É verdade que os tempos da Inquisição já vão longe e que a publicidade é hoje princípio basilar da Justiça. Isso, no entanto, não significa que todos os trâmites tenham de ser necessariamente publicados. Conversa entre advogado e cliente não costuma (nem deve) ser levada a público. Diálogo de gabinete entre juiz e condenado tampouco deveria ser publicada.

Imagino que a publicidade dada ontem à conversa entre os dois personagens esteja dentro da legalidade ‒ só faltava… Assim mesmo, não atino com a utilidade do procedimento, impensável na Europa.

Vai ficando cada dia mais claro que os protagonistas dessa deplorável tragicomédia nacional se consideram vedetes num palco de vaidades. O circunstancial vai encobrindo o essencial.

Perguntar não ofende ‒ 1

José Horta Manzano

Algemas 1Agora há pouco saiu a notícia de que policiais do Senado foram presos por tentativa de entravar investigações da Lava a Jato.

A menos que se admita que esses bravos funcionários tenham agido por conta própria, por desprendimento ou por pura devoção profissional, é fácil imaginar que a ação tenha sido encomendada por gente do andar de cima.

Se assim for ‒ e há grande possibilidade de que seja ‒ os policiais terão sido simples executantes de ordem superior.

Fica no ar a pergunta:
Por que prenderam os operadores e deixaram os mandantes livres, leves e soltos?

Pergunta complementar:
Para quando está prevista a prisão do porteiro, do motorista e da copeira?

Alarme falso

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

‒ Você viu que o Lula quase foi preso hoje?

Era meu velho amigo Sigismeno. Fazia tempo que a gente não se encontrava. Como de costume, ele não disfarçava certa malícia, perceptível lá no fundo dos olhos.

‒ Quase preso, é, Sigismeno?

‒ Pois é. Parece que ontem um desses chamados blogues sujos preveniu que o homem perigava ser preso nesta segunda de manhã. Vai daí, as redes sociais propagaram a boa-nova e verdadeira multidão acorreu às portas do triplex ‒ perdão, do duplex! ‒ pra assistir ao espetáculo.

‒ Foi muita gente, é?

‒ Ih, nem fale. Tinha mais de 20 pessoas.

Chamada do Estadão de 17 out° 2016 monstrando a "multidão" que acorreu para prestigiar o Lula

Chamada do Estadão de 17 out° 2016 monstrando a “multidão” que acorreu para prestigiar o Lula

‒ E, afinal, o moço foi preso ou não?

‒ Qual nada! Continua à espera do japonês da Federal.

‒ Ué, então por que é que esse tal de «blogue sujo» inventou a história? Falando nisso, que quer dizer «blogue sujo», Sigismeno?

‒ Bom, blogue sujo é expressão que se usa hoje em dia pra designar blogues que se supõe sejam custeados pelo erário, em outras palavras, com nosso dinheiro, o seu e o meu.

‒ Nossa, eu nem imaginava que existisse uma coisa dessas. Quer dizer que é mesmo verdade que esse povo se sustentou lá em cima à custa de nosso dinheiro?

‒ Pois é. Dizem que nosso dinheiro foi parar onde não devia. Mas deixa responder à sua outra pergunta.

‒ Ah, é mesmo, Sigismeno. Por que é que inventaram a história? Só pra botar o Lula nas manchetes?

‒ Não, não acredito. Se, além de ser sujo, um blogue começar a divulgar notícias falsas, aí fica desacreditado de vez. A razão é outra.

‒ Você não tem emenda, Sigismeno, sempre misterioso… Conta logo, vá.

‒ É simples. Você tem visto que, antes de cada nova fase da Lava a Jato, algum vazamento acontece. Aquela do Mantega, por exemplo, que decidiu levar a esposa no meio da madrugada para uma endoscopia. E foi de boné para esconder o rosto. Ficou evidente que alguém tinha avisado, né?

‒ É, eu me lembro. O vazamento tirou o impacto da operação e quase botou tudo a perder. Como será que vazou?

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

‒ Pois é exatamente esse o ponto. Os procuradores não tinham a menor intenção de mandar prender o Lula nesta segunda. Mas espalharam a notícia a algum setor do grupo do qual desconfiavam particularmente.

‒ E daí?

‒ Vai daí, deu certo, caro amigo! O(s) elemento(s) infiltrado(s) fazem parte do grupo que tinha sido avisado sobre a captura do Lula. A partir de agora, o cerco vai-se fechando. Já sabem onde é que tem torneira pingando.

‒ É, a manobra foi esperta. E como você acha que vão proceder daqui para a frente?

‒ Acredito que ainda vai haver outros alarmes falsos para testar outros setores e outros departamentos. Assim, vão descobrindo e eliminando torneiras que pingam. No dia em que o Lula for preso, vai ser surpresa total. Nada vai vazar antes, pode acreditar.

‒ É, Sigismeno, acho que você tem razão. Bobos é que eles não são lá na Lava a Jato. Vão comendo o mingau pelas bordas.

Mandrake e arrego

José Horta Manzano

De criança, a gente não gastava horas diante de video games. Não que faltasse vontade, é que simplesmente essas engenhocas não existiam. Brincadeiras não vinham feitas, exigiam maior criatividade dos participantes. Um exemplo era o Mandrake Licença. Mandrake era personagem de história em quadrinhos, um herói de capa e bastão, que tirava coisas incríveis da cartola.

De repente, um menino se dirigia a outro e ordenava: «Mandrake, licença!» Seguindo a regra da brincadeira, o outro tinha de permanecer imóvel, na posição em que se encontrasse, sem mexer um músculo. Tinha de continuar estático por alguns instantes até que o mandante o liberasse pronunciando «Licença!». Pronto estava acabada a brincadeira. Sem graça? Visto de hoje, é. Mas que a gente se divertia, ah!, a gente se divertia.

mandrake-1E quando a gente brincava de brigar, então? Dois se atracavam, até que um dos dois agarrasse o outro pelo pescoço e lhe aplicasse uma gravata, golpe supremo. Vendo-se vencido, o «engravatado» pedia arrego.

Arrego, tudo indica, é corruptela do castelhano arreglo, palavra que nos chegou mui provavelmente por via do lunfardo falado nas bordas do Rio da Prata. Na língua espanhola, a expressão é mais comum e mais usada que entre nós. Deriva de regla ‒ regra. Arreglar é ajustar, consertar, modificar algo para respeitar a regra. Assim, arreglo corresponde a nosso acerto.

Estive lendo que investigadores da Lava a Jato apresentaram proposta de delação premiada ao clã Odebrecht, o que desencadeou maratona de confabulações entre os que têm algo a contar e respectivos advogados. Segundo a Folha e o Estadão, uma ala de um grande hotel de Brasília foi reservada especialmente para acolher o mundaréu de participantes do conclave.

gravata-1Não sendo especialista em processo penal, muito menos em mecanismos de delação, posso não ter entendido bem. Todavia, dizem os jornalistas que foram os investigadores a apresentar proposta ‒ envelope fechado, parece ‒ já com definição de pena ao acusado principal, o herdeiro do império Odebrecht. Achei esquisito.

Em primeiro lugar, na minha ingenuidade, imaginava que coubesse ao «engravatado» pedir arrego, não ao «engravatador» oferecê-lo. Em segundo lugar, a mesma ingenuidade me levava a crer que tocasse à parte ameaçada tomar a iniciativa.

Acreditava que competia aos acusados procurar os investigadores, dar uma ideia das informações e das provas de que dispõem e comprometer-se a contar tudo, absolutamente tudo. Só após análise dos dados é que a acusação aceitaria (ou não) a proposta de delação. Quanto ao grau de atenuação da pena, é discussão que deveria ficar para mais adiante. O «engravatador» deve manter-se sempre senhor da situação.

Parece que estão trocando os pés pelas mãos. Mas devo ter entendido errado. «Mandrake, licença!»

Plebisul

José Horta Manzano

Nestes tempos de eleições, um plebiscito informal ‒ sem validade legal ‒ está passando em brancas nuvens. De fato, um coletivo de cidadãos formou-se para promover consulta popular no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul com vista a desmembrar os três Estados sulinos do resto do Brasil. Os eleitores foram convocados para este sábado 1° de outubro.

Embora a iniciativa pareça desfocada, merece algumas considerações. Movimentos separatistas sempre existiram no mundo e tudo indica que assim continuará. Para que um divórcio seja viável, é imperativo que exista um problema permanente e insolúvel. Não vislumbro nenhum motivo válido nem irremediável a sustentar o pleito do comitê separatista.

plebisul-2O Brasil, como um todo, vai mal. Disso sabemos todos. Mas sabemos também que há soluções para repor nosso país no bom caminho. Os acontecimentos políticos e sociais dos últimos dois anos, com Lava a Jato & companhia, estão mostrando a via. Embora ainda haja resistência e esperneio de setores interessados em que nada mude, o tempo é senhor do destino: sabemos que as mudanças que estão começando a tomar forma são passos no bom sentido. Portanto, a situação de débâcle que atravessamos não deve nem pode ser considerada definitiva. É grande a esperança de que o amanhã seja melhor.

O planeta está repleto de separações ‒ já consumadas ou apenas desejadas ‒ por razões de absoluta incompatibilidade de coexistência. Motivos religiosos são fonte de fortes atritos: Irlanda, Iraque, Síria, Sudão são exemplos conhecidos. São regiões em que divergências de fé podem levar a enfrentamentos sangrentos. Não é o caso do Sul do Brasil.

Há casos de disparidade linguística. Metade da Ucrânia fala ucraniano, enquanto outra metade fala russo. Uns e outros não se entendem e não fazem questão de conviver sob o mesmo teto. Catalães falam língua própria, diferente do castelhano ‒ língua dominante na Espanha. Em casos assim, muitos advogam a separação como solução. Não é o que acontece no Sul do Brasil. Por lá, todos assistem às mesmas novelas e identificam os diálogos como língua materna, exatamente como ocorre nos demais Estados da União.

plebisul-1Há casos mais cabeludos. A nação curda, unida pela língua, pela religião e pelas tradições, encontra-se espalhada por quatro países. Vicissitudes históricas privaram a nação curda de um Estado. A situação, difícil de resolver, é ponto importante de discórdia entre turcos, sírios, russos e americanos na atual guerra travada naquela região. O «fator curdo» torna a leitura das razões do conflito incompreensível para nós. Nada disso ocorre no Brasil.

Os Estados do extremo sul tanto têm pontos comuns entre si quanto têm parecença com o resto do país. Nem mais, nem menos. Naquelas bandas, faz mais de século que não se ouve falar em províncias oprimidas por um poder central tirânico. Nem mesmo durante a última ditadura isso aconteceu ‒ não foram mais nem menos oprimidos que os demais brasileiros. Aliás, diga-se de passagem que, dos cinco presidentes militares, três eram gaúchos.

Não sei qual é exatamente a intenção do comitê que incentiva esse extravagante movimento separatista. Seja ela qual for, um anseio tão radical não se justifica. Fica a impressão de ser obra de um pequeno grupo que, em vez de baralhar as cartas, melhor faria se contribuísse para o bem comum. Todos temos outras prioridades neste momento. Generosidade é bom.

Prendam o mensageiro

José Horta Manzano

Dizem que o moço é excelente jogador. Embora eu aprecie o esporte que um dia quase se chamou «ludopédio», não sou especialista. Mas o astro há de ser realmente muito bom de bola, visto que está contratado por um dos clubes mais prestigiosos da Europa e que seu passe vale milhões.

Chamada do Estadão, 28 set° 2016

Chamada do Estadão, 28 set° 2016

Saiu a notícia de que está processando o Estado brasileiro. Reclama que o processo por fraude fiscal movido atualmente contra ele sofreu vazamentos indevidos. Pode até ser. Notei, no entanto, uma particularidade. Reparem que o esportista não se atraca com a Justiça, preferindo dirigir sua cólera contra o fato de a informação ter sido dada a conhecer ao grande público. É como quem dissesse: «Não discuto culpabilidade, só não quero que fiquem sabendo.» É compreensível e acho que entendi o porquê.

neymar-2Ninguém, em sã consciência, procura confusão, certo? Isso vale para todos, inclusive ‒ e especialmente ‒ para clubes de futebol. É fácil entender. Jogador problemático periga ver o valor de seu passe desmilinguir. E o salário idem. Elementos indisciplinados, teimosos, difíceis de gerir, orgulhosos, agitadores são descartados. Fraudadores da Receita e gente enrolada com o fisco são também olhados com desconfiança. Qual é o clube que desembolsaria dezenas de milhões de euros para comprar o passe de um indivíduo que amanhã, sabe-se lá, pode até ser despachado para o xilindró?

Atacar-se ao mensageiro para desviar a atenção da mensagem é tática pra lá de difundida no Brasil atual. Mas estes tempos de Lava a Jato têm demonstrado que, por mais rico e famoso que seja o acusado, ninguém está acima da lei comum. Pelo menos, é o que diz a Constituição.

Não ata nem desata

José Horta Manzano

Na Europa, novelas não são muito populares. Geralmente, passam no meio da tarde, hora de baixa audiência. Minisséries, quando aparecem, são exibidas em horário dito «nobre». Assim mesmo, são muito mais curtas do que no Brasil. Dois ou três capítulos e pronto: logo vem o desfecho e vira-se a página. Se durar mais tempo, acaba cansando e, em consequência, os telespectadores vão rareando.

Talvez seja por isso que a interminável novela política que empolga os brasileiros há dois anos ‒ refiro-me a Petrolão, Lava a Jato e impeachment ‒ já não encontra mais grande repercussão por aqui. No começo, falava-se muito. Com o tempo, o Brasil foi reassumindo, na visão do europeu mediano, o tradicional papel de ator coadjuvante na cena internacional. País corrupto, em via de empobrecimento e de baixo poderio bélico tende a permanecer na irrelevância.

apresentacao-1Acontecimentos como o show dado ontem pelo pessoal de Curitiba já não fazem manchetes por aqui. Dado que ninguém entende bem o que está acontecendo na política brasileira, cada um se agarra a suas crenças. Alguns estão convictos de que há uma conspiração de ricos e poderosos contra deserdados impotentes. Outros se esforçam, sem muito sucesso, para entender o que se passa. No cômputo geral, pode-se afirmar que ninguém compreende o que está acontecendo em nosso país.

Pra dizer a verdade, nem nós, que acompanhamos a interminável novela, captamos na íntegra. Acreditam uns que o Lula está a um passo da cadeia. Juram outros que isso jamais acontecerá. Operadores, doleiros, gente de segunda linha é presa e condenada. Já os medalhões continuam acintosamente livres.

Há quem julgue que, por detrás do que anunciam na tevê, os integrantes da força-tarefa que cuida da Lava a Jato ainda têm muitas cartas na manga. Se assim for, que esperam para pôr essas cartas sobre a mesa? Por que razão não abrir o jogo e encerrar a partida?

prison-6Quem deve estar esfregando as mãos são os batalhões de advogados contratados para defender acusados presentes e futuros. No fim das contas, os doutores serão os grandes vencedores ‒ e quanto mais se espicharem os processos, melhor para eles. Quem paga a conta? Ora, que pergunta inadequada, minha gente…

Como dizia minha avó, esse trem não ata nem desata. Tem-se a impressão de dar um passo à frente, outro atrás. Ao fim e ao cabo, apesar da febre midiática que nos envolve, fica a incômoda impressão de que a novela está apenas no começo. Ainda faltam muitos capítulos. Enquanto isso, você e eu, distinto leitor, continuamos a representar o papel de palhaço. E vamos em frente, que a conta é pra nós.

Desleixo

José Horta Manzano

Como todo o mundo, tenho meus princípios. O distinto leitor também terá os seus. Princípio, para mim, é aquela disposição da qual a gente não arreda pé. Se não for assim, não adianta insistir. Não faço.

Um de meus princípios é fazer benfeito o que tiver de ser feito. Pra fazer mais ou menos, de qualquer jeito, empurrando com a barriga, não conte comigo. Prefiro não fazer.

Quando me aparece uma palavra que desconheço, não passo por cima. Vou direto ao dicionário procurar saber o que quer dizer. E não descanso enquanto não encontrar. Falando nisso, hoje em dia, com google e internet, virou moleza. Só não acha quem não procura.

Fiquei sabendo que o procurador Dall’Agnol(*) deu um show hoje. Não assisti, mas li os ecos na mídia. Realmente, o quadro que o homem mandou projetar na tela é impressionante. Observando bem, algo me intrigou.

Chamada de TODOS os jornais, 14 set° 2016

Chamada de TODOS os jornais, 14 set° 2016

Bem em cima, uma bolha traz a inscrição Petrolão + Proinocracia. Petrolão, estamos cansados de saber o que é. Mas… proinicracia que seria? Doutor Houaiss não me respondeu. Procurei no etimológico. Nada. Tentei «proinocracie» no dicionário francês. Rien. Fui até buscar uma suposta «proinocrazia» no italiano. Niente.

Fez-se então a luz. Não é proinocracia, mas propinocracia, neologismo que, apesar de recente, é entendido por todos. Entendi, mas fiquei deveras preocupado. Faz quase dois anos que essa força-tarefa trabalha na elucidação do assunto. Depois de todo esse tempo, finalmente chamam a imprensa para apresentar quadro com erro? Ninguém viu? Ninguém revisou? Ninguém releu? Ninguém verificou? Mandaram ver, com casca e tudo?

Se esse quadro é amostra do trabalho que vêm fazendo, o Lula & companhia bela podem dormir descansados. Desleixado não tem jeito: constrói um tanque de guerra mas sempre deixa uma brecha para um bom advogado enfiar um coquetel Molotov e mandar tudo pelos ares.

Interligne 18h

(*) Nota etimológica
Na Idade Média, o nome próprio Agnello (= carneiro) era comum. A passagem de nome para sobrenome se explica. Assim como nomes portugueses se transformaram em sobrenomes (Fernando/Fernandes, Antônio/Antunes, Vasco/Vasques, Rodrigo/Rodrigues), o mesmo fenômeno ocorreu em italiano. Agnelli, Agnellutti, Agnelotti, Agnellini são nomes de família derivados do prenome Agnello. O sobrenome do doutor Dall’Agnol, entra para a lista. Agnol é forma dialetal vêneta. Dall indica proveniência. Ao pé da letra, Dall’Agnol é «do carneirinho».

Esperavam o quê?

José Horta Manzano

No dia 2 outubro 2009, quando se tornou público que os Jogos Olímpicos de 2016 se realizariam no Brasil, especificamente no Rio de Janeiro, nem vidente com bola de cristal turbinada poderia prever que, anos mais tarde, uma certa operação jurídico-policial lavaria a jato o Brasil.

Naquele momento, nosso país já havia esquecido o mensalão. No auge da glória, nosso guia se preparava para ungir Madame Rousseff como sucessora. A maioria acreditava que a pobreza, as desigualdades sociais, os desmandos, a má govervança, as injustiças estavam para desaparecer em nossas terras.

JO 2016 3Apesar da euforia de um Brasil que já se imaginava emparelhado com as grandes nações, acabou dando tudo errado. Poucos se deram conta de que Copa e Olimpíada não passavam de reboco grosso, daqueles que se aplicam para esconder rachaduras profundas. As mazelas nacionais continuavam latentes. Anestesiadas e subjacentes, mas bem vivas. Com ou sem Lava a Jato, o desastre era previsível.

Está aqui abaixo um florilégio de títulos e chamadas colhidos esta última semana na mídia nacional.

  • Princípio de incêndio atinge prédio da Austrália na Vila Olímpica

  • Atletas da Suécia apontam problemas e deixam Vila Olímpica da Rio 2016

  • Ambulante vende lugar na fila para ‘selfie’ diante de aros olímpicos

  • Esquema de segurança não impede tiroteio no caminho das delegações

  • Atletas japoneses ajudam na limpeza dos apartamentos na vila Olímpica no Rio de Janeiro

  • Paes pede que cariocas fiquem em casa no dia da abertura dos Jogos

  • Delegação chinesa fica presa em tiroteio perto do Complexo da Maré

  • Presidente do Comité Internacional Olímpico diz que a Olimpíada no Rio é teste de estresse

  • Festa de abertura da Rio-2016 recebe, em regime de urgência, 270 milhões de dinheiro público para cobrir rombo

  • Brasil dá início nesta sexta-feira à maior Olimpíada mergulhado no pior da recessão.

Esperavam o quê?

Frase do dia — 308

«Obstrução de Justiça ao tentar evitar delações premiadas contra amigos e contra si, ocultação de patrimônio no caso do sítio e do triplex, suspeita de palestras fictícias para empreiteiras, envolvimento do filho na Zelotes… tudo isso, que já não é pouco, é apenas parte da história. Os investigadores estão comendo o mingau pelas bordas, até chegar ao centro, fervendo.

No centro, podem estar as perigosas relações do Lula com o exterior, particularmente com Portugal, Angola, Cuba e países vizinhos. E o calor vem da suspeita – com a qual a força-tarefa da Lava a Jato trabalha – de que Lula seja o cérebro, o chefe da “organização criminosa”.

No mensalão, ele passou ao largo e José Dirceu aguentou o tranco. No petrolão, pode não ter a mesma sorte – nem escudo.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 31 jul° 2016.

Como na Guerra Fria

José Horta Manzano

Segredo 5Como eu, o distinto leitor há de ter normal e natural dose de recato. Não nos agrada que conversa particular nossa seja acompanhada por estranhos. Na mesma linha, quando falamos ao telefone, procuramos nos afastar um pouco dos circunstantes. Agimos assim por dois motivos: para não perturbar a tranquilidade de quem não tem nada com isso e também para preservar nossa privacidade.

Tudo isso vale pra gente normal. No andar de cima, as coisas funcionam de modo diferente. À medida que a Operação Lava a Jato começou a mostrar que está aí pra valer, um vento de pânico varreu corredores, apartamentos, escritórios e salas de reunião.

A Folha informa que políticos têm alterado hábitos. Em reuniões, ainda que o ar condicionado esteja funcionando, tiram o paletó. É para mostrar que o celular está afastado. Em certas ocasiões, quando os organizadores são particularmente desconfiados, chega-se a exigir dos participantes que abandonem o telefone antes de adentrar o local. Guardado fora do recinto, o aparelhinho só será devolvido após o término do encontro.

Segredo 6A situação evoca o ambiente que reinava na Europa Oriental nos tempos da Guerra Fria. Numa época em que irmão desconfiava de irmão e filho denunciava pai, calcula-se que, de cada três pessoas, uma era informante do regime. Hotéis, escritórios, apartamentos e locais de reunião estavam atulhados de microfones. Para garantir conversa discreta, era preciso marcar encontro ao ar livre, num parque, num bosque. Uma exposição de arte ou o saguão de um grande hotel podiam servir.

Em princípio, tanto na Guerra Fria como hoje, ninguém se preocupa em esconder conversa caseira, ainda que voem insultos. Desde que o volume de voz não chegue a perturbar o sossego de vizinhos, discute-se à vontade.

Segredo 4Costuma-se dizer que quem não deve não teme. Para evitar dissabores, dissidentes romenos, búlgaros e alemães orientais dos anos 60 tinham de esconder suas opiniões, daí as precauções. Se fossem desmascarados, arriscavam mofar nalguma masmorra.

Se políticos brasileiros de alto coturno recorrem hoje aos métodos de meio século atrás ‒ adaptados aos novos tempos ‒, não será por motivo de desavença política. Nossa Constituição garante a cada cidadão o direito de ter e de exprimir opiniões, desde que não entrem em colisão com a lei.

Se assim agem, é por estar atolados em obscuras transações. A Operação Lava a Jato ainda tem belos dias pela frente.

Monsieur Rromerrô Jucá

José Horta Manzano

Em sua estreia nas ondas da radiodifusão estrangeira, o (até ontem) ministro do Planejamento do Brasil fez entrada de vedete internacional. Logo de manhãzinha, Monsieur Rromerrô Jucá foi apresentado ao público francês. Enquanto distraídos ouvintes mastigavam um croissant com dois goles de café, locutores tentaram contar, em duas linhas, a lógica e as peripécias da Opération Lavage Rapide, como é conhecida a Lava a Jato por aqui. Duvido que alguém tenha prestado grande atenção.

Foi dito que o referido monsieur tinha sido destituído. Dificilmente alguém terá entendido por quê. Para ouvidos desatentos, seria como se tivessem informado que um certo senhor Korruptchenko tinha sido flagrado ao cometer algum malfeito na longínqua Ucrânia. Que é que eu tenho com isso?

Expulsao 1De uma coisa, tenho certeza: notícias como essa têm o mérito de reforçar o clichê persistente que mostra nosso país como turbulento, politicamente instável, esburacado pela corrupção, dividido entre duas categorias de cidadãos ‒ uma pequena camada de milionários que flutua sobre um oceano de miseráveis. É triste, mas é assim.

Pouco afeita a eufemismos em voga no Brasil, a mídia europeia diz claro que Monsieur Jucá foi destituído exatamente como Madame Rousseff. Por aqui, não tem essa história de «afastado». Ou é ou deixa de ser. Não dá pra ficar no meio.

Bom, falando agora entre nós, vamos pôr o episódio Jucá na conta dos erros de infância do novo governo. Fez bem o presidente em mandá-lo passear. Pode ser que sua ausência enfraqueça a articulação política, mas sua presença daria a impressão de que o governo novo e o velho são farinha do mesmo saco.

Vamos guardar, pelo menos por enquanto, a esperança de que a nova equipe não seja tão mambembe quanto a anterior.

Pecado original

José Horta Manzano

Os dois principais motivos que levaram o país à débâcle, provocando a destituição da presidente, foram a incapacidade administrativa e a corrupção. Incapazes pareciam ser todos, desde a presidente até o mais apagado aspone. Quanto à corrupção, era muito forte o sentimento de o país estar sendo governado por uma malta de corruptos.

Derrubado o bando aboletado há treze anos no Executivo, chegou a hora de mostrar serviço. O Brasil respira aliviado. O presidente em exercício (ou ex-vice-presidente, como querem alguns) leva jeito de pessoa séria. É discreto e fala uma língua que a gente entende. Formula frases com começo, meio e fim. De cara, inspira confiança.

Desgraçadamente, o ministério que deveria refletir a orientação do governo carrega pesado pecado de origem. Senão, vejamos. Se o governo anterior caiu por incapacidade e por corrupção, havia que cuidar ‒ em primeiríssimo lugar ‒ de afastar toda impressão de incapacidade e de corrupção. Parece lógico, não? Pois não foi assim que senhor Temer entendeu a realidade nacional.

by Michelangelo Buonarroti (1475-1564), artista italiano O pecado original e a queda (Capela Sistina)

by Michelangelo Buonarroti (1475-1564), artista italiano
O pecado original e a queda (Capela Sistina)

Capacidade
Segundo análise de especialistas, o ministério, no essencial, é constituído de elementos capazes. Serra, nas Relações Exteriores, é um achado. Meirelles, Padilha e os demais tampouco fazem feio.

Corrupção
É aí que a coisa pega. A própria OAB, em nota lançada ontem, mostrou-se desagradada com o fato de o primeiro ministério Temer incluir elementos envolvidos com a Lava a Jato. Tem razão, a Ordem. Não precisávamos disso. É pecado capital que podia ter sido evitado. Com tanta gente fina por aí, tinha de escolher justamente investigados ou até acusados? Francamente.

Interligne 18c

Compreendo que senhor Temer tenha procurado afagar grupos e partidos, na esperança de que digam amém às medidas que pretende tomar. Pareceu-lhe arriscado deixar de lado personagens influentes. Assim mesmo, era um risco a correr. Mais teria valido dar, logo de entrada, impressão forte de ter contratado colaboradores capazes e de ficha limpa.

Fidelidade não costuma ser eterna. Infidelidade, tampouco. Quem é que teria imaginado, seis meses atrás, que estaríamos vivendo a situação atual, com Dilma longe, PT em perdição e um Lula derrotado? Temer tem alguns meses pela frente. O risco que ele tentou evitar pode se voltar contra ele feito bumerangue.

Suponha o distinto leitor que o STF decida julgar, de verdade, um dos atuais ministros. Basta unzinho só e o gabinete inteiro estará comprometido e desacreditado, padecendo as consequências da imprudência.

Havia outras maneiras de garantir fidelidade sem deixar um flanco aberto. É complicado lutar contra pecado original.

No topo da Terra ‒2

José Horta Manzano

Mensalão, Lava a Jato, Petrolão, impeachment, é golpe, não é golpe, é traição, não é, é salvação da pátria, voto por minha mãezinha, voto por meu neto que está por nascer, voto pelo bom povo de minha querida cidade, prefiro uma suíte de hotel de luxo, prefiro um sítio em Atibaia, prefiro um pedalinho de lata… Ufa!

Se o distinto leitor está ‒ como eu ‒ exausto de ler, todos os dias, notícias que nada mais são que variações sobre o mesmo tema, tenho uma solução. Dá um pouco de trabalho, mas resolve.

2016-0424-02 IslandPrimeiro, dedique-se, corpo e alma, ao estudo da língua islandesa. Não é fácil, mas também não é nenhum bicho de sete cabeças como chinês ou vietnamita. Uma vez adquirido razoável controle da língua, abandone a mídia brasileira. Essa é a parte mais agradável: é como jogar mágoas na cachoeira.

A partir daí, deleite-se com a mídia islandesa. Crônica policial? Dois acidentes de circulação ocorreram ano passado, causados por motoristas distraídos em conversar ao celular. Fora isso, tudo em ordem, tudo na santa, nada escabroso, nada raivoso, nada nojento.

Aí vem o melhor de tudo: fora uma ou outra (rara) menção ao futebol, nenhuma notícia sobre o Brasil. A mais recente que encontrei foi dada mais de três meses atrás. Conta a história de um casal islandês preso em Fortaleza por se estar preparando para voltar à terra natal carregando oito quilos de cocaína na bagagem.

Islândia 7O artigo não deixa claro como é possível que os dois tenham sido apanhados ainda no hotel, antes de se apresentarem no aeroporto. A polícia, naturalmente, confiscou a droga, os celulares e os 50 reais que encontrou. Nenhum artigo islandês posterior informa se os estrangeiros continuam presos.

Dado que, no Brasil, esse tipo de notícia já não impressiona ninguém, vai ser difícil conhecer o fim da história. Fica como sinfonia inacabada. Cada um que use a imaginação pra dar o fim que lhe parecer mais conveniente.

Enquanto isso, temos de consolar-nos com mensalão, Lava a Jato, petrolão, impeachment, golpe e voto pelo neto que está por nascer.

Impeachment é fichinha

José Horta Manzano

Bandeira St-KittsComo todo cidadão minimamente ligado ao que acontece no país, sinto-me um tanto inflamado pelos acontecimentos políticos destes dias. Esqueça a zika, o verão que não termina. Não se preocupe se o Corinthians ou o Flamengo ganharam ou deixaram de ganhar. Esqueça até o terremoto do Japão, o terremoto dos ‘Panama Papers’, o terremoto da Lava a Jato. Uma indagação domina a cabeça de todos: Dilma fica ou Dilma vai?

Como todo cidadão minimamente ligado ao que acontece no país, estava me preparando para escrever sobre nossa presidente. Afinal, fica ou vai? Já tinha até lido boa parte das manchetes da imprensa internacional. Tinha colecionado os títulos que me pareciam mais significativos. Eis senão quando… dou de cara com uma notícia que, por sua importância, sobrepuja todas as outras. Deixa o resto no chinelo. Resolvi abandonar tudo e relatar a notícia que dominou a semana em São Cristóvão & Névis, simpático Estado situado nas pequenas Antilhas. Não fica longe de lugares de nome evocador como Anguilla, Antigua & Barbuda, Montserrat, Guadalupe.

Vista geral de Basseterre, capital de São Cristóvão e Névis

Vista geral de Basseterre, capital de São Cristóvão e Névis

São Cristóvão e Névis são duas ilhotas vizinhas que se agruparam num só Estado. Integram o Commonwealth britânico, mas mantêm governo independente da matriz europeia. A população do país aproxima-se de 55 mil almas. Basseterre, capital e maior cidade do país, concentra 13 mil habitantes. Desde o tempo em que nosso guia achava que a importância de um país se media pelo número de representações diplomáticas espalhadas pelo planeta, o Itamaraty foi instado a abrir embaixada naquele país. Uma necessidade absoluta, como pode o distinto leitor avaliar.

A embaixada, que tem até embaixador residente, está lá, há alguns anos, a preparar-se para o intenso intercâmbio que virá um dia, é certeza. Na semana que passou, começou a mostrar a que veio. Finalmente, um acordo de cooperação técnica foi assinado entre Brasília e Basseterre. A partir de agora, há facilidade de treinamento dos incontáveis nativos interessados em aprender nossa língua. E vice-versa, naturalmente.

Embaixada do Brasil em Basseterre, S. Cristóvão e Névis

Embaixada do Brasil em Basseterre, S. Cristóvão e Névis

O acordo apresenta suprema vantagem. Segundo nosso embaixador, o Brasil é parceiro estratégico, pois está inserido na mesma região geográfica, portanto combateu problemas semelhantes. Tendo-os já em grande parte resolvido, pode oferecer colaboração eficiente a países como São Cristóvão.

Tudo continua como dantes no quartel de Abrantes. Nosso guia permitiu-se dar lições políticas a seus colegas do G20. Dona Dilma autorizou-se a ensinar economia a Frau Merkel. Agora chegou a vez do paradisíaco resort antilhano de aproveitar de nosso avanço civilizatório. Agora, vai!

Ah, essa soberba que nos tem turvado a visão…

Vitória de Pirro

José Horta Manzano

Você sabia?

Continuo aplaudindo de pé a equipe responsável pela atribuição de nome às diferentes fases da Operação Lava a Jato. Vitória de Pirro… esta de hoje é mesmo de pasmar.

A expressão já era usada pelos romanos há dois milênios. Faz referência a Pirro I (318-272 a.C.), que reinava sobre a região de Épiro, na Grécia antiga. Era época de expansão. A Grécia havia fundado colônias na orla do Mediterrâneo ‒ Itália, França, Norte da África.

O crescente poderio do Império Romano, no entanto, começava a ameaçar a expansão grega. Enfrentamentos militares foram-se tornando inevitáveis.

Rei Pirro I

Rei Pirro I

Rei Pirro I havia estabelecido uma colônia no sul da Itália, chamada Heracleia. A “invasão” irritou os romanos, que decidiram expulsar os forasteiros. Uma batalha foi travada entre os autóctones e as tropas do rei Pirro. O exército grego venceu a batalha, mas suas tropas sofreram danos irreparáveis. A aparente vitória militar acabou revelando-se contraproducente por ter resultado em derrota a longo prazo.

Desde então, toda vitória que se transforma em fracasso costuma ser chamada de «Vitória de Pirro». A história guarda uma alentada lista de batalhas que entram nessa categoria. Feitos não militares às vezes costumam ser batizados com o mesmo epíteto. É justamente o caso da mais recente fase da Lava a Jato.

Desalento

José Horta Manzano

Linguistas divergem sobre a origem da palavra desalento (des + alento). Boa parte acredita que venha da mesma raíz que o verbo latino halare, que significa expirar, soltar o ar dos pulmões. Faz sentido. Um dos sinais característicos do indivíduo desalentado e desesperançado é o suspiro.

A crer nos resultados da pesquisa que o Instituto Paraná Pesquisas acaba de publicar sobre a Operação Lava a Jato, o brasileiro dá sinais fortes de desalento. Indagados sobre como imaginam o futuro da corrupção no Brasil depois da Lava a Jato, nossos concidadãos deram resposta nada otimista.

Pesquisa 6

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Dos entrevistados, mais de 61% acreditam que, terminado o jateamento, a corrupção vai continuar como está ou vai até aumentar. Arredondando os números, de cada três conterrâneos, apenas um acha que esse festival de obscenidades vai dar trégua. Os outros dois não botam fé na regeneração do panorama político.

Desalento 1A constatação é ‒ sem trocadilhos ‒ desalentadora. Como é que ficam aquelas pesquisas que classificam os brasileiros entre os mais otimistas do planeta? Há flagrante contradição aí.

Otimismo por um lado, desalento por outro. Para conciliar as duas afirmações, só enxergo uma tenebrosa hipótese: os brasileiros são felizes e otimistas independentemente de viverem mergulhados num universo de corruptos. Em outras palavras, a corrupção onipresente não incomoda. Será isso?

Frase do dia — 291

«A visita de Dilma ao antecessor em solidariedade por sua condução coercitiva pela força-tarefa da Lava a Jato não deixa dúvidas de que a chefe do governo apoia o líder dos investigados na operação policial. E não os investigadores.»

José Nêumanne Pinto, escritor e jornalista, em artigo publicado no Estadão de 9 mar 2016.

A jararaca

Eliane Cantanhêde (*)

Lula caricatura 2Se o Instituto Lula recebeu R$ 20 milhões das empreiteiras da Lava a Jato e se o ex-presidente Lula ganhou R$ 10 milhões dessas mesmas empreiteiras por palestras, por que raios ele não comprou o sítio de Atibaia por R$ 1,5 milhão e reformou as áreas internas e a piscina por R$ 700 mil para desfrutar dele 111 vezes, guardar as 200 caixas do Alvorada, levar o barquinho da família e os pedalinhos dos netos?

E por que Lula não deu para Marisa Letícia o triplex do Guarujá, instalou aquele elevador chique, mobiliou a cozinha e os quartos, tudo de primeira? Dinheiro ele tinha, de sobra. Como diria o jornalista Carlos Marchi, ainda sobrariam uns bons trocados. Aliás, o que Lula fez com os R$ 10 milhões, mais o salário de oito anos de presidência, com cama, comida, roupa lavada e uísque de graça? Gastar com os filhos não foi, porque os meninos estão muito bem, obrigada.

De duas, uma: ou Lula é patologicamente pão-duro, desses que escondem o dinheiro debaixo do colchão para os amigos pagarem até o cafezinho, ou… a questão é de outra natureza: política. Apesar de milionário, ele precisava do mito do menino pobre de Garanhuns, que não tinha o que comer, perdeu um dedo nas fábricas e virou o eterno pobre dos pobres, que veio ao mundo salvar os desvalidos como ele próprio.

Lula caricatura 2aSó assim, mantendo a mítica do grande líder, do pastor de almas, do salvador da Pátria, Lula teria, mesmo acuado e ferido, poder para jogar milhares de ovelhas (ou feras) para confrontos de rua contra adversários, imprensa e o algoz Sérgio Moro, um juiz a serviço dos ricos e poderosos – ah, e do PSDB!

É assim que, aos 70 anos, Lula encarna até hoje o líder juvenil que incendiou os metalúrgicos paulistas, depois os sindicalistas de outros setores e por fim os intelectuais do País inteiro. Não pode se dar ao luxo de comprar com o próprio dinheiro um sítio, um triplex. Senão, como vai olhar a massa olho no olho, falar de igual para igual, jogar os pobres contra os ricos?

(…)

(*) Eliane Cantenhêde é jornalista. O texto é excerto de artigo publicado no Estadão de 6 mar 2016.

Vem cá, baixinho!

José Horta Manzano

Lula a la català

Lula a la català

Não é a primeira vez, mas vale a pena voltar ao assunto. Razão dá-se a quem tem. Renovo meus parabéns à equipe encarregada de dar nome às operações de busca e apreensão da Polícia Federal. Dão mostra de imaginação fecunda e de saber abrangente ‒ artigo raro no Brasil atual.

Aletheia é o nome da 24ª fase da Operação Lava a Jato, que acaba de ser deflagrada. A palavra vem do grego αλήθεια, que se deve pronunciar alíthia, com acento tônico no . O th soa como no inglês think.

Lula alla romana

Lula alla romana

A operação poderia ter sido chamada “Vem cá, baixinho” ou “Apanhei-te, pilantra”. Preferiram Aletheia. Ponto pra eles.

Na linguagem de todos os dias, aletheia significa verdade. O conceito foi tomado emprestado pela filosofia, de modo especial por Martin Heidegger, pensador alemão que viveu de 1889 a 1976. A psicologia também costuma recorrer a essa palavra.

Mandado de detenção contra o ex-presidente Lula Chamada de La Libre Belgique, jornal belga de referência - 4 mar 2016

Mandado de detenção contra o ex-presidente Lula
Chamada de La Libre Belgique, jornal belga de referência – 4 mar 2016

Em 1889, Dom Pedro II foi destituído por golpe militar. Detido, foi despachado para a Europa no primeiro navio. Não teve de passar pelo vexame de enfrentar interrogatório policial.

Em 1930, Washington Luís Pereira de Souza foi destituído por golpe liderado por Getúlio Vargas. Detido, foi despachado para os Estados Unidos. Não teve de passar pelo vexame de enfrentar interrogatório policial.

Lula a la plancha

Lula a la plancha

O fato de nosso guia, presidente emérito do Brasil, ser levado coercitivamente (= à força) para enfrentar interrogatório policial é acontecimento nunca antes visto na história dessepaiz.

Há momentos em que a História se acelera. Estamos vivendo um deles.