Cartilha da Ética

José Horta Manzano

Soube-se esta semana que o advogado que defende os interesses do Lula, de Palocci e de Mantega na Lava a Jato está prestes a abandonar os clientes. Cada um abraça a cartilha ética que lhe parece mais próxima das convicções íntimas, assim é a vida. O causídico não sentiu embaraço ao aceitar assumir a defesa do trio. Agora, a coisa se complica.

Tudo indica que Palocci está disposto a abrir o bico e firmar acordo de delação premiada. Se assim for, o que é que o antigo ministro pode revelar? Ora, a turma da Lava a Jato já tomou depoimento de dezenas de subs, vices e outros personagens secundários. As únicas informações de peso que podem assegurar algum benefício de leniência a senhor Palocci se referem a… quem estava acima dele, a quem dava as ordens e coordenava o funcionamento da máquina. Em termos crus: nosso guia periga ser a figura central da delação. Se não for assim, dificilmente os procuradores de Curitiba assinarão o acordo.

Nenhum advogado pode assumir a defesa de um de seus clientes que esteja sendo atacado por outro de seus clientes. A situação é insustentável. Para defender o cliente A, o causídico teria de se valer de informações que lhe foram confiadas pelo cliente B. Nessas alturas, como fica o segredo profissional? Simplesmente não dá.

Quando fiquei sabendo do nome do advogado do trio, uma luzinha longínqua se acendeu. Não me soou estranho. Fui cavoucar e descobri: trata-se do mesmo que, doze anos atrás, assegurou a defesa de Paulo Salim Maluf. Os mais antigos devem se lembrar que o ex-prefeito de São Paulo passou 40 dias preso, junto com o filho, em 2005. Saiu da cadeia por mérito de um habeas corpus impetrado pelo advogado que hoje defende o Lula.

Na época, correu um zum-zum-zum. Houve quem desconfiasse de conluio nas altas esferas para beneficiar Maluf, medalhão cujo nome figura até hoje na lista de procurados pela Interpol. Naquela altura, o povo ainda andava meio apático. Fosse hoje, dificilmente o STF permitiria a soltura do figurão. É, a coisa anda feia pro lado da bandidagem, gente! Cruz-credo!

Quase doze anos atrás
Em artigo publicado no Globo em 21 out° 2005, o jornalista Ricardo Noblat comentava a soltura de Maluf nestes termos:

«Não, meus caros, definitivamente todos não são iguais perante a lei. Não no Brasil, onde o Estado é um anti-Estado. Existe para proteger e beneficiar os que podem mais e, aqui e ali, faz alguma coisa pelos que valem menos.

Carlos Velloso (STF) & José Roberto Batochio (advogado) em 2005
foto: Dida Sampaio

A foto acima é quase um resumo de nossa história de iniqüidades. À esquerda, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Carlos Velloso, relator da ação que tirou da cadeia Paulo Maluf e o filho; à direita, José Roberto Batochio(*), ex-presidente nacional da OAB e advogado dos Maluf.»

(*) Doutor Batochio (deturpação do sobrenome veneto Battocchio) é o advogado do trio Lula, Palocci e Mantega.

Alarme falso

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

‒ Você viu que o Lula quase foi preso hoje?

Era meu velho amigo Sigismeno. Fazia tempo que a gente não se encontrava. Como de costume, ele não disfarçava certa malícia, perceptível lá no fundo dos olhos.

‒ Quase preso, é, Sigismeno?

‒ Pois é. Parece que ontem um desses chamados blogues sujos preveniu que o homem perigava ser preso nesta segunda de manhã. Vai daí, as redes sociais propagaram a boa-nova e verdadeira multidão acorreu às portas do triplex ‒ perdão, do duplex! ‒ pra assistir ao espetáculo.

‒ Foi muita gente, é?

‒ Ih, nem fale. Tinha mais de 20 pessoas.

Chamada do Estadão de 17 out° 2016 monstrando a "multidão" que acorreu para prestigiar o Lula

Chamada do Estadão de 17 out° 2016 monstrando a “multidão” que acorreu para prestigiar o Lula

‒ E, afinal, o moço foi preso ou não?

‒ Qual nada! Continua à espera do japonês da Federal.

‒ Ué, então por que é que esse tal de «blogue sujo» inventou a história? Falando nisso, que quer dizer «blogue sujo», Sigismeno?

‒ Bom, blogue sujo é expressão que se usa hoje em dia pra designar blogues que se supõe sejam custeados pelo erário, em outras palavras, com nosso dinheiro, o seu e o meu.

‒ Nossa, eu nem imaginava que existisse uma coisa dessas. Quer dizer que é mesmo verdade que esse povo se sustentou lá em cima à custa de nosso dinheiro?

‒ Pois é. Dizem que nosso dinheiro foi parar onde não devia. Mas deixa responder à sua outra pergunta.

‒ Ah, é mesmo, Sigismeno. Por que é que inventaram a história? Só pra botar o Lula nas manchetes?

‒ Não, não acredito. Se, além de ser sujo, um blogue começar a divulgar notícias falsas, aí fica desacreditado de vez. A razão é outra.

‒ Você não tem emenda, Sigismeno, sempre misterioso… Conta logo, vá.

‒ É simples. Você tem visto que, antes de cada nova fase da Lava a Jato, algum vazamento acontece. Aquela do Mantega, por exemplo, que decidiu levar a esposa no meio da madrugada para uma endoscopia. E foi de boné para esconder o rosto. Ficou evidente que alguém tinha avisado, né?

‒ É, eu me lembro. O vazamento tirou o impacto da operação e quase botou tudo a perder. Como será que vazou?

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

‒ Pois é exatamente esse o ponto. Os procuradores não tinham a menor intenção de mandar prender o Lula nesta segunda. Mas espalharam a notícia a algum setor do grupo do qual desconfiavam particularmente.

‒ E daí?

‒ Vai daí, deu certo, caro amigo! O(s) elemento(s) infiltrado(s) fazem parte do grupo que tinha sido avisado sobre a captura do Lula. A partir de agora, o cerco vai-se fechando. Já sabem onde é que tem torneira pingando.

‒ É, a manobra foi esperta. E como você acha que vão proceder daqui para a frente?

‒ Acredito que ainda vai haver outros alarmes falsos para testar outros setores e outros departamentos. Assim, vão descobrindo e eliminando torneiras que pingam. No dia em que o Lula for preso, vai ser surpresa total. Nada vai vazar antes, pode acreditar.

‒ É, Sigismeno, acho que você tem razão. Bobos é que eles não são lá na Lava a Jato. Vão comendo o mingau pelas bordas.

Fim de reino

José Horta Manzano

Por mais autoritária que seja – ou que goste de parecer –, dona Dilma não controla nem seus próprios ministros. O fato ficou evidente estes dias. Um aqui, outro ali, quinze deles deram demissão. Ou, como se diz mais diplomaticamente, «puseram seu cargo à disposição».

Dona Marta, que não perde ocasião para sobressair, demitiu-se de forma teatral. Teve o topete de criticar publicamente a política econômica da presidente. Relaxemos e gozemos, irmãos!

Reunião ministerial

Dos 39 ministros, mais da metade continua dando uma de joão sem braço, como se o fim do primeiro mandato da presidente não lhes dissesse respeito. E pensar que, quando digo que a equipe governamental se tornou um verdadeiro balaio de caranguejos, tem gente que me chama de exagerado…

A maior parte da culpa por essa desordem repousa sobre os ombros da própria presidente. Há ritos que devem ser instituídos e cumpridos. Se, numa empresa, há reuniões periódicas de gerentes e diretores, por que seria diferente no governo do País?

Nem que fosse pra inglês ver, dona Dilma deveria estabelecer uma reunião – mensal, digamos – com presença obrigatória de todos os ministros. Cada participante teria direito a 5 minutos, durante os quais exporia o que fez desde a última reunião e o que pretende fazer no próximo mês. Em três horas, a agenda estaria liquidada e os ministros sentiriam que fazem parte de uma equipe. A ausência desse rito resulta em dispersão, cada um agindo por conta própria e fazendo o que bem entende. Quem perde é o País.

Demissão coletiva
Manda a decência que decisões de grosso calibre sejam tomadas de forma concertada. A demissão deveria ter sido apresentada conjuntamente por todos os ministros. Teria sido a maneira mais civilizada de proceder. Não tendo sido respeitada essa regra de compostura, caberia à presidente tomar a iniciativa de pôr todos de aviso prévio. A mandatária fez isso somente com o ministro da Fazenda, numa decisão humilhante para o atingido. Os outros continuam olhando para o lado, como se não tivessem nada que ver com o peixe.

Reuniao trabalho 1Resumo da ópera
A presidente não soube organizar o trabalho ministerial. Em consequência, seus assessores nunca se deram conta de que formavam uma equipe. O final melancólico está aí: cada um age à sua guisa. Uns saem humilhados, outros saem humilhando.

A presidente colhe o que plantou.

Frase do dia — 88

«O mau humor com Dilma hoje é tamanho que, durante sua fala, o dólar chegou a bater nos R$ 2,42. Logo depois, quando começaram em Davos os boatos de que Guido Mantega não mais ficaria no cargo, o real voltou a se valorizar.»

Sonia Racy comentando o discurso pronunciado por dona Dilma em Davos. In Estadão, 25 jan° 2014.

Lapsus linguae

José Horta Manzano

Recorre-se à erudita expressão lapsus linguæ para descrever um erro cometido por distração, ao falar. Estudos psicanalíticos descrevem o fenômeno como expressão involuntária de pensamentos reprimidos. Seja como for, é aquela palavra «que saiu assim». O sujeito nem estava pensando naquilo, mas, quando se deu conta, já tinha dito. Às vezes, chega ao fim da fala sem se dar conta do lapso.

O senhor Mantega, ministro da Fazenda, concedeu entrevista ao Estadão. Não ficou claro se os jornalistas pediram ao ministro que os atendesse ou se terão sido convocados. A segunda hipótese me parece mais plausível, mas, no fundo, pouco importa.

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

by Marco Jacobsen, desenhista paulista

Estes últimos anos, a sem-cerimônia com que autoridades brasileiras vêm manejando as contas do Estado tem deixado inquieto o planeta financeiro. Estamos nos aproximando demasiado das artimanhas de que se valem nossos hermanos transplatinos para melhorar a aparência de suas descarnadas finanças. Os que comandam os grandes fluxos mundiais do capital não apreciam particularmente essas excentricidades.

Ao operar com dinheiro dos outros, gestores pouco escrupulosos não raro se aventuram em negócios nebulosos. As estrepolias eleitoreiras praticadas pelo governo brasileiro com nossos impostos estão aí para provar o que digo. Por outro lado, administradores zelosos ― e isso existe, acreditem! ― evitam traquinar com dinheiro alheio. Eis por que o mundo anda meio desconfiado com as manipulações contábeis que têm caracterizado o Estado tupiniquim ultimamente.

Sentindo que a credibilidade do Brasil anda se esgarçando e que a água já está batendo no tornozelo, nosso prezado ministro foi instruído a subir ao patíbulo e bater seu mea-culpa em público. Não o fez num palanque, que isso não é assunto para militantes embandeirados nem para multidões atraídas por um boca-livre. Suas declarações foram dadas ao jornal mais respeitado do País.

Disse o que todos esperavam que dissesse. Falou do mais e do menos, deu voltas, girou em torno do assunto. O mais importante ― mais que isso: a razão da entrevista ― foi tranquilizar o mercado com a garantia de que o governo de dona Dilma não mais recorrerá a nenhuma operação «que não pareça correta».

Era o que todos queriam ouvir. Invertendo os termos de conhecida máxima, digo que «à mulher de César, não basta parecer honesta, tem de ser honesta». Ou, como dizem os franceses, de boas intenções, o cemitério está cheio. O próprio Signor Mantega, de origem genovesa, talvez já tenha ouvido o sábio ditado italiano: «tra il dire e il fare, c‘è di mezzo il mare», entre o dizer e o fazer, há um oceano no meio.

Contra bravatas provenientes da alta cúpula brasileira, o mundo já está vacinado. As boas palavras terão de se traduzir por atos concretos, sob pena de não serem levadas em conta.

by Regi, do Amazonas em Tempo

by Regi, desenhista do Amazonas em Tempo

Lapsus linguae
O governo atual tem certeza de que a presidente será reeleita. A prova está num estranho plural que escapou no meio do pronunciamento do ministro. Todos sabem que falta um aninho só para o término do mandato da atual presidente. Daqui a dez meses haverá eleições que tanto lhe podem ser favoráveis como decepcionantes. Caso ela não consiga ser reeleita, é impensável que o ministro Mantega continue ocupando seu posto no novo governo, não é assim?

Pois reparem bem na frase pronunciada pelo ministro: «A ordem neste ano e nos próximos é que uma transação deve também parecer correta.». Ele não disse no próximo, mas nos próximos. É sinal evidente de que, para o Planalto, a vitória nas eleições do ano que vem são favas contadas.

Tomai cuidado, incautos futurólogos! Nada é garantido. Irônico, o destino às vezes prega peças em gente presunçosa. Pode dar uma uruca danada.