Gravata

José Horta Manzano

Não terá escapado a ninguém o fato de Luiz Inácio da Silva não se ter apresentado ao juiz Moro vestindo camisa vermelha. Diferentemente do figurino habitual com que se paramenta quando fala ao povão, o antigo presidente compareceu engravatado e trajando terno escuro. Coisa fina mas um tanto inútil, dado que o hábito não costuma fazer o monge. Roupa chique não consegue apagar o bem feito nem o mal cometido.

Curitiba, 10 maio 2017

Observei a gravata que ornava o colarinho de nosso guia. Pareceu-me familiar. Onde é mesmo que eu já tinha visto o adereço? Ah, matei! Foi em outubro de 2009, numa cerimônia em Copenhagen (Dinamarca). Naquele dia, diante de uma plateia entusiástica, o presidente do Comitê Olímpico Internacional tirava do chapéu o papelzinho com o nome do Rio de Janeiro. Estava designada a cidade-sede dos Jogos Olímpicos de 2016. As porteiras estavam abertas para o programado estouro da boiada.

Copenhagen, out° 2009
Por que estarão todos tão eufóricos? Será a gravata?

A populosa delegação brasileira, encabeçada pelo Lula, incluía o notório Sérgio Cabral, Eduardo Paes, Carlos Arthur Nuzman, João Havelange, Henrique Meirelles, o Pelé, esportistas, figurões, jornalistas. Uma particularidade: usavam todos gravata igual ‒ uma boniteza. Listrada de verde, amarelo e azul, ela fazia alusão às cores nacionais. Nosso guia há de ter-se encantado com ela, tanto que desde então, em ocasiões que lhe parecem solenes, costuma trazê-la em volta do colarinho. Eu imagino que, após oito anos de uso, já há de estar meio puída. Combina com o personagem.(*)

Copenhagen, out° 2009

Nota etimológica
Não se sabe quem terá sido o primeiro a ter a ideia. O fato é que, desde a Antiguidade, certas corporações costumam enrolar uma fita ou um pedaço de tecido no pescoço como sinal distintivo.

Copenhagen, out° 2009

Na sua forma moderna, a generalização da gravata como adereço masculino usual e até obrigatório é atribuída ao uniforme usado pelos soldados croatas contratados por Luís 13, rei da França, na década de 1630. O exército francês, considerando que a moda era elegante, acabou adotando o adereço. E deu-lhe o nome de cravate, adaptação da palavra «hrvat», que designa o cidadão croata.

A partir do francês, o termo passou a outras línguas europeias: Krawatte (alemão), corbata (espanhol), cravatta (italiano), kravat (turco). Entre nós, virou gravata. Nova ou puída, tanto faz.

(*) Em Curitiba, quem usa gravata vermelha é justamente… o juiz. Reparem.

“Uma mulher desagradável”

José Paulo Cavalcanti Filho (*)

Calma, leitor amigo. Como dizia Chopin: “não me compreenda tão depressa”. Já dava para suspeitar que se trata de Dilma. Só que a frase do título não é minha, tanto que está entre aspas. É de Pedro Passos Coelho, ex-primeiro-ministro de Portugal. Está no novo livro de José António Saraiva ‒ Eu e os Políticos – lançado no último fim de semana em Portugal e já esgotado.

Saraiva, por quase 30 anos diretor do Expresso, o mais importante semanário de Lisboa, aproveitou a intimidade com políticos importantes da terrinha para entregar amantes, desafetos e indiscrições. Sonho com algo assim no Brasil de hoje. Iria ser divertido.

Dilma e Pedro Passos Coelho

Dilma e Pedro Passos Coelho

Ao ver esse livro nas vitrines, lembrei curiosa historinha que se conta no interior de Pernambuco. Fala de um poeta popular que escreveu cordel com título Os Canalhas de Gravata. E não vendeu nada. Foi quando um espertinho comprou toda a edição e pôs, com caneta, um acento no último “a”. Passou a ser Os Canalhas de Gravatá.  Vendeu tudo. Rápido. Na feira de Gravatá, claro. Afinal, todos temos curiosidade em saber os podres dos outros, sobretudo políticos. É algo universal.

Voltando ao livro de Saraiva, no capítulo dedicado ao antigo primeiro-ministro Passos Coelho, consta que, para ele, Dilma é «mulher presunçosa, arrogante, desagradável, roçando a má educação». Em seguida, refere gafes que ela cometeu por lá.

Como a que se deu na reunião ibero-americana de Cádiz (Espanha) em novembro de 2012, quando Dilma passou horas conversando com o presidente de Portugal, Cavaco Silva, em espanhol(!). Comenta Passos Coelho: «Como se não soubesse quem ele era. Cavaco estava estupefato, sem saber o que fazer: Dilma era presidente do Brasil havia dois anos e não o conhecia?».

Noutra ocasião, Dilma comunicou que visitaria oficialmente o país em 10 de junho (de 2013). E não, como se poderia esperar, para se juntar às comemorações do Dia de Portugal. Qualquer diplomata em princípio de carreira sabe que qualquer outro dia, em função das festas, seria melhor que aquele. É como se alguma autoridade estrangeira quisesse reunir-se com o presidente do Brasil em 7 de setembro na hora do desfile. Um vexame. Tiveram de arrumar, de última hora, helicópteros para recebê-la. Passos Coelho diz, em tom de galhofa: «Inventamos uma cimeira que não existiu, pois ela não vinha preparada para isso».

Pedro Passos Coelho e Dilma

Pedro Passos Coelho e Dilma

Fosse pouco, assim que saiu do avião, Dilma decidiu reunir-se com membros do PS, partido que fazia dura oposição ao governo. O que equivaleria, por aqui, a visitar Lula ou Rui Falcão antes de reunir-se com Temer. O governo luso ficou arreliadíssimo. Enquanto Dilma, nem aí. E aproveitou para degustar, logo depois, um bom bacalhau no restaurante Eleven. Feliz.

Também, amigo leitor, tendo Marco Aurélio «top-top» Garcia como assessor diplomático, ia querer o quê?

(*) O recifense José Paulo Cavalcanti F° (1948-) é advogado. Foi ministro da Justiça durante a presidência Sarney. É membro da Academia Pernambucana de Letras.

Mandrake e arrego

José Horta Manzano

De criança, a gente não gastava horas diante de video games. Não que faltasse vontade, é que simplesmente essas engenhocas não existiam. Brincadeiras não vinham feitas, exigiam maior criatividade dos participantes. Um exemplo era o Mandrake Licença. Mandrake era personagem de história em quadrinhos, um herói de capa e bastão, que tirava coisas incríveis da cartola.

De repente, um menino se dirigia a outro e ordenava: «Mandrake, licença!» Seguindo a regra da brincadeira, o outro tinha de permanecer imóvel, na posição em que se encontrasse, sem mexer um músculo. Tinha de continuar estático por alguns instantes até que o mandante o liberasse pronunciando «Licença!». Pronto estava acabada a brincadeira. Sem graça? Visto de hoje, é. Mas que a gente se divertia, ah!, a gente se divertia.

mandrake-1E quando a gente brincava de brigar, então? Dois se atracavam, até que um dos dois agarrasse o outro pelo pescoço e lhe aplicasse uma gravata, golpe supremo. Vendo-se vencido, o «engravatado» pedia arrego.

Arrego, tudo indica, é corruptela do castelhano arreglo, palavra que nos chegou mui provavelmente por via do lunfardo falado nas bordas do Rio da Prata. Na língua espanhola, a expressão é mais comum e mais usada que entre nós. Deriva de regla ‒ regra. Arreglar é ajustar, consertar, modificar algo para respeitar a regra. Assim, arreglo corresponde a nosso acerto.

Estive lendo que investigadores da Lava a Jato apresentaram proposta de delação premiada ao clã Odebrecht, o que desencadeou maratona de confabulações entre os que têm algo a contar e respectivos advogados. Segundo a Folha e o Estadão, uma ala de um grande hotel de Brasília foi reservada especialmente para acolher o mundaréu de participantes do conclave.

gravata-1Não sendo especialista em processo penal, muito menos em mecanismos de delação, posso não ter entendido bem. Todavia, dizem os jornalistas que foram os investigadores a apresentar proposta ‒ envelope fechado, parece ‒ já com definição de pena ao acusado principal, o herdeiro do império Odebrecht. Achei esquisito.

Em primeiro lugar, na minha ingenuidade, imaginava que coubesse ao «engravatado» pedir arrego, não ao «engravatador» oferecê-lo. Em segundo lugar, a mesma ingenuidade me levava a crer que tocasse à parte ameaçada tomar a iniciativa.

Acreditava que competia aos acusados procurar os investigadores, dar uma ideia das informações e das provas de que dispõem e comprometer-se a contar tudo, absolutamente tudo. Só após análise dos dados é que a acusação aceitaria (ou não) a proposta de delação. Quanto ao grau de atenuação da pena, é discussão que deveria ficar para mais adiante. O «engravatador» deve manter-se sempre senhor da situação.

Parece que estão trocando os pés pelas mãos. Mas devo ter entendido errado. «Mandrake, licença!»