La vindicte populaire

José Horta Manzano

Os franceses, que têm palavra e expressão pra tudo, dizem vindicte populaire. O termo vindicte é especializado e só costuma ser usado nessa locução. A tradução mais próxima é justiçamento popular ou simplesmente justiçamento, entendido como forma violenta e atabalhoada de exercer justiça. Oposto à justiça oficial, que respeita regras e rituais gravados na pedra da lei, o justiçamento popular é desordenado, atropelado, desobrigado de toda sujeição ao ordenamento legal.

Hoje em dia, sinais herdados desse modo ancestral de julgar e condenar ainda são encontrados em países atrasados. Em determinados Estados petroleiros do Oriente Médio, por exemplo, cabe à família do ofendido conceder (ou não) o perdão ao condenado. Afora isso, só zonas em conflito costumam recorrer a julgamentos tumultuados e sumários que conduzem, com frequência, a linchamento.

Linchamento simbólico está ocorrendo no Brasil estes dias. Refiro-me ao caso Neymar. O Instituto Paraná, respeitada instituição de pesquisa de opinião pública, divulgou consulta saída do forno. Perguntou-se a mais de duas mil pessoas, residentes em 180 municípios espalhados pelo território nacional, se achavam que o astro do futebol é culpado ou não da acusação de estupro. Maioria de quase dois terços absolveu o moço. Por via de consequência, a vítima foi condenada em rito sumário. Tem mais. Se o rapaz é inocente, deduz-se que a garota está mentindo e deverá ser processada por calúnia e por denúncia de crime inexistente.

O poder que têm as pesquisas de opinião de influenciar o povo é imenso. Brilhante exemplo se viu nas últimas eleições, em que doutor Bolsonaro navegou na crista das sondagens e acabou eleito. Não tivessem sido publicadas pesquisas, o resultado do primeiro turno poderia ter sido bem diferente, deixando chance a outros candidatos talvez mais qualificados para o cargo.

Que se façam pesquisas sobre candidatos a eleição é aceitável. No campo judiciário, são outros quinhentos. Dado seu tremendo poder de influência, não me parece justo nem aceitável publicar sondagens sobre casos correntes ainda não julgados. O discernimento dos juízes profissionais a quem cabe decidir pode até se alterar. No presente caso, com a publicação dessa pesquisa, o julgamento já está irremediavelmente prejudicado.

O Instituto Paraná não informa quem encomendou a pesquisa sobre o caso Neymar. É permitido suspeitar que o mandante tenha sido o próprio futebolista. Seja como for, não é boa coisa fazer pesquisas desse tipo. Se o código de ética dos institutos de pesquisa não é forte o bastante para coibir essa prática, acredito que o legislador deveria cuidar do assunto. Não faz sentido insuflar a vindicte populaire num Estado de direito dotado de tribunais profissionais.

Desalento

José Horta Manzano

Linguistas divergem sobre a origem da palavra desalento (des + alento). Boa parte acredita que venha da mesma raíz que o verbo latino halare, que significa expirar, soltar o ar dos pulmões. Faz sentido. Um dos sinais característicos do indivíduo desalentado e desesperançado é o suspiro.

A crer nos resultados da pesquisa que o Instituto Paraná Pesquisas acaba de publicar sobre a Operação Lava a Jato, o brasileiro dá sinais fortes de desalento. Indagados sobre como imaginam o futuro da corrupção no Brasil depois da Lava a Jato, nossos concidadãos deram resposta nada otimista.

Pesquisa 6

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Dos entrevistados, mais de 61% acreditam que, terminado o jateamento, a corrupção vai continuar como está ou vai até aumentar. Arredondando os números, de cada três conterrâneos, apenas um acha que esse festival de obscenidades vai dar trégua. Os outros dois não botam fé na regeneração do panorama político.

Desalento 1A constatação é ‒ sem trocadilhos ‒ desalentadora. Como é que ficam aquelas pesquisas que classificam os brasileiros entre os mais otimistas do planeta? Há flagrante contradição aí.

Otimismo por um lado, desalento por outro. Para conciliar as duas afirmações, só enxergo uma tenebrosa hipótese: os brasileiros são felizes e otimistas independentemente de viverem mergulhados num universo de corruptos. Em outras palavras, a corrupção onipresente não incomoda. Será isso?