Exame para presidente

José Horta Manzano

Quando a gente escreve muito, não tem jeito, acaba se repetindo. Bom, tem uma coisa. Pra todo observador do mundo, há uma justificativa: escândalos, enormidades e bizarrices se repetem. Não passa um dia sem alguém voltar a dizer a mesma besteira, cometer a mesma asneira, tropeçar na mesma pedra. Assim é, não há como mudar. Vamos agora ao que interessa.

Será que o distinto leitor confiaria sua saúde aos cuidados de um indivíduo não formado, que não tivesse, pendurado na parede do consultório, diploma de habilitação para a profissão? Contrataria para defendê-lo no tribunal, numa causa cabeluda, um sujeito que não tivesse concluído uma faculdade de direito? Deixaria alguém que não tivesse cursado engenharia ou arquitetura construir seu sobrado? A resposta a todas essas perguntas é, sem dúvida, um sonoro não.

Pra dirigir um simples automóvel, a lei exige do condutor que tenha tido sucesso no exame de habilitação. Enfermeiro tem de ter estudo e diploma. Até para funções mais simples como faxineiro, vigia e operador de empilhadeira, exigem-se experiência anterior e referências.

Agora reflita um instante e diga-me se não é uma irresponsabilidade confiar o cargo mais importante do país – a Presidência da República – a alguém que não estudou para isso nem deu prova de estar preparado pra exercer o cargo. Em linguagem imaginária, pode-se dizer que essa pessoa vai dirigir o Brasil sem ter carteira de habilitação. Que vai cuidar dos males do país sem ter conhecimentos médicos. Que vai construir o futuro da nação sem a menor noção de engenharia. É loucura ou não é?

A meu ver, o voto de sei lá quantos milhões de eleitores não basta. Pra complicar, o voto no Brasil é obrigatório, fato que arranha a legitimidade do pleito. Quantos votaram por convicção e quantos compareceram unicamente pra não levar multa? Ninguém sabe. Seja como for, não são três ou quatro debates mambembes e engessados que permitem conhecer profundamente cada candidato.

Acredito que a Constituição deveria aumentar as exigências para os candidatos a presidente. Ser brasileiro nato e ter 35 anos é muito pouco. Tinham de enfrentar um exame, exatamente como qualquer brasileiro que pleiteia um emprego ou um diploma. Exame escrito e oral. Teriam de demonstrar que, além de serem alfabetizados, têm conhecimento básico de como funcionam as instituições, de como o Brasil se posiciona em meio às demais nações. Tinham de mostrar noções básicas de Geografia e História. Não me refiro a detalhes pontudos, falo de noções básicas.

Uma prova teria de ser exigida também de candidatos a outros cargos eletivos, mormente senadores e deputados federais. Um exame bem estruturado nos teria evitado os palhaços (profissionais e virtuais) que aparecem vez por outra. Um Lula, uma Dilma e um Bolsonaro não teriam como passar pela prova. A ausência desse trio infernal na chefia do Executivo teria evitado graves problemas que nos castigam agora e que continuarão a infernizar gerações inteiras de brasileiros.

Os prejudicados pela incapacidade de nossos dirigentes somos nós e nossos compatriotas inocentes. Estamos todos pagando caro pela incapacidade (apimentada pela má-fé) de dirigentes, indivíduos que bem podiam estar fazendo outra coisa na vida em vez de afundar o país.

Pulo no escuro

José Horta Manzano

Em maio de 1940, quando as tropas da Alemanha nazista desencadearam a ofensiva a Oeste, atacaram ao mesmo tempo a Bélgica, o Luxemburgo, a Holanda e a França. Em três tempos, botaram pra correr o exército francês, considerado até então um dos mais bem treinados e mais bem equipados do planeta. Em menos de um mês, com os adversários de joelhos, os alemães ocuparam os territórios vencidos e marcharam sobre Paris.

No sufoco, os franceses lembraram de Philippe Pétain, general que já havia salvado o país vinte e poucos anos antes, na guerra de 1914-1918. O velho foi chamado de volta à ativa, depositário da confiança da nação. Ele havia de dar jeito na situação. Entregaram-lhe as rédeas do poder e carta branca pra decidir.

Dia 17 de junho, o rádio transmitiu o discurso do general. A decepção foi amarga. É que as palavras do velho militar não foram exatamente as que o país esperava. Com a voz trêmula justificada por seus 84 anos, ele ordenou que o combate cessasse, que se recolhessem as armas, que cada um voltasse pra casa e que todos aceitassem a ocupação do território pelo exército inimigo. Com um sorriso, se possível.

Não se sabe como teria sido se o poder tivesse sido entregue a outro titular. Não é possível saber como teria sido o que não foi. Assim mesmo, fica a dúvida. Se o combate tivesse prosseguido, será que a França teria amargado quatro anos de ocupação militar?

Estive pensando no caso da Venezuela atual. O país vai mal, muito mal. De repente, surge esse señor Guaidó, jovem e bem-apessoado, com silhueta que lembra vagamente Barack Obama. Tirando o entourage de señor Maduro, não soube de nenhuma restrição que se faça ao desafiante. E olhe que já foi reconhecido como presidente legítimo por 50 governos, incluindo Brasil, EUA, França, Alemanha, Reino Unido, Itália. No entanto, pouco ou nada se sabe de señor Guaidó. Não se sabe quais são suas ideias. Não se conhece sua capacidade de articulação. Não se sabe se tem firmeza de mando. Guaidó ao volante é um pulo no escuro.

Suponhamos que, amanhã ou depois, señor Maduro se sinta abandonado pelos generais, embarque num avião para Uagadugu e desapareça. Como é que fica? É aí que o novo dirigente será testado. Mas não se governa sozinho uma nação do tamanho da Venezuela. Terá de formar governo, pensar na reconstrução do país, mandar escrever nova Constituição ‒ uma série de tarefas espinhosas. Estará capacitado? Terá a envergadura necessária? Para o bem do povo hermano, espero que sim. Tomara que a escolha que fizeram os venezuelanos não os decepcione como a escolha de Pétain desapontou os franceses de 1940.

Pecado original

José Horta Manzano

Os dois principais motivos que levaram o país à débâcle, provocando a destituição da presidente, foram a incapacidade administrativa e a corrupção. Incapazes pareciam ser todos, desde a presidente até o mais apagado aspone. Quanto à corrupção, era muito forte o sentimento de o país estar sendo governado por uma malta de corruptos.

Derrubado o bando aboletado há treze anos no Executivo, chegou a hora de mostrar serviço. O Brasil respira aliviado. O presidente em exercício (ou ex-vice-presidente, como querem alguns) leva jeito de pessoa séria. É discreto e fala uma língua que a gente entende. Formula frases com começo, meio e fim. De cara, inspira confiança.

Desgraçadamente, o ministério que deveria refletir a orientação do governo carrega pesado pecado de origem. Senão, vejamos. Se o governo anterior caiu por incapacidade e por corrupção, havia que cuidar ‒ em primeiríssimo lugar ‒ de afastar toda impressão de incapacidade e de corrupção. Parece lógico, não? Pois não foi assim que senhor Temer entendeu a realidade nacional.

by Michelangelo Buonarroti (1475-1564), artista italiano O pecado original e a queda (Capela Sistina)

by Michelangelo Buonarroti (1475-1564), artista italiano
O pecado original e a queda (Capela Sistina)

Capacidade
Segundo análise de especialistas, o ministério, no essencial, é constituído de elementos capazes. Serra, nas Relações Exteriores, é um achado. Meirelles, Padilha e os demais tampouco fazem feio.

Corrupção
É aí que a coisa pega. A própria OAB, em nota lançada ontem, mostrou-se desagradada com o fato de o primeiro ministério Temer incluir elementos envolvidos com a Lava a Jato. Tem razão, a Ordem. Não precisávamos disso. É pecado capital que podia ter sido evitado. Com tanta gente fina por aí, tinha de escolher justamente investigados ou até acusados? Francamente.

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Compreendo que senhor Temer tenha procurado afagar grupos e partidos, na esperança de que digam amém às medidas que pretende tomar. Pareceu-lhe arriscado deixar de lado personagens influentes. Assim mesmo, era um risco a correr. Mais teria valido dar, logo de entrada, impressão forte de ter contratado colaboradores capazes e de ficha limpa.

Fidelidade não costuma ser eterna. Infidelidade, tampouco. Quem é que teria imaginado, seis meses atrás, que estaríamos vivendo a situação atual, com Dilma longe, PT em perdição e um Lula derrotado? Temer tem alguns meses pela frente. O risco que ele tentou evitar pode se voltar contra ele feito bumerangue.

Suponha o distinto leitor que o STF decida julgar, de verdade, um dos atuais ministros. Basta unzinho só e o gabinete inteiro estará comprometido e desacreditado, padecendo as consequências da imprudência.

Havia outras maneiras de garantir fidelidade sem deixar um flanco aberto. É complicado lutar contra pecado original.