Os de fora ‒ 2

José Horta Manzano

Já vai pra duas semanas que as eleições acabaram. Virou-se a página, chegou a hora do rescaldo e de identificar os salvados do incêndio.

Entre os candidatos derrotados no segundo turno, alguns se puseram a exigir auditoria do processo, recontagem dos votos, reconsideração da decisão. Um disparate. Tem hora pra tudo. A hora de exigir passou. Era antes que tinham de ter-se preocupado. Sero est – é tarde demais.

Assim mesmo, um particular pra lá de estranho continua a me martelar. No total nacional, Dilma abocanhou 51.6% dos votos enquanto Aécio ficou com 48.4%. Regionalmente, diferenças tremendas foram constatadas.

2° turno 2014 – Total Brasil

2° turno 2014 – Total Brasil

Em certos bolsões, um (ou outro) dos candidatos açambarcou a quase totalidade dos votos válidos. Não é difícil de entender. Trata-se de comunidades homogêneas, nas quais os interesses pessoais de cada indivíduo convergem para um ponto comum a toda a sociedade.

E no exterior, como é que ficou? No cômputo geral, 77% dos expatriados deram seu voto a Aécio, deixando dona Dilma com 23%. Com exóticas exceções como o resultado de Havana, que presenteou a presidente com 87% dos votos, esmagadora maioria das secções eleitorais do exterior puseram Aécio bem lá na frente. Como é possível contraste tão grande entre o voto dos de dentro e o dos de fora?

Interligne vertical 11bExplicação 1
Os brasileiros do exterior são privilegiados. Nasceram todos em berço de ouro. Cresceram em família abastada, daquelas que não gostam de pobre.

Errado. A maioria dos que estão aqui pastam e ganham a vida com o esforço de seu trabalho. Esforço, muitas vezes, pesado.

Explicação 2
Os brasileiros que vivem no exterior vêm todos do Sul e do Sudeste, regiões que tendem a votar contra o lulodilmismo.

Errado. Mesmo na ausência de estatísticas, a experiência ensina que boa parte, se não a maioria, dos expatriados não são originários do Sul nem do Sudeste.

Explicação 3
Os brasileiros do exterior estão endinheirados. Preferem um Brasil pobre.

Errado. Se estivessem cheios da grana, os expatriados já teriam voltado à pátria. E, se preferissem um Brasil pobre, teriam votado em dona Dilma. Não existe garantia maior de manter o atraso.

Explicação 4
Os brasileiros do exterior são gente mais escolarizada, mais culta, menos sujeita a se deixar embananar por populismo barato.

Errado. Imensa maioria dos que vivem fora é constituída de gente comum. Muitos fazem o esforço de desembolsar 40 dólares de assinatura mensal para assistir à tevê brasileira. Como sabemos, o brasileiro médio não dispõe de especial erudição. Na maior parte das vezes, nem formação profissional tem.

Cáspite! Então, por que raios o voto dos de fora diverge tanto da escolha dos de dentro? Não acredito em milagre, portanto, uma explicação deve haver. O que vou dizer é pura especulação. Evidentemente, não tenho como provar, mas (ainda) não é proibido matutar.

2° turno 2014 – Voto do exterior

2° turno 2014 – Voto do exterior

Na hipótese – difícil de imaginar, mas não impossível – de as urnas terem sido manipuladas por sabe-se lá que meio, as maquinetas instaladas em território nacional terão sido as únicas a receber, digamos assim, «tratamento especial». As de fora, por serem poucas e por não terem peso pra alterar o resultado, terão escapado.

Se alguém tiver explicação melhor, que fale agora.

Um dia, quem sabe, a verdade virá à tona. Ou não.

De horas e de horários

José Horta Manzano

Hoje mudamos de hora aqui na Europa. A hora que nos tinham surrupiado em março nos foi devolvida, e o sol volta a aparecer mais cedo, quando aparece. Em compensação, a noite chega rápido.

Faz trinta anos que é assim a cada ano. No último domingo de março se adiantam os relógios em uma hora. Volta-se atrás no último domingo de outubro. Nem todo o mundo aprecia, mas o jeito é resignar-se.

Agricultores e criadores são os que mais resmungam. Dizem que vacas, que não costumam usar relógio, ignoram invencionices humanas. Têm de ser ordenhadas todos os dias à mesma hora.

Hora legal na Europa

Hora legal na Europa

Por aqui, todos os países adotam a alternância de hora entre verão e inverno. As «fronteiras» criadas pelos fusos horários permanecem o ano todo. Espanha e Portugal, por exemplo, estão sempre separados por uma hora, no frio e no calor.

No Brasil, é um pouco mais complicado. Por razões geográficas, mudar de hora não faria sentido nas regiões próximas ao equador. Pra dizer a verdade, tampouco faz muito sentido no sul do País. A economia de energia gerada há de ser mínima.

Não sei por que, no Brasil, a hora legal muda à meia-noite. Qualquer estudo demonstrará que as horas em que o movimento é mais baixo se situam entre as 2 e as 4 da manhã. Europeus e americanos determinaram que a mudança se faça no meio da madrugada. À meia-noite atrapalha muita gente.

Interligne 18h

Vou aproveitar que estamos falamos de hora pra falar de horário. Hoje é dia de votar. No momento em que escrevo, as primeiras urnas estão sendo destrancadas, no Brasil, para votantes matinais. Daqui a três horas, serão destravadas as últimas, no Acre e no extremo oeste do Amazonas.

Brasileiros inscritos no Japão, na Austrália, na Nova Zelândia já votaram. As urnas foram totalizadas, e os resultados já estão em Brasília. Assim que der 17 horas no Acre – 20 horas em Brasília – os primeiros resultados começarão a ser publicados. É normal, visto que todos os eleitores terão exprimido seu voto, correto?

Não, distinto leitor, não é exatamente assim. Temos aí uma intrigante anomalia. Mais de 16 mil eleitores, inscritos em Los Ángeles, San Francisco e Vancouver, ainda disporão de duas horas para emitir seu voto. Em tempos de internet e de informação instantânea, esses privilegiados vão poder votar já sabendo a quantas anda a apuração.

Esquisito? Bota esquisito nisso! São poucos eleitores, concedo, mas, por questão de princípio, a ninguém deveria ser permitido votar uma vez que resultados parciais já tiverem sido anunciados.

Fusos horários no planeta Los Ángeles, S. Francisco & Vancouver estão no fuso U

Fusos horários no planeta
Los Ángeles, S. Francisco & Vancouver estão no fuso U

Imagine um cenário de eleição apertada, em que a vitória seja disputada voto a voto. Como é que fica? O futuro do Brasil seria refém da decisão de um punhado de eleitores!

É inacreditável que o TSE não se tenha até hoje dado conta dessa aberração. O mais provável é que sim, se tenham dado conta, mas que tenham julgado que, num País habituado a tolerar imperfeições, um malfeito a mais ou a menos não faria diferença. Para mim, faz.

Qual é a solução? Há mais de uma à disposição. A Itália adota o voto por correspondência. O cidadão pode votar durante todo o mês que precede o dia da eleição. Seu voto permanece sob custódia das autoridades competentes até o dia da apuração.

A solução francesa vai por outro caminho. Os franceses do estrangeiro – assim como os residentes em territórios onde o fuso horário é mais atrasado que na metrópole – votam de véspera. Em vez de fazê-lo no domingo, dirigem-se às urnas no sábado.

Pronto. Soluções, há. Basta confiar a responsabilidade de encontrá-las a gente capacitada e de boa vontade. Dizem que esse tipo de gente é mercadoria escassa atualmente.

Vote bem

José Horta Manzano

Amanhã vamos votar. O Brasil inteiro já está sabendo, mas não custa reproduzir aqui um trecho da reportagem publicada pela revista Veja deste fim de semana.

Interligne vertical 12«Desde que Duda Mendonça, o marqueteiro da campanha de Lula em 2002, admitiu na CPI dos Correios ter recebido pagamentos de campanha no exterior (10 milhões de dólares), pairam sobre o partido suspeitas concretas da existência de dinheiro escondido em paraísos fiscais.

Para os interrogadores de Alberto Youssef, no entanto, essas dúvidas estão começando a se transformar em certeza. O doleiro não apenas confirmou a existência das contas do PT no exterior como se diz capaz de ajudar a identificá-las, fornecendo detalhes de operações realizadas, o número e a localização de algumas delas.»

Interligne 18h

Se você ainda não sabia, agora sabe. Vote bem. E que os anjos digam amém.

Revista Veja 1Adendo
Quero acrescentar uma consideração. Pouco depois de o teor da reportagem ter passado a conhecimento público, um destacamento de uma cinquentena de vândalos – possivelmente contratados às pressas – dirigiu-se às cercanias do edifício-sede da revista.

Os mandantes encomendaram a surrada tática de investir contra o mensageiro a fim de desviar a atenção do conteúdo da mensagem. Distrai-se o porteiro enquanto os assaltantes passam.

Vista a urgência, com a hora agá batendo à porta, os militantes desprezaram a moda antiga de protestar – cartazes, faixas, megafone e slogans. Lançaram logo mão de maneira moderna mais impactante: picharam paredes e emporcalharam o chão com baciadas de papel picado.

Limpadores de rua 2Ao fim e ao cabo, a manifestação confirma que os acusados sentiram o golpe. Sabiam que todo feitiço acaba virando contra o feiticeiro, mas não esperavam que o retorno do bumerangue viesse tão rápido. E em hora tão incômoda.

Resultado prático: sobrou para varredores, garis e outros funcionários humildes. Serão obrigados a limpar a sujeira deixada por representantes dos que foram apanhados com a mão no saco. Ironicamente, a manifestação há de ter servido para aumentar a tiragem da revista.

Ah, se ao menos os limpadores pudessem varrer também a corrupção…

Frase do dia — 199

«Um profundo exame histórico pode começar, se o PT perder. Se vencer, será preciso concentrar a energia na vigilância cotidiana e preservar alguma esperança no Brasil.

Vitoriosos depois do assalto à Petrobrás, os petistas logo estariam sonhando com o assalto aos céus.»

Fernando Gabeira, jornalista, em sua coluna no Estadão de 24 out° 2014.

A chefa bambeou

José Horta Manzano

Dona Dilma, (ainda) presidente de nossa desamparada mas valente República, disse ontem que «nunca uma eleição teve aspectos tão agressivos como esta». Ela tem razão, não há que desdizer. Engraçado é que ela disse isso com a ingenuidade de quem chega de Marte. Dois princípios estão na base da agressividade apontada pela chefe de nosso Executivo – ou por seus marqueteiros, tanto faz.

Isaac Newton e a maçã

Sir Isaac Newton e a maçã

O primeiro deles é alicerce da física newtoniana: toda ação gera reação contrária de igual intensidade.

O segundo princípio nos foi legado pela Paz de Augsburgo, concluída em 1555 para pôr fim aos conflitos de religião que sacudiam o Sacro Império Germânico. Cujus regio, ejus religio – tal príncipe, tal religião.

Não vamos aqui discutir física nem religião. Vamos apenas tomar de empréstimo essas máximas para identificar o caminho que tem levado a atual campanha a adotar clima tão agressivo.

É notório que dona Dilma é autoritária. Quem lê linhas e entrelinhas do noticiário já se deu conta de que a presidente, quando tenta sorrir descontraída diante das câmeras, não está a mostrar sua verdadeira natureza. No dia a dia, a chefa costuma desancar funcionários, esbravejar, humiliar assessores, menosprezar subalternos, impor sua excelsa vontade no grito. Quando se apagam os refletores dos estúdios, a verdadeira senhora Rousseff renasce.

Palácio Schezler, Augsburgo, Alemanha Salão de festas

Palácio Schezler, Augsburgo, Alemanha
Salão de festas

O Lula era (e, apesar de alquebrado pela idade e pelos excessos, continua sendo) desbocado, vulgar, irado. Sua sucessora não só conserva os recalques do padrinho, como os incrementa com sua natural soberba. Desde que o último presidente militar deixou o governo até o advento da senhora Rousseff, nenhum mandatário tão belicoso tinha subido a rampa do Planalto. João Figueiredo prometia «prender e arrebentar». Dona Dilma arrebenta sem prevenir.

Nossa presidente não pode culpar senão a si mesma pela deriva que acomete a campanha eleitoral.

Paz de Augsburgo, 1555

Paz de Augsburgo, 1555

Cujus regio, ejus religio
Quando as práticas do príncipe fazem uso da mentira sistemática, das quase-verdades, da quase-lógica, dos ataques pessoais, dos golpes abaixo da cintura, da usurpação de ideias alheias, da pretensão de ter inventado a roda, é natural que os súditos se sintam autorizados e até incentivados a seguir o mesmo receituário.

Ação e reação
Bateu, levou – em linguagem caseira, essa é a tradução do princípio de Newton. Durante doze anos, uma oposição fragmentada, atônita e hesitante não ousou levantar a voz. Mas a casta dominante abusou e atolou-se em crimes e malfeitos. Essa situação encorajou a oposição a mostrar seus músculos.

Taí. Os senhores do Planalto, que tinham armado esquema aparentemente infalível para conservar o poder, sentem que a reeleição está por um fio. Eis por que dona Dilma desce, por um momento, do pedestal da soberba para choramingar que a campanha está «agressiva».

Paraísos fiscais

José Horta Manzano

Ladrão 2Não resta dúvida de que o assunto do momento é a divulgação da roubalheira na Petrobrás. Eleições, temos a cada dois anos, não é surpresa. A baixaria é esperada, programada e bem preparada. Xingamentos, dossiês, ameaças de processo, sopapos, contravenções eleitorais, brigas de rua, calúnias, suspeitas de fraude, tudo isso é corriqueiro e, até certo ponto, tolerado.

Mensalão, dinheiro na cueca, avenidas e túneis superfaturados, viadutos que desabam são acontecimentos ainda mais graves. Infelizmente, sua repetição vem contribuindo para atenuar-lhes o impacto. Já está pra fazer dez anos que somos sacudidos por um escândalo novo a cada semana. O resultado é que o povo anda meio indiferente, apático, blasé.

Petrobras 3Mas a dilapidação da Petrobrás supera tudo o que a imaginação mais fértil (e mais maligna) pudesse antever. Perto dessa rapinagem, mensalão é dinheiro de pinga. O desfalque é tão monstruoso que chega a eclipsar a eleição presidencial. E como é que fica?

Se novo mandato for conferido a dona Dilma, não há conserto. O máximo que se pode esperar é algum esperneio, alguma declaração indignada, e pronto: fim de papo. Se, no entanto, a oposição levar a taça, o maior favor que poderia fazer ao País seria privatizar essa empresa tentacular. É a melhor – se não a única – maneira de evitar que tragédias como a atual se repitam.

No Brasil, o nível moral e intelectual dos eleitos é cronicamente baixo. O Estado, que depende dessa gente para gerir estatais do porte de uma Petrobrás, não está em condições de fazê-lo. Essa firma gigantesca estaria melhor em mãos privadas. Alguém acredita que, se não fosse pública, a empresa pudesse ter sido alvo de gatunagem dessa importância?

Desempenho Petrobrás x grandes petroleiras Índice FTSE - Financial Times Stock Exchange

Desempenho Petrobrás x grandes petroleiras
Índice FTSE – Financial Times Stock Exchange

Certo que não. Seria firma grande e respeitada, daria emprego a milhares de funcionários e – o que é importante – pagaria o devido imposto sobre seus ganhos. Sem ter de arriscar dinheiro do povo e sem ter de se preocupar com a lucratividade da empresa, o Estado recolheria os pesados tributos que incidem sobre a prospecção de petróleo, seu refino e a venda de seus derivados. Quem perderia com isso, se não os assaltantes?

LadrãoIsso posto, sobram perguntas no ar. O afano na Petrobrás sobe à casa dos bilhões. Não são milhões, são milhares de milhões – quantia inconcebível para mortal comum que, no fim do mês, tem de fazer conta de chegar.

Na berlinda, estão um doleiro e um antigo diretor da empresa. Pressionados, propuseram devolver algumas dezenas de milhões. Mas falta explicar onde está o resto do dinheiro. Dizem que foi utilizado para a campanha eleitoral de 2010. De 2010? E por que não para a de 2014? A roubalheira parou em 2010?

Balela. Posso até acreditar que algum trocado tenha ido parar nos cofres do partido dominante. Mas ninguém me fará engolir a toada de que, além do caixa dois de campanha, ninguém se beneficiou.

Ladrão 3São bilhões, minha gente! Do dinheiro seu e do meu. A prova maior de que essa fortuna foi metodicamente remetida para o exterior é a implicação de um doleiro. Fosse o dinheiro destinado a alimentar caixa negra de partidos, não haveria necessidade da intermediação de doleiro. O grosso do butim há de estar bem guardadinho, espalhado por paraísos fiscais, em nome de empresas-fantasma, de parentes, de amigos, de laranjas.

Se um dos diretores da Petrobrás, ator coadjuvante do triste espetáculo, propôs-se a devolver sozinho 70 milhões, onde está a propina distribuída às dúzias de outros beneficiários?

Adestrando cães para a eleição

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minhas cachorras não entendem nada de processo eleitoral. Tentei explicar a elas que, a intervalos fixos, nós humanos precisamos escolher mandatários. Como elas não sabiam o que significa mandatário, expliquei que são uma espécie de “líder da matilha”.

Assombradas, elas retrucaram: “Escolher? Como assim? Líderes não se escolhem, você apenas os reconhece”.

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Um tanto ressabiada, aprofundei a explicação: É que, entre nós, não há um líder de matilha que seja reconhecido universalmente e nem mesmo lideranças que durem a vida inteira. Elas riram, atônitas. Insistiram em saber por que isso acontece na espécie humana.

Levei algum tempo refletindo e acrescentei: É que cada pessoa dá preferência a um estilo de governo. Como a pessoa escolhida vai mandar em nossas vidas durante todo o mandato, cada um precisa descobrir com qual candidato se identifica mais.

Elas gargalharam à solta por um bom tempo e novamente retrucaram: “Mandar? Líderes não mandam. Eles simplesmente vão na frente e abrem caminho para o resto da matilha. Nós não temos de ‘obedecer’ ao líder, apenas confiamos cegamente nele e, por isso, o seguimos”.

Mais uma vez, fiquei pensativa por alguns minutos e depois arrisquei: Bom, como o eleito foi escolhido por nós, ele tem, por assim dizer, obrigação de respeitar e fazer cumprir os projetos que seus eleitores acham que são prioritários.

Novas risadas e nova pergunta: “E o que acontece se o líder não cumpre o que prometeu?”

Respondi orgulhosa pela sabedoria de nossa espécie: Aí a gente o destitui e começa tudo de novo, tentando aprimorar o processo de escolha e discutindo novos requisitos para que não aconteça outra falha.

– “Mas o que acontece com o líder que não deu certo? Ele é morto ou banido de vez da matilha?”

Não – respondi – ele pode explicar por que não cumpriu o prometido, comprometer-se a melhorar e, se a gente acreditar que ele está mesmo empenhado em fazer tudo certinho, ele pode até mesmo se candidatar de novo.

Crédito: WaveMusicStudio

Crédito: WaveMusicStudio

De queixo caído, minhas cachorras engataram uma pergunta delicada: “Mas se ele já deu provas de que não merece confiança, o que leva vocês a acreditarem que vai ser diferente da próxima vez?”

Gaguejei, meio sem graça, tentando me dar um tempo para elaborar uma resposta convincente: Veja bem – comecei – a gente compara sempre dois candidatos e escolhe aquele no qual a gente confia mais. É por comparação, escutando os argumentos que cada um apresenta para convencer a gente.

Crédito: Bullies.centerblog.net

Crédito: Bullies.centerblog.net

Elas rolaram no chão de tanto rir: “E vocês se fiam em palavras? Em meio à enxurrada de palavras do debate de ontem à noite, um candidato manteve a cabeça baixa, orelhas em pé, o corpo todo encrespado e projetado para a frente, o rabo baixo e rosnou a maior parte do tempo. Entre nós, isso é sinal de que se está diante de um valentão que quer ganhar a briga na porrada e, portanto, é alguém em quem não se pode confiar. Já o outro candidato manteve o peito cheio, a cabeça e o corpo eretos, olhos bem abertos, sorriso nos lábios e o rabo abanando o tempo todo. Entre nós, isso é sinal de que deseja uma aproximação amigável, de que não há razão para ter medo. Agora, o tom monocórdio e sem vida das palavras dos dois deixava claro, pelo menos para nós, que eles estavam só fazendo de conta que eram isso mesmo”.

Então – disse eu, já exausta – nós humanos às vezes esquecemos de verificar se as palavras que a pessoa está usando combinam com sua postura corporal porque estamos mais preocupados com o conteúdo do que com a forma.

“Mas – observou minha golden retriever – todas as vezes que eu abano o rabo freneticamente e pulo nas pessoas para fazer festa, você puxa a guia de volta e me dá uma bronca. Quando eu começo a latir e a rosnar, você grita ‘não’. Como é que fica?”

Desisti de buscar novas explicações. Elas nunca vão entender mesmo o processo eleitoral dos humanos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dilma campeã!

José Horta Manzano

Você sabia?

Segundo informações do mui oficial TRE paulista, repercutidas pela revista Veja, dona Dilma foi campeã estourada de votos. Obteve 51% do total, seguida de longe por dona Marina (22%). Deixou na rabeira o senhor Aécio, que não passou de 9%.

Prisioneiro 2Vale ressaltar um detalhe assaz importante: o levantamento se refere ao voto dos inquilinos dos presídios do Estado. Se dependesse da vontade dessa fatia do eleitorado, dona Dilma estaria reeleita já no primeiro turno.

Como disse? Afinidade de objetivos? Vire essa língua suja pra lá, sô!

Momento histórico

José Horta ManzanoPapagaio

«Dilma foi a terceira pior presidente em termos de crescimento econômico. Só perdeu para Floriano Peixoto e Fernando Collor.»

Trecho de artigo assinado pelo professor Marco Antonio Villa, publicado no jornal O Globo de 7 de out° 2014. Imperdível. Para conferir, clique aqui.

De mentirinha

José Horta Manzano

Como ocorreu nas demais unidades federadas, o eleitorado maranhense votou, domingo passado, para escolher novo governador. Ganhou um certo senhor Flávio Dino de Castro e Costa, sorridente advogado de 46 anos. E ganhou bem: abocanhou 63% dos votos válidos. Foi aclamado por dois em cada três eleitores.

Até aí, morreu o Neves. Que ninguém veja aqui alusão ao candidato à presidência da República. Estou usando expressão bem-educada para substituir o grosseiro «e daí?».

Lenin 2A mídia toda deu destaque ao fato de o novo governador ter desbancado o clã Sarney, que dominava e assombrava a governança estadual havia quarenta anos. Mandou pra aposentadoria o capo e tutta la famiglia. Bravo!

Em meio aos festejos, poucos prestaram atenção ao partido ao qual o recém-eleito é afiliado. Afinal, na algaravia das 32 legendas(!) registradas no TSE, não há cristão que ache seu caminho. Pois o moço é membro do… PC do B – o Partido Comunista do Brasil.

Tive a curiosidade de dar uma espiada nos estatutos do PC do B. Ele prega a «luta contra a exploração e opressão capitalista e imperialista». Vai mais longe: «[o partido] tem como objetivo superior o comunismo». Os estatutos nomeiam e louvam Marx, Engels e Lênin. E se propõem chegar ao comunismo através de um primeiro estágio – o «socialismo científico» – seja lá o que isso signifique. Está tudo preto no branco, pode conferir.

O novo governador é bem-nascido. Advogado, filho de advogados, já foi juiz federal durante 12 anos. Entrou na política relativamente tarde, quando já tinha 38 anos de idade. Sua ascensão foi rápida.

Eleito, seu discurso de vitória incluiu banalidades como «enfrentar a corrupção», «fazer um governo bom, simples, com os pés no chão», «tirar nosso Estado das páginas policiais». Declarações que cairiam bem na boca de qualquer político.

Longe de mim acusar esse senhor de falsidade ideológica. Mas custa crer que, no Brasil, em pleno século XXI, um homem maduro, aparentemente instruído, formado e experiente ainda possa comungar na cartilha comunista. Alguma coisa está fora de lugar.

Reuniao trabalho 1Fica no ar a impressão de divórcio consumado entre estatuto de partido e motivação de afiliado. O Partido Comunista não é necessariamente composto por comunistas. A recíproca é verdadeira: os comunistas – se é que sobrou algum – não estão necessariamente afiliados ao Partidão.

Partido político, hoje em dia, está mais pra balcão de negócios do que para caldeirão ideológico. São clubes de mentirinha.

Questão de interpretação

José Horta Manzano

Foto Agência Estado

Foto Agência Estado, 5 out° 2014

A fotomontagem que ilustra este escrito saiu este 5 out° no Estadão online. Ela abre portas para várias interpretações:

Interligne 18h

Vestidos com as cores primárias – vermelho, azul e amarelo – os candidatos deixam claro que cobrem todo o espectro de qualidades que se podem esperar de um presidente da República. Dão, assim, uma banana para os nanicos.

Interligne 18h

Nos bastidores, os três combinaram para não usar roupa da mesma cor. Para saírem bem caracterizados na foto.

Interligne 18h

Cada um deles vestiu a cor do principal partido de sua pletórica coalizão.

Interligne 18h

A candidata que aparece à esquerda já vem ocupando o cargo máximo da República faz quatro anos – o que justifica a silhueta mais nutrida.

Interligne 18h

O candidato que aparece no meio não passou de governador de Estado – fato que explica a silhueta levemente acima do que é aconselhado para sua idade.

Interligne 18h

A candidata que aparece à direita nunca ocupou cargo de chefia no Poder Executivo – o que justifica sua aparência esgrouviada.

Interligne 18h

Aécio e Marina, optimistas, mimam o número 2 com os dedos. Cada um sinaliza estar confiante de que ocupará o segundo lugar na classificação.

Interligne 18h

Aécio e Marina, optimistas, mimam o número 2 com os dedos. Cada um sinaliza estar confiante de que estará presente no segundo turno.

Interligne 18h

Todos acenam com a mão direita, menos Aécio. Se for canhoto, faz sentido. Se não for, ai, ai, ai. Não é bom sinal. Convicção se mostra com a mão dominante.

Interligne 18h

Dois dos candidatos mimam o V da vitória enquanto dona Dilma, com ar resignado, parece já dizer adeus.

Interligne 28a

Basta de divagação. O voto aqui na Europa já terminou. É questão de fuso horário. O que tem de brasileiro não está no gibi. Em Genebra, tinha gente saindo pelo ladrão.

Tenho uma sugestão a fazer a quem organiza o voto dos brasileiros no exterior. No Brasil, a população é bombardeada durante semanas pela propaganda eleitoral dita gratuita. Todos acabam conhecendo e guardando de cor nomes e números. Aqui não é assim que acontece.

Não temos propaganda eleitoral. Eu imaginava que a «urna» mostrasse o nome dos onze candidatos numa tela táctil. Aí, era moleza: bastava passar o dedo em cima do candidato desejado e confirmar. Mas não funciona assim. O eleitor tem de teclar um número – que ele não conhece necessariamente.

Minha sugestão, em consideração aos eleitores do estrangeiro, é que nos forneçam uma lista com o nome dos candidatos e o número correspondente a cada um. O que é evidente para uns nem sempre é claro para outros.

Um país com medo de ser feliz

Plácido Fernandes Vieira (*)

Enluminure V 1olta e meia sou tentado a concordar com De Gaulle ou com quem quer que tenha dito que o Brasil não é um país sério. Nos Estados Unidos, uma escuta telefônica clandestina instalada no comitê de um rival político levou à renúncia o então presidente Richard Nixon. Agora, pense aí: e se flagrassem em vídeo, nos EUA ou na Europa, um deputado do partido governista confessando que uma empresa pública foi usada para fazer campanha de um presidente à reeleição? Imagine o tamanho do escândalo e as consequências.

No Brasil, caro leitor, a questão é tratada com escárnio pelos donos do poder. Veja o caso de Minas Gerais. Um deputado estadual do PT foi filmado se vangloriando do uso dos Correios na campanha de Dilma e de Pimentel. Mesmo diante das imagens incontestáveis da fraude, sabe como a presidente da República reagiu ao ser indagada sobre o flagrante? «Vocês são jornalistas. Vocês acreditam nisso?» Ou seja: ela está sugerindo que, em vez de se ater ao que o vídeo revela, os jornalistas não acreditem no que veem mas somente no que ela diz.

Pior é constatar que, diante da prova e da versão oficial, há jornalistas que se desmoralizam a ponto de optar pelo engodo chapa-branca. Na hora de escrever os textos, entre as imagens do que de fato ocorreu e o bla-bla-blá palaciano, eles se comportam bovinamente «neutros», dando ao «desmentido» até mais peso do que à verdade. Ou seja: se, nos EUA ou na Europa, uma bobagem como essa poderia derrubar um governo, aqui o escândalo lhe dá força e o leva à reeleição.

Dilma e LulaEscandaliza-me o fato de que a corrupção hoje no país seja tratada como uma virtude. O caso da quadrilha que roubava a Petrobrás para distribuir entre aliados do governo Dilma e Lula é clássico. Quanto mais se descobrem fatos cabeludos da maracutaia, mais crescem as chances de a presidente se reeleger no 1º turno.

As pessoas parecem ignorar que os R$ 10 bilhões desviados dos cofres públicos na Operação Lava-Jato – conforme estimativa da PF – poderiam estar sendo investidos em educação e saúde com «padrão Fifa», como cobraram os manifestantes de junho 2013. Mas o que vemos é cada vez mais dinheiro no poço da corrupção. É como se o brasileiro, de tão desencantado, tivesse medo de voltar a sonhar em ser feliz. Preferisse ser enganado a sonhar com a possibilidade de um país mais digno e mais justo para todos.

(*) Plácido Fernandes Vieira é articulista do Correio Braziliense. Este artigo foi publicado em 4 out° 2014.

O efeito BBB na campanha eleitoral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Quanto mais se aproxima a hora de colocar o voto na urna mais cresce a minha irritação com o panorama descortinado pelas mais recentes pesquisas eleitorais.

Instintivamente começo a resmungar, culpando a baixa qualidade da educação oferecida aos eleitores em nosso país, a manipulação dos dados econômicos, políticos e sociais que tingem de rosa a percepção dos candidatos da situação e de tons sombrios de cinza chumbo os da oposição, as alianças espúrias feitas para acrescentar alguns minutos à propaganda de rádio e tv obrigatória, a inexistência de candidatos com visão de estadista, etc. Termino sempre, é claro, elegendo os culpados de sempre: os eleitores que votam com o bolso ou com o estômago. Uso a frase de Kennedy para justificar minha raiva: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte-se o que você pode fazer por seu país”.

by Santo, desenhista mineiro

by Santo, desenhista mineiro

Depois paro alguns segundos para refletir sobre os porquês dessa sinistra conclusão. Memória curta dos brasileiros? Desinformação generalizada? Falta de seriedade e descompromisso dos eleitores mais jovens? Desejo de preservar as parcas conquistas sociais amealhadas nos últimos anos sob o rótulo de “democracia do consumo”?

Não sei. Pode ser tudo isso junto e pode ser também um perverso efeito colateral do fato de que nunca tomamos posse de fato deste país. Primeiro o Brasil pertenceu à coroa portuguesa e a seus descendentes. Depois, às elites financeiras e militares, nacionais e estrangeiras. Se não, vejamos: independência, abolição da escravidão, proclamação da república foram todas decisões tomadas por um desses seres ‘superiores’. Nunca nos sentimos proprietários de nossas casas, nossas ruas, nossos bairros ou de nossas cidades. Somos todos inquilinos à espera do beneplácito dos verdadeiros senhores desta terra.

Volto a resmungar. Tudo continua na mesma toada, sem que consigamos nos dar conta dos grilhões que nos imobilizam há séculos: voto tratado como ‘dever cívico’ compulsório e não como direito, as benesses concedidas sem cessar aos políticos sem que a população seja auscultada para saber se aceita ou não tal concessão, a intromissão da propaganda eleitoral em nosso cotidiano à nossa revelia. Todo mundo fazendo de conta de que as coisas, agora sim, vão mudar.

by Wilmar de Oliveira Marques, desenhista gaúcho

by Wilmar de Oliveira Marques, desenhista gaúcho

Mas, espere um pouco: por que ainda não descobrimos um remédio para nosso surto esquizofrênico coletivo secular? Pois eu acabo de ter um ‘insight’ que me permite apontar um novo culpado para todos os nossos males: os “reality shows”. Vamos às explicações:

Interligne vertical 10* parece que nesse tipo de programa televisivo digo ‘parece’ porque não os assisto o principal valor colado à pessoa que vai merecer o voto dos espectadores e ser escolhido como vencedor é o da habilidade de jogar. Concede-se aos participantes a permissão para que se valham de qualquer tipo de recursos e estratagemas desde que eles se mostrem eficazes para criar polêmica e forçar os holofotes a iluminarem aquele que os utiliza. Parece ainda não haver qualquer filtro ético na escolha da melhor arma para vencer o jogo. Ao contrário, quanto mais perturbador, imprevisível e chocante for o recurso, maior o desejo de quem assiste de apostar todas as fichas nessa pessoa;

* a premissa que abre espaço para esse tipo de ‘atração’ é, a meu ver, exatamente o fato de que todos nós, espectadores e participantes, estamos envolvidos consentidamente numa invasão de privacidade. Somos todos ‘voyeurs’ antecipando o prazer de assistir à próxima cena íntima despudorada, precisamente como sempre fomos famintos por penetrar os bastidores do poder de nossa pobre república;

* a crença que nos invade é a de que, quando chegar nossa vez de sermos votados, os parentes e amigos dos vitoriosos anteriores vão se lembrar de nossos esforços e vão nos recompensar com sua gratidão e com seu voto.

Concluo, triunfante: é graças a essa confusão entre votação virtual e votação real que a insatisfação com os governantes de plantão pode ser engolida e transformada em novo apoio. É o mesmo velho lema maquiavélico – ‘os fins justificam os meios’ – refulgindo em todo seu esplendor. Taca-lhe pau, Dilma!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Se os 2 minutos finais fossem meus…

Fernão Lara Mesquita (*)

Brasileiros!

O passo que vamos dar domingo é decisivo. Pense bem antes de apertar aquele botão.

Esse retrato cor-de-rosa do Brasil que os marqueteiros da Dilma pintaram na campanha é falso. Os números em que ele está baseado são falsos.

A festa acabou mas o PT continua batendo bumbo pra fazer você dançar. Você sabe bem disso. Você está sentindo isso no seu bolso, na compra do mês e na prestação que não cabem mais no salário.

by Carlos Augusto R. Nascimento, desenhista paraense

by Carlos Augusto R. Nascimento, desenhista paraense

Os números que a Dilma mostra valem tanto quanto os juramentos solenes de acabar com a corrupção e a impunidade do partido que, quando chega a hora de agir, só age para desmoralizar a Justiça e tirar da cadeia, um por um, todos os condenados por corrupção. Nenhum dos que foram presos continua preso. Nenhum dos que estavam no poder perdeu o poder.

No plano internacional tem sido a mesma coisa.

O PT vive falando em direitos humanos mas só age na ONU para impedir que os maiores criminosos do mundo sejam detidos. Promete democracia mas só se relaciona com ditadores. Com aquele tipo de gente que aceita convite pra entrar mas não aceita ordem pra sair.

Tudo isso não é só coincidência.

O PT pede o seu voto mas já cassou por antecipação o que você vai dar domingo para o seu futuro deputado no Congresso com o decreto que a Dilma assinou há cinco meses – aquele que põe para fazer as leis do Brasil, no lugar dos parlamentares, os “movimentos sociais” que você não elegeu.

É por cima de tudo isso que o PT pede mais 4 anos, além dos 12 que já se foram, e olhando pra outros 8 logo ali adiante.

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

by Ronaldo Cunha Dias, desenhista gaúcho

Olhe pra Cuba, olhe pra Venezuela, olhe pra Bolívia, olhe pra Argentina; olhe pros ditadores todos que o PT não se cansa de festejar e pros países que ele aponta como modelos para o Brasil.

É isso mesmo que você quer?

Domingo vai começar a nascer o Brasil onde seus filhos vão viver.

Por isso, pense bem antes de apertar aquele botão.

(*) Fernão Lara Mesquita é jornalista e editor do blogue Vespeiro.

Preto no branco

José Horta Manzano

Às vezes a gente tem a impressão de que a repartição do Brasil em contingentes raciais, prática que vem sendo incentivada estes últimos doze anos, gera efeito contrário ao esperado.

Raça 1Pouco a pouco, a mente dos jovens brasileiros está sendo moldada a enxergar nosso povo como uma superposição de «etnias», «classes», «raças», «grupos», «comunidades» estanques e perfeitamente delimitadas. Ainda não chegamos lá, mas estamos no caminho.

É tremendo contrassenso que isso aconteça justamente no país mais miscigenado do mundo. Embora não seja aceitável, é compreensível que isso tenha acontecido na antiga República Sul-Africana e em antigas colônias que potências europeias mantinham em terras d’África e alhures.

Embora seja chocante, é também compreensível que isso continue acontecendo em lugares onde casamentos interraciais são quase inexistentes. França, Alemanha, Itália, Grécia, Espanha são exemplos de países em que a imigração maciça e recente de pessoas provenientes de outros horizontes vem criando tensões ligadas à formação de estratos de população que, como água e óleo, não se misturam.

A agência noticiosa AFP traz hoje um exemplo perfeito da visão que se tem no estrangeiro sobre a convivência de raças diferentes num mesmo território. Cito uma passagem da reportagem:

Interligne vertical 11a«Noire, pauvre, alphabétisée à 16 ans, récolteuse de latex et domestique à l’adolescence: la candidate écologiste à l’élection présidentielle brésilienne Marina Silva a le curriculum parfait pour devenir la première dirigeante noire du pays le plus métissé au monde.

Mais à la différence de Barack Obama, qui a obtenu 93% des voix des Noirs des Etats-Unis pour sa réélection en 2012, la co-favorite dans la course à la présidence du plus grand pays d’Amérique latine ne parvient pas à fédérer massivement noirs et métis brésiliens.

Ces derniers sont même plus enclins à voter pour la présidence sortante de gauche Dilma Rousseff, une blanche issue de la classe moyenne, et son Parti des travailleurs (PT) au pouvoir depuis 2003, dont les politiques sociales et de discrimination positive ont plus œuvré en leur faveur que quiconque depuis l’abolition de l’esclavage en 1888.»

Interligne vertical 11«Negra, pobre, alfabetizada aos 16 anos, seringueira e doméstica na adolescência: Marina Silva, a candidata ecologista à eleição presidencial brasileira, tem o currículo perfeito para tornar-se a primeira mandatária negra do país mais mestiçado do mundo.

No entanto, diferentemente de Barack Obama, que obteve o voto de 93% dos negros dos EUA quando de sua reeleição em 2012, a cofavorita na corrida à presidência do maior país da América Latina não logra obter apoio maciço dos negros e dos mestiços brasileiros.

Estes últimos estão, na verdade, mais propensos a votar em Dilma Rousseff, a atual presidente esquerdista – mulher branca proveniente da classe média – e em seu Partido dos Trabalhadores, no poder desde 2003, cujas políticas sociais e de discriminação positiva fizeram mais por eles do que tudo o que tinha sido feito desde a abolição da escravidão em 1888.»

Como meus perspicazes leitores podem se dar conta, há uma flagrante esquizofrenia tanto na visão que os brasileiros têm de seu próprio povo, como na que estrangeiros têm do povo brasileiro.

Para um estrangeiro, ainda que o Brasil seja o «país mais miscigenado do mundo», o voto será necessariamente comunitário. Para eles, é incompreensível que povo em maioria mestiço não vote em peso na candidata que, mestiça e pobre, deveria atrair seus iguais.

Quanto à maioria de nós, para desagrado da ideologia oficial, não enxergamos a coisa assim. Se negro e mestiço só votasse em negro e mestiço, não precisava nem votar. Dona Marina, que etnicamente se identifica com a maioria da população, já estaria eleita.

Felizmente, o esforço oficial destes últimos anos (ainda) não conseguiu inculcar mentalidade racista no povo brasileiro. Levantemos os braços aos céus em agradecimento, irmãos! E vamos torcer para que esse perigoso fomento de compartimentação étnica e racial seja abandonado. Quanto mais cedo, melhor.

Vive la différence!

José Horta Manzano

Interligne vertical 12«O candidato Fulano de Tal apresentou-se diante das câmeras trajando blazer azul-marinho e calça cinza-chumbo. Uma gravata rajada com nuances de azul-celeste ton sur ton sobressaía sobre o fundo impecavelmente branco da camisa. Nos pés, um par de meias combinando com a gravata. Para completar o todo, sapatos de couro preto brilhante cuidadosamente engraxados. Um último detalhe: o candidato exibia novo corte de cabelo, que o fazia parecer mais jovem.»

Alguém imagina topar com uma descrição de candidato nos termos que acabo de esboçar? Impensável. Não só pelo perfume antediluviano das palavras, mas principalmente por se referirem ao candidato Fulano – um homem.

Elegancia 2Por mais que se editem leis de igualdade de direitos, sempre sobram, no inconsciente coletivo, marcas incrustadas difíceis de remover. O raio de alcance de regulamentos, decretos e leis não é suficientemente amplo para revirar mentalidades.

A Constituição determina que somos todos iguais. Em princípio, portanto, homens e mulheres deveriam receber tratamento idêntico. Fica muito bonito no papel, mas, na vida real, não é exatamente assim.

Que um cavalheiro ceda seu assento a uma dama ou que lhe dê preferência, ao passarem os dois por porta apertada, é aceito e até esperado. O inverso ― que uma senhora devote ao homem essas mesuras ― é menos comum.

A descrição do candidato, com que abri este artigo, seria hoje pra lá de surpreendente, é verdade. Mas… e se o candidato fosse uma senhora? Pois as palavras não chocariam ninguém. A sociedade está longe de se sentir espantada com descrição da aparência e da indumentária de candidata. É narrativa, aliás, bem-vinda.

Elegancia 1Vejam um exemplo perfeitamente aceitável:

Dona Dilma apareceu diante das câmeras com o habitual terninho. Parecia mais elegante que de costume. As mangas três quartos mais curtas conferiam sobriedade ao conjunto. A cor verde pastel disfarçava a carranca e completava o quadro, insinuando uma disposição mais aberta ao diálogo.

Ou ainda:

Em vez de exibir o costumeiro semblante sizudo, dona Marina manteve fixo o sorriso durante toda a entrevista. Há de ter-lhe custado dor nos músculos da face. Quanto à vestimenta, a candidata manteve o habitual comedimento. O coque impecável e um colar de bolas gordinhas, de cor azul, contrastando com a silhueta delgada. A austeridade do conjunto duas-peças de feitio simples, de cor entre azul-petróleo e cinza-titânio, era quebrada pelo único adereço jovial: largo e vistoso cinto amarelo marcava-lhe a cintura de vespa, marca persistente da infância necessitosa.

Interligne 18e

Pois é. A lei faz o que pode para equiparar cidadãos de ambos os sexos. Na vida real, no entanto, ainda resta um longo caminho.

Vive la différence!

As vantagens que a idade traz

José Horta Manzano

Você sabia?

Há quem acredite que, para vencer uma eleição majoritária organizada em dois turnos, é necessário obter 51% dos votos. Meus esclarecidos leitores sabem que não é exatamente assim.

Na verdade, basta obter 50% dos votos mais um, computados apenas os votos válidos. E o que vêm a ser votos válidos? Ora, toma-se o total de votos exprimidos, eliminam-se os nulos e os neutros (em branco). Restam os votos válidos.

Crédito: BlogdoJardsonMadeira

Crédito: BlogdoJardsonMadeira

Mas essa história de 50% mais um ― será que é verdade mesmo? Quase, minha gente, quase. A afirmação é válida somente no caso de o total de votos válidos dar número par. Se o total for ímpar, o candidato que, teoricamente, obtiver «meio voto» a mais leva a taça.

Ajuizadamente, a Constituição Federal de 1988 determina que ganhará a parada o concorrente que reunir maioria absoluta dos votos válidos, ou seja, mais que a metade deles. Pronto, assim fica claro.

Precavido, o legislador chegou a imaginar uma situação que, conquanto pouco provável, é assim mesmo possível: um empate entre os dois finalistas. E aí, como é que fica? O Parágrafo 5° do Artigo 77 da Constituição tira a teima: o mais idoso se elege.

Sobra ainda a possibilidade estatística ― pouco provável, mas não absurda ― de os dois concorrentes terem nascido no mesmo dia e na mesma hora. Essa eventualidade não está prevista. Afinal, ninguém é de ferro. Na hora, a gente vê o que faz.

Frase do dia — 182

«Como resistir no país onde o que foi contratado e acertado entre dois homens — por escrito ou no ‘fio do bigode’ — é letra que já nasce morta? Como resistir quando o colega do lado, ao ceder à sedução de um advogado corrupto, aciona o patrão com base numa coleção de mentiras e lhe arranca, sem medo de errar, mais do que ganhou trabalhando anos a fio?

Lula tem razão: somos todos corruptos no Brasil que Getúlio nos legou. Daí a corrupção ‘não colar’ como fator decisivo de eleições: é contra a lei ser honesto no Brasil.»

Fernão Lara Mesquita, jornalista, em artigo publicado pelo Estadão, 19 set° 2014.

O mérito de Marina

José Horta Manzano

Paleta 1De onde vivo, estou longe de ter visão integral do que ocorre no Brasil. Embora dê pra ter uma ideia consistente, sempre ficam faltando algumas peças pra completar o quebra-cabeça.

Tenho acompanhado a evolução da campanha eleitoral com notável lacuna: não assisti a nenhum debate televisivo. Portanto, algum ponto pode ter-me escapado.

Pelo que tenho lido, dona Marina ― que possivelmente será a próxima chefe do Estado brasileiro ― não tem utilizado suas origens raciais como trunfo eleitoral. Se as utilizou, não fiquei sabendo. Espero que não o tenha feito.

Muitas enormidades têm sido ditas e cometidas estes últimos tempos em torno da diversidade étnica de nosso povo. Onde antes todos enxergavam uma paleta onde o dégradé ia do mais retinto ao mais alvo, a tese oficial nos incita hoje a encaixar cada brasileiro numa categoria: ou é negro ou não é. Assim, sem nuance. Das duas, uma.

Para mim, isso é bobagem pura. Todos sabem que o preconceito não está ligado à cor da pele, mas ao dinheiro que cada um tem no bolso. Pobre, desdentado e mal vestido será tratado como pobre, desdentado e mal vestido ― pouco importando que seja preto, branco, azul ou violeta.

Um país cujo escritor maior foi o mulato Joaquim Maria Machado de Assis não tem o direito de instigar diferenças raciais. Uma terra cujo músico lírico maior foi o mulato Antônio Carlos Gomes não deve se envergonhar da miscigenação.

Marina Silva 1O mundo se espanta até hoje com o fato de um mulato ter sido eleito presidente dos EUA. Enquanto isso, negros, mulatos, orientais, árabes, escandinavos, mediterrâneos ocupam em nossa terra, há décadas, cargos de governador, prefeito, ministro, deputado, vereador, juiz. E isso nunca estarreceu ninguém.

Temos agora a forte probabilidade de ser presididos por uma mulher que se autodefine como negra. É autodefinição, não vale a pena discutir. Se bem que, observando bem os traços de dona Marina, é lícito pressentir que o leque de suas origens étnicas seja muito mais aberto. Ela não se encaixa nas duas categorias obrigatórias. Pode muito bem ser produto do cruzamento das três principais raças que compõem a nação brasileira: o ameríndio, o africano negro e o europeu.

Mas faz ela muito bem em não dar peso às proprias origens étnicas. Que tudo seja feito para evitar que o Brasil resvale um dia para o voto étnico ou comunitário. Não vale a pena atirar mais lenha à fogueira. Que a política do «nós ou eles» do atual governo se possa em breve transformar em política do «nós todos».

Sem medo da integridade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Interligne vertical 10Medo 2“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive”.

Fernando Pessoa

É difícil manter a própria integridade. O caminho é duro, pedregoso, árido. Muitas vezes na vida acreditamos que, se formos capazes de verbalizar integralmente – e sempre – nossa verdade emocional, vamos perder o afeto de quem nos interessa. E esse risco existe, de fato.

Agora, reflita um pouco: de que lhe adiantaria manter um afeto fundado no medo? De que forma você acredita que o relacionamento se manteria quando fossem detectados os primeiros sinais de que esse medo está desaparecendo?

Exato, seria preciso manter ad eternum a tática do medo. Seria preciso inventar continuamente razões para que o medo não se dissipe por completo. Já imaginou o desgaste emocional que essa prática acarreta, tanto para quem a utiliza quanto para quem é vítima dela?

Medo 3Deve haver uma razão, bastante prosaica até, para que Dona Dilma e os marqueteiros que coordenam sua campanha se valham de um recurso que lhes foi impingido de forma tão cruel em eleições passadas. “Sem medo de ser feliz” era o mote então. Muitos resolveram apostar nessa proposta e elegeram aquele que lhes prometia a felicidade.

Cabe agora uma perguntinha impertinente: se a maioria dos eleitores brasileiros alcançou mesmo o patamar da felicidade prometida e aspirada, que motivos teriam muitos deles para virar as costas aos que lhes propiciaram dias felizes? Por que se deixar seduzir por aqueles que agora lhes prometem mais, ou outro tipo de, felicidade?

Medo 1Segundo os evangelistas, Cristo alertou um dia: “A verdade vos libertará”. Mesmo sem querer me envolver em falso diletantismo religioso, acredito nisso. Transformei essa frase numa espécie de mote para minha vida. Não acredito que haja “a” verdade universal. Acredito na minha verdade. Acredito que o melhor jeito de a gente crescer e passar a responder integralmente por nosso destino é aceitar o risco do desconhecido. Lançar-se no abismo fantasmagórico, enfrentando o medo de peito aberto e sem rede de proteção. Ser verdadeiro para consigo mesmo. Ser leal às próprias crenças.

Pode ser que eu seja exceção, mas, quando me sinto enredada numa prática asquerosa e pegajosa de sedução, meu alarme interno dispara. Se sou eu a querer a continuidade do relacionamento, por que cargas d´água o outro me ameaça insinuando que eu não vou conseguir viver sem ele???

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.