Quem vai mudar «esse» país

José Horta Manzano

Vamos retocar o título. Melhor assim: «Quem vai mudar ‘essepaiz’». Agora ficou fácil descobrir de quem estou falando, não? De nosso guia, mas é claro! Falo daquele senhor que encarna à perfeição a conhecida advertência «façam o que eu digo, não o que eu faço».

Domingo passado, ainda atordoado pela deliquescência de seu partido ‒ tornada evidente pelos resultados do primeiro turno das eleições ‒ simplesmente deixou de cumprir seu dever cívico: não votou. Mandou dizer que, dado que já passou dos 70, não é mais obrigado. Portanto, devemos entender que, se ia votar antes dos 70, é porque era obrigado. Ou não? Certas más línguas dizem que era para evitar a multa de 3 reais. Será? Quem diria… E pensar que o homem se dizia patriota de carteirinha.

Véspera do Dia dos Zumbis
Em viagem a São Carlos (SP) em véspera de data simbólica, o Lula fez um pronunciamento a estudantes da Universidade Federal da cidade. Descarado como de costume, ousou lembrar que o momento atual é importante para o debate de política. Convenhamos que, para quem se recusou a votar, é um disparate. Mas não parou por aí. Asseverou ainda que «a desgraça de quem não gosta de política é ser governado por quem gosta: a elite». Ai, essa zelite, essa zelite… Sempre atrapalhando o caminho do bem e da virtude.

lula-gerontocraciaFrancamente… contando, ninguém acredita. Para completar a patacoada, o demiurgo disse mais. Atreveu-se a lançar aos jovens: «Quem vai mudar ‘essepaiz’ são vocês». A frase está quase correta. Só faltou dizer que, antes de ‘mudar’, as gerações vindouras terão antes de consertar os profundos estragos que o lulopetismo causou. Nosso guia preferiu omitir esse pedaço.

Considerações finais
Nosso genial ex-presidente ‒ em descida vertiginosa, irrefreável e irreversível ‒ dá sinais de cansaço. Finalmente, parece ter renunciado a fazer parte da gerontocracia nacional. Há de ter-se dado conta de que nada que possa fazer, daqui por diante, será benéfico para sua degradada biografia. Pelo contrário.

Que use seu tempo para preparar direitinho a defesa a apresentar aos juízes que por ele aguardam. E que se abstenha de bombardear nossos ouvidos com palavras surradas e ocas.

O efeito BBB na campanha eleitoral

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Quanto mais se aproxima a hora de colocar o voto na urna mais cresce a minha irritação com o panorama descortinado pelas mais recentes pesquisas eleitorais.

Instintivamente começo a resmungar, culpando a baixa qualidade da educação oferecida aos eleitores em nosso país, a manipulação dos dados econômicos, políticos e sociais que tingem de rosa a percepção dos candidatos da situação e de tons sombrios de cinza chumbo os da oposição, as alianças espúrias feitas para acrescentar alguns minutos à propaganda de rádio e tv obrigatória, a inexistência de candidatos com visão de estadista, etc. Termino sempre, é claro, elegendo os culpados de sempre: os eleitores que votam com o bolso ou com o estômago. Uso a frase de Kennedy para justificar minha raiva: “Não pergunte o que seu país pode fazer por você, pergunte-se o que você pode fazer por seu país”.

by Santo, desenhista mineiro

by Santo, desenhista mineiro

Depois paro alguns segundos para refletir sobre os porquês dessa sinistra conclusão. Memória curta dos brasileiros? Desinformação generalizada? Falta de seriedade e descompromisso dos eleitores mais jovens? Desejo de preservar as parcas conquistas sociais amealhadas nos últimos anos sob o rótulo de “democracia do consumo”?

Não sei. Pode ser tudo isso junto e pode ser também um perverso efeito colateral do fato de que nunca tomamos posse de fato deste país. Primeiro o Brasil pertenceu à coroa portuguesa e a seus descendentes. Depois, às elites financeiras e militares, nacionais e estrangeiras. Se não, vejamos: independência, abolição da escravidão, proclamação da república foram todas decisões tomadas por um desses seres ‘superiores’. Nunca nos sentimos proprietários de nossas casas, nossas ruas, nossos bairros ou de nossas cidades. Somos todos inquilinos à espera do beneplácito dos verdadeiros senhores desta terra.

Volto a resmungar. Tudo continua na mesma toada, sem que consigamos nos dar conta dos grilhões que nos imobilizam há séculos: voto tratado como ‘dever cívico’ compulsório e não como direito, as benesses concedidas sem cessar aos políticos sem que a população seja auscultada para saber se aceita ou não tal concessão, a intromissão da propaganda eleitoral em nosso cotidiano à nossa revelia. Todo mundo fazendo de conta de que as coisas, agora sim, vão mudar.

by Wilmar de Oliveira Marques, desenhista gaúcho

by Wilmar de Oliveira Marques, desenhista gaúcho

Mas, espere um pouco: por que ainda não descobrimos um remédio para nosso surto esquizofrênico coletivo secular? Pois eu acabo de ter um ‘insight’ que me permite apontar um novo culpado para todos os nossos males: os “reality shows”. Vamos às explicações:

Interligne vertical 10* parece que nesse tipo de programa televisivo digo ‘parece’ porque não os assisto o principal valor colado à pessoa que vai merecer o voto dos espectadores e ser escolhido como vencedor é o da habilidade de jogar. Concede-se aos participantes a permissão para que se valham de qualquer tipo de recursos e estratagemas desde que eles se mostrem eficazes para criar polêmica e forçar os holofotes a iluminarem aquele que os utiliza. Parece ainda não haver qualquer filtro ético na escolha da melhor arma para vencer o jogo. Ao contrário, quanto mais perturbador, imprevisível e chocante for o recurso, maior o desejo de quem assiste de apostar todas as fichas nessa pessoa;

* a premissa que abre espaço para esse tipo de ‘atração’ é, a meu ver, exatamente o fato de que todos nós, espectadores e participantes, estamos envolvidos consentidamente numa invasão de privacidade. Somos todos ‘voyeurs’ antecipando o prazer de assistir à próxima cena íntima despudorada, precisamente como sempre fomos famintos por penetrar os bastidores do poder de nossa pobre república;

* a crença que nos invade é a de que, quando chegar nossa vez de sermos votados, os parentes e amigos dos vitoriosos anteriores vão se lembrar de nossos esforços e vão nos recompensar com sua gratidão e com seu voto.

Concluo, triunfante: é graças a essa confusão entre votação virtual e votação real que a insatisfação com os governantes de plantão pode ser engolida e transformada em novo apoio. É o mesmo velho lema maquiavélico – ‘os fins justificam os meios’ – refulgindo em todo seu esplendor. Taca-lhe pau, Dilma!

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.