Lembrete horário

José Horta Manzano

Este lembrete é pra você que tem conhecidos na Europa. Neste último domingo de outubro, mudamos de hora ‒ provavelmente pela última vez. Voltamos à hora de inverno. Na madrugada passada, quando o relógio marcou 3 horas, voltou a ser 2 horas.

As autoridades encarregadas do assunto estão atualmente considerando acabar com esse vaivém horário que perturba todo o mundo duas vezes por ano. Se as discussões forem bem sucedidas, esta terá sido a última mudança de hora. Vai valer para todos os países da União Europeia e para os vizinhos que aderem à norma.

Seja como for, convém ajustar sua agenda de contactos. Se você vive no Brasil, a distância que o separa de seu amigo na Europa fica diminuída de uma hora a partir de hoje. Se eram quatro horas, agora são três. Se eram cinco horas, agora são só quatro. E assim por diante.

Sommerzeit

José Horta Manzano

Você sabia?

Já nos tempos da Primeira Guerra, o governo alemão teve a ideia de avançar os relógios durante o verão com o intuito de economizar energia. À época, o carvão movia a indústria e produzia eletricidade. Prevenir escassez era primordial.

Com altos e baixos, a ideia de instaurar a hora de verão se espalhou pelo planeta. Durante todo o século XX, numerosos países situados em regiões afastadas do Equador conheceram mudança de hora. Esporádica, a mudança valia por um ano, era cancelada no ano seguinte. E assim por diante, sem regularidade.

Nos anos 2000, o Parlamento Europeu decidiu oficializar e harmonizar a passagem anual à hora de verão. Desde então, a entrada em vigor se faz no último domingo de março e vai até o último domingo de outubro. Todos os países fazem a mudança no mesmo momento.

Estudos recentes, no entanto, têm revelado que os malefícios da mudança de hora são tão importantes ‒ se não maiores ‒ que os benefícios. A claridade que avança noite adentro perturba a produção de melatonina, o que retarda o adormecimento. A redução das horas de sono tende a aumentar a frequência de acidentes do trabalho e da circulação. As crianças, muito sensíveis ao fenômeno, apresentam problemas de concentração na escola.

Ao detectar o descontentamento, o Conselho Europeu botou no ar a mais importante consulta popular jamais lançada. Procurava conhecer a opinião dos cidadãos dos diversos países sobre a hora de verão. O resultado surpreendeu. Nada menos que 4,6 milhões de pessoas preencheram o questionário online. Dos participantes, 84% se declararam hostis à hora de verão. É maioria expressiva. Para reforçar o quadro, estudos indicam que a economia de energia assegurada pela hora de verão não chega a 0,5%. É coisa pouca.

Como no resto do mundo, a máquina administrativa da UE é um bocado lenta. Mas o assunto será apresentado ao Parlamento. Se o voto da maioria for parelho ao desejo dos que responderam ao questionário, a ab-rogação será pronunciada em breve. Não é impossível que, já em 2019, essa amolação termine.

Resta um detalhe a acertar: a escolha da hora definitiva. Guarda-se a hora de inverno ou a de verão? Ficou combinado que todos os países da UE terão de acatar a decisão do Parlamento. Se a hora de verão for revogada, todos terão de se conformar. No entanto, cada país será livre de escolher se guarda a hora de verão ou a de inverno.

Sabe-se que, no frigir dos ovos, os países se determinam com relação aos vizinhos mais importantes. Para facilitar as comunicações, os pequenos procuram se adaptar aos grandes. Portanto, tudo vai depender dos dois ou três maiores. França e Alemanha vão dar o tom: os vizinhos acompanharão.

Quem sabe esse movimento não inspira as autoridades brasileiras? Já está na hora de acabar com essa chateação de mudar de hora duas vezes por ano. Os ganhos são irrelevantes e os incômodos, significativos.

Sommerzeit = hora de verão (em alemão).

Mercosul e hora de verão

José Horta Manzano

Até meados do século XIX, cada lugarejo era regido pela hora local. O campanário de cada igreja ritmava as idas e vindas da população. O advento do telégrafo e, principalmente, das ferrovias forçou a normatização. Com hora variando de uma cidade para outra, era virtualmente impossível estruturar o horário dos trens.

Depois de muita discussão e muita negociação, o planeta foi dividido em 24 fusos horários e cada país adotou o que lhe correspondia. Países mais extensos espalham-se por dois ou mais fusos ‒ como é o caso do Brasil.

Relógio moleA duração dos dias e das noites não é idêntica ao longo do ano. Quanto mais nos afastamos do Equador, maior é a diferença de duração entre os períodos de claridade e escuridão. Essa diferença se alterna durante do ano. No verão, os dias são mais longos que as noites ‒ no inverno, ocorre o inverso.

Para economizar energia elétrica, faz quase cem anos que se encontrou um paliativo: altera-se a hora oficial durante o verão; chegado o inverno, volta-se à hora tradicional. Isso resulta em um começo de noite ainda com céu claro, contribuindo para economizar eletricidade. Numerosos países adotam essa alternância.

Em 1985 ‒ 31 anos atrás ‒, a União Europeia decidiu adotar a hora de verão. Ela entra em vigor todos os anos, às 2h da manhã do último domingo de março e vai até as 2h da manhã do último domingo de outubro. Com exceção do Reino Unido, todos os países acertaram o passo e aderiram ao ritmo. Com o Brexit, a Grã-Bretanha continua seguindo o próprio caminho e a anomalia britânica deixa de ser exceção dentro da UE.

Nosso Mercosul, fundado 25 anos atrás, é constituído por apenas 4 países(1) contra 27 da UE. Pasme o distinto leitor: pelas bandas do Cone Sul ainda não se chegou a um acordo sobre o problema. Reuniões, cúpulas, tratados, convenções, pronunciamentos não faltaram. Cansamos de ver fotos de presidentes, mãos dadas ou braços erguidos numa enternecedora irmandade. Mas parece que a fraternidade começa e termina nas fotos, nunca chega à vida real. Vive-se num mundo de símbolos sem significado prático.

Relógio solarEm 2008, depois de agir erraticamente por mais de vinte anos por meio de decretos anuais, o Brasil finalmente regulamentou a hora de verão. É adotada anualmente nos Estados do Sul, do Sudeste e do Centro-Oeste. Vigora do 3° domingo de outubro ao 3° domingo de março. Nosso país agiu por conta própria, sem procurar harmonizar o calendário com o Paraguai, por exemplo, que também adota a prática mas faz a mudança em dias diferentes dos nossos. A Argentina(2) e o Uruguai, países cuja posição geográfica justificaria plenamente a mudança anual, não adotam a hora de verão.

O resultado dessa falta de coordenação atravanca ‒ ainda mais! ‒ as relações políticas e comerciais entre os membros do grupo. Se quatro gatos pingados não conseguiram acertar os ponteiros depois de 25 anos de casamento, fica no ar a pergunta: será que vale a pena continuar casados?

Interligne 18h

(1) A Venezuela, dadas as circunstâncias irregulares de sua admissão, não vem sendo tratada como membro verdadeiro. Por enquanto, vive num limbo, como um ‘penetra’ que pulou a janela.

(2)Provavelmente no intuito de encaixar o país inteiro num fuso só, a Argentina optou por uma espécie de hora de verão permanente. A hora legal está adiantada em relação ao percurso do sol.

Nas regiões situadas mais a leste (Buenos Aires, Mar del Plata, Puerto Iguazu), a defasagem é de pouco mais de meia hora. Nessas cidades, quando os relógios marcam meio-dia, ainda falta mais de meia hora para o sol chegar ao ponto mais alto no céu.

Em certas localidades situadas mais a oeste (Bariloche, El Calafate), a defasagem entre hora oficial e hora solar chega a uma hora e meia. Nesses lugares, quando o relógio diz que é meio-dia, a hora solar não passa de 10h30.

Tresnoitados

José Horta Manzano

Relogio CFF

Hoje, que é domingo, ainda não está dando pra perceber, mas amanhã é que todos vão sentir na pele. Ou na pálpebra. Sentir o quê? A mudança de hora, ora! Todos os países europeus ‒ com exceção da Rússia e de dois ou três vizinhos ‒ entraram na hora de verão este fim de semana.

Como no resto do mundo, a justificativa para impor esse desagradável ritual bianual é poupar energia. Muitos contestam argumentando que os inconvenientes pesam mais que a diminuta economia. É discussão sem fim, que vem dando pano pra mangas e não vai se extinguir tão já.

A primeira experiência concreta de instaurar hora de verão teve lugar na Alemanha, em 1916, em plena guerra mundial. A ideia, considerada genial, foi adotada pelo Reino Unido e pela França naquele mesmo ano.

De lá pra cá, a adoção da mudança de hora foi esporádica. De quando em quando, um país decidia instaurá-la, enquanto vizinhos não tocavam no relógio. Nos tempos em que as comunicações internacionais em tempo real eram reduzidas, a discrepância não incomodava muito.

Mas os tempos mudaram, e a uniformização da prática foi-se fazendo necessária. A partir do início dos anos 80, um após o outro, todos os países europeus foram-se alinhando à rotina.

Relógio solar

Relógio solar

Nos primeiros anos, o Reino Unido, embora adotasse a hora de verão, não mexia em seus relógios ao mesmo tempo que os demais países europeus. A mudança entrava em vigor com defasagem de algumas semanas com relação aos vizinhos. Maldosos, os franceses aproveitavam para repetir que «os ingleses não conseguem mesmo fazer nada como os outros».

Essa excepcionalidade terminou em 1998. Naquele ano, a União Europeia normatizou a prática. Ficou combinado que a hora de verão passasse a vigorar da 1h (GMT) do último domingo de março até às 2h (GMT) do último domingo de outubro.

Relógio moleAgricultores e criadores de gado detestam a medida. Argumentam que vacas, que não usam relógio, devem ser ordenhadas sempre à mesma hora. É grita inútil. A norma que estabelece a dança das horas periga continuar ad vitam aeternam.

Anotemos pois: a partir deste 29 de março, Brasília está distante quatro horas de Lisboa, Dublin e Londres. E cinco horas dos outros países da Europa ocidental.

Falando nas agulhadas que ingleses e franceses adoram aplicar-se mutuamente, ocorre-me que nossa expressão sair de fininho se traduz assim:

Interligne vertical 13em inglês: «take a French leave» (sair à francesa)

em francês: «filer à l’anglaise» (escapar à inglesa).

Mal-educados são sempre os outros, nunca nós mesmos. Interessante, não?

Vamos terminar parodiando o fecho com que Millôr Fernandes costumava encerrar suas historietas: pano rapidíssimo.

De horas e de horários

José Horta Manzano

Hoje mudamos de hora aqui na Europa. A hora que nos tinham surrupiado em março nos foi devolvida, e o sol volta a aparecer mais cedo, quando aparece. Em compensação, a noite chega rápido.

Faz trinta anos que é assim a cada ano. No último domingo de março se adiantam os relógios em uma hora. Volta-se atrás no último domingo de outubro. Nem todo o mundo aprecia, mas o jeito é resignar-se.

Agricultores e criadores são os que mais resmungam. Dizem que vacas, que não costumam usar relógio, ignoram invencionices humanas. Têm de ser ordenhadas todos os dias à mesma hora.

Hora legal na Europa

Hora legal na Europa

Por aqui, todos os países adotam a alternância de hora entre verão e inverno. As «fronteiras» criadas pelos fusos horários permanecem o ano todo. Espanha e Portugal, por exemplo, estão sempre separados por uma hora, no frio e no calor.

No Brasil, é um pouco mais complicado. Por razões geográficas, mudar de hora não faria sentido nas regiões próximas ao equador. Pra dizer a verdade, tampouco faz muito sentido no sul do País. A economia de energia gerada há de ser mínima.

Não sei por que, no Brasil, a hora legal muda à meia-noite. Qualquer estudo demonstrará que as horas em que o movimento é mais baixo se situam entre as 2 e as 4 da manhã. Europeus e americanos determinaram que a mudança se faça no meio da madrugada. À meia-noite atrapalha muita gente.

Interligne 18h

Vou aproveitar que estamos falamos de hora pra falar de horário. Hoje é dia de votar. No momento em que escrevo, as primeiras urnas estão sendo destrancadas, no Brasil, para votantes matinais. Daqui a três horas, serão destravadas as últimas, no Acre e no extremo oeste do Amazonas.

Brasileiros inscritos no Japão, na Austrália, na Nova Zelândia já votaram. As urnas foram totalizadas, e os resultados já estão em Brasília. Assim que der 17 horas no Acre – 20 horas em Brasília – os primeiros resultados começarão a ser publicados. É normal, visto que todos os eleitores terão exprimido seu voto, correto?

Não, distinto leitor, não é exatamente assim. Temos aí uma intrigante anomalia. Mais de 16 mil eleitores, inscritos em Los Ángeles, San Francisco e Vancouver, ainda disporão de duas horas para emitir seu voto. Em tempos de internet e de informação instantânea, esses privilegiados vão poder votar já sabendo a quantas anda a apuração.

Esquisito? Bota esquisito nisso! São poucos eleitores, concedo, mas, por questão de princípio, a ninguém deveria ser permitido votar uma vez que resultados parciais já tiverem sido anunciados.

Fusos horários no planeta Los Ángeles, S. Francisco & Vancouver estão no fuso U

Fusos horários no planeta
Los Ángeles, S. Francisco & Vancouver estão no fuso U

Imagine um cenário de eleição apertada, em que a vitória seja disputada voto a voto. Como é que fica? O futuro do Brasil seria refém da decisão de um punhado de eleitores!

É inacreditável que o TSE não se tenha até hoje dado conta dessa aberração. O mais provável é que sim, se tenham dado conta, mas que tenham julgado que, num País habituado a tolerar imperfeições, um malfeito a mais ou a menos não faria diferença. Para mim, faz.

Qual é a solução? Há mais de uma à disposição. A Itália adota o voto por correspondência. O cidadão pode votar durante todo o mês que precede o dia da eleição. Seu voto permanece sob custódia das autoridades competentes até o dia da apuração.

A solução francesa vai por outro caminho. Os franceses do estrangeiro – assim como os residentes em territórios onde o fuso horário é mais atrasado que na metrópole – votam de véspera. Em vez de fazê-lo no domingo, dirigem-se às urnas no sábado.

Pronto. Soluções, há. Basta confiar a responsabilidade de encontrá-las a gente capacitada e de boa vontade. Dizem que esse tipo de gente é mercadoria escassa atualmente.