Importação de café

José Horta Manzano

O Vietnã nos parece distante e pouco importante. Distante é, sem dúvida. Já sua importância não é assim tão pequena. Com superfície menor que a do Estado de Goiás, abriga mais de 90 milhões de pessoas. É gente pra caramba.

O país tem história movimentada. Desde a Antiguidade, o território fértil atraiu a cobiça de vizinhos e aventureiros. Da China vieram os primeiros conquistadores forasteiros. Em meados do século 19, a França encontrou um pretexto para invadir e anexar parte do território à qual deram o nome de Cochinchina, a região sul do país. Em 1940, a invasão japonesa pôs termo a um século de dominação francesa.

cafe-7Depois da rendição nipônica, em 1945, os franceses insistiram em retormar a colônia perdida. Mas a resistência foi tão feroz que, menos de 10 anos mais tarde, os europeus desistiram e se retiraram. Subestimando a capacidade de se defender inerente aos vietnamitas, os americanos resolveram entrar na dança. No começo dos anos 60, enviaram tropas. A intenção declarada era liberar o Vietnã do regime comunista. A luta, feroz, durou uns dez anos. Ao final, como já tinha acontecido com chineses e franceses, também os americanos tiveram de abandonar o combate. O último soldado deixou o prédio da embaixada dependurado num helicóptero.

Desde então, o Vietnã é, pelo menos oficialmente, país comunista de partido único. Mas, sacumé, já não se fazem comunismos como antigamente. Está aí o exemplo chinês que não nos deixa mentir. Estes últimos anos, o país tem crescido a taxas chinesas. O turismo representa bem-vinda entrada de divisas. A criação e exportação de camarões e de peixes criados em cativeiro é outra atividade importante. Todas essas são conquistas que não vieram por acaso, mas à custa de muito trabalho e esforço.

Café 5Trinta anos atrás, enquanto um terço da produção mundial de café era garantida pelo Brasil, o Vietnã era «traço» na estatística ‒ a plantação não supria nem o consumo interno. Valendo-se do clima favorável, dedicaram força e aplicação para estender o cultivo. Atualmente, enquanto o Brasil continua produzindo um terço do café mundial, o Vietnã progrediu vertiginosamente e alçou-se à segunda posição. Colhe o equivalente a metade da produção brasileira.

Problemas climáticos prejudicaram a colheita brasileira nos últimos três anos. Como resultado, o maior produtor mundial vê-se na obrigação de importar café para suprir sua indústria de café solúvel. Nossas autoridades não tiveram outro remédio senão autorizar a importação de um milhão de sacas de 60kg de café vietnamita daqui até maio.

Os vietnamitas estão surpresos e encantados. Não bastasse ter vencido e expulsado franceses e americanos ‒ o que já não é coisa pouca ‒, vão agora exportar café ao Brasil, uma façanha e tanto! A mídia do país dá a notícia com orgulho não disfarçado.

Momento histórico

José Horta ManzanoPapagaio

«Dilma foi a terceira pior presidente em termos de crescimento econômico. Só perdeu para Floriano Peixoto e Fernando Collor.»

Trecho de artigo assinado pelo professor Marco Antonio Villa, publicado no jornal O Globo de 7 de out° 2014. Imperdível. Para conferir, clique aqui.

Pibão & pibinho

José Horta Manzano

Anda muito na moda falar em PIB. Estes últimos dias, a cúpula do governo anda meio atarantada entre declarações e desmentidos. Nossa presidente andou proclamando à imprensa internacional que os números do ano passado não eram bem aqueles, que o resultado era outro, que era quase o dobro, que a confusão estava para ser desfeita, que a economia brasileira ia muito bem, obrigado, que qualquer um pode se enganar, que eles iam ver o que eles iam ver.

Pibão

Pibão

Os números de 2012 não eram grande coisa, logo, o crescimento espetacular anunciado pela presidente criou expectativa no mundo das finanças. De repente, catapum! No frigir dos ovos, feitas e refeitas as contas, mudança não houve. Os indicadores ficaram praticamente no mesmo lugar.

Procura-se desesperadamente um bode expiatório que nos livre a todos do vexame. Que ninguém se espante se o porteiro ou a mulher do café forem demitidos ― ou afastados, como se diz hoje em dia. Isso feito, a honra estará lavada.

Esse melodrama põe em evidência um modismo que anda confundindo muita gente. Na maior sem-cerimônia, jornalistas ― alguns até especializados na área econômica ― andam dizendo coisas do tipo «o PIB foi de 0,9%», «para o ano que vem espera-se um pibão de 2,5%», «o Brasil tem conhecido um PIB médio de 2%».

Estão atirando no que viram e acertando o que não viram. De roldão, estão desorientando o distinto público leitor. PIB é sigla que abrevia a expressão Produto Interno Bruto. Em inglês, usa-se GDP, Gross Domestic Product.

É o índice mais representativo da produção econômica de um país. Mede a riqueza produzida durante um determinado período. Para chegar a esse resultado, faz-se a soma teórica de toda a produção e de todos os serviços prestados dentro do território nacional.

Pibinho

Pibinho

O PIB, portanto, é representado por um número. Anda pela casa dos bilhões ou dos trilhões, conforme a importância da economia do país. Para facilitar comparações, costuma vir expresso em dólares.

Não faz, portanto, sentido proclamar que «o PIB foi de 0,9%» ou que «será de 2,3%». Convém usar as expressões corretamente. Não é tão difícil assim. Melhor será dizer que «o PIB teve aumento de 0,9%», ou que «o crescimento do PIB foi de 0,9%», ou que «o PIB deve encolher 0,1%». Pibões têm os EUA, a China, o Japão. Na outra ponta, o Haiti, o Tchade, o Tadjiquistão têm pibinhos. A cada ano que passa, todos se modificam. Cada um deles pode crescer ou encolher. Tanto o aumento quanto a diminuição virão, aí sim, expressos em porcentagem. Já o PIB será sempre um número.

No fundo, bom mesmo é que o PIB seja repartido equanimemente e beneficie toda a população.