Cães adestrando humanos para a eleição

Myrthes Suplicy Vieira (*)

O ceticismo de minhas duas cachorras atingiu seu ápice durante o debate de sexta-feira à noite. Vencidas pelo tédio, elas dormitaram pesadamente a maior parte do tempo. Incomodada com a falta de reação por parte delas, cutuquei-as durante um intervalo e perguntei o que estava acontecendo.

Crédito: Ellem.ca

Crédito: Ellem.ca

A mais nova e mais espevitada respondeu que aquilo tudo lhe parecia conversa mole para boi dormir e que, apesar de não poder ser enquadrada na categoria dos bovinos, aquele palavrório todo só tinha servido para aumentar sua sensação de alienação. “Eu preferiria, disse ela, que você me levasse para passear e me deixasse farejar no ar se aquele macho bonitão vai passar por aqui”. Espreguiçou-se gostosamente e voltou a dormir.

A mais velha e mais sábia levantou a cabeça mal-humorada e sentenciou: “Estive pensando. Há um fenômeno curioso que já foi registrado entre várias espécies animais. Até onde eu saiba, não há registro desse tipo de acontecimento entre nós. Ele costuma acontecer com razoável frequência entre baleias. É uma espécie de indução ao suicídio coletivo. Por algum estranho motivo, algumas vezes a baleia-piloto se desorienta em alto mar e conduz as demais para águas rasas, fazendo com que todas morram encalhadas na areia. Já se especulou que a causa desse fenômeno pode estar no radar das grandes embarcações, mas eu duvido”.

Intrigada, perguntei: “O que você está querendo dizer com isso?”

Ainda sonolenta, ela resmungou em resposta: “Para mim, o verdadeiro motivo é que a líder se cansa de assumir tanta responsabilidade por tanto tempo. Veja só, ela tem de imprimir um ritmo mais lento para respeitar as limitações das baleias mais velhas. Tem de cuidar para que os filhotes não se afastem demais de suas mães. Tem de proteger os mais jovens e inexperientes quando do ataque de predadores. Tem de deter o ímpeto dos machos mais ousados que querem fazer desvios de rota para acasalar. Não pode se dar ao luxo de parar para cuidar de si mesma quando está com fome, machucada ou exausta. Acima de tudo, seu orgulho por ter feito tantas travessias bem sucedidas faz com que ela se recuse a admitir que já está na hora de seu reinado terminar”.

Baleia 1Curiosa pelo desfecho, apressei: “E daí? Onde você quer chegar com essa história toda de baleias?”

Minha envolvente filósofa canina concluiu com um meio-sorriso: “Pois está me parecendo que a atual baleia-piloto de vocês está se aproximando perigosamente da praia”.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Adestrando cães para a eleição

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Minhas cachorras não entendem nada de processo eleitoral. Tentei explicar a elas que, a intervalos fixos, nós humanos precisamos escolher mandatários. Como elas não sabiam o que significa mandatário, expliquei que são uma espécie de “líder da matilha”.

Assombradas, elas retrucaram: “Escolher? Como assim? Líderes não se escolhem, você apenas os reconhece”.

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Um tanto ressabiada, aprofundei a explicação: É que, entre nós, não há um líder de matilha que seja reconhecido universalmente e nem mesmo lideranças que durem a vida inteira. Elas riram, atônitas. Insistiram em saber por que isso acontece na espécie humana.

Levei algum tempo refletindo e acrescentei: É que cada pessoa dá preferência a um estilo de governo. Como a pessoa escolhida vai mandar em nossas vidas durante todo o mandato, cada um precisa descobrir com qual candidato se identifica mais.

Elas gargalharam à solta por um bom tempo e novamente retrucaram: “Mandar? Líderes não mandam. Eles simplesmente vão na frente e abrem caminho para o resto da matilha. Nós não temos de ‘obedecer’ ao líder, apenas confiamos cegamente nele e, por isso, o seguimos”.

Mais uma vez, fiquei pensativa por alguns minutos e depois arrisquei: Bom, como o eleito foi escolhido por nós, ele tem, por assim dizer, obrigação de respeitar e fazer cumprir os projetos que seus eleitores acham que são prioritários.

Novas risadas e nova pergunta: “E o que acontece se o líder não cumpre o que prometeu?”

Respondi orgulhosa pela sabedoria de nossa espécie: Aí a gente o destitui e começa tudo de novo, tentando aprimorar o processo de escolha e discutindo novos requisitos para que não aconteça outra falha.

– “Mas o que acontece com o líder que não deu certo? Ele é morto ou banido de vez da matilha?”

Não – respondi – ele pode explicar por que não cumpriu o prometido, comprometer-se a melhorar e, se a gente acreditar que ele está mesmo empenhado em fazer tudo certinho, ele pode até mesmo se candidatar de novo.

Crédito: WaveMusicStudio

Crédito: WaveMusicStudio

De queixo caído, minhas cachorras engataram uma pergunta delicada: “Mas se ele já deu provas de que não merece confiança, o que leva vocês a acreditarem que vai ser diferente da próxima vez?”

Gaguejei, meio sem graça, tentando me dar um tempo para elaborar uma resposta convincente: Veja bem – comecei – a gente compara sempre dois candidatos e escolhe aquele no qual a gente confia mais. É por comparação, escutando os argumentos que cada um apresenta para convencer a gente.

Crédito: Bullies.centerblog.net

Crédito: Bullies.centerblog.net

Elas rolaram no chão de tanto rir: “E vocês se fiam em palavras? Em meio à enxurrada de palavras do debate de ontem à noite, um candidato manteve a cabeça baixa, orelhas em pé, o corpo todo encrespado e projetado para a frente, o rabo baixo e rosnou a maior parte do tempo. Entre nós, isso é sinal de que se está diante de um valentão que quer ganhar a briga na porrada e, portanto, é alguém em quem não se pode confiar. Já o outro candidato manteve o peito cheio, a cabeça e o corpo eretos, olhos bem abertos, sorriso nos lábios e o rabo abanando o tempo todo. Entre nós, isso é sinal de que deseja uma aproximação amigável, de que não há razão para ter medo. Agora, o tom monocórdio e sem vida das palavras dos dois deixava claro, pelo menos para nós, que eles estavam só fazendo de conta que eram isso mesmo”.

Então – disse eu, já exausta – nós humanos às vezes esquecemos de verificar se as palavras que a pessoa está usando combinam com sua postura corporal porque estamos mais preocupados com o conteúdo do que com a forma.

“Mas – observou minha golden retriever – todas as vezes que eu abano o rabo freneticamente e pulo nas pessoas para fazer festa, você puxa a guia de volta e me dá uma bronca. Quando eu começo a latir e a rosnar, você grita ‘não’. Como é que fica?”

Desisti de buscar novas explicações. Elas nunca vão entender mesmo o processo eleitoral dos humanos.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.