Carreira promissora

José Horta Manzano

Vereadores são, por definição, conselheiros eleitos pelos próprios concidadãos para discutir soluções para problemas do município. O bom senso preconiza que conselheiros municipais sejam os primeiros a seguir leis que eles mesmos debateram, aprovaram e chancelaram.

Em teoria, vivemos num regime democrático. Ninguém é obrigado a se candidatar a cargo público. Se o faz, é porque sente especial vocação para servir à sociedade ‒ pelo menos é o que se espera. Atenção: eu disse «servir à sociedade», não «servir-se da sociedade». A nuance é de importância capital.

Chamada Estadão, 4 mar 2017

Chamada Estadão, 4 mar 2017

O acerto é o seguinte: toda decisão tomada pelo colegiado dos vereadores e promulgada pelo prefeito passa a valer para todos os munícipes e por todos deve ser seguida. Democracia é assim. Ninguém imagina que Mr. Obama tenha entregado a chave do cofre a Mr. Trump com o coração pulando de alegria. No entanto, não havia como escapar: as regras de convivência civilizada são peremptórias.

Dia 14 de fevereiro, a Câmara Municipal do município de São Paulo votou uma lei antipichação. Aprovada por ampla maioria ‒ com oposição unicamente de vereadores filiados ao PSOL ‒, a lei prevê multa de cinco mil reais aos contraventores. Nestes tempos de tuítes e redes sociais, mensagens murais são coisa antediluviana. No entanto…

Poucos dias depois, veio a primeira prisão por desrespeito à lei. Apanhada em flagrante delito, a infratora tem 26 aninhos e é filiada ao PT (partido dito ‘dos trabalhadores’). Note-se que seu partido votou a favor da lei que reprime o vandalismo dos pichadores. Agora, o detalhe picante: a jovem é… suplente de vereador do município paulistano.

A pichadora. Eleita pelo povo.

A pichadora. Eleita pelo povo.

Como se vê, o caminho político da infratora já começa torto: aderiu ao partido que abriga o maior número de afiliados enroscados com a Justiça e, para coroar, contraveio a uma decisão a que ela mesma tinha subscrito.

Estará aí o futuro de nosso infeliz país? Seremos governados, amanhã, por gente que diz um «sim» à vista e às claras para, em seguida, praticar um «não» na calada e à sorrelfa? Aquele que contravém a uma lei votada por ele mesmo comete uma coleção de impropriedades:

demonstra comportamento esquizofrênico;
trai o grupo ao qual optou aderir;
delinque contra a lei.

Pichação interrompida pela chegada da polícia. Crédito: Sousa, SMSU

Pichação interrompida pela chegada da polícia.
Crédito: Sousa, SMSU

A meu ver, não é suficiente aplicar à garota multa de cinco mil reais. Sua situação de «suplente» de vereador complica o caso. O risco de que a moça assuma uma cadeira na Câmara paira sobre a cabeça dos paulistanos como espada de Dâmocles, que pode desabar a qualquer momento e causar estrago. Todo mal tem de ser cortado pela raiz. Vale a pena considerar a possibilidade de cassar-lhe a condição de suplente. Até as próximas eleições, pelo menos, os concidadãos estarão livres do risco de ter a moça na vereança.

Profissão
A moça informa ser estudante de Direito(!), sim, senhor. Não há dúvida: é o processo civilizatório brasileiro em marcha acelerada. O futuro radioso do país está garantido.

Pichação

José Horta Manzano

Chamada da Folha de São Paulo, 29 jan° 2017

Chamada da Folha de São Paulo, 29 jan° 2017

O mano tem razão. Acertou na mosca. O que falta é educação ‒ em todos os sentidos.

Educação cívica
Não vandalizar a paisagem urbana pra satisfazer seu diminuto ego.

Educação básica
Não causar dano a propriedade alheia.

Educação de bom senso
Não provocar a exasperação da esmagadora maioria dos concidadãos, que preferem uma cidade limpa. Não é inteligente botar a cidade inteira contra si.

Educação escolar
Pichação se escreve com ch, não com x.
Xô, ignorância!

Interligne 18cO mano tem razão:
O que falta é educação.

Vote bem

José Horta Manzano

Amanhã vamos votar. O Brasil inteiro já está sabendo, mas não custa reproduzir aqui um trecho da reportagem publicada pela revista Veja deste fim de semana.

Interligne vertical 12«Desde que Duda Mendonça, o marqueteiro da campanha de Lula em 2002, admitiu na CPI dos Correios ter recebido pagamentos de campanha no exterior (10 milhões de dólares), pairam sobre o partido suspeitas concretas da existência de dinheiro escondido em paraísos fiscais.

Para os interrogadores de Alberto Youssef, no entanto, essas dúvidas estão começando a se transformar em certeza. O doleiro não apenas confirmou a existência das contas do PT no exterior como se diz capaz de ajudar a identificá-las, fornecendo detalhes de operações realizadas, o número e a localização de algumas delas.»

Interligne 18h

Se você ainda não sabia, agora sabe. Vote bem. E que os anjos digam amém.

Revista Veja 1Adendo
Quero acrescentar uma consideração. Pouco depois de o teor da reportagem ter passado a conhecimento público, um destacamento de uma cinquentena de vândalos – possivelmente contratados às pressas – dirigiu-se às cercanias do edifício-sede da revista.

Os mandantes encomendaram a surrada tática de investir contra o mensageiro a fim de desviar a atenção do conteúdo da mensagem. Distrai-se o porteiro enquanto os assaltantes passam.

Vista a urgência, com a hora agá batendo à porta, os militantes desprezaram a moda antiga de protestar – cartazes, faixas, megafone e slogans. Lançaram logo mão de maneira moderna mais impactante: picharam paredes e emporcalharam o chão com baciadas de papel picado.

Limpadores de rua 2Ao fim e ao cabo, a manifestação confirma que os acusados sentiram o golpe. Sabiam que todo feitiço acaba virando contra o feiticeiro, mas não esperavam que o retorno do bumerangue viesse tão rápido. E em hora tão incômoda.

Resultado prático: sobrou para varredores, garis e outros funcionários humildes. Serão obrigados a limpar a sujeira deixada por representantes dos que foram apanhados com a mão no saco. Ironicamente, a manifestação há de ter servido para aumentar a tiragem da revista.

Ah, se ao menos os limpadores pudessem varrer também a corrupção…