É deles

«A Petrobrás é nossa e ninguém tasca.»

by Eduardo "Duke" dos Santos Reis Evangelista desenhista mineiro

by Eduardo “Duke” dos Santos Reis Evangelista
desenhista mineiro

Fecho de artigo publicado, em 20 mar 2015, no blogue do cidadão José Dirceu de Oliveira e Silva, que se deixa tratar – elegantemente – por Zé Dirceu.

O figurão e blogueiro tem percurso singular. É autor da proeza pouco comum de ter conhecido a prisão em duas ocasiões assaz distintas. Na juventude, foi mandado às masmorras por tentar derrubar o regime da República. Anos mais tarde, já maduro(?) e instalado na confortável posição de mandarim-mor, voltou ao xilindró por ter convertido o Planalto em balcão de negócios.

by Arnaldo Angeli Filho desenhista paulista

by Arnaldo Angeli Filho
desenhista paulista

“A Petrobrás é nossa” é afirmação supérflua. Já nos tínhamos todos dado conta de que a empresa se tornou deles, do Zé e de sua turma. Nós, o povo brasileiro é que estamos tentando tomar de volta o que nos pertence de direito. Queremos reintegração de posse. Está difícil, mas hemos de chegar lá.

O figurão mostra que não perdeu a ingenuidade. Duas temporadas no cárcere não foram suficientes para ensinar-lhe o significado da palavra prudência.

Pois ele que se cuide, que a roda gira, e ninguém sabe o que nos reserva o amanhã.

De mentirinha

José Horta Manzano

Como ocorreu nas demais unidades federadas, o eleitorado maranhense votou, domingo passado, para escolher novo governador. Ganhou um certo senhor Flávio Dino de Castro e Costa, sorridente advogado de 46 anos. E ganhou bem: abocanhou 63% dos votos válidos. Foi aclamado por dois em cada três eleitores.

Até aí, morreu o Neves. Que ninguém veja aqui alusão ao candidato à presidência da República. Estou usando expressão bem-educada para substituir o grosseiro «e daí?».

Lenin 2A mídia toda deu destaque ao fato de o novo governador ter desbancado o clã Sarney, que dominava e assombrava a governança estadual havia quarenta anos. Mandou pra aposentadoria o capo e tutta la famiglia. Bravo!

Em meio aos festejos, poucos prestaram atenção ao partido ao qual o recém-eleito é afiliado. Afinal, na algaravia das 32 legendas(!) registradas no TSE, não há cristão que ache seu caminho. Pois o moço é membro do… PC do B – o Partido Comunista do Brasil.

Tive a curiosidade de dar uma espiada nos estatutos do PC do B. Ele prega a «luta contra a exploração e opressão capitalista e imperialista». Vai mais longe: «[o partido] tem como objetivo superior o comunismo». Os estatutos nomeiam e louvam Marx, Engels e Lênin. E se propõem chegar ao comunismo através de um primeiro estágio – o «socialismo científico» – seja lá o que isso signifique. Está tudo preto no branco, pode conferir.

O novo governador é bem-nascido. Advogado, filho de advogados, já foi juiz federal durante 12 anos. Entrou na política relativamente tarde, quando já tinha 38 anos de idade. Sua ascensão foi rápida.

Eleito, seu discurso de vitória incluiu banalidades como «enfrentar a corrupção», «fazer um governo bom, simples, com os pés no chão», «tirar nosso Estado das páginas policiais». Declarações que cairiam bem na boca de qualquer político.

Longe de mim acusar esse senhor de falsidade ideológica. Mas custa crer que, no Brasil, em pleno século XXI, um homem maduro, aparentemente instruído, formado e experiente ainda possa comungar na cartilha comunista. Alguma coisa está fora de lugar.

Reuniao trabalho 1Fica no ar a impressão de divórcio consumado entre estatuto de partido e motivação de afiliado. O Partido Comunista não é necessariamente composto por comunistas. A recíproca é verdadeira: os comunistas – se é que sobrou algum – não estão necessariamente afiliados ao Partidão.

Partido político, hoje em dia, está mais pra balcão de negócios do que para caldeirão ideológico. São clubes de mentirinha.

Na prática…

… a teoria é outra.

José Horta Manzano

Apareceu estes dias uma notícia surpreendente: o Partido Socialista Brasileiro deu-se conta, de repente, de que a plataforma de seu candidato à presidência da República ― um certo senhor Campos ― diverge consideravelmente do programa partidário.

Impensável em países onde a política é bem estruturada, essa situação não comove ninguém no Brasil. Plataforma política se adapta aos ventos do momento. Não combina com o programa do partido? Que não seja por isso: modifique-se o programa. É exatamente isso que a mencionada agremiação política fará nas próximas semanas.

Proletários de todos os países, uni-vos!

Proletários de todos os países, uni-vos!

Realmente, não fica bem, em pleno século XXI, um programa de partido pregar a «socialização dos meios de produção». Soa pra lá de démodé. Chega a ser patético no ponto em que propõe a eliminação de «um regime econômico de exploração do homem pelo homem».

O manifesto do partido atinge o ápice do irrealismo quando preconiza a «transferência gradativa ao domínio social (entenda-se ao Estado) de todos os bens passíveis de criar riquezas». É mole?

Esse quiproquó vem demonstrar, se ainda fosse necessário, a inutilidade dos partidos políticos no Brasil. Visto o divórcio entre a teoria programática e a prática do dia a dia, os partidos são meros balcões de negócios onde uma revoada de indivíduos ― dentes longos e unhas afiadas ― disputam os bens da Viúva.

Reeleição

José Horta Manzano

Desde que o mundo é mundo, os que têm acesso a uma posição de mando não costumam desgostar da situação. Alguns poucos, mais desprendidos, não oferecem grande resistência quando soa a hora de descer do trono. A maioria, no entanto, não desencarna tão facilmente.

Jogadas limpas, jogadas sujas, jogadas de bastidores, tudo vale para se segurar. «É dando que se recebe», máxima reservada até faz pouco tempo aos pios frades franciscanos, vem-se impondo como princípio basilar e desabrido da política nacional.

Ainda recentemente nossa presidente deixou de lado todo pudor para afirmar-se capaz de «fazer o diabo» a fim de reeleger-se. Que ninguém duvide. Discursos antecipados, casuísmos, dossiês, tudo vale. Ganhará a guerra aquele que tiver maior habilidade na hora de puxar o tapete e derrubar, assim, o adversário.

Tudo isso faz parte da natureza humana, não é invenção recente. O que tem mudado de uns dez anos para cá não é o fundo, mas a forma. As lutas que, dado seu caráter nebuloso, se chamavam justamente intestinas tornaram-se verdadeiras batalhas campais. Tudo é feito às claras, à vista de todos, desavergonhadamente. Já que ninguém parece se ofuscar, por que esconder, não é mesmo? E alguns ainda ousam chamar esse esparramo de transparência…

Urna 2

O senador Aécio Neves, dado como candidato à candidatura à presidência da República, acaba de lançar uma ideia requentada. Propõe a extinção da possibilidade de reeleição de ocupantes de cargos executivos. Para compensar, o mandato atual de 4 anos seria espichado. Presidente, governadores e prefeitos passariam a ser eleitos para um período de 5 anos.

Não é propriamente uma ideia revolucionária. O instituto da reeleição é recente no Brasil. Cento e vinte anos atrás, os pais da República, num rasgo de visão, já tinham intuído o que se confirmaria mais de um século depois. Temiam que os futuros eleitos se valessem, para reeleger-se, do poder que lhes conferia a máquina pública. Daí terem optado por não permitir a reeleição.

Ressuscitar a visão antiga não me parece, em princípio, má ideia. Estes últimos anos, nosso País tem pendido perigosamente para esquemas populistas. Não nos ajuda, tampouco, a proximidade geográfica e ideológica com nações sul-americanas cujos mandachuvas não pedem outra coisa senão agarrar-se indefinidamente a seus cargos.

A experiência destes últimos tempos tende a provar que o tempo de permanência no governo não melhora a qualidade de seus titulares. O bom-senso manda trocar de chefe com maior frequência. No entanto, visto o balcão de negócios em que se transformou o Congresso, a ideia do senador não tem lá muita chance de prosperar. É pena.

Não acredito que a proibição da reeleição resolvesse, como por encanto, todos os problemas nacionais. Mas já seria um bom começo. Pelo menos, presidentes estariam dispensados de «fazer o diabo» para garantir permanência no cargo.