Baú de memórias ‒ 4

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Volto hoje a abrir meu baú de memórias para relembrar experiências vividas em torno de um de meus temas favoritos: os fenômenos paranormais, transcendentais ou de cunho espiritual.

Desde muito pequena, eu já experimentava a sensação de que havia mais mistérios entre o céu e a terra do que poderia supor minha galopante imaginação. Contavam meus pais que, apesar de conviver com quatro irmãos dentro de um apartamento pequeno, sempre fui uma criança retraída e solitária, que preferia passar as tardes em longos diálogos com um amigo imaginário.

Filha de mineiro e criada com a ajuda de auxiliares domésticas nordestinas, fui exposta desde muito cedo a todo tipo de lendas e crendices. Minha avidez pela leitura logo permitiu que outros personagens míticos passassem a compor novas facetas do meu universo mental. A rígida formação religiosa que recebi, calcada no Velho Testamento, encarregou-se de completar o quadro, trazendo à tona o lado sombrio e aterrorizante do mundo além dos sentidos, povoando meu cotidiano com relatos de possessão demoníaca e incorporação de espíritos.

Centenas de vezes ao longo de minha infância e adolescência, benzedeiras, cartomantes, ciganas e videntes cruzaram acidentalmente meu caminho. Milhares de vezes me angustiei ao sentir que era capaz de ter premonições ou experimentar transmissão de pensamento.

Em consequência dessa overdose de estímulos, acabei desenvolvendo uma espécie de estudada indiferença ou até ojeriza a tudo que não passasse pelo crivo da razão, da lógica, ou que não pudesse ser comprovado cientificamente. O medo, o ceticismo e a descrença rapidamente me levaram a me afastar em definitivo de todas as formas de ocultismo e espiritualismo.

Até que um dia um amigo insistiu para que eu o acompanhasse a um encontro com um médium espírita. Eu havia acabado de passar por uma perda afetiva importante e havia afundado em interminável estado de melancolia. Por mais que eu relutasse em acreditar que a solução do problema estivesse em outro plano, meu amigo nutria a esperança de que uma conversa com esse médium pudesse ter algum efeito terapêutico e me abrisse novas perspectivas de vida.

Ao entrar, fui logo levada para uma sala de consultas pequena, iluminada apenas por luz negra. O médium estava em pé, imóvel e em silêncio. Seus olhos pareciam irradiar hipnotizantes faíscas de luz. Incomodada com a dramaticidade daquele ambiente soturno, imaginei ter caído em uma arapuca e estar prestes a ser vítima de um farsante. Determinei-me logo de saída a não acreditar em uma única palavra que ele me dissesse.

Como se adivinhasse meus pensamentos, ele me encarou com toda a serenidade e disse apenas: “Não acredite…”. Ficou mais alguns segundos em silêncio e repetiu a frase. Quase caí de costas. Buscava desesperadamente indícios de que algo em meu corpo estivesse facilitando o recebimento da mensagem de descrença, como a contratura de músculos ou meus olhos esbugalhados. Não tive tempo para dar continuidade a minhas divagações.

Logo ele deu prosseguimento a suas sentenças enigmáticas. “Vocês, psicólogos terrenos, são muito mecanicistas…”. Minha incredulidade e irritação só faziam aumentar. Como ele podia saber que eu era psicóloga se sequer havíamos sido apresentados? Pode ser que meu amigo tenha lhe dito, pensei, tentando me tranquilizar, mas sem conseguir afastar a angústia.

“O ser humano é uma unidade bio-físio-psico-social-espiritual… Por que você não vai estudar o que acontece ao nível das sinapses com a substância negra?“. Desta vez, uma forte onda de pânico tomou conta de mim. A frase estava muito além do conhecimento rudimentar de um ilusionista, requeria conhecimento técnico especializado. Meu amigo havia me dito que o tal médium era um advogado na vida cotidiana, mas que, em estado de transe, incorporava o espírito de um médico (que só vim a saber depois que se tratava de Bezerra de Menezes).

Tentei reativar na memória, sem sucesso, as lições de fisiologia que havia tido na faculdade. Ao voltar para casa, procurando em meus manuais, verifiquei que estranhos pontos negros se aglomeram nas terminações nervosas quando um estímulo adquire caráter vital. A analogia usada para explicar a função dessa substância era a de um trem de metrô que tem prioridade e, portanto, recebe o sinal verde em todas as conexões ao longo do trajeto. Só décadas mais tarde consegui estabelecer um vínculo entre esse fenômeno e o que o médium chamava de mecanicismo das teorias psicológicas.

A intrigante experiência não parou por aí. Logo na sequência, o médium pediu que todos os presentes saíssem da sala e nos deixassem a sós. Prendi a respiração, tentando me preparar para vivências ainda mais aterrorizantes. Calmamente, ele me pediu que me deitasse em um colchão que estava no chão. Obedeci sem nem saber por quê. Ele se inclinou, pegou meu pulso com delicadeza, sem dizer absolutamente nada. Lembro apenas de ter fechado os olhos.

by Ramone Romero

Para meu supremo espanto, acordei algumas horas depois, com a sensação de que havia tido um longo e agradável sonho, sem, contudo, me lembrar de nenhum detalhe específico. Não conseguia acreditar que aquilo tivesse acontecido comigo. Na época, eu enfrentava uma crise severa de insônia e já havia tentado vários recursos para pôr fim a ela, sem sucesso. Como era possível eu ter conseguido relaxar em um ambiente estranho, na presença de uma pessoa que me inspirava temor e sem que nenhum comando específico, verbal ou não-verbal, tivesse sido dado?

Ao abrir os olhos, vi que os médiuns auxiliares estavam postados em torno do colchão, com os braços estendidos, formando um círculo de passe. Sem fazer qualquer referência ao que havia se passado, o médium pediu que me sentasse numa cadeira, com suportes metálicos para os braços. Orientou-me a me concentrar mentalmente em uma figura protetora, paternal. A imagem de Cristo apareceu diante de meus olhos. Tentei embarcar numa peregrinação religiosa, mas não fui muito longe. Prestava mais atenção aos meus descompassados batimentos cardíacos, que impediam que meu pensamento seguisse um roteiro linear.

Alguns minutos depois, tive a nítida sensação de que meus braços haviam se erguido, sem que eu os tivesse comandado. A sensação era tão forte que me vi forçada a abrir os olhos. Constatei, horrorizada, que eles estavam mesmo levantados. Literalmente perplexa, empurrei-os de novo para baixo, com força. Muitos anos depois, durante uma sessão de Kum Nye, um método de meditação do budismo tibetano, aprendi que, quando o cérebro entra em estado alfa, esse fenômeno pode ocorrer e é chamado de “movimento automático”.

Parecendo satisfeito com os resultados obtidos, o médium se sentou então em frente a uma escrivaninha e pôs-se a redigir uma receita. Olhando de relance para o papel que ele me estendeu, percebi que haviam sido prescritos alguns chás e medicamentos fitoterápicos. Com voz segura e calma, o médium me alertou que, se eu não tomasse providências, dentro de um ano estaria enfrentando uma doença grave.

A essa altura, talvez por cansaço, minha arrogância intelectual havia reocupado lugar de destaque em meu psiquismo. Cheia de ironia, comentei com meu amigo que nada daquilo fazia lógica e rasguei com fúria o papel. Exatamente um ano mais tarde eu fui diagnosticada com um câncer.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Sem medo da integridade

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Interligne vertical 10Medo 2“Para ser grande, sê inteiro: nada
Teu exagera ou exclui.
Sê todo em cada coisa. Põe quanto és
No mínimo que fazes.
Assim em cada lago a lua toda
Brilha, porque alta vive”.

Fernando Pessoa

É difícil manter a própria integridade. O caminho é duro, pedregoso, árido. Muitas vezes na vida acreditamos que, se formos capazes de verbalizar integralmente – e sempre – nossa verdade emocional, vamos perder o afeto de quem nos interessa. E esse risco existe, de fato.

Agora, reflita um pouco: de que lhe adiantaria manter um afeto fundado no medo? De que forma você acredita que o relacionamento se manteria quando fossem detectados os primeiros sinais de que esse medo está desaparecendo?

Exato, seria preciso manter ad eternum a tática do medo. Seria preciso inventar continuamente razões para que o medo não se dissipe por completo. Já imaginou o desgaste emocional que essa prática acarreta, tanto para quem a utiliza quanto para quem é vítima dela?

Medo 3Deve haver uma razão, bastante prosaica até, para que Dona Dilma e os marqueteiros que coordenam sua campanha se valham de um recurso que lhes foi impingido de forma tão cruel em eleições passadas. “Sem medo de ser feliz” era o mote então. Muitos resolveram apostar nessa proposta e elegeram aquele que lhes prometia a felicidade.

Cabe agora uma perguntinha impertinente: se a maioria dos eleitores brasileiros alcançou mesmo o patamar da felicidade prometida e aspirada, que motivos teriam muitos deles para virar as costas aos que lhes propiciaram dias felizes? Por que se deixar seduzir por aqueles que agora lhes prometem mais, ou outro tipo de, felicidade?

Medo 1Segundo os evangelistas, Cristo alertou um dia: “A verdade vos libertará”. Mesmo sem querer me envolver em falso diletantismo religioso, acredito nisso. Transformei essa frase numa espécie de mote para minha vida. Não acredito que haja “a” verdade universal. Acredito na minha verdade. Acredito que o melhor jeito de a gente crescer e passar a responder integralmente por nosso destino é aceitar o risco do desconhecido. Lançar-se no abismo fantasmagórico, enfrentando o medo de peito aberto e sem rede de proteção. Ser verdadeiro para consigo mesmo. Ser leal às próprias crenças.

Pode ser que eu seja exceção, mas, quando me sinto enredada numa prática asquerosa e pegajosa de sedução, meu alarme interno dispara. Se sou eu a querer a continuidade do relacionamento, por que cargas d´água o outro me ameaça insinuando que eu não vou conseguir viver sem ele???

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.