Os perigos da euforia

José Horta Manzano

Na madrugada passada, em mero controle rotineiro levado a cabo na estação ferroviária de Sesto San Giovanni, periferia de Milão, dois agentes da polícia local patrulhavam a plataforma de desembarque. Em escolha aleatória, sem desconfiar da identidade da pessoa a quem se dirigiam, pediram a um jovem recém-desembarcado que mostrasse seus documentos. Em resposta, o interpelado sacou um revólver calibre 22 e atirou à queima-roupa num dos dois policiais. Ferido no ombro, o agente veio a terra. O patrulheiro que o acompanhava não esperou sua vez. Sacou imediatamente e, em compreensível e legítimo gesto de defesa, atirou no desconhecido. Não errou o golpe. Atingido em cheio, o desconhecido desmoronou. Morto.

italia-sesto-san-giovanniNeutralizado o agressor, foram feitas as verificações habituais. Com espanto, constatou-se que se tratava do assassino de massa, aquele que havia lançado um caminhão, como um bólido, sobre uma multidão em Berlim, dias antes. As impressões digitais e a comparação fotográfica com a sinalização difundida pela polícia alemã não deixam dúvida sobre a identidade do morto. Bilhetes de trem encontrados nos bolsos do tunisiano darão indicações sobre sua rota de fuga. Talvez levem a eventuais cúmplices. Até aí, não há nada a criticar. O fugitivo não foi «executado», como às vezes acontece. A prova da troca de tiros é justamente o policial ferido, atualmente hospitalizado e que, felizmente, não corre risco de vida. O mundo está ficando cada vez menor. A informação circula cada vez mais rápido. Os tempos andam duros para contraventores, criminosos e fugitivos em geral. (Que o digam os que a Lava a Jato tem apanhado de calça curta.)

O terrorista enfrentou a polícia italiana e foi por ela posto fora de combate. Os agentes que, por ofício, patrulhavam a estação cumpriam horário. A agressão foi cometida contra o Estado italiano. O policial, naquele momento, representava a nação. Acontece que os italianos têm o dom de dramatizar. O ministro dos Negócios Internos deu, esta manhã logo cedo, coletiva de imprensa. Relatou o acontecido e fez questão de dar o nome completo do policial de cuja arma saiu a bala que matou o terrorista. A meu ver, não agiu ajuizadamente. Por duas razões, deveria ter omitido o nome do agente.

policia-4Primeiro, por razões éticas e de privacidade. Talvez o jovem não aprecie que o planeta fique sabendo que foi ele a acionar o gatilho que tirou a vida de um semelhante. Atirou contra um criminoso, sem dúvida, assim mesmo há de ser desconfortável ser apontado na rua como responsável direto pela morte de alguém. Agora não tem mais jeito: com nome, idade e currículo divulgados, será impossível escapar.

Há uma segunda razão, talvez mais grave que a anterior. Daqui a alguns meses, a poeira terá baixado para a maioria de nós. No entanto, mandachuvas do Estado Islâmico, fanáticos, radicais & outros destrambelhados podem não esquecer nunca. O policial ‒ que agora tem identidade conhecida ‒ periga passar o resto da existência na angústia de ser vítima de vingança.

O ministro italiano deveria ter-se lembrado do caso do escritor britânico Salman Rushdie, aquele que publicou, em 1988, um livro considerado ofensivo aos valores islâmicos. O homem, que nunca mais pôde levar vida normal como qualquer cidadão, vive sob proteção da polícia secreta britânica faz quase trinta anos.

De atentados

José Horta Manzano

É fácil ser profeta do passado. Acontecido o fato, é cômodo dizer “eu tinha avisado”.

Na esteira dos atentados que têm castigado a Europa ultimamente, muita gente tem aproveitado para emitir críticas. Depois da carnificina de Berlim, tenho ouvido comentários injustos. Até respeitados analistas vêm censurando a Alemanha por não se ter premunido contra camicases e atacantes. «Onde está a proverbial eficiência alemã? Deviam ter protegido melhor os frequentadores da feira berlinense!» É, falar é fácil.

feirinha-1Feiras natalinas são manifestações de rua tradicionais na Europa do norte, mas não só. Nesta época, são montadas por toda parte. Para se ter uma ideia de como são populares, leve-se em conta que, somente em Berlim contam-se quase sessenta feiras. Na Alemanha inteira, são muitas centenas. O mesmo acontece na França, na Suíça, na Áustria, assim como nos países escandinavos, nos Países Baixos e até na Europa mediterrânea. As barraquinhas oferecem sortimento variado: comes e bebes, artigos de Natal, artesanato, obras de artistas desconhecidos, roupas, tricô, crochê e muita coisa mais.

Prevenir atentado é tarefa impossível. Não se pode pôr um segurança ou um policial protegendo cada cidadão. É ilusório imaginar soluções miraculosas. Haverá sempre uma brecha para um coquetel molotov, uma rajada de Kalashnikov, um camicase com cintura de explosivo, um atropelamento múltiplo. Quando se sabe que um único indivíduo ‒ um «lobo solitário» ‒ pode causar estrago pesado agindo praticamente desarmado, a gente se sente indefeso. Com razão.

feirinha-2Até certo ponto, pode-se reforçar a segurança de aeroportos e estações ferroviárias, que são lugares confinados. Pórticos de detecção de metais, policiamento ostensivo, controles inopinados, câmeras de vigilância não eliminam todo risco, mas ajudam. Já nas ruas, em feirinhas, em grandes lojas, em centros comerciais, em igrejas, nunca se alcançará proteção total. O atentado de Berlim, infelizmente, não foi o último.

Sobra um (magro) consolo: tudo acaba passando. A história é feita de ciclos, de altos e baixos, de vaivéns, de tempestades e bonanças. Durante os anos 70 e 80, sequestros de avião eram praga mundial. Não passava uma semana sem avião desviado. Hoje, já não se ouve mais falar. O dia chegará em que atentados às cegas, como os atuais, serão apenas amarga lembrança.

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Nota linguística
Os alemães chamam essas manifestações de Weihnachtsmarkt. Os franceses dizem Marché de Noël. Os espanhóis dizem Mercado (mercadillo) navideño, enquanto os italianos preferem Mercatino di Natale. Os suecos dizem Julmarknad. Ainda que adaptada ao espírito de cada língua, todas as expressões empregam a raiz mercado.

Alguns jornalistas se deixam contaminar pelo original estrangeiro e traduzem por «Mercado de Natal». Não me parece apropriado. Mercado, para nós, é outra coisa. Nossa expressão «Feirinha de Natal» é mais adequada.

Quando eu morrer, não quero choro nem vela

José Horta Manzano

Você sabia?

Todos já ouviram falar do cemitério parisiense Père-Lachaise, provavelmente o mais famoso do planeta. Turistas vêm do outro lado do mundo só para ver de perto as tumbas que guardam os despojos de gente famosa. É o lugar de repouso eterno mais visitado: três milhões e meio de curiosos acorrem a cada ano.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Também, pudera. Artistas do porte de Georges Bizet e Frédéric Chopin estão lá. Samuel Hahnemann, o inventor da homeopatia e a artista Sarah Bernhardt também. Allan Kardec, Edith Piaf e centenas de celebridades repousam no Père-Lachaise.

Genebra, cidade internacional mas relativamente pequena, não conta com o esplendor parisiense e nunca exerceu a atração planetária da Cidade-Luz. Assim mesmo, tem um cemitério singular: o Cimetière des Rois ‒ Cemitério dos Reis. Com 2,8 hectares, a necrópole suíça é bem mais modesta que sua equivalente francesa, que se espalha por 44 hectares.

O Cimetière des Rois fica no coração da cidade e, a um turista desavisado, pode até parecer um jardim público. Não é qualquer um que tem direito a eleger residência eterna ali. Todo pedido de concessão tem de ser feito ao Conselho Administrativo da cidade. Cada caso é estudado minuciosamente. Novas autorizações são raras.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Unicamente magistrados e personalidades marcantes ‒ nacionais ou estrangeiras ‒ que tiverem dado contribuição significativa à cidade serão admitidas. Essa política restritiva explica que as sepulturas cheguem hoje a pouco mais de trezentas.

Na maior parte delas, repousam celebridades locais, nem sempre conhecidas além-fronteiras. A tumba mais famosa e mais visitada é a de Jean Calvin (João Calvino), teólogo cristão de origem francesa cuja influência sobre a Reforma Protestante em Genebra, no século XVI, foi determinante. Suas ideias marcaram a implantação do protestantismo em outras terras, até no Reino Unido, na Holanda e nos EUA.

Ernest Ansermet, maestro suíço de renome internacional está enterrado lá. Dois argentinos famosos também: o compositor Alberto Ginastera e o escritor Jorge Luís Borges. O psicólogo suíço Jean Piaget é outro cujos restos repousam no cemitério genebrino.

Cimetière des Rois, Genebra

Cimetière des Rois, Genebra

Um único brasileiro faz parte do seleto clube dos que tiveram direito a sepultura no Cimetière des Rois. Trata-se do carioca Sérgio Vieira de Mello, alto-comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, morto em 2003, aos 55 anos de idade, num atentado em Bagdá. Funcionário de carreira da ONU, era pressentido como possível futuro secretário-geral da organização. O destino tomou outra decisão.

Origem do nome
Nenhum rei está enterrado no cemitério de Genebra. A origem do nome é bem mais prosaica: está situado na Rue des Rois ‒ Rua dos Reis.

Extremismo à brasileira

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cabeçalho 13

Olá,

Somos um grupo amador brasileiro especializado em atentados a bancos, empresas e veículos de segurança, tráfico de armas e de drogas. Apesar de já termos galgado posição de destaque junto à criminalidade dentro e fora do território do Rio de Janeiro, sentimos que ainda não alcançamos a projeção a que aspiramos e à qual acreditamos ter direito na mídia brasileira e internacional. Atribuímos esse estado de coisas à acirrada concorrência que temos enfrentado nos últimos anos na esfera política nacional. São tantos e tão variados os escândalos de corrupção na administração municipal, estadual e federal que praticamente não sobra tempo à imprensa livre para cobrir eventos ‒ por mais impactantes que sejam ‒ fora do âmbito político-empresarial.

Assalto 10Em função dessas contingências, estamos pensando em nos profissionalizar e atuar fora de nossa área de especialização, evoluindo para a área do terrorismo internacional. Contamos com muitas habilidades que, temos certeza, serão de grande valia para sua organização durante a realização dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Conhecemos cada minúsculo beco da cidade-sede, temos gente nossa infiltrada em milícias das várias comunidades cariocas, na polícia estadual e até mesmo em quadros da administração local. Além de podermos facilmente nos misturar à multidão, não enfrentamos obstáculos maiores para lidar com o controle de fronteiras, em especial no sul do país, já que contamos com soldados habituados a tratar com militares na tríplice fronteira Brasil – Argentina – Paraguai.

JO 2016Para melhor servi-los, já nos inscrevemos em cursos diversos, inclusive artes marciais, tiro e língua árabe. Adquirimos recentemente algumas metralhadoras AK-47 numa transação virtual com lojas do Paraguai para não levantar suspeitas desnecessárias, coisa que certamente teria ocorrido caso nos tivéssemos deslocado até lá.

Outro de nossos diferenciais é que fazemos parte de uma população universalmente reconhecida como inventiva, adepta da improvisação e aberta às mais diversas orientações sociais, religiosas e ideológicas. Multiculturalismo, acolhimento de estrangeiros e sincretismo religioso são pontos fortes de nossa cultura e de nosso grupo. Ainda que nos agrade pensar que somos abençoados pelo Cristo Redentor, não vemos incongruência em aderir aos preceitos muçulmanos, principalmente se as virgens prometidas aos mártires da fé puderem ser desfrutadas com antecedência, já neste plano, e se nossa cervejinha santa de todos os dias puder ser consumida excepcionalmente por nossos combatentes, ao menos nos dias de ação.

Cerveja 1Podemos adicionalmente oferecer consultoria quanto às características físicas, vestimentárias e comportamentais a ser observadas por lobos solitários que venham a ser recrutados. Como deve ser de seu conhecimento, o calor da cidade do Rio de Janeiro, inclusive no inverno, torna contraindicado trajar vestes pesadas ou portar cinturões de explosivos que só serviriam para retardar o deslocamento e a fuga. Dispomos de farto estoque de bananas de dinamite que poderiam ser rapidamente alocadas em diversos locais de concentração de público. Ninguém se assustaria também com a visão de armas de grosso calibre, nem com eventuais tiroteios, uma vez que isso já faz parte da paisagem natural carioca. Nosso trânsito caótico pode permitir ainda a utilização de todo tipo de veículos leves e pesados, mesmo em áreas interditadas. Atropelamentos não são exatamente uma novidade para nós. Podemos considerar inclusive a utilização de embarcações de todos os tipos para rápido deslocamento por mar durante as provas aquáticas. Finalmente, estamos preparados para nos valer de infinitas formas de disfarce, como é tradição em nosso Carnaval.

Odalisca 1Expostas todas essas características, só nos resta torcer para que vocês, companheiros de luta, se sensibilizem e aceitem nosso pedido de filiação. Aguardamos ansiosamente sua resposta e nos colocamos à disposição para toda informação adicional concernente à nossa expertise. Aproveitamos o ensejo para solicitar que a comunicação entre nós fique restrita à troca de faxes, considerando o alto risco de rastreamento de nossos celulares.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Dicas para atentado

José Horta Manzano

Seria cômico se não fosse trágico. Ok, a frase é batida, já virou chavão, mas continua dando recado certo. Não fosse a triste realidade, seria piada daquelas de a gente se esborrachar no chão.

Da meia dúzia de megalópoles brasileiras, o Rio de Janeiro é a primeira a vir à mente quando o assunto é violência e ousadia da bandidagem. Estatisticamente, o Rio pode até ser superado por alguma outra capital. No entanto, no imaginário do brasileiro, persiste a ideia de que a cidade é violenta.

Chamada do Estadão, 21 jul° 2016

Chamada do Estadão, 21 jul° 2016

Já ensinava o Conselheiro Acácio que é muito difícil prever o futuro, que todos podemos nos enganar. Mas arriscar um palpite não é proibido. Quanto a mim, o risco de atentado terrorista no Brasil ‒ e nos JOs do Rio em particular ‒ é muito baixo.

É um bocado problemático imaginar um candidato a camicase embarcar num avião em Istambul ou Paris, desembarcar no Rio, procurar seu contacto, receber instruções, cintura de explosivos e kalashnikov, chegar até o lugar do atentado em dia e hora, burlar todos os controles e, finalmente, ser bem sucedido em sua façanha. Há muito obstáculo pelo caminho: distância transcontinental, barreira da língua, diferença de aparência física, dificuldade de transitar com material explosivo debaixo de roupas leves como as que usamos em clima tropical.

Assalto 2Quanto à bandidagem nacional, não há problema, é de outra natureza. As motivações estão a anos-luz de todo fanatismo religioso. Nossos bandidos domésticos são mais chegados à desonestidade, à malandragem, à boa-vida. Não me parece que se deixem comover por apelo de djihadistas. Faz anos que sabem como agir sem precisar de orientação.

Não há grande coisa que se possa fazer pra evitar distúrbio maior. De toda maneira, nossa catástrofe já está aí, diária, crônica, longeva e permanente. Já temos similar nacional, dispensamos importação.

Tribunal da consciência

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Estou seriamente preocupada. Esgotaram-se os argumentos que eu poderia usar em minha defesa caso um dia fosse acusada injustamente de alguma transgressão grave.

Mortificada com a atual onda de delações, premiadas ou não, eu vinha me preparando para enfrentar o surgimento de potenciais acusadores, conhecidos ou desconhecidos, cujas motivações me fossem sabidas ou sentidas como absolutamente sem propósito.

Me engana, que eu gosto

Me engana, que eu gosto

Só para que se possa dimensionar melhor o tamanho da minha aflição, eis uma lista não exaustiva das alegações que coletei ao longo de poucas semanas:

  • Sou absolutamente inocente e provarei isso no momento oportuno.
  • Tenho a consciência limpa e tranquila.
  • Sou a alma mais pura do planeta.
  • Isso é uma calúnia, uma difamação intencional.
  • Não há provas contra mim.
  • Delação não é prova.
  • Sou uma pessoa honesta.
  • Não menti. Nunca fiz nada de que possa me arrepender.
  • Tenho uma longa história de prestação de serviços a meu povo.
  • Estou sendo vítima de perseguição política.
  • Meus advogados provarão em tribunal que não tenho nenhuma responsabilidade.
  • Confio na Justiça do meu país e tenho certeza de que a verdade prevalecerá.

E por aí vai. Que ninguém se engane, os malfeitos de que podemos todos ser acusados não se restringem ao campo político. Destruição intencional do sistema ecológico; contratação de mão de obra infantil ou de trabalhadores em regime análogo à escravidão; acobertamento de pedófilos, estupradores e criminosos, comuns ou de trânsito; discriminação racial, religiosa, social ou ideológica, etc. e até maus tratos a animais são outras possibilidades bastante comuns.

É por isso que minha paranoia persiste. Mesmo tendo muitas vezes a impressão de que sou uma pessoa do bem, generosa e responsável, sempre comprometida com o bem-estar de terceiros, não posso descartar a chance de que outras pessoas me avaliem sob ótica diferente. Alegar que agi contra a lei movida por “questões humanitárias”, como já tentaram antes, também não me serve de salvo-conduto. Sou humana, eis tudo.

ContriçãoOntem fui dormir preocupada, ainda sob o impacto do mais recente atentado terrorista. No limiar entre a vigília e o sono, me perguntava como e por que as pessoas enlouquecem e se dispõem a destruir tudo à sua volta. Serão esses eventos extremos uma triste consequência da confusão que estamos fazendo entre o mundo virtual e o real? Quando uma pessoa aceita se divertir com jogos virtuais que propõem atropelar o maior número possível de pessoas ou disparar tiros de metralhadora a esmo para atingir o máximo de “inimigos”, como ela faz para conter a náusea provocada pelas imagens de corpos destroçados? Será que é preciso sentir o cheiro de sangue para que a experiência do horror se concretize?

Outro detalhe relevante para entender meu pesadelo. Durante a tarde, eu tinha gasto também algumas horas cuidando da tradução de um termo de responsabilidade redigido em sutil palavreado jurídico. A empresa solicitava que contratados temporários assinassem uma declaração isentando o empregador de responsabilidade por eventuais acidentes de que pudessem ser vítimas no trabalho. Senti um aperto no peito ao buscar os termos mais adequados para traduzir essa intenção e tentei me livrar dele pensando com meus botões que, fosse como fosse, o documento não teria validade jurídica em nenhuma corte nacional nem internacional.

Não me arrependo de nada

Não me arrependo de nada

Sonhei que estava em Nice e era contratada pelo dono da empresa de transportes para traduzir um comunicado público, através do qual ele pretendia “dourar a pílula” de sua responsabilidade pela tragédia do 14 de julho. Continha frases como “já transportamos cargas e cargas de alegria, esperança e vida”, “caminhões são apenas ferramentas”, “não podemos responder legalmente pelo mau uso de nossos veículos”, “o motorista não fazia parte de nossos quadros”, etc.

O crescente incômodo com aquelas tentativas vergonhosas de livrar a própria cara acabou me forçando a interromper o trabalho. Resolvi telefonar para o proprietário e alertá-lo sobre as consequências negativas para a imagem de sua empresa. Lembrei a ele que muitas famílias traumatizadas poderiam acioná-lo judicialmente pela insensibilidade de não oferecer ajuda. No limite, disse, ele estaria dando um tiro no próprio pé, correndo o risco de nunca mais conseguir alugar seus caminhões para boa parcela da população local. Arrogante, ele enfatizou que cabia a mim apenas a tarefa de colocar em palavras exatas de outro idioma o que estava contido no documento original. Que, por não ser advogada, não me cabia julgar a adequação da conduta da empresa.

Cidade de Nice, que já foi lígure, grega, romana, ostrogótica, saboiana, piemontesa e italiana. Hoje faz parte da República Francesa.

Cidade de Nice, que já foi grega, romana, ostrogótica, genovesa, saboiana, piemontesa e italiana.
Hoje faz parte da República Francesa.

Indignada, informei então que estava desistindo da tarefa que me fora confiada. Ele reagiu com indiferença. Desliguei o telefone e sai à rua, tentando me acalmar. Meu cérebro, no entanto, não me dava sossego. A pergunta circulava com velocidade cada vez maior na minha cabeça: “Afinal, não foi isso o que você sempre fez e sempre se orgulhou de fazer? Convencer as pessoas com palavras bonitas de que suas intenções são nobres?”

Acordei encharcada de suor. Pensando bem, talvez tenha sido esse, de fato, o propósito de todo meu labor. Mas, se isso é verdade, o que dizer das palavras que meu anjo sopra em meu ouvido quando estou perdida? Será que ele não passa de um embusteiro, um demônio provocador?

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Turkish Airlines

José Horta Manzano

Você sabia?

Saiu estonteante notícia de terrível atentado terrorista no Aeroporto Atatürk, Istambul, Turquia.

Pois fique o distinto leitor sabendo que os camicases de miolo mole não escolheram um aeroporto ao acaso. Istambul tem-se tornado entroncamento (em novilíngua brasileira: hub) importantíssimo no tráfego aéreo.

Aeroporto Atatürk, Istambul

Aeroporto Atatürk, Istambul

A empresa aérea Turkish Airlines, cuja base de operações é justamente o aeroporto de Istambul, é a que maior número de países serve. Parece incrível? Pois é verdade. Seus aviões chegam a 126 países(!). Em segundo lugar, lá atrás, estão empatadas a LuftHansa e a Emirates, com 83 países cada uma.

Excluindo voos nacionais e voos intraeuropeus, a Turkish Airlines é a segunda companhia aérea mundial em número de passageiros transportados. Só a Emirates a supera.

Cada coisa que a gente fica sabendo, não?

Euro 2016

José Horta Manzano

Futebol 3Não sei se o distinto leitor aprecia futebol. Eu adoro. Não sou torcedor de time nenhum, não sigo campeonato, não faço continha de chegar pra ver quem tem chance de ganhar. Mas admiro o espetáculo, pouco importando quais sejam as equipes em campo. O que conta é que os jogadores estejam inspirados, que os passes sejam certeiros e os dribles, inteligentes. Que goleiros façam defesas espetaculares e que, assim mesmo, haja muitos gols.(1)

Começa hoje o Euro 2016. Para quem não sabe, é a Copa do Mundo bis. Realiza-se a cada quatro anos, alternadamente com o Campeonato do Mundo. Nos tempos em que a seleção brasileira era incondicionalmente reverenciada, costumava-se dizer que o campeonato europeu era uma Copa do Mundo sem Brasil e Argentina. Hoje, as coisas mudaram um pouco. O triunfo de um previsível 7 x 1 não chega a deletar o fracasso de um doído 1 x 7.

Durante um mês, até a grande finale do dia 10 de julho, apreciadores vão vibrar com o desempenho de 24 seleções nacionais atuando num total de 51 partidas. Quem anda preocupadíssimo é o governo da França, país que hospeda o Euro 2016. Além do perigo de atentado terrorista, risco potencializado pela concentração de multidões nos estádios e nas «fan zones»(2), há movimentos oportunistas de greve de lixeiros, pilotos de avião e de outras categorias, todos incentivados por líderes sindicais que não enxergam além do próprio umbigo . Um problemão.

Estadio 1Espero (e imagino) que os responsáveis pela segurança dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro tenham enviado observadores pra ver o que os especialistas franceses estão fazendo pra proteger a população. Risco zero não existe, é verdade, mas sempre vale a pena prevenir.

Michel Platini, presidente caído da União Europeia de Futebol, deveria ter agora seu momento de glória. Não deu, pior pra ele. Condenado a manter-se afastado do futebol por alguns anos, não deve sequer comparecer à cerimônia de abertura. Por seu lado, é esperada a presença do presidente da França.

A França tem um presidente só. Quanto a nós ‒ fato extraordinário ‒ temos dois. O único exemplo parelho que me ocorre é o do Vaticano, com seus dois papas. É clube pra lá de seleto.

Interligne 18f(1) Gols
Segundo o Dicionário Houaiss, o plural natural deveria ser goles. Fica esquisito, não? Falando nisso, os portugueses preferem “um golo”, “dois golos”. Misecordioso, o Volp ‒ nossa bíblia na matéria ‒ admite o barbarismo gols como forma plural consagrada pelo uso. Assim é a vida: quem faz a língua são os que a usam.

(2) Fan zones
São locais públicos de grandes dimensões ‒ praças, parques, esplanadas ‒ onde se concentra grande número de torcedores sem bilhete. O jogo é transmitido por telões.

Por quem dobram os sinos

José Horta Manzano

Estarrecida, a parte decente da humanidade recebeu ontem notícia do atentado que deixou mais de 30 mortos em Bruxelas. A onda de choque alastrou-se pela Europa, atravessou oceanos e foi parar na primeira página da mídia mundial. A notícia apareceu, com destaque, em todos os meios de comunicação, sem exceção.

Para gente que tem os miolos no lugar, é impossível apreender o raciocínio torto que leva alguém ‒ por motivo pseudorreligioso ‒ a suicidar-se levando consigo o maior número de indivíduos, pouco importa se culpados ou inocentes, fiéis ou infiéis, irmãos de fé ou apóstatas.

Chamada do Estadão, 22 mar 2016

Chamada do Estadão, 22 mar 2016

Há quem veja aí o radicalismo religioso que se exprime através do crime. Prefiro enxergar criminalidade ordinária que se esconde atrás de uma fachada de radicalismo religioso.

Enganam-se os que acreditam que o interesse maior do camicase seja arrebanhar novos discípulos ou propagar a fé. As cabeças pensantes que instigam essas personalidades fracas estão na retaguarda, protegidas, a salvo do perigo. A infantaria que se sujeita a explodir em praça pública é constituída de jovens que se sentem rejeitados pela sociedade e que procuram seus cinco minutos de glória. Uma lavagem cerebral os convence, sem dificuldade, que o melhor caminho para a glória é a cintura de explosivos.

Interligne 18h

Logo abaixo da manchete sobre o massacre da Bélgica, a mídia brasileira dava conta das estatísticas da criminalidade tupiniquim. Segundo a mais recente edição do Atlas da Violência, 59.267 homicídios foram cometidos no Brasil em 2014, o número mais elevado da história.

Chamada do Estadão, 22 mar 2016

Chamada do Estadão, 22 mar 2016

Isso significa 162 assassinatos a cada dia, cinco vezes o total de vítimas de Bruxelas. Todos os dias, todos os meses, todos os anos. Trocando em miúdos, a cada 8 minutos e meio, um brasileiro morre assassinado. A probabilidade é grande de um conterrâneo ter sido morto enquanto o distinto leitor lia este artigo. Se assim não foi, acontecerá nos próximos minutos ‒ é verdade estatística.

Estamos todos chocados com o que aconteceu na Europa. Durante dias, semanas e meses veremos comemorações, missas e reportagens. Sem intenção de desrespeitar as vítimas do atentado, pergunto: quem chora pelas sessenta mil vidas ceifadas neste país tropical e cordial?

Sete voltas na língua

José Horta Manzano

O distinto leitor já deve ter ouvido o conselho: «se estiver sob forte emoção, conte até dez antes de tomar qualquer decisão». É recomendação sábia mas raramente seguida. Decisão tomada na hora da raiva, do sufoco ou da pressão geralmente dá aborrecimento.

Faz hoje exatamente um ano que a redação do semanário francês Charlie Hebdo foi invadida por terroristas que assassinaram uma dúzia de funcionários. O ato covarde ecoou no planeta. Passeatas, manifestações, discursos políticos, medidas de segurança reforçada se seguiram.

Paris, atentados de 13 nov° 2015 Balanço de mortos e feridos

Paris, atentados de 13 nov° 2015
Balanço de mortos e feridos

Meses mais tarde, quando a ferida ainda não havia cicatrizado, veio a tragédia dos atentados de 13 de novembro. Naquela noite terrível, 472 pessoas, de 26 diferentes nacionalidades, foram mortas ou feridas. Dois conterrâneos nossos, aliás, estavam entre as vítimas. Na França, a comoção atingiu o grau máximo.

Passeport françaisO abalo do momento provocou reação forte do presidente François Hollande. Ele preconizou a retirada da nacionalidade francesa a quem fosse condenado por crime de terrorismo. A ele e a seus conselheiros, o simbolismo da medida pareceu à altura da enormidade do crime.

Como toda decisão tomada de afogadilho, essa também deu que falar. Observadores mais atentos alertaram para o fato de que eventual destituição de nacionalidade criaria apátridas, o que é contrário à Declaração dos Direitos Humanos, aos quais a França é tão apegada.

Para consertar o estrago sem perder a face, o presidente corrigiu: a confiscação da nacionalidade francesa somente se fará se o terrorista tiver dupla cidadania, a francesa e uma outra. Ficou pior a emenda que o soneto.

Com a modificação na proposta, estariam criadas duas categorias de franceses. Por um lado, haveria os de primeira linha, dos quais a nacionalidade não poderia, em nenhuma hipótese, ser retirada. Por outro, haveria os de segunda linha, sujeitos a perder a cidadania. Um atentado frontal ao princípio de igualdade dos cidadãos.

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão Aprovada em 14 junho 1793

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão
Aprovada em 14 junho 1793

Estes dias, diante do imbróglio criado pelo pronunciamento irrefletido, o assunto não sai das manchetes. Personalidades do mundo político (mas não só) deitam e rolam. Cada um faz questão de dar sua opinião e de dizer o que pensa. Fulano desdiz sicrano, que desmente beltrano. O pau come firme. Tornou-se verdadeiro debate nacional, equivalente ao bate-boca sobre impeachment de dona Dilma. No momento em que escrevo, decisão definitiva ainda não foi tomada.

Impossível vai ser encontrar solução que satisfaça a todos. O mais provável é que saiam todos desapontados. De outra vez, antes de falar, Monsieur Hollande devia dar sete voltas na língua. Nós também.

Porta aberta

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 5 dez° 2015

Vicente CelestinoNo longínquo ano de 1946, com vozeirão potente que caracterizava cantores da era anterior à chegada do microfone, Vicente Celestino lançou a toada Porta Aberta. Fez sucesso retumbante. Falava da porta de uma igreja que, simbolicamente, se abria para acolher de volta uma ovelha desgarrada, um vivente abandonado pela sorte.

Toda casa costuma ter porta. À discrição do dono, visitas são recebidas ou rechaçadas. A porta se abre para os bem-vindos, cheguem eles para visita de médico, para algumas horas ou até para pousar. Quanto aos indesejados, que procurem outra freguesia. Dono não é obrigado a permitir entrada a quem não lhe convém.

Porta 1Assim como igrejas e casas, país soberano também tem porta. Virtual, ela não está presa por gonzos a nenhum batente. Os nacionais, que têm franqueada a saída do país e a volta a ele, quase não se dão conta da sutil barreira. É que não lhes faz falta nenhuma autorização especial, o que não ocorre com estrangeiros.

Afora casos especiais em que a livre passagem tenha sido sacramentada por tratados – como acontece entre alguns países da União Europeia –, não se entra em terra estrangeira como se adentra o botequim da esquina. Nem todos os viajantes são iguais perante inspetor de alfândega e polícia de fronteiras.

Trafic 4Caso o viajante seja titular de passaporte emitido por país com o qual foi assinado acordo de liberação de visto, terá direito a entrar como turista, por período limitado, sem exercer atividade remunerada. No Brasil e na maior parte do mundo, a permanência padrão é de 90 dias. Na hipótese de o estrangeiro vir a trabalho ou estar planejando longa estada, é imperativo ter obtido previamente visto específico emitido por representação consular brasileira.

Visando a regrar a exigência de documentos, o Brasil – nação soberana e responsável – assinou, ao longo dos anos, convenções com a quase totalidade dos países. Esses acordos, fruto de tratativas cuidadosas, respondem a interesses mútuos. Cidadãos de numerosos países estão dispensados de visto para visita turística de até 90 dias a nosso país. Por razões ligadas à segurança do território e dos habitantes, o Estado brasileiro decidiu não conceder a mesma facilidade a todos. Cidadãos de determinados países só pisarão nosso chão se estiverem munidos de visto obtido no estrangeiro.

Não é segredo para ninguém que a política econômica dos últimos anos deixou o país em estado calamitoso. Rapinagem crônica e gestão arrevesada esvaziaram as burras. Para remediar, nosso governo anda no sufoco, raspando fundo de gaveta e matando cachorro a grito. Na esperança de incrementar o número de turistas que acudirão aos JOs 2016, mentes iluminadas imaginaram suspender a exigência de visto de entrada… para cidadãos de todos os países!

Passaporte 2Sancionada por dona Dilma, a lei já está em vigor. Vale até setembro do ano que vem. Abriu-se um hiato de dez meses durante os quais nosso país virou casa de mãe joana: entra quem quiser. O Brasil abre mão de um dos atributos maiores da soberania tão cara a nosso governo popular: o direito de filtrar a entrada do território. Durante quase um ano, passa qualquer um. Entre sem bater, minha gente, que a boca é livre!

Num mundo assolado por atentados, ataques terroristas e migrações de proporções bíblicas, a decisão é, no mínimo, temerária. Os caraminguás que um hipotético acréscimo de turistas trará não compensam a amplificação dos riscos. Um atentado perpetrado durante os JOs sairá bem mais caro que os dólares adicionais.

Passaporte 1A outra ameaça evidente é a de um acréscimo descontrolado da imigração ilegal. Sem a triagem do visto prévio, qualquer um vai poder se achegar. Ninguém é capaz de predizer o volume desse afluxo. Não é impossível que, daqui a um ano, tenhamos recebido milhões de estrangeiros aos quais, em circunstâncias normais, teria sido negado o visto. É lícito supor que centenas de milhares de viventes abandonados pela sorte – como cantava Vicente Celestino – aproveitem a porta aberta, entrem e não queiram mais sair. Estará armada uma sinuca de bico.

Um quarto de século atrás, o socialista Michel Rocard, então primeiro-ministro da França, pronunciou frase célebre: «La France ne peut pas accueillir toute la misère du monde» – a França não pode acolher toda a miséria do mundo. O Brasil tampouco. No intuito de vestir um santo, estamos despindo outro. Com todos os problemas que já temos, não precisamos correr atrás de mais um. Arrombada a porta, minha gente, será tarde pra botar tranca.

Quem avisa, amigo é

José Horta Manzano

Semana passada, quando de visita à Turquia, dona Dilma declarou que não havia por que se preocupar com ataques terroristas durante os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro. Segundo ela, o Brasil «está muito longe», fato que lhe parece garantia suficiente de imunidade.

Laurent Fabius 1Declaração de presidente ecoa. As palavras de dona Dilma deram a volta ao planeta em poucos segundos e chegaram aos ouvidos de todas as chancelarias. O pronunciamento deixou petrificado um governo francês já açoitado pelos sangrentos atentados ocorridos dias antes.

O descaso demonstrado por nossa mandachuva é criminoso, mormente quando se leva em conta o fato de já haver precedentes. De fato, tragédia terrível ocorreu durante os Jogos Olímpicos de 1972 em Munique. Naquela ocasião, em ataque à delegação de Israel, terroristas deixaram um rastro de 11 atletas e um policial mortos. No esporte olímpico, ninguém se esqueceu dessa desgraça. No Planalto, não é espantoso constatar que ninguém sabia de nada.

Percebendo que o governo brasileiro, por ignorância ou arrogância, não se estava dando conta do perigo que se anuncia, a França despachou rapidinho a Brasília o Ministro de Relações Exteriores, Laurent Fabius. Veio conversar com nossa presidente e com senhor Mauro Vieira, titular do MRE brasileiro.

Laurent Fabius 2O que foi dito? Não se sabe exatamente, mas supõe-se que o visitante estrangeiro não tenha gastado seu domingo num passeio ao Planalto só para tomar chazinho com nossos mandatários. Ele certamente veio alertar para o forte risco que paira sobre Rio 2016.

Se observarmos bem as fotos tiradas na ocasião, vamos ver que, na chegada ao palácio, Monsieur Fabius segura o braço de nosso chanceler. O gesto é, ao mesmo tempo, amistoso e revelador. Lembra o indivíduo mais experiente que dá conselho de amigo. É como se dissesse: «Não bobeie, caro Mauro Vieira, o Brasil não está tão ‘longe’ assim.»

Brasil longe do terror

José Horta Manzano

No fim de semana passado, quando participava de reunião multinacional na Turquia, dona Dilma foi questionada sobre o risco de ataque terrorista ao Brasil durante os Jogos Olímpicos de 2016. A pergunta fazia sentido, dado que Paris acabava de sofrer mortífero atentado.

Dilma 1Dilma respondeu um tanto evasivamente, sem muita convicção, como se a pergunta a tivesse irritado: «não estamos muito preocupados com a possibilidade de atos terroristas no Brasil, uma vez que estamos muito longe». Soou distante e não convenceu.

Dias mais tarde, ao dar-se conta de que a afirmação da presidente não havia tranquilizado ninguém, o Planalto incumbiu o ministro da Justiça de serenar a plateia. Com cara de sério, ele cumpriu o contrato. Não sei se todos acreditaram. Em todo caso, o mui oficial portal Cuba Debate – aquele que publica as Reflexiones de Fidel – repercutiu a fala do ministro. Segundo o figurão, o Brasil «está totalmente preparado para garantir a segurança nos Jogos Olímpicos».

Menos romântico e mais próximo da realidade, o jornal O Globo trouxe, no sábado 21 de novembro, interessante artigo sobre ataques terroristas recenseados de 1970 até nossos dias. Uma análise mais atenta indica que o Brasil não está assim tão “longe” como imagina dona Dilma.

Ataques terroristas de 2000 a 2014 Crédito: Jornal O Globo

Ataques terroristas de 2000 a 2014
Crédito: Jornal O Globo

Entre 2000 e 2014, nosso país registrou nada menos que 17 ações terroristas, mais de uma por ano. É verdade que estamos longe do impressionante total de quinze mil atentados ocorridos no Iraque ou dos dez mil do Paquistão. Assim mesmo, constatamos que o Brasil foi alvo de mais atentados do que países teoricamente mais expostos como: Marrocos (12), Croácia (11), Sérvia (11), Portugal (2), Romênia (1) e Polônia (1).

Assalto 5Se, a esses atos reconhecidamente terroristas, acrescentarmos nossos costumeiros arrastões, sequestros-relâmpago, assaltos à mão armada & companhia, ultrapassamos Afeganistão e Paquistão com um pé nas costas. Sem contar os «malfeitos» do andar de cima naturalmente.

Brasil… longe do terror?

Não é só aqui

José Horta Manzano

Dizem que os brasileiros não botam muita fé nas autoridades. É compreensível, cada um tem suas razões: gato escaldado tem medo d’água fria. Tanto já nos mentiram, que a gente já anda precavido. O não imaginamos, no entanto, é que, em sociedades menos problemáticas, o mesmo sentimento esteja presente.

Na quarta-feira, a mídia planetária deu notícia do cerco que a nata da polícia francesa tinha feito a um imóvel da periferia de Paris onde, segundo informações confiáveis, se escondia o «cérebro» dos atentados da semana passada. (Boto «cérebro» entre aspas porque, por definição, quem assassina a esmo é descerebrado.)

Metralhadora 1Na quinta-feira, a mídia planetária repercutiu a confirmação oficial das autoridades francesas. O exame de ADN (=DNA) tinha dado o veredicto: o tal «cérebro» – o chefe do bando – estava realmente entre os que tinham sido pulverizados pela polícia. Todos festejaram, mas, no fundo, cada um guardou um pezinho atrás. Será verdade mesmo? Não estariam dizendo isso só pra tranquilizar o bom povo?

Nesta sexta-feira de manhã, os jornais falados abriram com grande manchete. Está realmente confirmado que o chefe do bando estava em Paris no momento dos atentados. A prova? O registro de uma das milhares de câmeras do metrô. Distingue-se claramente o indivíduo numa das imagens, tomada minutos após as primeiras deflagrações.

Desta vez, todos acreditaram. Jornalistas não se preocuparam em disfarçar o alívio que sentiam diante da comprovação de que as autoridades não haviam mentido.

Pra você ver, distinto leitor: não é só em Pindorama que a gente toma pronunciamentos oficiais com grande precaução.

De uma tragédia a outra

Piramide 1José Horta Manzano

Cada nova tragédia tira o foco da precedente. Os sangrentos acontecimentos de Paris tiraram do mapa a recente catástrofe ocorrida na península do Sinai. Refiro-me ao Airbus russo que caiu no deserto egípcio faz pouco mais de duas semanas. Vale lembrar que ambos entram na categoria dos atentados.

Se a importância de calamidades fosse medida em função do número de mortos, o desastre aéreo, com 224 vidas ceifadas, teria sido mais significativo que o da França. Mas a contabilidade macabra não funciona assim – outros fatores entram no cálculo.

A matança de Paris ocorreu… em Paris, cidade mítica. Toda agressão contra a Cidade Luz é ressentida como afronta ao mundo todo. Tivesse o atentado acontecido em Londres, Berlim ou Madrid, a comoção não teria sido tão intensa.

Avião 13No entanto, a queda do avião russo traz consequências catastróficas. Para o Egito, pobre e superpovoado – com mais de 80 milhões de habitantes – os rendimentos do turismo são cruciais. O balneário de Charm El-Cheikh, no litoral do Mar Vermelho, é pérola preciosa entre as atrações turísticas do país.

Na Rússia, desde que o rublo começou a degringolar, o povo empobreceu rapidamente. A partir daí, intensificou-se o tráfego aéreo entre Moscou ou São Petersburgo e a estância egípcia, destino de baixo custo, ao alcance do turista padrão. Diariamente, multidões de russos fugiam das neves subárticas para espreguiçar sob o sol do Mar Vermelho.

A confirmação de que o desastre aéreo foi provocado por bomba instalada a bordo por terroristas desfere duro golpe. As companhias aéreas já suspenderam, por tempo indeterminado, voos em direção ao Egito. Evitam, em especial, o aeroporto de Charm El-Cheikh.

Praia Charm El-CheikhComo consequência, turistas russos não podem mais passar uma semanazinha de férias num dos únicos lugares quentes que estavam ainda ao alcance de seu bolso. Pior que isso, o Egito deixa de recolher preciosas divisas estrangeiras. Estima-se que a perda será de 300 milhões de dólares mensais – três bilhões e meio por ano.

Se os terroristas queriam castigar o país dos farós, o objetivo foi atingido.

O que nos separa e o que nos une

Cabeçalho 3Myrthes Suplicy Vieira (*)

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Estarrecida com os recentes atentados ocorridos em Paris e, consequentemente, incapacitada de articular em palavras toda minha tristeza e solidariedade às vítimas, resolvi repassar a vocês as sábias palavras proferidas por minha cachorra mais velha:

Cachorro 2“O mal também está entre nós. O mal é irracional e, nesse sentido, animal. Como toda pulsão instintiva, ele age de forma devastadoramente intempestiva e inesperada. Não há como prever nem deter sua força destruidora. Só resta aos atingidos recolher-se por um tempo, lamber as feridas e ponderar sobre as próprias fragilidades. Depois, aos poucos, retomar a vida cotidiana com uma compreensão mais abrangente da responsabilidade de cada um no sentido de enfrentar de peito aberto os perigos que nos rondam.

Cachorro 7Há, no entanto, algumas diferenças importantes entre a forma humana e animal de agir maldosamente que eu gostaria de explorar por alguns instantes. Em primeiro lugar, nós animais somos incapazes de planejar uma ação, seja ela boa ou má. Vivemos exclusivamente no aqui e no agora, reagimos apenas aos estímulos que se nos apresentam de imediato. Em segundo lugar, os sinais de que algo ruim está prestes a eclodir são mais inequívocos entre nós. Quando um cachorro penetra em nosso território com o rabo erguido e não se deixa cheirar pelos demais, não há como ignorarmos o alerta vermelho. Não importa se o agressor em potencial é um pitbull descontrolado e todos os demais assustados chihuahuas, a reação virá de pronto na forma de rosnados, latidos e união de forças da matilha para perseguir o agressor prepotente.

Crédito: Yogi.centerblog.net

Crédito: Yogi.centerblog.net

Nem sempre nossa estratégia de sobrevivência dá certo, tenho de confessar. Às vezes, a força do adversário é descomunalmente desproporcional e, quando isso acontece, só nos resta lançar mão de um último recurso instintivo. Nós nos deitamos de barriga para cima, esticamos o pescoço para trás, deixando nossas jugulares expostas à sanha do atacante. Pode parecer um gesto tresloucado de nossa parte, mas funciona: o ataque é interrompido instantaneamente. Equivale ao que vocês chamam de ‘jogar a toalha’, gritar que a luta está terminada, que estamos nos rendendo. Para nós, não há vergonha nem humilhação nessa tomada de decisão, uma vez que entendemos que a continuidade da luta implicaria a utilização de recursos que contrariam mesmo a natureza mais selvagem. Uma coisa é medir forças para garantir a sobrevivência do indivíduo e outra, bem distinta, é recorrer à violência gratuita na tentativa de preservar nossa raça ou nossa espécie.

Cachorro 19Em terceiro lugar, somos alheios à mágoa e ao ressentimento. Cada novo encontro entre nós é, literalmente, um recomeço. Só somos capazes de guardar a memória do cheiro de quem nos agrediu anteriormente e associar esse cheiro à lembrança de dor física. Mesmo assim, quando o sentimos novamente, não tomamos a iniciativa de contra-atacar. Tentamos mais uma vez nos aproximar e, caso sejamos repelidos agressivamente, eriçamos nossos pelos, rosnamos, retesamos nossos músculos, abaixamos nossas cabeças e as patas da frente, levantamos nossas caudas, engolimos o medo e partimos para a luta, mesmo que ela seja mais uma vez desigual.

Crédito: Ellem.ca

Crédito: Ellem.ca

Respeito a necessidade que vocês humanos sentem de identificar as causas de cada ataque que sofrem, ainda que não acredite pessoalmente na eficácia dessa atitude. O que a própria vida já deve ter-lhes ensinado é que algumas vezes é preciso não entender, admitir o pasmo, passar recibo da sofrida perplexidade que um ataque como esse provoca. Também não me parece promissor desqualificar o comportamento de quem os ataca de surpresa, pelas costas, como “não humano”. Ele é humano, sim, infelizmente. Apenas quando vocês puderem admitir que a natureza humana é, por definição, imperfeita, já que é metade de bicho racional e metade irracional e, portanto, comporta os gestos de maior grandeza e benevolência, assim como os mais covardes e cruéis, é que alguma forma de mudança poderá começar a se delinear.

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Crédito: Mamietitine.centerblog.net

Temos, entretanto, um traço em comum que pode realimentar a esperança de dias mais felizes para vocês. Tanto entre humanos quanto entre animais, não é preciso ensinar nossos filhotes a amar. Basta que o outro se aproxime de nós com docilidade, seja no corpo ou na voz, para que nosso sistema de retribuição seja acionado de imediato.

Apesar dessa herança filogenética comum, é triste constatar que, para que um filhote humano chegue a cultivar o ódio, as lições dos adultos têm de vir de forma sistemática. É realmente uma pena que isso aconteça na sua espécie. Só posso lamentar que vocês ainda não tenham desenvolvido a capacidade de ignorar o passado e o futuro e de se ater ao cheiro do presente”.

Interligne 18h

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Sexta-feira 13

José Horta Manzano

Torre Eiffel 1Os atentados que castigaram Paris neste 13 de novembro inspiram algumas reflexões. O assunto é espinhudo, mas é uma realidade que a gente não pode fazer de conta que não viu. Melhor tentar entender o que está por detrás.

Ataques indiscriminados não são novidade nem são exclusividade de nossos tempos. Aconteceram desde que surgiu a humanidade. O que mudou, neste século de comunicação de massa, foi a escala.

Antigamente, anarquistas destrambelhados agiam individualmente e por conta própria. O número de vítimas era limitado. Hoje, novos recursos permitem ação concertada, bem coordenada, mais ampla e muito mais impressionante.

O ataque às torres gêmeas de Nova York, em 2001, marcou o início de nova era. A história dos atentados se divide em antes e depois do 11 de setembro. Naquele dia, um mundo bestificado descobriu que as novas tecnologias de comunicação, que abriam tantas boas perspectivas, também tinham um lado sombrio.

Quando os homens se comunicavam por carta ou por telegrama, não era possível organizar ataque cometido simultaneamente por vários assassinos em lugares diferentes. Fax e telex tampouco ajudaram. Foi internet que, ao pôr meios eficazes e instantâneos de comunicação à disposição de todos, abriu as portas para atentados como os desta sexta-feira 13. Tudo indica que estamos só no comecinho – se não tomarmos medidas rapidamente, nossos netos serão obrigados a viver murados.

Metralhadora 1Como proceder? Como dizem os próprios franceses, le risque zéro n’existe pas – é impossível eliminar totalmente o risco. Sempre vai sobrar uma brecha pra quem quiser cometer atentado. A meu ver, o mal tem de ser combatido em duas frentes: neutralizando mentores e desmotivando executantes.

Torre EiffelMentores? Quem são? São indivíduos perigosos e desajustados, que reúnem vários fatores: têm alguma inteligência, dispõem de meios financeiros, são obcecados pela vertigem do poder. No entanto, são covardes: nenhum deles chega ao destemor de amarrar explosivos em torno da própria cintura – preferem aliciar incautos, doutriná-los, mandá-los ao batente e… esperar pelo estrondo.

Até certo ponto, sabe-se quem são esses mentores e onde se escondem. Com paciência e aplicação, não é impossível pô-los fora de combate. Para isso, serviços secretos e meios militares estão à disposição.

E quem são os executantes? Ah, aí é que está o nó. Meio século atrás, assim que as colônias africanas ganharam independência, a França, com falta de mão-de-obra, importou centenas de milhares de norte-africanos. Nunca ninguém se preocupou em integrá-los. Foram estacionados em bairros periféricos apinhados. A terceira geração de imigrantes vive até hoje nessas favelas de concreto. É uma população sem perspectivas, que evolui em círculo fechado e se exprime num falar característico, quase um dialeto.

Cagoule 1Essa massa de deserdados, com baixo nível de instrução, estigmatizada e desprezada por grande parte da população, é presa fácil para mentores mal-intencionados. O governo francês, jogando para a galeria, ordenou hoje o fechamento das fronteiras. Bobagem. É grande a probabilidade de os terroristas terem nacionalidade francesa e não estarem planejando deixar o país.

Remédio, há: essa franja da população tem de ser integrada. Mas os resultados não serão imediatos. A situação atual é fruto de meio século de descaso. Vai levar algumas décadas para consertar – se é que alguém está realmente interessado em consertar.

Enquanto isso, nossos amigos franceses vão viver tempos difíceis, de medos e de incertezas. Mas não há outro jeito: fora da integração, não há solução.

Quem foi, hein?

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Como todo o mundo, meu amigo Sigismeno ficou sabendo da bomba caseira atirada na área externa do escritório do Lula. Falo daquele comitê político que leva o pomposo título de instituto.

Bomba 2Sigismeno é desconfiado por natureza. Costuma ficar com um pé atrás quando algo lhe parece ilógico. «C’est trop beau pour être vrai» – é bonito demais pra ser verdade, filosofa ele como os franceses.

Meu amigo aprendeu que todo crime tem de ter um móvel. Com ares de magistrado romano, pergunta: «Cui prodest?» Quem tira proveito do crime? Quem lucra com ele?

Tivesse sido para ferir funcionários, não teriam atirado o artefato às dez da noite, mas no horário comercial. De que serve detonar bomba cheia de pregos quando não há ninguém por perto?

by Sinfrônio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

by Sinfrônio de Sousa Lima Neto, desenhista cearense

Tivesse sido para destruir ou danificar seriamente o prédio, a potência teria de ser bem superior e o engenho não precisava estar recheado de pregos.

Tirando essas duas motivações, o que é que resta?

A multidão que se opõe ao Lula e a todo o atraso que ele representa é cada dia mais encorpada, é verdade. Assim mesmo, Sigismeno não acredita que algum oponente cometeria a tolice de jogar bombinha no jardim de nosso guia, na solidão e no escurinho da noite, só pra ver a notícia passar no Jornal Nacional.

Depois de analisar com afinco, meu amigo acha que matou a charada. Segundo ele, essa história estranha leva jeito de ser ideia de marqueteiros.

Bomba 1O partido do Lula é contumaz adepto da tática de vitimização. Num momento em que tudo e todos acusam o ex-presidente de ser o patrocinador-mor de cataratas de corrupção, uma bombinha caseira pode, por um ou dois dias, desviar a atenção da galeria. Um distraído pode até achar que são artes de algum louro de olhos azuis…

Como de costume, o que Sigismeno diz pode até ser verdade. Que cada um forme sua opinião.

Desastre de avião

José Horta Manzano

Avião 7Quando eu era criança ‒ faz muitos anos ‒ um tio meu gostava de contar velha piada. Falava de um sujeito que tinha medo de andar de avião; o homem não entrava em máquina voadora nem por decreto do papa.

Veio um outro e lhe disse:
«Mas que bobagem! Cada um tem seu dia de morrer. Se não for seu dia, nada vai acontecer.»

E o medroso:
«É, pode não ser o meu dia, mas… e se for o dia do piloto?»
Interligne 18b

Acabo de me lembrar dessa historinha. Só que hoje não faz rir. Nesta quinta-feira de manhã, reforçou-se a suposição de que o pavoroso desastre de avião ocorrido há dois dias nos Alpes franceses pode ter sido fruto de ato deliberado de quem estava dirigindo o aparelho.

As primeiras análises da «caixa preta» (que, na realidade, é de cor laranja) sugerem que o piloto se tinha ausentado da cabine. Na volta, deu de nariz na porta. Bateu, mas o copiloto não abriu. Tentou arrombar, sem sucesso. Fico imaginando o sobressalto e a angústia por que hão de ter passado os que se tiverem dado conta da situação. Há de ter sido como num filme de horror, com o avião descendo inexoravelmente sem que ninguém pudesse fazer nada.

A confirmar-se a hipótese, fica reforçada a imagem de um mundo que, gradativamente, perde as estribeiras. Normas de convívio civilizado tradicionalmente aceitas estão-se dissolvendo rapidamente.

Foto AFP/Christophe Ena

Foto AFP/Christophe Ena

Até não muito tempo atrás, o mais longe que «pasionarios» ousavam ir, em busca de atenção para sua causa, era imolar-se pelo fogo em praça pública. Mais recatadamente, um que outro se suicidava no recôndito de um cômodo deixando uma carta-testamento ‒ foi o que fizeram Stefan Zweig e Getúlio Vargas.

Hoje, as porteiras se abriram e a boiada desembestou. Aviões transformados em bomba, homens-bomba, mulheres-bomba e até crianças-bomba arrastam para a morte gente inocente que nada tinha a ver com a história. Quanto mais gente, melhor.

Prefiro acreditar que o copiloto do avião que se espatifou nos Alpes tenha perdido consciência. É insuportável imaginar que, num gesto suicida, tenha levado consigo 150 existências cuja única culpa era ter embarcado naquele aparelho.

Interligne 18b

O acidente ocorreu na França na segunda-feira, mas a maior parte dos viajantes desaparecidos provinha da Espanha e da Alemanha. Os mandatários-mores dos três países cancelaram sua agenda e se deslocaram até o lugar do desastre. No dia seguinte, estavam lá os três. Não foram levar nenhuma ajuda prática, é verdade, mas o gesto marcou solidariedade mútua. São atos que cabe a todo dirigente civilizado cumprir.

Crédito: Lydia Bultel

Crédito: Lydia Bultel

Lembrei-me do acidente que vitimou avião da TAM, em 17 jul° 2007, no Aeroporto de Congonhas. Os mortos foram 199. Fiquei, na época, muito impressionado com o silêncio do então presidente, o folclórico Lula.

Naquele momento de comoção nacional, nosso número um se escondeu atrás de um mutismo vil. Só se manifestou 73 horas depois ‒ isso dá três dias! Naquele momento, nem todos nos dávamos conta, mas hoje sabemos: quando o caldo engrossa, nosso guia sai de cena. Desaparece até que baixe a poeira.

Ainda bem que o mundo civilizado ainda não adotou o modo Lula de reagir a catástrofes.

Je suis François

José Horta Manzano

Papa Francisco

Papa Francisco

Não é raro que governantes e altas personalidades façam declarações inabituais por ocasião de viagem ao estrangeiro. Será por influência do ar viciado da cabine do avião. Será por causa da sensação de liberdade concedida pelo passeio. Freud deve poder explicar. O fato é que figurões costumam soltar a língua.

Assim fez o Lula em Paris, logo no começo do primeiro mandato, quando ainda saboreava a chegada ao poder como conto de fadas – sem imaginar que se transformaria no pesadelo de hoje. Naquela ocasião, confessou algo do tipo: «Sou, mas… quem não é?». Era sobre o caixa dois de seu partido, escancarado pelo escândalo do mensalão. A declaração imprudente do Lula há de persegui-lo pelo resto da existência.

Lionel Jospin, que foi primeiro-ministro da França de 1997 a 2002, tinha ambições presidenciais. O ar viciado do avião há de tê-lo afetado quando voltava de uma viagem ao exterior. Confidenciou a um bando de jornalistas que o presidente Chirac estava velho, com um pé na cova e incapaz de continuar no cargo. A eleição ocorreu meses depois. Chirac ganhou. Derrotado e desmoralizado, Jospin pendurou definitivamente as chuteiras. A entrevista dada no avião foi-lhe fatal.

Em viagem do Sri Lanka às Filipinas, Papa Francisco usou e abusou de sua habitual franqueza. Nada mais fez do que reafirmar posição oficial da Igreja – mas, saída de sua boca, a fala encontra eco planetário. Cobrado sobre o assassinato de caricaturistas franceses, não se escafedeu. Em seu característico estilo direto, defendeu o direito à liberdade de expressão. Mas acrescentou que ele não abrange o direito à ofensa.

Charlie 4Sorridente e expressivo, Francisco fez uma comparação. Usando palavras pouco comuns para o cargo que ocupa, foi claro: «Se alguém vier falar mal de minha mãe, periga levar um soco!». E acrescentou que era reação normal, humana. Finalizou assinalando que não se deve zombar de outras religiões nem menosprezar a fé de outrem. Quem o fizer estará se expondo a represálias.

Reafirmou que não abona, de modo nenhum, os atentados: «É verdade que não se pode reagir com violência.». Mas – emendou – não é aceitável que um punhado de caricaturas «ridicularize uma inteira religião».

Para Francisco na chegada a Manila

Para Francisco na chegada a Manila

Concordo com a posição do surpreendente hermano papa. Por mais chocante que tenha sido o ataque à redação do semanário Charlie Hebdo, deve-se levar em conta que os fanáticos reagiram ao que ressentiam como grave ofensa à sua fé.

A meu ver, a carnificina do Hyper Cacher – supermercado kosher parisiense – foi, essa sim, ignóbil, abjecta, asquerosa. Quatro vítimas foram chacinadas não por algum ato que tivessem praticado, mas unicamente pelo fato de serem judias.

O inquietante espetáculo destampou a fossa onde cochilam pogroms e noites de cristal. O odor fétido, relíquia de uma era de trevas, estagna perigosamente nos ares de Paris.

Interligne 18h

Para assistir ao vídeo do pronunciamento papal (um minuto e meio), clique aqui.