Extremismo à brasileira

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cabeçalho 13

Olá,

Somos um grupo amador brasileiro especializado em atentados a bancos, empresas e veículos de segurança, tráfico de armas e de drogas. Apesar de já termos galgado posição de destaque junto à criminalidade dentro e fora do território do Rio de Janeiro, sentimos que ainda não alcançamos a projeção a que aspiramos e à qual acreditamos ter direito na mídia brasileira e internacional. Atribuímos esse estado de coisas à acirrada concorrência que temos enfrentado nos últimos anos na esfera política nacional. São tantos e tão variados os escândalos de corrupção na administração municipal, estadual e federal que praticamente não sobra tempo à imprensa livre para cobrir eventos ‒ por mais impactantes que sejam ‒ fora do âmbito político-empresarial.

Assalto 10Em função dessas contingências, estamos pensando em nos profissionalizar e atuar fora de nossa área de especialização, evoluindo para a área do terrorismo internacional. Contamos com muitas habilidades que, temos certeza, serão de grande valia para sua organização durante a realização dos Jogos Olímpicos Rio 2016. Conhecemos cada minúsculo beco da cidade-sede, temos gente nossa infiltrada em milícias das várias comunidades cariocas, na polícia estadual e até mesmo em quadros da administração local. Além de podermos facilmente nos misturar à multidão, não enfrentamos obstáculos maiores para lidar com o controle de fronteiras, em especial no sul do país, já que contamos com soldados habituados a tratar com militares na tríplice fronteira Brasil – Argentina – Paraguai.

JO 2016Para melhor servi-los, já nos inscrevemos em cursos diversos, inclusive artes marciais, tiro e língua árabe. Adquirimos recentemente algumas metralhadoras AK-47 numa transação virtual com lojas do Paraguai para não levantar suspeitas desnecessárias, coisa que certamente teria ocorrido caso nos tivéssemos deslocado até lá.

Outro de nossos diferenciais é que fazemos parte de uma população universalmente reconhecida como inventiva, adepta da improvisação e aberta às mais diversas orientações sociais, religiosas e ideológicas. Multiculturalismo, acolhimento de estrangeiros e sincretismo religioso são pontos fortes de nossa cultura e de nosso grupo. Ainda que nos agrade pensar que somos abençoados pelo Cristo Redentor, não vemos incongruência em aderir aos preceitos muçulmanos, principalmente se as virgens prometidas aos mártires da fé puderem ser desfrutadas com antecedência, já neste plano, e se nossa cervejinha santa de todos os dias puder ser consumida excepcionalmente por nossos combatentes, ao menos nos dias de ação.

Cerveja 1Podemos adicionalmente oferecer consultoria quanto às características físicas, vestimentárias e comportamentais a ser observadas por lobos solitários que venham a ser recrutados. Como deve ser de seu conhecimento, o calor da cidade do Rio de Janeiro, inclusive no inverno, torna contraindicado trajar vestes pesadas ou portar cinturões de explosivos que só serviriam para retardar o deslocamento e a fuga. Dispomos de farto estoque de bananas de dinamite que poderiam ser rapidamente alocadas em diversos locais de concentração de público. Ninguém se assustaria também com a visão de armas de grosso calibre, nem com eventuais tiroteios, uma vez que isso já faz parte da paisagem natural carioca. Nosso trânsito caótico pode permitir ainda a utilização de todo tipo de veículos leves e pesados, mesmo em áreas interditadas. Atropelamentos não são exatamente uma novidade para nós. Podemos considerar inclusive a utilização de embarcações de todos os tipos para rápido deslocamento por mar durante as provas aquáticas. Finalmente, estamos preparados para nos valer de infinitas formas de disfarce, como é tradição em nosso Carnaval.

Odalisca 1Expostas todas essas características, só nos resta torcer para que vocês, companheiros de luta, se sensibilizem e aceitem nosso pedido de filiação. Aguardamos ansiosamente sua resposta e nos colocamos à disposição para toda informação adicional concernente à nossa expertise. Aproveitamos o ensejo para solicitar que a comunicação entre nós fique restrita à troca de faxes, considerando o alto risco de rastreamento de nossos celulares.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Síndrome de insensibilidade perceptual

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Globo 2Um distúrbio alarmante vem se disseminando como praga nos cinco continentes. Apesar dos esforços empreendidos por pesquisadores científicos em várias partes do mundo, ainda não foi possível determinar sua causa. Embora não represente um fenômeno novo para a neurociência, os cientistas estão intrigados com o rápido alastramento do transtorno.

Sabe-se apenas que o distúrbio atinge indiscriminadamente homens e mulheres, jovens e idosos. Pressupõe-se que os casos mais graves estejam relacionados à negligência afetivo-emocional na tenra infância, ainda que não se descarte a possibilidade de ela ser decorrente também dos altos níveis de estresse nas grandes cidades e da alta competitividade no mundo profissional.

O principal sintoma observado é a incapacidade do portador da síndrome no sentido de perceber as conotações simbólico-afetivas das imagens que visualiza. Alguns estudos indicaram uma possível falha na comunicação entre os neurônios do lobo occipital e os do sistema límbico, que mimetiza lesões nos corpos amigdaloides.

by Shaina Craft

by Shaina Craft, artista americana

É fato conhecido que, entre humanos, uma lesão nas amígdalas do sistema límbico faz com que o indivíduo perca o sentido afetivo da informação vinda de fora, tornando-o indiscriminativo e emocionalmente indiferente. Ou seja, embora do ponto de vista cognitivo o sujeito seja capaz de identificar e categorizar corretamente o objeto visualizado, é-lhe impossível apreender as conotações simbólico-afetivas do mesmo.

Em função dessa indiferença afetiva, pesquisadores ingleses batizaram a síndrome como “Insensitive Perceptual Misjudgement Syndrome” [IPMS]

Alguns dos casos mais recentes e notórios registrados nos últimos meses são os seguintes:

Interligne vertical 17eUm dentista americano realizava um safári no Zimbábue e, ao olhar pela mira de seu fuzil de caça, viu só um leão velho e o matou. Na realidade, tratava-se de Cecil, o amado animal-símbolo de um país e de todo o continente.

Interligne vertical 17dUm colono judeu, buscando retaliar o que entendia ser agressões sofridas pelos seus, atirou uma bomba incendiária pela janela de uma casa e viu só uma residência palestina. Na realidade, tratava-se do lar de um bebê de 1 ano de idade.

Interligne vertical 17cIntegrantes do Isis, o autodenominado Estado Islâmico, entregaram a uma criança a tarefa de justiçar um homem, que viam só como infiel. Na realidade, tratava-se de um grupo de seres humanos.

Interligne vertical 17bNo calor da torcida no estádio de futebol, o homem atirou uma banana em direção a um dos jogadores, já que viu só um macaco. Na realidade, tratava-se de um esportista jovem e hábil, aclamado por seus concidadãos.

Bandeira olhoO ministro Levy e a presidente Dilma dirigiram-se à plateia para explicar a necessidade de ajuste fiscal e viram só contribuintes e analfabetos políticos. Na realidade, eram cidadãos brasileiros.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.