Por quem dobram os sinos

José Horta Manzano

Estarrecida, a parte decente da humanidade recebeu ontem notícia do atentado que deixou mais de 30 mortos em Bruxelas. A onda de choque alastrou-se pela Europa, atravessou oceanos e foi parar na primeira página da mídia mundial. A notícia apareceu, com destaque, em todos os meios de comunicação, sem exceção.

Para gente que tem os miolos no lugar, é impossível apreender o raciocínio torto que leva alguém ‒ por motivo pseudorreligioso ‒ a suicidar-se levando consigo o maior número de indivíduos, pouco importa se culpados ou inocentes, fiéis ou infiéis, irmãos de fé ou apóstatas.

Chamada do Estadão, 22 mar 2016

Chamada do Estadão, 22 mar 2016

Há quem veja aí o radicalismo religioso que se exprime através do crime. Prefiro enxergar criminalidade ordinária que se esconde atrás de uma fachada de radicalismo religioso.

Enganam-se os que acreditam que o interesse maior do camicase seja arrebanhar novos discípulos ou propagar a fé. As cabeças pensantes que instigam essas personalidades fracas estão na retaguarda, protegidas, a salvo do perigo. A infantaria que se sujeita a explodir em praça pública é constituída de jovens que se sentem rejeitados pela sociedade e que procuram seus cinco minutos de glória. Uma lavagem cerebral os convence, sem dificuldade, que o melhor caminho para a glória é a cintura de explosivos.

Interligne 18h

Logo abaixo da manchete sobre o massacre da Bélgica, a mídia brasileira dava conta das estatísticas da criminalidade tupiniquim. Segundo a mais recente edição do Atlas da Violência, 59.267 homicídios foram cometidos no Brasil em 2014, o número mais elevado da história.

Chamada do Estadão, 22 mar 2016

Chamada do Estadão, 22 mar 2016

Isso significa 162 assassinatos a cada dia, cinco vezes o total de vítimas de Bruxelas. Todos os dias, todos os meses, todos os anos. Trocando em miúdos, a cada 8 minutos e meio, um brasileiro morre assassinado. A probabilidade é grande de um conterrâneo ter sido morto enquanto o distinto leitor lia este artigo. Se assim não foi, acontecerá nos próximos minutos ‒ é verdade estatística.

Estamos todos chocados com o que aconteceu na Europa. Durante dias, semanas e meses veremos comemorações, missas e reportagens. Sem intenção de desrespeitar as vítimas do atentado, pergunto: quem chora pelas sessenta mil vidas ceifadas neste país tropical e cordial?

Um pensamento sobre “Por quem dobram os sinos

  1. Tristeza infinita e desgosto profundo com a barbárie que varre o mundo. Excelente o paralelo que o autor traça entre os atentados terroristas e o Mapa da Violência do Brasil salientando pontos em comum: a pobreza, a falta de inserção na sociedade e o desrespeito às diferenças.

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