Mal-afamado

José Horta Manzano

Por acaso, caí num canal YouTube indiano (em inglês) que analisa diariamente os acontecimentos do planeta. Cada notícia é descrita em vídeos curtos de 2 a 4 minutos. Imagino que o canal seja popular na Índia, tendo em vista que caminha para um milhão de assinantes.

Naturalmente, tanto a crise de soluços que acometeu o capitão quanto a internação foram objeto de um filminho. Benfeito e legendado, ele explica a atualidade brasileira a um público exótico, que eu imaginava distante e pouco interessado.

Acho que vou ter de rever meus conceitos sobre o interesse que o Brasil desperta do outro lado do mundo. Em 24 horas, o filme já foi visionado por quase 17 mil pessoas e suscitou 90 comentários. Fico imaginando se, Deus o livre, Narendra Modi (o primeiro-ministro indiano) tivesse uma crise de soluços e fosse hospitalizado, qual seria a repercussão no Brasil. Me pergunto se um vídeo em português sobre o caso teria alguma audiência.

Mas o que mais me surpreendeu foram os comentários. Você pensava que, naquelas lonjuras, ninguém estivesse a par do que acontece nesta Pindorama? Engano seu. Nosso capitão não somente é conhecido, como é bem pouco apreciado.

Surpreenda-se e divirta-se com este apanhado de comentários sobre os infortúnios de Bolsonaro.

Hrshv Harey
Ele foi alcançado pelos próprios pecados.

Krapto
Pra que hospitalizá-lo? Ele não é homem forte o suficiente pra superar uns “soluçozinhos”, como ele mesmo diria?

Wam Teng
Ele tinha de evitar essa comida apimentada, brother. Veja como está mexendo com o intestino dele, brother.

Sandeep Singh
Ele era anti-Índia, até que precisou de nossa vacina.

The Reckon
Mais um líder desastroso.

Axioo
Isso é o que acontece quando você é da extrema-direita e destrói a floresta amazônica em vez de protegê-la para o bem do planeta.

Lurking Arachnid
Satan vai levá-lo.

Sahil Balani
Impeachment nele!

Vivek Tamma
Esses soluços vêm da corrupção, acredito.
(Este comentarista está atualizado! Deve estar acompanhando a CPI.)

Gozo The Clown
Soluços fake! Ele está é apavorado!

Raymundo Rebueno
O carma se exprime em diferentes maneiras.

Vikram M
Dez dias de soluços? É certeza que ele está virando jacaré.

Quarta-feira

José Horta Manzano

Em vídeo lançado nas redes, doutor Bolsonaro autoqualificou-se de «presidente cristão, patriota, capaz, justo e incorruptível». A falsidade intelectual contida da frase é tamanha, que faz a desonestidade petista parecer coisa pouca. Aliás, em matéria de hipocrisia, o atual inquilino do Planalto está deixando o próprio Lula no chinelo. Uma façanha!

Em atitude pra lá de temerária, Bolsonaro encasquetou de convocar o povo pra afrontar o Congresso. Levando em conta que o Congresso foi eleito por esse mesmo povo, algo está fora de lógica. Enfim, como exigir lógica de um presidente desequilibrado?

A lei permite que o mandato de um indivíduo (congressista ou o próprio presidente) seja cassado. Há regras para isso, sem necessidade de botar o povo nas ruas. No entanto, não é possível fechar o Congresso, cassando assim, de facto, o mandato de todos os congressistas. Isso tem nome: é golpe de Estado.

Posso entender a boa intenção dos que votaram no Lula em 2002, assim como a dos que votaram no Bolsonaro em 2018. Por seu lado, tenho dificuldade em captar a lógica dos que votaram no lulopetismo depois do mensalão e do petrolão, assim como dos que apoiam doutor Bolsonaro depois de um desastroso primeiro ano no poder.

Respeito todos os apoiadores de um e de outro. Assim mesmo, recomendo a todos aproveitar esta Quarta-Feira de Cinzas pra dar uma passadinha numa igreja qualquer e tomar as cinzas – prática com a qual os fieis de antigamente se penitenciavam dos excessos carnavalescos. Pode servir pra apaziguar ânimos e aclarar mentes.

Caiu do mapa

José Horta Manzano

Com apenas 37 anos de idade, Jacinda Ardern ocupa o cargo de primeira-ministra da Nova Zelândia, o posto mais importante do Executivo. Inscreve-se na atual onda de renovação política que alcança numerosos países. Ms Ardern faz companhia ao canadense Justin Trudeau (46 anos), ao francês Emmanuel Macron (40 anos), ao austríaco Sebastian Kurz (31 anos). E até ao norte-coreano Kim Jong-un, que se supõe ter 34 anos.

Jacinda Ardern, primeira-ministra da Nova Zelândia

Políticos jovens podem não ter ainda a experiência de velhas raposas, em compensação, são mais abertos a modernidades. Estão mais sintonizados com o mundo atual. A dirigente neo-zelandesa acaba de dar mostra disso.

Apesar de ter o dobro da superfície da Grécia e de ser até maior do que o Reino Unido, a Nova Zelândia não aparece em alguns mapas. O fenômeno deve-se ao fato de, em nossa habitual representação do mundo ‒ com a África no centro ‒, o país ficar no canto inferior direito. Algum cartógrafo distraído pode até esquecer de desenhá-lo.

Valendo-se desse pretexto, a primeira-ministra aparece num vídeo de dois minutos e meio que visa a reforçar a imagem turística do país. O enredo é divertido. Descobre-se que a Nova Zelândia, vítima de uma conspiração, está desaparecendo dos mapas. Vêm aí as conjecturas. Será a Austrália que tenta ficar com todos os turistas? Ou quem sabe a Inglaterra quer se apoderar da equipe nacional de rugby ‒ a melhor do mundo? Talvez seja a França que se empenha em ficar com os vinhos da Nova Zelândia?

O intuito é realmente promover a vinda de visitantes. O responsável pelo turismo explica que o país é maior que a Alemanha, tem um lago do tamanho de Singapura, uma cadeia de montanhas maior que os Alpes, e litoral mais extenso que o da Califórnia. A campanha foi bolada a partir do dia em que se deram conta de que o mapa exposto num Starbucks dos EUA omitia a Nova Zelândia.

Desculpa esfarrapada

José Horta Manzano

O Partido dos Trabalhadores deu a público um filmezinho gravado por Lula da Silva pouco antes de ser preso, semanas atrás.

No vídeo, como de costume, o demiurgo peita a Justiça. Sem ruborizar, declara que podia ter fugido; se não o fez, foi porque é inocente e pretende se defender.

Dizem as más línguas que a coisa não é bem assim. Se Lula não fugiu é porque não imaginava que ordem de prisão contra ele fosse dada. Caso fosse dada, não seria cumprida. Caso fosse cumprida, ele sairia do cárcere em 24 horas.

Deu tudo errado. Ele estaria mais bem acomodado se tivesse buscado refúgio numa confortável embaixada amiga. Ah, se arrependimento matasse…

Lula e Bolsonaro julgados

José Horta Manzano

Antes de qualquer outra consideração, quero deixar claro (como se necessário fosse) que não nutro especial simpatia nem pelo Lula nem por Bolsonaro. O primeiro traz, como marca registrada, a amoralidade, mãe da corrupção, da ladroeira, do populismo e de males que podem afundar o Brasil ainda mais. Do segundo, o pouco que se sabe não é animador. O gajo parece limitado, hesitante, inexperiente. Falta-lhe firmeza. Mais vale não tentar a experiência.

Ambos são políticos. O próprio de todo político é manter-se no noticiário a qualquer preço. «Falem bem, falem mal, mas falem de mim» ‒ é a divisa de todos eles. Quanto mais aparecerem na telona, na telinha e na telica, melhor será. Político vive de voto, e voto só se recebe quando se é conhecido. Propaganda faz parte do jogo.

Corre no Tribunal Superior Eleitoral processo contra cada um dos dois personagens citados. São acusados de «propaganda eleitoral antecipada». Taí um conceito difícil de delimitar. Político discursa, faz pronunciamento e dá entrevista diariamente. A partir de que ponto a fala se transforma em propaganda eleitoral?

Se já não era fácil responder à pergunta que acabo de fazer, os modernos meios de difusão da palavra e da imagem se encarregaram de baralhar ainda mais as cartas. Vídeos circulam no Youtube falando bem (ou mal) deste ou daquele personagem. Pedem «Lula em 2018» ou «Bolsonaro no Planalto» ou ainda «Juca de Chiquinha para presidente». Propaganda eleitoral antecipada é isso?

A corte eleitoral está embaraçada. Em princípio, candidatos que fizerem campanha antes da hora serão punidos com multa financeira. Mas como multar candidatos se as candidaturas ainda não estão registradas? E se apoiadores lançarem vídeo na rede ‒ sem conhecimento nem autorização do elogiado ‒, como proceder? «Mandar retirar o vídeo», dizem alguns. «Mas isso é censura à livre expressão do pensamento», retrucam outros.

O mundo tem evoluído rapidamente. A lei, como é natural, segue atrás. (Não se pode legislar sobre realidade que ainda não existe.) Estamos diante de fato novo para o qual a legislação não está adequada. Pessoalmente, não vejo problema no fato de um futuro candidato se fazer conhecer por antecipação. Aliás, tudo o que é demais cansa. Propaganda demasiado longa periga deixar o eleitor enjoado.

De qualquer modo, o panorama mudou. Antigamente, para fazer propaganda, o político precisava de muito dinheiro e forte aparelho partidário. Hoje em dia, basta um telefone celular para filmar o discurso feito em casa. Em seguida, é só divulgar pelo Youtube ou por qualquer rede social.

Não dá mais pra segurar. Estou curioso pra ver o que decide o legislador.

Não é só aqui

José Horta Manzano

Dizem que os brasileiros não botam muita fé nas autoridades. É compreensível, cada um tem suas razões: gato escaldado tem medo d’água fria. Tanto já nos mentiram, que a gente já anda precavido. O não imaginamos, no entanto, é que, em sociedades menos problemáticas, o mesmo sentimento esteja presente.

Na quarta-feira, a mídia planetária deu notícia do cerco que a nata da polícia francesa tinha feito a um imóvel da periferia de Paris onde, segundo informações confiáveis, se escondia o «cérebro» dos atentados da semana passada. (Boto «cérebro» entre aspas porque, por definição, quem assassina a esmo é descerebrado.)

Metralhadora 1Na quinta-feira, a mídia planetária repercutiu a confirmação oficial das autoridades francesas. O exame de ADN (=DNA) tinha dado o veredicto: o tal «cérebro» – o chefe do bando – estava realmente entre os que tinham sido pulverizados pela polícia. Todos festejaram, mas, no fundo, cada um guardou um pezinho atrás. Será verdade mesmo? Não estariam dizendo isso só pra tranquilizar o bom povo?

Nesta sexta-feira de manhã, os jornais falados abriram com grande manchete. Está realmente confirmado que o chefe do bando estava em Paris no momento dos atentados. A prova? O registro de uma das milhares de câmeras do metrô. Distingue-se claramente o indivíduo numa das imagens, tomada minutos após as primeiras deflagrações.

Desta vez, todos acreditaram. Jornalistas não se preocuparam em disfarçar o alívio que sentiam diante da comprovação de que as autoridades não haviam mentido.

Pra você ver, distinto leitor: não é só em Pindorama que a gente toma pronunciamentos oficiais com grande precaução.