Frase do dia — 84

«As embalagens são pequenas, mas o preço é king size. Não são trufas raras, temperos exóticos ou produtos de alta tecnologia que podem assustar o consumidor, mas itens do dia a dia. Um cartucho de tinta de módicos 2ml para uma impressora HP em cores sai por R$ 25. Em princípio, nada demais. O assombro surge quando se calcula o preço da tinta por litro: R$ 12.500, montante suficiente para comprar mais de cem gramas de ouro ou dois bilhetes de ida e volta Rio-Paris, além de duas garrafas de champanhe Veuve Clicquot (adquiridas no Brasil), com direito a algumas comprinhas. Contrariando a lógica mercantil, o preço da tinta é de tal ordem que, com o valor de um litro, podem-se comprar 50 impressoras para a qual ela é feita.»

Clarice Spitz, in O Globo, 19 jan° 2014.

Buracos fascinantes

O globo conta com fenômenos insólitos, lugares encantadores, montanhas prodigiosamente elevadas. Há também buracos impressionantes. Aqui vai um apanhado de cinco dessas maravilhas.

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The Big Hole
Está situado em Kimberley, África do Sul. Com profundidade de 1097 metros, supõe-se que seja o maior buraco já escavado pela mão do homem. Cerca de 3 toneladas de diamantes foram extraídas do local. Exaurida, a mina está hoje desativada.The Big Hole, Kimberley

The Big Hole, Kimberley

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The Glory Hole
Fica na Represa Monticello (Califórnia, EUA). É o maior escoadouro do mundo. Engole 1400 m³ d’água por segundo.

The Glory Hole, Monticello, California

The Glory Hole, Monticello, California

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The Blue Hole
O Grande Buraco Azul localiza-se 80km ao largo da costa de Belize (antigamente Honduras Britânico), na América Central. Há outras formações de mesmo tipo no planeta, mas este é especialmente encantador.

The Blue Hole, Belize

The Blue Hole, Belize

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A cratera da Guatemala
Em 2007 esse buraco enorme se abriu espontaneamente. Até hoje, ninguém conseguiu dar uma explicação convincente. Doze casas e três pessoas foram tragadas no desastre.

Buraco Guatemala 1

A cratera da Guatemala

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O Buraco Preto
Situado em Brasília (Brasil), é um dos maiores buracos do mundo. Anualmente dá sumiço a bilhões de reais pagos com nossos impostos. Um sorvedouro digno de figurar no Guinness Book of Records.

The Black Hole, Brasília, Brazil

The Black Hole, Brasília, Brazil

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As entranhas

José Horta Manzano

Exatamente no dia de Natal, faz quase um mês, o Estadão publicou um artigo assinado pelo professor Zander Navarro, sociólogo e antigo docente da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

A data de publicação não foi a mais propícia. Acredito que muita gente possa ter deixado de ler. O texto, sintomático da atual realidade brasileira, não merece cair no esquecimento. É por isso que lhes dou hoje o endereço. O título é As entranhas do bolsismo. Transcrevo aqui um parágrafo:

Interligne vertical 12«Em Salvador, uma candidata a empregada doméstica foi entrevistada na casa da senhora contratante. Acertados o salário e os horários de trabalho, ela impôs uma inesperada exigência: não queria ter a Carteira de Trabalho assinada. Diante da surpresa, explicou que se for assim perderá o “auxílio-pesca” que recebe há quase dez anos. “Mas você é pescadora?” Ela riu e disse que nunca fez isso, mas em seu município de origem todos recebem o benefício federal, mesmo não sendo pescadores. Mora com o marido na capital, mas mantém o endereço anterior para continuar beneficiária. Pretendem se mudar para a cidade de Conde, pois lá ofereceriam adicionalmente uma cesta básica por mês.»

Pronto, o tom está dado. Clique aqui para ler o texto integral.

Frase do dia — 84

«Não deixa de ser paradoxal que o governo brasileiro, que vem respeitando há pelo menos 20 anos os cânones do capitalismo, precise deslocar-se a Davos para vencer resistências, ao passo que o Irã, cujo confronto com o Ocidente é o mais agudo de todos os países mais ou menos relevantes, se faz cortejar.»

Clóvis Rossi, colunista e membro do Conselho Editorial da Folha de São Paulo, 14 jan 2014.

O ninho vazio

Ruy Castro (*)

Uma amiga está triste porque sua filha se mudou para Nova York. Foi estudar na Universidade Columbia e não deve voltar tão cedo. O filho mais velho, também há pouco, foi trabalhar em outra cidade. Os dois moravam com ela. De repente, minha amiga ficou sozinha em casa. Está passando pela “síndrome do ninho vazio”, uma figura da psicologia para definir a depressão que se apossa de alguns pais –ou, quase sempre, mães– quando seus filhos vão à vida.

Passarinho 1

Lola & Lolita

Estava pensando nisso quando, pouco antes do Natal, percebi certos movimentos alados no terraço. Uma rolinha ia e vinha, com matinhos no bico, e pousava numa viga alta do caramanchão. Mesmo à distância, constatei que estava construindo um ninho. No Natal, o ninho ficou pronto. Ela sossegou e sentou-se nele pelos dias seguintes. Batizei-a de Lola, a Rola, e saboreei a expectativa de, em breve, ser avô.

Não entendo de passarinhos, mas calculei que, por sua circunspecção no ninho, Lola devia estar sentada sobre três ou quatro ovos –e, se assim fosse, merecia respeito pelo que lhe devia ter custado botá-los para fora. Mas Silvania, minha funcionária, aproveitou-se da temporária ausência de Lola –numa das poucas vezes em que ela saiu, certamente para ir às compras–, subiu a um banquinho, espiou o conteúdo do ninho e me informou de que eu era avô de um único ovo.

Bem, não sejamos soberbos, um já estava bom. Dias depois, constatamos que, em certos momentos, o rabo e a cabecinha para fora do ninho eram menores. O bebê nascera. Dei-lhe o nome de Lolita, a Rolita, e esperei que ela e sua mãe nos brindassem com algumas piruetas, mesmo desajeitadas, como parte do aprendizado aéreo de Lolita.

Que nada. Ontem, Lola, a Rola, e Lolita, a Rolita, foram embora bem cedo. E sem se despedir. Agora entendo a síndrome do ninho vazio.

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(*) Ruy Castro (1948-) é escritor e jornalista. O texto acima transcrito foi publicado pela Folha de São Paulo em 17 jan° 2014.

Frase do dia — 83

«A produção caiu, o crescimento do Produto Interno Bruto é pífio, as reservas diminuíram e os deficits explodem por todos os lados. Pesa no bolso do consumidor quando ele descobre que as liquidações pós-Natal são mentirosas, que as taxas de juros estão na estratosfera e que cada vez há mais mês no final do salário. Alguém precisa informar a verdade à presidente.»

André Gustavo Stumpf, in Correio Braziliense 18 jan° 2014

Um vice-ministro, por favor!

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno, que ― apesar de suas limitações ― se esforça por aprender, entendeu para que serve um vice. Vice-presidente, vice-prefeito, vice-governador, essas coisas.

Meu amigo não está totalmente de acordo com esse instituto. Acha que podia ser importante no século XIX, quando a ausência do titular por motivo de viagem, por exemplo, podia se estender por meses. Na falta de telefone, rádio, satélite, fax, era importante que a autoridade do figurão ausente fosse incorporada por uma pessoa.

Já nos dias de hoje, Sigismeno acha que não faz mais sentido manter essa prática empoeirada. Um vice funciona alguns dias por ano, mas é remunerado como se trabalhasse em tempo integral. Tem direito a mordomias e, conforme o caso, goza de seu ócio num palácio sustentado por nosso dinheiro. Meu amigo acha que essa história de viver em palácio é coisa do «Ancien Régime», realidade que já foi ― ou já deveria ter sido ― varrida desde os tempos da Revolução Francesa.

O presidente sem vice

O presidente sem vice

Estes dias, Sigismeno ficou sabendo que um dos condenados do mensalão, um daqueles cujo destino para o xadrez já está irremediavelmente traçado, não pôde ainda ser preso em razão das férias do presidente do STF.

Meu amigo não entendeu bem a situação. Como é que é? Com que então, o vilarejo de Santo Epaminondas do Brejo tem vice-prefeito para substituir o titular quando se ausenta e… o STF não tem? A mais alta instância do Poder Judiciário nacional depende da presença física de uma só pessoa?

Sigismeno cogitou. E constatou que delegados de polícia não precisam de provas nem de sentença transitada em julgado para trancafiar suspeitos atrás das grades. Ao mesmo tempo, um indivíduo condenado definitivamente pela corte suprema não pode ser preso porque um figurão saiu de férias. Pode?

Não, não pode. Como de costume, tive de concordar com o Sigismeno.

Florilégio de humor ― 3

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by Amarildo Lima, desenhista capixaba

by Amarildo Lima, desenhista capixaba

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Made in China by Élcio Prado, desenhista paulista

Made in China
by Élcio Prado, desenhista paulista

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by René Hovivian, desenhista francês

by René Hovivian, desenhista francês

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By Pawel Kuczynski, desenhisa polonês

By Pawel Kuczynski, desenhisa polonês

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by Renado Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca

by Renado Luiz Campos Aroeira, desenhista carioca

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by Pawel Kuczynski, desenhista polonês

by Pawel Kuczynski, desenhista polonês

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É urgente! Temos o manual de instruções do sofá-cama? by Clive Collins, desenhista inglês

É urgente! Temos o manual de instruções do sofá-cama?
by Clive Collins, desenhista inglês

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Vamos montar uma ong?

José Horta Manzano

Fiquei sabendo que dona Marta, aquela senhora de ares arrogantes que um dia foi prefeita da cidade de São Paulo, foi condenada por haver cometido pecado de improbidade administrativa durante sua gestão. Eu disse condenada? Tudo é relativo. Agora chegou a hora do jus esperneandi, como costuma acontecer no Brasil. Recursos, medidas protelatórias, embargos infringentes, embargos postergantes, o diabo.

Os fatos ocorreram há já doze anos. Pode contar mais uns dez até que a decisão transite em julgado. Até lá, a antiga alcaide ― que completa 69 aninhos dentro de exatos dois meses ― já será anciã e fará jus à doçura que nossa lei devota aos velhinhos.

Mas deixe estar. Aquela cuja biografia já estava marcada pela ousadia vulgar e debochada do «relaxa e goza» acrescentou mais uma missanga a seu colar de impropriedades. A História se encarregará de guardar memória.

E o vento levou...

E o vento levou…

Seu crime? Ter contratado, sem licitação, os serviços de uma ong da qual era sócia fundadora. Por uma quantia próxima de 200 mil reais ― valores de 2004. Não precisa ser jurista para se dar conta da promiscuidade dessa trama.

Nessa mísera história, o que mais me perturba não é o fato de dona Marta ter patrocinado uma ação entre amigos. O que não consigo entender é que a lei permita ao Executivo contratar serviços de ongs contra remuneração. Pior que isso, mais abismado fico com o desprendimento, a desenvoltura e a despreocupação com que nossos governantes doam milhões do nosso dinheiro a organizações nebulosas, saídas não se sabe de onde, que brotam feito mato depois da chuva.

Organizações não governamentais, por definição, têm de estar desligadas e bem afastadas de governos. Que andem com suas próprias pernas e que vicejem por seus próprios meios. Irrigá-las com dinheiro público é porta escancarada a corrupção e a desvios. Um desatino.

Frase do dia — 81

«(…) A atual conjuntura sugere que o Brasil está se tornando uma Argentina, a Argentina está virando uma Venezuela, e a Venezuela já é quase um Zimbábue.»

Editorial do Estadão de 17 jan° 2014.

O sabor está nos detalhes

José Horta Manzano

Em seu blogue Olimpílulas, alojado no Estadão, o jornalista Demétrio Vecchioli traz uma panorâmica da desastrosa situação do País em matéria de preparação para os Jogos Olímpicos de 2016.

Falta de interesse das confederações, parques aquáticos e outros ginásios fechados para reforma, indiferença geral por parte de autoridades, falta de estímulo à população estão minando o caminho de um Brasil que aspirava a tornar-se potência esportiva.

Para alcançar nível elevado, seja ele nos esportes, nas artes ou nas ciências, simples esperanças não bastam. É necessário muito trabalho, muito investimento e muita paciência. Sem esforço, com investimento parco e, ainda por cima, de afogadilho, não se chega lá. É indiscutível.

O artigo é afligente. Chega-se ao final com sentimento de desalento. Ainda que se comece a leitura com espírito de combatente optimista, termina-se com ânimo de vira-lata. Garantido.

As coisas são assim, que remédio? Nós outros, distantes dos centros de poder e de decisão, pouco ou nada podemos fazer. Mas nem tudo está perdido. Sobra uma consolação. Como diz o outro, rir é a melhor solução.

No final do texto, aparecem os comentários. Um leitor, que se assina Carlos Moura, desvenda, em tom irônico e bem-humorado, as raízes do mal.

Comentário de um leitor do Estadão

Comentário de um leitor do Estadão

Transcrevo:

Interligne vertical 12«Somos campeões mundiais em diversas modalidades (em moralidade perdemos todas!). Não temos concorrentes em desvios orçamentais, assalto com farra, arremesso de impostos, mil mensaleiros livres, trampolim político sincronizado, micha atlética, lançamento de dano, helicoptatlo, assalto à distância, badminton, camuflagem, EBX, concurso completo de indicação, tiro perdido, tiro com arco 51, e até corredor de helicópteros… Tudo com as bênção dos deuses do Eulimpo! Por último, o sigla que avança a olhos vistos, malvistos e não vistos, e o outro COI ― Começão Olímpica de Impostos. Uma pena. A criatividade deveria estar sempre a serviço do bem.»

Pra frente, Brasil!

Frase do dia — 80

Me dá uma bolsa aí!

«O aumento expressivo na inatividade registrado em novembro é explicado pelo crescimento da faixa da população que não trabalha nem quer ter um emprego, segundo o IBGE. O fenômeno já tinha sido observado no mês anterior.»

Daniela Amorim, in Estadão 16 jan° 2014.

O presidente normal

José Horta Manzano

Nicolas Sarkozy, antigo presidente da França, é um ser frenético, dono de personalidade hiperativa. Esse traço de caráter marcou sua presidência. Estava por toda parte, falava pelos cotovelos, ocupava a cena, ofuscava seus ministros. Divorciou-se, casou-se de novo e foi pai ― tudo isso durante seu mandato de 5 anos.

O presidente na garupa

O presidente na garupa

Chegado o momento de escolher novo presidente, Sarkozy naturalmente candidatou-se à reeleição. Seu adversário-mor, na intenção de marcar terreno e enfatizar a diferença entre seu estilo e o bulício da presidência que findava, proclamou aos quatro ventos que, se eleito, seria um presidente normal.

Foram os dois para o segundo turno. Por uma margem de votos que, sem ser apertada, tampouco foi ampla, Sarkozy foi dispensado de suas funções e François Hollande tomou seu lugar.

Diferentemente do Brasil, os candidatos franceses, uma vez empossados, costumam ser cobrados pelos eleitores por suas promessas de campanha. Mas ninguém sabia direito o que seria uma presidência normal ― talvez até nem o próprio Hollande soubesse bem como tornar o slogan realidade.

Instalado no palácio presidencial há já quase dois anos, Monsieur Hollande bem que tem tentado mostrar-se menos falante, menos frenético, mas… não tem jeito. Anda amargando os níveis de popularidade mais baixos já experimentados por um presidente desde que esse parâmetro começou a ser medido. O desditoso está abaixo de Chirac, de Mitterrand e até do próprio Sarkozy, o hiperativo.

Semana passada, Closer, uma revista sensacionalista francesa, publicou uma reportagem bomba revelando a ligação amorosa do presidente com uma atriz quase 20 anos mais jovem que ele. Escândalo no país! Durante dias, não se falou de outro assunto. Jornais impressos, radiofônicos e televisivos abriam invariavelmente com as mais recentes informações, opiniões e palpites sobre o caso.

O amor secreto do presidente reportagem bomba da revista Closer

O amor secreto do presidente
reportagem bomba da revista Closer

Segundo Closer, o modo de proceder foi relativamente simples. A presidência da República mantém alguns apartamentos mobiliados, situados em imóveis discretos, onde costuma alojar visitantes temporários, gente cuja presença em Paris não deve ser tornada pública. O presidente tem autoridade para requisitar, quando lhe apraz, algum desses apartamentos para seu uso pessoal ― para encontrar-se discretamente com algum figurão, por exemplo.

Os repórteres da revista, não se sabe como, foram informados de que os encontros do presidente com a atriz ocorriam num desses apartamentos, a tal dia, a tal hora. A partir daí, foi fácil. Postaram seus fotógrafos na saída do palácio presidencial e na entrada do edifício que abriga a garçonnière.

Não deu outra: o presidente saiu de seu palácio, coberto por um capacete, na garupa de um scooter ― aquele meio de transporte que os antigos conheciam como lambreta ou motoneta. Dirigiu-se ao local onde já o esperava outro fotógrafo. As cenas foram registradas, mas o presidente nem se deu conta do que estava acontecendo.

A revista não perdeu a ocasião. Publicou a revelação em edição extra. A tiragem, que costuma ser de 150 mil exemplares, foi quadruplicada. Assim mesmo, esgotou-se em poucas horas. Atualmente, tem gente vendendo um exemplar (usado) daquele número pela elevada soma de 15 euros (perto de 50 reais).

É bem sabido que a desgraça de uns sempre acaba fazendo a felicidade de outros. Sixt, uma locadora de automóveis, saltou sobre a ocasião. Acaba de lançar uma divertida peça publicitária com os dizeres: «Senhor presidente, da próxima vez, evite o scooter. Sixt aluga carros com vidros fumês».

Da próxima vez, evite o scooter... propaganda de uma locadora de automóveis

Da próxima vez, evite o scooter…
propaganda de uma locadora de automóveis

O povo francês está começando a descobrir um dos traços que caracterizam um presidente normal. É pular a cerca de vez em quando, como fazem tantos maridos.

PS: No dia seguinte ao da publicação, a companheira fixa do presidente ― aquela que é considerada a primeira-dama ― foi internada com graves problemas de saúde. Não se sabe bem que mal a acomete, mas o fato é que, passados mais de 10 dias, continua hospitalizada. Pode ser coincidência. Ou não.

O chinês e os mapas

José Horta Manzano

Você sabia?

O chinês
Entre 1850 e os primeiros anos do século passado, a China viveu tempos confusos. A extensão do território e a precariedade dos meios de comunicação dificultavam o controle e a imposição da autoridade central.

China paintingO Japão e as potências europeias aproveitaram a desordem para tirar uma casquinha aqui e ali. Ao cabo da primeira guerra sino-japonesa, ganha pelo País do Sol Levante, a China teve de entregar Taiwan e outros arquipélagos que interessavam ao vencedor. Os ingleses obtiveram uma concessão de soberania por 99 anos sobre um naco de terra adjacente a Hong Kong.

A Rússia, a Alemanha, o Império Austro-Húngaro também se aproveitaram daqueles tempos para fazer valer seus interesses políticos e comerciais. Em 1911-1912, com o fim do regime imperial, foi proclamada a república. Mas muita água ainda teve de passar sob as pontes do Rio Yangtzé antes que o país se estabilizasse.

Em 1909, no ocaso do regime imperial chinês, o Brasil recebeu uma comitiva vinda do país oriental. Era encabeçada pelo príncipe Liu She-Shun, representante de Sua Majestade. O intuito da visita era duplo: buscava firmar acordos comerciais e ― principalmente ― tentava convencer o governo dos Estados Unidos do Brazil a aceitar imigração de mão de obra chinesa.

O senhor Liu, recebido com todas as honras devidas a tão ilustre visitante, esteve no Rio de Janeiro e em São Paulo. Nesta última cidade, deu uma passada pelos cartões postais de então, incluindo uma inevitável visita à Escola Normal ― orgulho do nascente magistério republicano. Foi saudado em francês, como se usava na época. E em francês respondeu.

Um ano antes da visita do príncipe, a primeira leva de imigrantes japoneses já havia aportado a Santos. Pode ter sido porque os japoneses estavam sendo bem avaliados por seus empregadores, pode também ter sido porque a instabilidade da China atrapalhava ― o fato é que o pleito do embaixador chinês gorou. Não se estabeleceu uma corrente contínua de imigração de chineses para o Brasil.

Os mapas
Era grande a cobiça que a China, desorganizada, despertava em potências estrangeiras. Os chineses se ressentiam da situação. Um exemplo é o mapa abaixo, onde países são representados por animais indesejados, cada qual carregando seu estandarte.

Mapa chinês alegórico Princípios do séc. XX

Mapa chinês alegórico
Princípios do séc. XX

As bandeiras são um tanto fantasiosas, assim mesmo dá para distinguir a Itália, Suíça, a Suécia, a Hungria. A águia americana aparece também.

Naqueles tempos, a península indochinesa ― aquela tripa de continente onde hoje estão o Vietnã, o Cambodja, o Laos ― era colônia francesa. No mapa, a França aparece simbolizada por uma rã assentada sobre a Indochina e prestes a agarrar a China. Por que uma rã? Porque os franceses são chamados frogs (=sapo) pelos ingleses. O apelido pejorativo vem do fato de os gauleses terem o surpreendente hábito de comer pernas arrancadas de rãs vivas. Para quem não está habituado, it’s really shocking, é chocante.

Para completar o capítulo geográfico, uma curiosidade. Cada um de nós sente que é o centro do universo. É natural, it’s human nature. Pois o mesmo ocorre com nações e países. Quando desenhamos um mapa-múndi, pomos o nosso país no centro e o resto em volta. Estamos acostumados a ver as Américas à esquerda, a Europa à direita e o Oceano Atlântico no meio. A China e o Japão quase caem do mapa.

Mapa-múndi chinês

Mapa-múndi chinês

Os chineses sofrem do mesmo mal. Sentem, eles também, que são o centro do mundo. Você já viu um planisfério chinês? Veja então a imagem abaixo. A China é localizada no meio do mapa. A Europa fica na extrema esquerda e as Américas se situam na extrema direita, com o Brasil quase caindo do mapa.

Mapa-múndi chinês

Mapa-múndi chinês

Cada um vê o mundo com seus óculos.

Rapidinha 12

José Horta Manzano

Com reportagem de Ricardo Chapola, o Estadão nos informa que foi criado um site exclusivamente para passar o chapéu e arrecadar uma ajudazinha do distinto público. Para quê? Ora, para pagar a multa a que um dos réus do mensalão foi condenado.

Três dúvidas me ocorrem:

Interligne vertical 141) O partido ao qual esse senhor é afiliado é considerado abastado. Por que não enfiam a mão no bolso e acabam logo com essa encenação?

2) Dados relativos a movimentação bancária são, em princípio, sigilosos. Quem garante que o montante anunciado terá sido realmente alcançado? De qualquer maneira, seja qual for a quantia declarada, ninguém poderá contestar.

3) Três dos condenados no processo do mensalão pertencem ao mesmo partido. A vaquinha está sendo lançada para dar arrimo apenas a um deles. Por que razão os outros dois não ousam recorrer à caridade pública? Será lícito tomar esse silêncio por uma reconhecimento de culpa?

Quem viver verá.

Boa-fé, má-fé, pouca fé

José Horta Manzano

A comunicação verbal é um dos traços distintivos entre o homem e o resto dos animais. Essa relação passa por um conjunto de códigos ― em princípio conhecido por todos os participantes.

Damos a essa coleção de símbolos o nome de língua. Dialeto, pidgin, crioulo, patoá, gíria, jargão são variantes do mesmo tema. Para que a informação passe, é imprescindível que os integrantes do grupo conheçam os códigos. Se assim não for, o recado não chega aonde deveria chegar, o que pode causar a maior confusão.

Estudante 2Como toda obra humana, a difusão das chaves da comunicação não é uniforme. Por mais homogêneo que seja o grupo, nem todos os seus componentes conhecerão todo o elenco de palavras disponíveis.

A reportagem de J. M. Tomazela, do Estadão, relata um fato constrangedor, daqueles que escancaram o resultado do processo de infantilização ao qual nosso povo vem sendo submetido.

O artigo relata a péssima ideia ocorrida a um jovem adulto brasileiro, que atualmente toma aulas de publicidade nos EUA. Sabe-se lá por que razão, o moço descabeçado decidiu cutucar a área de segurança americana. O mundo inteiro sabe que, por aquelas bandas, esse é assunto altamente sensível. Bulir com segurança nacional é pior que xingar a mãe do guarda.

Acreditando-se inatingível, o jovem enviou mensagens eletrônicas nas quais anunciava a presença de bomba num determinado voo, programado para dali a alguns dias. Para coroar o desvario, o moço tentou embarcar justamente no voo que havia apontado em suas denúncias. De criança, não deve ter aprendido que brincadeira tem hora, lugar e, principalmente, limite.Bomba 1

Desde os atentados de 2001, os serviços de segurança americanos não brincam em serviço. Pelo contrário, chegam a exagerar na prevenção. O irresponsável foi rapidamente identificado. Os policiais não se deram nem ao trabalho de colhê-lo em casa. Esperaram no aeroporto. Quando lá chegou, o engraçadinho, naturalmente, não embarcou. Foi direto para o xilindró, onde periga passar uma boa temporada. Naquele país, habeas corpus e embargos infringentes não são corriqueiros.

A família do estudante declarou que o jovem adulto agiu sem má-fé. Como é que é? Sem má-fé? Uma consulta ao dicionário se impõe. Está lá no Houaiss:

Interligne vertical 13«Má-fé
1 Disposição de espírito que inspira e alimenta ação maldosa, conscientemente praticada; deslealdade, fraude, perfídia
2 Termo usado para caracterizar o que é feito contra a lei, sem justa causa, sem fundamento legal e com plena consciência disso».

É exatamente o que fez o tresloucado jovem: movimentou todo um dispositivo de segurança, atrasou um voo comercial, atazanou a vida de centenas de passageiros, sacudiu a logística de uma companhia aérea, fez estrilar alarme vermelho em agências de segurança. Agiu de forma deliberada e consciente. Se isso não for má-fé, o que será?

Para efeito de comparação, vejamos o que nos ensina o mesmo Houaiss no verbete boa-fé:

Interligne vertical 13«Boa-fé
1 Retidão ou pureza de intenções; sinceridade
2 Convicção de agir ou portar-se com justiça e lealdade com relação a alguém, a determinados princípios
3 Respeito ou fidelidade às exigências da honestidade ou do que é considerado direito; lisura»

Agora ficou claro. O ato praticado foi de má-fé, sim, senhor. Aqueles que, preocupados em defender o jovem, disserem o contrário estarão deturpando a expressão.

Esperemos que estejam usando o substantivo errado por simples ignorância e não por… má-fé.

Frase do dia — 79

«(…) No comício oficial e obrigatório de réveillon, Dilma Rousseff denunciou ― eles continuam denunciando ― a existência de uma “guerra psicológica” para afugentar investimentos e desestabilizar a economia nacional. É muita modéstia do PT achar que alguém pode desestabilizar a economia melhor do que eles.»

Guilherme Fiuza em sua coluna na Revista Época. Para ler o artigo na íntegra, clique aqui.