Fugir para a Arábia?

José Horta Manzano

Todo o mundo já sabe, mas não custa repetir para que fique bem claro: o maior pavor do capitão é a cadeia. Por certo, essa não é a preocupação maior nem do distinto leitor nem deste escriba. Mas o capitão arrasta um passado complicado. Ele deve conhecer os motivos pra tanto medo.

Em diversas ocasiões, ele já bradou que ninguém jamais o tiraria do palácio e que nunca iria preso. A contradição da primeira parte de sua profecia já está aí: vai sair do palácio sim, senhor. Falta a segunda parte. Minha avó dizia: “Quem não deve, não teme”. Por que será que ele teme – e treme?

As especulações correm soltas sobre uma eventual fuga de Bolsonaro para o exterior. Não será simples. Se decidir seguir esse caminho em busca de asilo, terá de escolher um país com o qual o Brasil não mantém tratado de extradição.

Uma fuga para um país governado por dirigente autoritário de extrema-direita pode ser uma opção. A Hungria ou a Polônia, por exemplo. Mas… e se o governo de lá mudar de cor política amanhã e anular o asilo, como é que fica? Bora fugir de novo de mala e cuia?

Reinos, sultanatos e emirados do Oriente Médio são outra opção. Por lá, o risco de mudança de regime é quase inexistente. Mas… não deve ser fácil ter de passar o resto da vida numa bolha de ar condicionado, com samambaias artificiais, rodeado de deserto por todos os lados, com temperatura externa próxima de 50 graus. Tem quem aguente: Juan Carlos, que foi rei da Espanha, envolveu-se há dois anos num escândalo de corrupção e refugiou-se no emirado de Abu Dabi. Está lá até hoje.

O site Metrópoles informa que os filhos n°01 e n°03 do presidente estiveram na embaixada da Itália em Brasília terça-feira passada para tentar apressar o processo de reconhecimento da cidadania italiana para o clã. Entrevistado, o filho mais velho disse que deram início ao processo em 2019. Não explicou a razão da súbita pressa em ver o fim do túnel.

É permitido especular que, longe de cogitar uma aposentadoria na gelada Hungria ou no escaldante Oriente Médio, Bolsonaro esteja de olho na obtenção do passaporte italiano para dar o fora daqui. Num primeiro momento, até que parece boa ideia, mas o porto não é tão seguro como ele está imaginando.

Aconteceu não faz dez anos. Nos tempos em que a Lava a Jato comia feio, um senhor chamado Henrique Pizzolato, diretor de marketing do Banco do Brasil, encontrava-se em situação semelhante à do capitão hoje: era alvo da justiça brasileira e possuía dupla nacionalidade – italiana e brasileira. Às vésperas de ser preso, fugiu para a Itália.

Despistou a PF, saiu em direção à Argentina e de lá tomou avião para a Itália. Imaginou-se para sempre a salvo. Estava enganado. Quando souberam de seu paradeiro, as autoridades judiciárias de Brasília requereram sua extradição. Pizzolato tinha confundido a lei brasileira com a lei italiana. Imaginou que, como o Brasil, a Itália não extraditasse seus nacionais. Não é bem assim que funciona.

A lei italiana não impede a extradição de cidadãos do país. Com base no Acordo de Extradição firmado entre a Itália e o Brasil em 1989, cada caso será estudado individualmente. O fujão permaneceu dois anos na Península enquanto a batalha judicial corria solta. Num primeiro momento, sua extradição foi negada pela justiça italiana. O Brasil entrou com recurso, o caso foi para Roma, e a Corte de Apelação finalmente concedeu a extradição. Com o rabo entre as pernas, Pizzolato foi trazido pela PF a Brasília. De jatinho. Do aeroporto, foi direto para a Papuda purgar sua pena.

Se você, distinto leitor, for íntimo do clã do (ainda) presidente, procure fazer chegar este recado à família: “Lembrem-se do Pizzolato!”.

Se fugir já é uma vergonha, imagine só o que deve ser fugir, ser apanhado e trazido de volta pela PF. Vexame supremo! O capitão não vai querer arriscar. Ou vai?

Na ilustração, o avião que trouxe Henrique Pizzolato de volta para o Brasil.

Rastelo, rasto, rastilho

José Horta Manzano

Dona Dilma continua vociferando contra os raios que causam (ou não) apagões. Acidentes em «arenas» (=estádios) continuam ceifando gente. As várias máfias ligadas a obras públicas continuam dando que falar. Em resumo, a atualidade nacional continua firme no mais do mesmo.

Para quem espia tudo isso de longe, raios, arenas e roubalheiras não passam de barulho recuado, como aquelas trovoadas distantes e surdas. A gente nem presta atenção. Já um caso como o do signor Pizzolato é outra coisa. Esse nos toca de perto, dado que envolve a imagem que nosso país projeta.

Até alguns dias atrás, pouquíssimos europeus tinham ouvido falar da epidemia de corrupção que se tem agravado estes últimos anos no Brasil. Uma nota de pé de página aqui, outra ali, nada de muito significativo. A corrupção nas altas esferas russas, por exemplo, tem merecido olhares bem mais atentos. Tinha merecido, devo dizer.

As andanças espetaculosas de signor Pizzolato têm ocupado espaço. No dia 5 fev°, uns 4 ou 5 órgãos da imprensa italiana tinham noticiado alguma coisa. Hoje, 7 fev°, já passam de 40. Finalmente, o mensalão brasileiro está galgando os degraus da fama. De ocorrência terceiro-mundista mequetrefe, está-se tornando assunto de roda de amigos. É o caminho da glória.

Crédito: Ademir Vigilato da Paixão, desenhista paranaense

Crédito: Ademir Vigilato da Paixão, desenhista paranaense

E tudo isso se deve ao signor Pizzolato, aquele que se julgou mais esperto que os outros e… se estrepou. Os companheiros devem estar dando graças a Deus por terem permanecido no torpor tropical de Pindorama.

Chegou agora há pouco a notícia de que o ítalo-brasileiro vai continuar preso em regime fechado enquanto as autoridades não decidem o que fazer com ele. De qualquer maneira, infringiu leis brasileiras e italianas. Foi condenado em caráter definitivo no Brasil, tornou-se fugitivo da Justiça, piorou seu caso ao cometer crime de falsidade ideológica, entrou na Itália com papéis falsos. É difícil fazer pior.

Desafiou a capacidade de todas as polícias do mundo, em especial da brasileira e da italiana. Polícia costuma rastelar. Signor Pizzolato, inexperiente e ingênuo, deixou rasto. Foi apanhado. Acendeu o rastilho que se aproxima perigosamente do barril de pólvora sobre o qual estão assentados seus companheiros de partido.

PS: Rastelo, rasto e rastilho pertencem à mesma família etimológica. Rasteiro também.

Frase do dia — 42

«O que é preocupante é que em 2012 [Henrique Pizzolato] passou longos meses na Itália e as autoridades brasileiras não atinaram para essa previsível fuga. O Ministério Público Federal deve tomar a iniciativa nessa questão. Não deve deixar as coisas simplesmente ficarem dessa maneira.»

Arthur Gueiros, Procurador regional da República no RJ, em entrevista a Fausto Macedo, Estadão 18 nov° 2013.

Complemento a meu artigo de 17 nov° 2013 A coisa vai, a coisa vem.