Obrigado a não & não, obrigado

(Eta titulozinho misterioso, não? Pois você vai entender já, já.)

José Horta Manzano

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Obrigado a não
Em seu caderno Mundo, a Folha de São Paulo deu longo título a uma matéria de seu enviado especial à Crimeia. Está lá, com todas as letras:

«Jornalista é obrigado a não divulgar material negativo de referendo, diz governo da Crimeia».

«Obrigado a não»? Que formulação infeliz, gente! Obrigar é ação positiva e proativa. É daquelas que impelem, constringem, empurram, forçam alguém a fazer alguma coisa. Não combina com negação.

Folha de São Paulo, 14 mar 2014

Folha de São Paulo, 14 mar 2014

Mais feliz teria sido o dador de título se tivesse empregado um verbo contendo a ideia de reter, puxar as rédeas, frear. Impedir e proibir cairiam bem. Veja:

«Jornalistas estão impedidos de divulgar (…)» ou
«Jornalistas estão proibidos de divulgar (…)»

Melhor, não?

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Não, obrigado
Sonho de todos os bons restaurantes é figurar no Guia Michelin, o indicador gastronômico mais respeitado no planeta. Aparecer ali, no entanto, é privilégio reservado a muito poucos.

Guia Michelin

Guia Michelin

A distinção é simbolizada por estrelas. Uma estrela significa «muito boa mesa em sua categoria». Duas estrelas assinalam uma «excelente mesa que merece uma visita». Três estrelas ― a honra suprema, concedida apenas a uma centena de restaurantes esparsos por 12 países ― indicam «cozinha ímpar ― vale uma viagem».

Como se pode imaginar, o guia é bastante sovina na hora de atribuir suas estrelas. Cada ano, quando nova edição é lançada, muito chefe de cozinha competente fica a ver… estrelas, que estrelato não é para qualquer um.

A última edição do Michelin brindou um restaurante belga com uma estrela, a primeira jamais conquistada por aquele estabelecimento. Algum tempo depois, o chefe de cozinha (e dono do restaurante agraciado) enviou uma carta registrada à redação do Michelin para solicitar que a estrela lhe fosse retirada e que o nome de seu restaurante não mais aparecesse no guia.

Ninguém entendeu as razões do gesto incomum ― coisa de deixar de queixo caído. A notícia, por rara, propagou-se rapidamente, e o cozinheiro foi procurado pela mídia curiosa de conhecer sua motivação.

Haute cuisine

Haute cuisine

Herr Fredrick Dhooghe explicou que, desde que seu estabelecimento começou a ser mencionado no afamado guia, clientes novos apareceram. E todos esperavam encontrar uma cozinha excepcional, espetacular, sofisticada. Ele, no entanto, prefere continuar fazendo o que sempre fez: uma cozinha simples, que mostre o verdadeiro sabor de cada prato, sem modismos. Não está disposto a abrir mão da liberdade de cozinhar à sua maneira.

O Michelin, provavelmente despeitado, aquiesceu. O restaurante de Herr Dhooghe não aparecerá mais no guia. O curioso personagem teve a coragem de dizer «não, obrigado».

A notícia em francês.

A notícia em flamengo (variante do holandês).

A cavala da Ilha Fiscal

José Horta Manzano0-Sigismeno 1

Sigismeno apareceu bastante excitado hoje de manhã, com aquela cara de um Arquimedes que houvesse feito uma grande descoberta.

«Estive pensando no baile da Ilha Fiscal.» ― foi logo dizendo.

«E por que, caro amigo?» ― tentei mostrar paciência.

Pausadamente, ele foi desenrolando seu pensamento: «Como aprendemos no curso de História do Brasil, a última festa dada pelo imperador Pedro II foi na Ilha Fiscal, um baile em homenagem a militares chilenos de passagem pelo Rio. O banquete teve lugar menos de uma semana antes do 15 de novembro. Daí, veio aquele golpe militar ― que chamamos pudicamente de ‘proclamação‘. O imperador foi despachado para o desterro e a República se instalou.»

«Até aí, estou acompanhando, Sigismeno. Mas por que você está tão excitado com esse baile do tempo do Onça?»

«Mas você não percebe? Não vê que estamos vivendo tempos perigosamente semelhantes?»

«Tempos semelhantes? Acho bom você explicar melhor. Não vejo o que o baile tem que ver com a atualidade» ― cortei seco.

«Pois então, raciocine comigo. Faltando uma semana para o fim do regime, o imperador consentiu dar uma festa de arromba. Com a participação de seu entourage, da corte em peso. Nem de longe desconfiavam que nuvens negras anunciavam a tempestade. Não foi assim?» ― insistiu Sigismeno.

«Parece que sim. Pelo menos, é o que a História guardou.»

«Pois então» ― prosseguiu ele. «As ruas andam fervendo, os que sustentam o país com seus impostos estão descontentes. Andei lendo que, na Copa, o Brasil vai gastar quatro vezes mais do que gastou a África do Sul. Por um sim, por um não, torcedores se trucidam, invadem sede de clube, quebram tudo.»

«Mas isso não é de hoje. Ainda que a retórica oficial continue ensinando que brasileiro é povo pacífico, todos sabem que, no fundo, sempre fomos gente violenta. Não é novidade» ― retruquei eu, sem entender aonde Sigismeno queria chegar.

«É, mas a coisa anda mais feia do que de costume. Antes, cada um resmungava no seu canto. Hoje, as tais redes sociais amplificam o clamor. Os descontentes não se sentem mais como velhos rabugentos e solitários. Isso ainda vai acabar mal» ― sentenciou ele.

«Ainda não entendi onde é que a Ilha Fiscal entra nessa história.»

«Puxa, mas tenho de explicar tudo! Não lhe escapou a notícia de que nossa presidente tentou mandar a imprensa para escanteio enquanto levava a corte a Lisboa para comer cavala escondido, pois não?»

Cavala com aspargos Crédito: Paracozinhar.blogspot

Cavala com aspargos
Crédito: Paracozinhar.blogspot

«Cavala? De onde você tirou essa ideia fora de esquadro?» ― balbuciei abismado.

«Pois andei lendo que dona Dilma não foi comer bacalhau, que é prato muito chué. Foi comer cavala, aquele peixe que os ingleses chamam mackerel. Na França, é maquereau. A ciência conhece como acanthocybium solandri

E continuou: «Pois agora, imagine você: o país fervendo, as contas estourando, a economia à deriva, o povo ao deus-dará, e a corte se refugiando de sorrelfo para degustar cavala em restaurante estrelado.»

E foi adiante: «Se fosse inócuo e ético, não teriam feito isso escondido. Sabiam que nós, que sustentamos a turma, não havíamos de gostar.»

«Mas, Sigismeno, eles disseram que cada um pagou sua parte.»

«É» ― atalhou ele ― «mas esqueceram de acrescentar que altos funcionários, quando viajam, têm uma ajuda de custo de uns 400 dólares por dia. Podem até ter pago com cartão pessoal, mas essa despesa, ao fim e ao cabo, vai ser paga por nós.»Interligne 18b

Devo admitir que Sigismeno tem lá sua dose de razão. Pagar pela cavala de privilegiados é dose pra cavalo. Os medalhões devem ter faltado à escola no dia em que foi dada a lição sobre o baile da Ilha Fiscal.