Umas e outras

José Horta Manzano

Folha de S. Paulo, 2 jul°
Considerar PCC e CV terroristas pode ajudar a combater lavagem de dinheiro, diz diretor de banco

Não discordo desse senhor. No combate da lavagem de dinheiro, toda ajuda é sempre bem-vinda. Mas continuo achando que o problema não é colar ou deixar de colar, nas organizações criminosas brasileiras, a etiqueta de “terroristas”. Na vida real, a nova etiqueta não muda grande coisa. As organizações criminosas continuam sendo o que sempre foram: um bando de criminosos que se dedicam a lucrar bilhões, por meio de ilegalidades e ilícitos, sempre à custa do honesto cidadão.

Quanto aos castigos e punições que possam vir de Washington, elas têm vindo de qualquer maneira. Nosso país foi punido com taxas de importação exorbitantes. Um magistrado do STF, mesmo sem ter sido acusado de “terrorismo”, foi castigado com os rigores da Lei Magnitsky. Portanto, entende-se que a arbitrariedade e a brutalidade da administração americana cai como raio da morte (ou da vingança) sobre a cabeça que quem lhes aprouver, sem necessidade de a vítima ser terrorista.

Cuidar dos próprios bandidos é função de cada país civilizado. Não vamos nos enganar: um Brasil civilizado ainda é esperança, não realidade. Assim mesmo, cabe ao Estado brasileiro combater suas próprias mazelas. Em caso de necessidade, autoridades estrangeiras podem sem solicitadas por Brasília para dar uma mão. O que não está correto é que estrangeiros tomem a iniciativa de combater nossos criminosos, deixando autoridades brasileiras em curto-circuito. Mal comparando, seria como se a polícia italiana tivesse vindo ao Brasil raptar Cesare Battisti, fugitivo do sistema judiciário peninsular. Não tem cabimento.

Nosso grande problema é que há forte intimidade entre os que detêm o poder e os que detêm as Kalashnikov. Os dois campos se esfregam na calada, o que dificulta ou impede ações policiais.

 

O Globo, 2 jul°
Messi cai na gargalhada ao passar por revista de segurança em aeroporto

A toda a hora surge um exemplo de que não somos todos iguais, mas que uns são bem mais iguais que outros.

Agora experimente vosmecê fazer como Messi da próxima vez que passar pela alfândega americana. Solte uma gargalhada na cara do guarda. Vai passar algumas semanas nas masmorras americanas. Dependendo do caso e do humor dos que mandam, ainda será julgado e condenado.

 

O Globo, 2 jul°
Como escolher a escola do seu filho sem cair em armadilhas

Como é que é? Cair em armadilhas? No meu tempo, não se imaginava que escola pudesse ter “armadilhas”. Isso era pra apanhar rato.

 

Folha de S. Paulo, 2 jul°
Único ex-presidente da Assembleia do RJ que não foi preso neste século costura retorno em 2027

Este último cabeçalho serve para alimentar aquela lenda de “Brasil civilizado”.

Comparecimento imediato

José Horta Manzano

Você sabia?

No Brasil, quem sai fora da linha não arrisca muito. Tendo um bom advogado e alguma folga financeira, aí então é moleza. Na falta de dinheiro, o apoio de uma ong qualquer também funciona.

Habeas corpus, prisão domiciliar, regime semiaberto, recursos, chicanas, entrevistas à mídia, protestos, faixas, passeatas contam-se aos montes. Até pedido de asilo político em consulado do Uruguai anda na moda. Cadeia é mesmo só pra pobre desdentado. Gente fina sempre dá um jeito.

Em outras partes do mundo, a coisa não funciona exatamente assim, que lugar adequado para quem afronta a lei é cadeia.

Um grupo havia solicitado à polícia francesa autorização para organizar uma manifestação em solidariedade com o povo palestino. As autoridades não deram permissão. Os manifestantes resolveram passar por cima e sair em passeata assim mesmo. Foi em Sarcelles, arredores de Paris, domingo passado.

Manif 2O que tinha de acontecer, aconteceu. Elementos perturbadores infiltraram-se na passeata e transformaram o cortejo pacífico em manifestação violenta. Vitrinas quebradas, lojas saqueadas, degradação de patrimônio público.

Tivesse ocorrido em nosso País, teria dado em nada. Ultimamente, os deveres andam meio esquecidos ― só valem os direitos. A expressão violenta da opinião de uns poucos tem prioridade sobre o direito à paz e à tranquilidade de que a esmagadora maioria de cidadãos deveria poder gozar.

Na França, tem disso não. A polícia deteve 18 arruaceiros. Foram divididos em grupos, conforme o delito cometido. Os primeiros foram apresentados à Justiça num procedimento dito de comparution immédiate ― comparecimento imediato. Essa fórmula é frequentemente utilizada em caso de pequenos crimes.

Os quatro primeiros foram julgados e condenados já na terça-feira, dois dias depois do tumulto. Três deles pegaram pena de dez meses de prisão ― os quatro primeiros meses em regime fechado e os seis últimos no semiaberto.

Não há consulado do Uruguai em Sarcelles. Nem que houvesse, não adiantaria nada. Preso político é uma coisa, baderneiro é outra.

Tem bobo pra tudo

José Horta Manzano

Interligne vertical 14Tem alguém que é bobo de alguém, apesar do estudo
Está provado porque neste mundo tem bobo pra tudo.

Samba de Manoel Brigadeiro e João Correia da Silva, 1963

Não sei se terá saído de moda. É que as coisas andam mudando muito rápido. No meu tempo, se dizia bocó. Era quando a gente queria designar um bobão, daqueles que se dão ares de independência e superioridade ao mesmo tempo que seguem o rebanho. Aqueles que se acham o máximo, embora, sem se dar conta, ajam exatamente como os demais.

Tem bobo pra tudo

Tem bobo pra tudo

Assim como a fala e a escrita, o gestual deve primar pela clareza. O que é, é. O que não é, não é. Nada pode ser e não ser ao mesmo tempo. Cada um de nós, quer nos expressemos falando, escrevendo ou gesticulando, devemos deixar claro o sentido da mensagem. Ou corremos o risco de ser mal interpretados, com todas as consequências que isso possa acarretar.

Já falei em post anterior sobre a simbologia múltipla de certos gestos, mormente da «saudação de Lênin», usada como pau pra toda obra. Ao longo dos últimos 120 anos, tem sido usada por esquerdistas, direitistas, anarquistas, constestadores, revolucionários, separatistas, feministas, terroristas, socialistas, trabalhistas y otros más. É gesto polivalente. Donde, dúbio. Portanto, perigoso. Não deixa clara a mensagem que o autor gostaria de transmitir.

Nesta terça-feira, quis o acaso que doutor Barbosa, o presidente do STF, tomasse assento ao lado do vice-presidente da Câmara dos Deputados. Este último ― personalidade pouco expressiva e pouco conhecida ― decidiu aproveitar o momento de glória e de exposição às câmeras que a proximidade do doutor lhe proporcionava.

Ingênuo, fez exatamente o que não devia. Ensaiou o gesto dúbio, aquele que, de tão batido, não transmite mais mensagem nenhuma. Primeiro, levantou o braço esquerdo com o punho cerrado. Em seguida, não satisfeito, refez o gesto, desta feita com o braço direito. Para coroar, pôs-se a enviar mensagem por seu telefone de bolso. Estou falando do vice-presidente da Câmara, minha gente. Desde os tempos da Alemanha hitleriana, não me ocorre algum outro caso de autoridade levantando punho cerrado em plena assembleia.

Decoro
Está lá no dicionário para quem quiser ver. São quatro as acepções principais:

Interligne vertical 111. Recato no comportamento; decência.
2. Acatamento das normas morais; dignidade, honradez, pundonor.
3. Seriedade nas maneiras; compostura.
4. Postura requerida para exercer qualquer cargo ou função, pública ou não.

O gesto do senhor vice-presidente da Câmara Federal da República, consumado no recinto do parlamento, responde às quatro acepções. Atropela o decoro parlamentar. Agride o decoro tout court. Um certo senhor de nome Severino, que um dia teve assento privilegiado naquele mesmo recinto, tinha muitos defeitos. Mas não descia ao ridículo. O atual vice-presidente é o que a gente chamava de bocó de mola.

Tem bobo pra tudo Crédito: Sérgio Lima, Folhapress

Tem bobo pra tudo
Crédito: Sérgio Lima, Folhapress

Num país civilizado, essa demonstração de baixo nível seria punida com o desprezo dos eleitores acompanhado da exclusão imediata do parlamentar. Se nossas excelências deixarem passar essa afronta sem denunciá-la ao Conselho de Ética, é sinal de que o vale-tudo vale tudo.

Que se libere o bermudão e o chinelo de dedo.Interligne 16

PS: Para recordar o samba Tem bobo pra tudo, na voz de Alcides Gerardi, clique aqui.