O tripé

José Horta Manzano

O senhor Pedro Passos, sócio fundador da empresa Natura e presidente do Iedi (Instituto de Estudos para o Desenvolvimento Industrial), concedeu entrevista a jornalistas do Estadão.

Entre suas considerações, a fala que transcrevo aqui adiante é especialmente alarmante: «O ambiente econômico está muito prejudicado no País. A taxa de investimento é muito baixa, o clima de confiança não existe, acabou. Falta direção. Não está claro para onde estamos indo, quais são os grandes compromissos. Isso cria instabilidade.»

Sabemos todos que nossos atuais mandachuvas se sustentam há mais de dez anos no poder. Sabemos também que essa longevidade ― incomum em nossa República ― está equilibrada num tripé: economia estável, grandes capitães da indústria satisfeitos, camadas populares felizes. Para parar em pé, uma mesa ― ou um palanque, como queiram ― precisa de três pés. Com dois, vai bambear.

Durante dez anos, a economia brasileira, estabilizada por medidas tomadas por governos anteriores, beneficiou-se do ambiente internacional de expansão. Conseguiu, assim, surfar na crista da onda. Estava armado o primeiro pilar.

Botte-cul artesanal

Botte-cul artesanal

Na esteira dessa expansão, os grandes grupos econômicos brasileiros ― aqueles que, no fundo, detêm o poder real ― não tiveram do que reclamar. Só pediam mais do mesmo. Coração leve, constituíram o segundo pilar.

Esse clima de euforia amplificado por bem orquestrada propaganda embalou as camadas menos favorecidas da população. Elas não relutaram em aplaudir e acompanhar a carruagem. Estava montado o tripé.

Numa análise ingênua e superficial, muitos medalhões acreditaram que o «sistema» duraria decênios. É verdade que ainda está de pé, pelo menos em aparência. Mas fendas, fissuras e rachaduras se alastram pelas paredes. Sapo que incha demais periga explodir.

O panorama da economia planetária já não se apresenta tão róseo para o Brasil. A primeira perna do tripé está bambeando. As considerações tecidas pelo presidente do Iedi deixam claro que os grandes empreendedores andam desanimados com as incertezas nacionais. Perigam expatriar seus capitais e investir em ambientes mais propícios. Se o fizerem, a segunda perna do tripé também vai bambear.

Botte-cul design

Botte-cul “design”

Resta um último ponto de apoio: o voto popular. Não há que esquecer que ele deriva, em grande parte, da dinâmica econômica do país. Baixos investimentos e altos gastos de manutenção da máquina governamental não são o melhor combustível para arribar o povão a um bem-estar duradouro. Propaganda ufanista não enche barriga.

Se o voto das camadas menos informadas também esmorecer, o palanque vai acabar desabando por mera falta de pontos de apoio. Saco vazio não para em pé. E tem mais: ainda que, por hipótese, o apoio dos estratos mais dependentes da população se mantivesse, as duas outras pernas continuariam faltando. Que eu saiba, o único banquinho de um pé só é aquele que pequenos camponeses utilizam para a ordenha. Em francês popular, o nome é botte-cul.

No entanto… vale lembrar que vaca mal alimentada dá pouco leite. Pode até secar de todo.

2 pensamentos sobre “O tripé

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