Carta aberta ao gato do José

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cachorro 22Prezado amigo felino,

Sabíamos que você, gato inspirado,
Estava deveras acabrunhado e curioso
Dos motivos do tal instituto ter entrado
Em um sono misterioso

Alvíssaras, prezado companheiro,
Folgamos em lhe dizer que o pessoal acordou
E colocou mais brasa no braseiro
Através de duas pesquisas o fim do governo indicou

Informam que a rejeição subiu, como já sabíamos todos
E que a oposição seu patrimônio manteve intacto
E esperavam, impávidos, com esses dados causar impacto
Resgatar sua credibilidade junto aos tolos

Mas, oh, quanta ingenuidade
Já mais ninguém aguenta
Constatar a desdita da presidenta
E desacreditar no fim de sua impunidade

Só faltou explicar
Se, para tudo isso, contribuiu o ocorrido na Venezuela
Ou se o que eles buscavam era só confirmar
Que o Brasil não mais comporta esse bando de Zé Arruela.

Em tempo, será que o Papa Francisco podia
Rezar uma missa de réquiem e colocar um ponto final nessa agonia?

Um abraço carinhoso de suas amigas cachorras.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Lavagem de alma

José Horta Manzano

Vaia 1Nada como uma boa crise pra derrubar máscaras. Enquanto a maioria do povo brasileiro acreditava que o País estivesse sendo bem conduzido, os do andar de cima viviam tranquilos, satisfeitos, confiantes. Arrotavam importância.

No entanto, como não há mal que sempre dure nem bem que nunca se acabe, más notícias começaram a chegar. Primeiro veio o mensalão, levado na brincadeira no início, cozinhado em água fria em seguida, sempre negado pelo Lula apesar das suspeitas que ainda recaem sobre ele. O escândalo abalou a confiança que muitos tinham nos medalhões, mas não foi suficiente para apartá-los do poder.

Como num rodamoinho, em que o movimento descendente começa lento e vai-se acelerando mais e mais, as más notícias têm chegado. Más notícias para eles, bem entendido. Para nós outros, são boas-novas.

Lavanderia 1Essa Operação Lava a Jato está impressionante de ousadia. E de eficácia. Destemidos, os que a dirigem têm cercado gente graúda. Não só cercado, como acuado, acusado e despachado ao xilindró. Coisa nunca vista antes nessepaiz. O povo parece que acordou. A última pesquisa de opinião indica que nove em cada dez brasileiros reprovam o governo de dona Dilma.

O Lula anda deprimido. E não é pra menos: uma a uma, as cavilhas que o prendiam ao pedestal da glória vão sendo desparafusadas. Em excelente artigo, o jornal O Globo relata a fala patética que o taumaturgo, desnorteado, despejou num colóquio com religiosos, havido em seu comitê político, aquele que leva o pomposo qualificativo de instituto.

Nosso guia confirma o que já sabíamos: que tanto ele quanto dona Dilma e o partido estão todos no «volume morto». Na metáfora saborosa, o que chama mais a atenção não é o volume, é o morto.

Represa 5Sem que o orador se dê conta, suas palavras denotam que ele ainda se sente parte integrante do governo. Fala em «nossa» rejeição. Diz que «a gente» tem de mudar.

Mostra também que seus métodos de governar pararam no tempo. Acusa a sucessora de permanecer trancada em palácio e dá a receita para romper a clausura: sair por aí, passar a mão na cabeça, dar beijo. Ele continua achando que, para se aproximar do povo, basta subir num palanque. É tão simples, não é mesmo?

Diz que, há meses, ele e sua turma são incapazes de dar uma boa notícia aos brasileiros. O ex-presidente tem razão. As boas notícias não têm vindo do Planalto, mas do Poder Judiciário. Interpelações, perquisições, devassas e prisões podem aporrinhar a vida do Lula, mas têm lavado nossa alma.

Governo concordou

Cláudio Humberto (*)

O governo Dilma soube com antecedência dos planos do governo venezuelano de destacar um grupo de militares à paisana, passando por manifestantes, para hostilizar os senadores que foram a Caracas visitar presos políticos. Também a embaixada brasileira demonstrou saber da operação de intimidação: diplomatas tinham ordem para não acompanhar os senadores na van que seria alvo dos milicianos.

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

by Roque Sponholz, desenhista paranaense

O embaixador brasileiro Ruy Pereira entrou no avião dos senadores antes que desembarcassem, cumprimentou-os e “vazou”.

Os pilotos da FAB que conduziram os senadores foram avisados pelas autoridades venezuelanas para preparar o voo de volta imediatamente.

Após o desembarque dos senadores em Caracas, os pilotos da FAB foram de novo abordados e aconselhados a “nem almoçar” na cidade.

O grupo de senadores de oposição foi a Caracas visitar presos políticos venezuelanos, mas mal conseguiu sair do aeroporto.

(*) Cláudio Humberto, bem informado jornalista, publica coluna diária no Diário do Poder.

Ói ele aí de novo, gente!

«A mentira no debate político é recurso habitual dos líderes do Foro de São Paulo, clube bolivariano do qual o senhor Garcia é sócio-fundador. Ele tem o título de Assessor Internacional da Presidência. De fato, é ele, e não a presidente, quem conduz a diplomacia brasileira: daí a relevância do embuste.»

Aloysio Nunes Ferreira, presidente da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional do Senado da República. A declaração, publicada pelo Estadão, foi dada na esteira da humilhação assestada aos parlamentares brasileiros que se deslocaram a Caracas dois dias atrás. O senador refere-se a Marco Aurélio «top-top» Garcia.

Diplomacia espezinhada

José Horta Manzano

Ignorantes e deslumbrados, os incapazes que assumiram o comando da nação há 12 anos precipitaram-se ao pote de mel, que era o que realmente lhes interessava. Ávidos mas ingênuos, não se deram conta de que o Brasil não é um planeta isolado. Sua visão estreita não lhes permitiu enxergar a importância da inserção de nosso País em circuitos adequados e proveitosos.

A prova desse desprezo pela diplomacia e pelas relações internacionais foi dada com a nomeação, para cargos de responsabilidade crucial, de gente que não é do ramo. No Ministério das Relações Exteriores, titulares entram e saem. Tão pouca importância é atribuída ao cargo, que pouca gente saberia dizer quem é o atual titular. Por detrás da figura do ministro oficial, porém, paira uma sombra sinistra.

Dilma e GarciaRefiro-me a um certo senhor Garcia, cujo nome ficará para sempre associado ao epíteto “top-top”, de triste memória. Sem formação diplomática, o homem é uma espécie de elétron livre no organograma do governo. Na teoria, não passa de assessor sem função definida – um «aspone», como qualificam línguas vulgares. Na prática, sua influência nefasta está entre as principais responsáveis pelo amadorismo e pela tacanhice de nossa política externa. O personagem está entre os fundadores do Foro de São Paulo – isto talvez explique aquilo.

Não bastassem os 12 anos de constrangimento que esse senhor já contribuiu para nos impingir, o vexame continua. Em entrevista concedida ao Estadão e publicada ontem, senhor Garcia se pronuncia como se ministro de Relações Exteriores fosse.

Foro Sao Paulo 1À pergunta sobre se nosso governo vai chamar o embaixador na Venezuela para consultas – código diplomático para exprimir forte desagrado –, o «assessor» é taxativo: «Isso não está em cogitação. O governo brasileiro já se manifestou contra atos extremados e não é o caso de dar mais extensão a esse episódio.»

Levando em conta que dona Dilma & companhia andam, neste momento, atazanados por problemas mais prementes, é de duvidar que se preocupem com assuntos menores, como política externa. Senhor Garcia periga continuar poluindo nossa imagem e emperrando nossas relações com o mundo civilizado.

A seringueira

Luiza Soares (*)

«Uma árvore caiu ontem, inexplicavelmente, na Praça da República. Disse um botânico que a espécie à qual ela pertencia não costuma cair daquela forma, em pé, raiz arrancada do chão, sem cupins, sem doença aparente, sem motivo nenhum.

Arvore 2Era uma seringueira de sessenta anos que viu o Brasil decair e apodrecer. Quem sabe não aguentou tanta tristeza e… fim.»

Capturado do Blog da Wilma, 20 jun 2015.

Máximas do Barão ― 22

«O banco é uma instituição que empresta dinheiro à gente se a gente apresentar provas suficientes de que não precisa de dinheiro.»

Apparicio Fernando de Brinkerhoff Torelli, “Barão de Itararé” (1895-1971), humorista gaúcho

Frase do dia — 247

«Depois que a Bolívia jogou cães farejadores num avião da FAB que transportava o próprio ministro da Defesa do Brasil, tudo é possível, ainda mais na Venezuela de Nicolás Maduro. O Planalto e o Itamaraty não podem miar.»

Eliane Cantanhêde, em sua coluna do Estadão, 19 jun 2015.

Imbecilidade

José Horta Manzano

Señor Cabello, um dos bambambãs da hierarquia política venezuelana, esteve de visita ao Brasil dez dias atrás. Foi acolhido pelo Lula – chegaram a posar juntos, sorridentes, em fotos que saíram em todos os jornais. Embora a visita não tivesse caráter oficial, o estrangeiro foi assim mesmo recebido pela presidente da República. Dona Dilma abriu um espaço na agenda para honrar o ilustre braço direito do bondoso companheiro Maduro.

Agência Xinhua, China

Agência Xinhua, China

Oito senadores de nossa República embarcaram em avião da Força Aérea Brasileira para visitar presos políticos na Venezuela. Foram recebidos a pedradas por milicianos, convenientemente vestidos de vermelho, a soldo do governo do país hermano. A visita teve de ser interrompida.

Quando incapazes assumem funções de governo, tudo pode acontecer. É o que se tem verificado no Brasil e, em grau mais elevado, na sofrida Venezuela. Temendo que a visita de parlamentares estrangeiros pudesse servir de amplificador para o drama dos presos políticos, os brutamontes aboletados no Palacio Miraflores, de Caracas, raciocinaram de modo primitivo: sabotaram a visita.

Venezuela 2O tiro saiu pela culatra. Deu tudo errado. Tivessem os senadores visitado os presos, a notícia sairia na segunda página de jornais brasileiros. E mais nada. A ação de brucutu das autoridades venezuelanas fez o efeito exatamente oposto.

Jornais, rádios, tevês, portais, blogues do mundo inteiro repercutiram a notícia. Se alguém não sabia que houvesse presos políticos naquele país, agora sabe. Mais ainda: meteram dona Dilma numa saia justa ainda mais apertada do que a que ela anda vestindo. Um desastre.

É nisso que dá confiar responsabilidade a imbecis. Aqui está um florilégio do eco planetário suscitado pelas mazelas de um país atrasado.

The San Diego Union Tribune (EUA)
«Brazilian senators fail to meet with Venezuela opposition»

Latina Press (internacional)
«Venezuela: Chavistas greifen Senatsausschuss aus Brasilien an»

BBC (Reino Unido)
«Brazil senators flee Venezuela attack»

Agência Reuters (internacional)
«Venezuela gives landing permission for Brazil senators»

Deutsche Welle (Alemanha)
«Brazil senators blocked in Venezuela en route for visit to jailed opposition leader»

Venezuela al Día (Venezuela)
«Congreso de Brasil aprueba moción de repudio contra gobierno venezolano por agresión a senadores»

Entorno Inteligente (internacional)
«Después de las agresiones chavistas, los senadores brasileños se ven obligados a irse de Caracas»

Martí Noticias (EUA)
«Llegan a Caracas senadores brasileños en apoyo a presos políticos»

Abruzzo 24 ore (Itália)
«Venezuela: Accolgono a sassate delegazione di parlamentari brasiliani»

Venezuela al Día
«¡Que lo sepa el mundo! Senador Neves: “No nos queda duda de que en Venezuela no hay democracia”»

La Jornada (México)
«Condena Brasil ‘actos hostiles’ contra sus senadores en Venezuela»

Clarín (Argentina)
«Senadores brasileños van a Caracas y piden por los presos políticos»

Agência Xinhua (China)
«Líder de oposición brasileña critica que Venezuela no dio garantías de seguridad a comisión de senadores»

ABC Color (Paraguai)
«Senadores brasileños denuncian ataque y bloqueo en Venezuela»

Últimas Noticias (Venezuela)
«Gobierno de Brasil calificó de “inaceptable” lo ocurrido con senadores»

Data importante

José Horta Manzano

Você sabia?

Conclamação do 18 junho 1940

Conclamação do 18 junho 1940

Hoje os franceses acordaram com uma desagradável sensação de esquizofrenia.

Tradicionalmente, o 18 de junho é dia de orgulho patriótico. Relembra-se, a cada ano, o primeiro discurso pronunciado pelo General de Gaulle e irradiado pela BBC de Londres.

Em maio de 1940, poucos dias tinham bastado às tropas da Alemanha nazista para atacar, invadir, ocupar e submeter a França. A inesperada e repentina debâcle gerou um salve-se quem puder que desorganizou o país.

De Gaulle - alocução

De Gaulle – alocução

Levas de parisienses e de habitantes de grandes cidades refugiaram-se no interior. O governo desintegrou-se. Um velho marechal, herói da Primeira Guerra, foi chamado para tomar as rédeas do país. Assumida a tarefa, o militar decidiu cessar o combate, entregar os pontos e assinar a rendição. Constituiu-se um governo fantoche, só de fachada. No comando, monitorado pelos invasores, ficou o marechal.

Um militar graduado, mais aguerrido que outros, não se conformou com a situação. Transferiu-se para a Inglaterra – país não ocupado pelos alemães – e pôs-se a organizar, a partir de Londres, a resistência contra os invasores. Seu primeiro ato foi justamente o pronunciamento radiofônico, que hoje completa 75 anos, no qual conclamava os conterrâneos à resistência armada.

Napoleon 2Um outro fato histórico bem mais antigo também faz aniversário neste 18 de junho. Exatamente 200 anos atrás, a derrota das tropas francesas na Batalha de Waterloo(*) punha fim à era napoleônica. Na sequência, o imperador seria desterrado para a Ilha de Santa Helena, onde viveria o resto de seus dias.

Pontes, estações de metrô, praças e avenidas francesas celebram batalhas vitoriosas de Napoleão: Austerlitz, Iéna, Wagram. Já as derrotas, como a batalha perdida de Trafalgar, não são homenageadas. Waterloo é a pior de todas, aquela que freou definitivamente a expansão territorial do país e marcou o declínio do domínio francês sobre a Europa e a consequente ascensão da Inglaterra como primeira potência.

Napoleon 1Na Bélgica, está sendo organizada hoje uma reconstituição da batalha. Centenas de figurantes, todos vestidos a caráter, participam da encenação. Entusiastas, ingleses aplaudem. Franceses apreciam menos.

Uma particularidade é comum ao 18 de junho de 1815 (Waterloo) e ao de 1940 (Alocução de Charles de Gaulle). Ambos os acontecimentos assinalaram o começo do fim de uma era.

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(*) Waterloo é um vilarejo ao sul de Bruxelas, no atual território da Bélgica. A pronúncia na língua local (flamengo) é vaterlô. Uóterlú é o nome do lugarejo lido por um inglês. Falando nisso, Waterloo é também nome de música. Fez sucesso estrondoso quarenta anos atrás quando, cantada pelo grupo sueco Abba, foi vencedora do Concurso Eurovisão 1974.

Nota picante: naquele ano, coube à Inglaterra hospedar a competição. A França não participou. Naturalmente, uma coisa não tem nada a ver com a outra.

Quem quiser recordar a alegre canção Waterloo – gravada ao vivo durante a apresentação no festival – pode clicar aqui.

Uma vida vigiada

José Horta Manzano

Já disse e repito: estamos cada dia mais vigiados. Big Brother está aí, chegou pra ficar. Meus argutos leitores já se deram conta.

by Olga Subirós, arquiteta espanhola

by Olga Subirós, arquiteta espanhola

O espanhol El País publicou artigo sobre o assunto, de autoria da doutora Gemma Galdon Clavell, da Universidade de Barcelona. Ela assinala uma série de objetos e procedimentos de uso diário cujos dados podem escancarar a vida e a intimidade de cada um de nós.

A lista não é exaustiva.

Interligne vertical 16 3Kf1. Videovigilância. É muito prático poder assistir, de longe, ao que está acontecendo dentro de casa. O chato é que um grampo pode ser instalado por terceiros que poderão, assim, assistir às mesmas cenas.

2. Relógios de luz, termostatos e medidores de água, tão comuns e necessários, fornecem informação sobre hábitos do utilizador.

3. Televisores inteligentes e consoles de videogames dispõem de câmeras e microfones. O usuário pode estar sendo espionado.

4. Cartões de crédito são preciosa fonte de dados. Fornecem informações disputadíssimas sobre hábitos de compra.

5. Controles biométricos de entrada e saída armazenam informação sobre passantes.

6. Monitoramento remoto no trabalho pode, através de captura de tela, medir a produtividade do trabalhador.

7. Bases de dados pessoais contêm dados fiscais e de saúde dos clientes. Essa informação pode cair em mãos alheias.

8. Sensores de contagem de pessoas monitoram o fluxo de compradores e o tempo de permanência.

9. Cartões de fidelidade oferecem vantagens e descontos, mas também recompõem o perfil de cada comprador.

10. Ibeacons enviam ofertas para celulares próximos.

11. Wifi gratuito pode bisbilhotar o perfil Facebook de cada utilizador.

12. Cartões recarregáveis de transporte público guardam dados sobre os deslocamentos de cada passageiro.

13. Redes de automóveis e de bicicletas de aluguel registram trajetos dos clientes.

14. Placas de carros podem ser facilmente lidas por sistemas instalados na via pública.

15. Telefonia móvel permite geolocalizar.

16. Câmeras térmicas e sensores sonoros medem o fluxo de pedestres e níveis de ruído.

17. Mobiliário urbano detecta a presença de pedestres. Câmeras podem gravar, com nitidez, a imagem de quem passar.

18. Sistemas de estacionamento com cartão personalizado guardam dados sobre o utilizador.

Como se tudo isso não bastasse, quem nos garante que todas as nossas comunicações telefônicas não estão sendo armazenadas em gigantescas bases de dados? E nossas mensagens eletrônicas?

Big Brother 1É verdade que não há orelhas suficientes para escutar tudo. No entanto, em caso de necessidade, não deve ser difícil encontrar o que tiver de ser encontrado. Quem procura acha.

O que parecia, vinte ou trinta anos atrás, delirante ficção científica é hoje realidade. Estamos cercados – não dá pra escapar.

Ooops!

Carlos Brickmann (*)

MitraCerto dia, alguém liberou, na France Presse de Paris, a prematura notícia da morte do papa Paulo VI. Na Rádio Bandeirantes, uma das principais emissoras do país, o excelente locutor Lourival Pacheco, que estava no ar, deu a informação.

A emissora já entrava com o aparato fúnebre (biografia, música sacra, personalidades dando depoimentos sobre a perda, prognósticos sobre os possíveis sucessores) quando chegou de Paris a informação de que tudo tinha sido um engano.

Lourival Pacheco, preocupado em esclarecer a situação para os ouvintes, empostou sua esplêndida voz e corrigiu: “Lamentamos informar que, infelizmente, o papa não morreu”.

(*) Carlos Brickmann é jornalista, consultor de comunicação. Publica a Coluna Carlos Brickmann em numerosos jornais. O texto aqui reproduzido é fragmento da coluna.

 

Frase do dia — 245

«Que argumento terá uma mãe da favela para convencer seu flho a pegar em livros e não em fuzis se os corruptos estiverem exibindo diariamente o seu sucesso e os trabalhadores honestos continuarem pobres, humilhados e ofendidos, trancados em seus casebres porque as ruas estão ocupadas pela bandidagem?»

Fernão Lara Mesquita, jornalista, em seu blogue Vespeiro.

Um brinde

José Horta Manzano

Na virada de 2014 para 2015, a seca andava braba no sudeste do País. Seca é palavra em desuso. Na novilíngua politicamente correta, convém dizer «crise hídrica». É chique que não acaba mais.

Represa de Atibainha: chuvas aliviam a seca

Represa de Atibainha: chuvas aliviam a seca

A baixa do nível da água permitiu encontrar objetos, grandes e pequenos, que repousavam no fundo de reservatórios. Na barragem de Atibainha, que integra a rede de abastecimento da cidade de São Paulo, não foi diferente. Entre pneus, móveis e outros entulhos que nossa incivilidade prefere ocultar, encontraram-se carcaças de automóvel.

Represa 4Eu disse incivilidade? Deveria ter dito ignorância. Automóveis, baterias, pilhas, plásticos, vernizes encerram componentes tóxicos, metais pesados. Em contacto com a água, moléculas prejudiciais à saúde vão-se desprendendo e contaminam o precioso líquido. Filtros, por mais aperfeiçoados que sejam, não conseguem eliminar tudo o que não deve ser bebido.

O resultado é que acabamos ingerindo essa porcariada toda. Quem despeja objetos em reservatório age como se estivesse fazendo xixi na caixa d’água da casa onde vive. Todos acharam muita graça na descoberta de escombros, mas a ninguém ocorreu removê-los de lá.

As águas de janeiro aliviaram a seca. Represas, que estavam se exaurindo, começaram, lentamente, a se encher de novo. Em fevereiro, escrevi, sobre o assunto, o post A ruína emergente. Parecia-me o momento mais adequado para promover uma limpeza do entulho depositado no fundo das represas.

Represa de Atibainha: depois das águas de março

Represa de Atibainha: depois das águas de março

Tivesse falado com as paredes, teria obtido o mesmo resultado. Carcaças continuam lá, como se sua presença fosse natural. O perigo que oferecem a navegantes e a banhistas não comoveu nenhuma autoridade.

As águas de março continuaram enchendo os reservatórios. Já quase não dá pra distinguir os restos de automóveis mergulhados. Longe dos olhos, longe do coração. Levantemos um brinde – com água! – a nosso brilhante futuro.

Saúde!

De quem é o dinheiro?

José Horta Manzano

Você sabia?

Banco 4Envolvidos nas megarroubalheiras do petrolão & companhia costumam negar enfaticamente «ter conta bancária no estrangeiro». Sem pudor, repetem isso ao depor numa CPI ou num tribunal, diante de câmeras de tevê, em casa, na rua e no bar.

Mais tarde, descobre-se que o inquirido, exatamente aquele que tinha jurado inocência de pés juntos e olhar destemido, é dono de dezenas de milhões bem guardados nalgum banco no exterior. Por que será que praticamente todos seguem esse ritual de negação?

Dinheiro 2É simples. Já faz dois séculos que donos de banco perceberam que parte dos clientes não desejava que a fortuna depositada se tornasse de conhecimento público. Queriam a maior discrição possível. Espertos banqueiros suíços foram os primeiros a se dar conta do anseio da clientela e a encontrar solução. Hoje, todos os paraísos fiscais adotam o mesmo sistema.

Pra contornar o problema e facilitar a vida do cliente, estabelecimentos especializados em acolher «refugiados fiscais» fazem o seguinte. Na abertura da conta, são mencionados dois nomes: o do titular da conta e o do beneficiário dos fundos. Os dois nomes tanto podem corresponder à mesma pessoa quanto a pessoas diferentes.

Dinheiro lavagemAssim, o indivíduo A pode abrir conta em seu nome e declarar que os fundos pertencem ao indivíduo B. Nos extratos e em todos os documentos oficiais, somente o nome do titular – o indivíduo A – aparecerá. Desse modo, o senhor B poderá, sem mentir, declarar que não tem conta em seu nome.

A astúcia permite ao beneficiário afirmar, de boca cheia e mão estendida no peito, que não tem conta no estrangeiro. E não tem mesmo. O que tem, na verdade, são fundos depositados em conta de outra pessoa.

Preste atenção: Malufs, Cerveròs e assemelhados não costumam negar a posse de fundos no exterior. Dizem e repetem que não têm conta, que nunca tiveram e que não pretendem ter. No rigor da semântica, estão dizendo a verdade.

Dinheiro 1O dinheiro desses senhores está em contas abertas em nome de terceiros. Eles são «apenas» beneficiários, ou seja, proprietários da grana. Perceberam a astúcia?

Juízes, promotores, responsáveis por CPIs e excelências em geral deveriam ser informados sobre essa artimanha, que só assim passarão a fazer a pergunta adequada. Está aí uma consequência de nossa crônica falta de abertura ao mundo.

Maioridade penal e eleitoral

José Horta Manzano

Tem coisas curiosas. Faz anos que se discute sobre a idade em que o cidadão deve ser considerado apto a enfrentar processo penal. Volta e meia – principalmente quando algum crime escabroso, cometido por menor, provoca comoção nacional –, o assunto vem à pauta. Serenados os ânimos, volta à gaveta.

Enquanto isso, num reconhecimento de que o homem amadurece cada vez mais cedo, outros pisos etários têm sido alterados. Já faz tempo que se concedeu, a jovens de 16 anos, o direito de votar. Estes dias, a Câmara aprovou, assim sem mais nem menos, importantes alterações relativas à idade mínima.

Criança 5Candidato a senador(*) não precisa mais esperar até ter completado 35 anos: com 29 já pode postular. Também aos 29, todo cidadão que estiver no gozo de seus direitos civis poderá disputar chefia de governo estadual.

Na mesma votação, suas excelências mudaram até a idade exigida de candidatos a deputado federal ou estadual. A linha demarcatória da idoneidade foi adiantada de 21 para 18 aninhos.

Em tese, adolescentes de 16 anos podem agora não somente eleger deputado de 18, como também governador e senador de 29. No entanto, surpreendentemente, o mesmo adolescente que decide sobre os rumos do País é considerado penalmente irresponsável. É contraditório.

Criança 6Julgo que não é possível ser e não ser ao mesmo tempo. Se o jovem está suficientemente maduro para a importante decisão de escolher seus dirigentes, há de estar também para distinguir entre o bem e o mal, entre o que é permitido e o que não é.

Assim mesmo, maioridade penal é assunto complexo demais para ser tratado levianamente, ao sabor do humor político do momento. Envolve considerações filosóficas, psicológicas, criminológicas, políticas, sociológicas, econômicas.

Criança 4No meu entender, todo o sistema penal brasileiro merece ser revisitado. A nova roupagem não ficará pronta na semana que vem. Uma comissão de doutos e peritos tem de se debruçar sobre o assunto. Terão de responder a uma questão filosófica básica: «A finalidade da pena de privação de liberdade é castigar o condenado, vingar-se dele, exclui-lo da sociedade ou recuperá-lo?»

A resposta a essa pergunta orientará a discussão. Enquanto isso não acontecer, não me parece oportuno alterar o patamar da maioridade penal.

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(*) Senador deriva do termo latino senatus, que designa um conselho composto pelos cidadãos mais velhos. A família de descendentes, em nossa língua, inclui sênior, senectude, senescente, senecto. Inclui também senilidade, transtorno que tem demonstrado não ser necessariamente apanágio de idosos.

Tempos difíceis

José Horta Manzano

Os tempos andam complicados para todos – mais para uns que para outros. Para o partido que dominava a cena política federal até poucos meses atrás, o momento é mais que espinhoso. Depois que perderam a hegemonia, seus afiliados estão tentando colar os cacos.

O instantâneo tomado ontem no Congresso Nacional do PT deixa perceber que, por detrás de sorrisos de triunfo, há muita preocupação. Vejamos dois detalhes:

Dilma 12Interligne vertical 14A bancada oficial é ornada pelas bandeiras do Brasil, da Bahia e do partido. Detalhe sintomático: a bandeira nacional ocupa a posição central, jogando a do partido pra escanteio.

Nos tempos áureos, teriam vindo todos de roupa vermelha. Hoje, dado que o partido está irremediavelmente associado à roubalheira e à bandidagem, o vibrante vermelho-revolução – marca registrada da agremiação – foi substituído pela sem-gracice do traje de todos os dias. Alguns até de camisa pra fora da calça, composição pra lá de chique.

Pra finalizar, fato singular, importante e inquietante: a presença da presidente da República. A pessoa que acumula as duas funções maiores – chefe do governo e chefe do Estado brasileiro – deve ter a sabedoria de pairar acima de partidos. No momento em que foi eleita, dona Dilma deveria ter passado a distanciar-se de comemorações e festejos partidários. Faz parte da liturgia da função.

Dilma e Lula 2A presidente não fez mera visita de cortesia. Foi parte integrante e figura capital do convescote. Dado que nunca foi vista em convenção de nenhum outro partido, fica a certeza de que não é a presidente de todos os brasileiros, mas somente do partido do «nós». O «eles» fica de fora.

No fundo, é melhor assim.