Um brinde

José Horta Manzano

Na virada de 2014 para 2015, a seca andava braba no sudeste do País. Seca é palavra em desuso. Na novilíngua politicamente correta, convém dizer «crise hídrica». É chique que não acaba mais.

Represa de Atibainha: chuvas aliviam a seca

Represa de Atibainha: chuvas aliviam a seca

A baixa do nível da água permitiu encontrar objetos, grandes e pequenos, que repousavam no fundo de reservatórios. Na barragem de Atibainha, que integra a rede de abastecimento da cidade de São Paulo, não foi diferente. Entre pneus, móveis e outros entulhos que nossa incivilidade prefere ocultar, encontraram-se carcaças de automóvel.

Represa 4Eu disse incivilidade? Deveria ter dito ignorância. Automóveis, baterias, pilhas, plásticos, vernizes encerram componentes tóxicos, metais pesados. Em contacto com a água, moléculas prejudiciais à saúde vão-se desprendendo e contaminam o precioso líquido. Filtros, por mais aperfeiçoados que sejam, não conseguem eliminar tudo o que não deve ser bebido.

O resultado é que acabamos ingerindo essa porcariada toda. Quem despeja objetos em reservatório age como se estivesse fazendo xixi na caixa d’água da casa onde vive. Todos acharam muita graça na descoberta de escombros, mas a ninguém ocorreu removê-los de lá.

As águas de janeiro aliviaram a seca. Represas, que estavam se exaurindo, começaram, lentamente, a se encher de novo. Em fevereiro, escrevi, sobre o assunto, o post A ruína emergente. Parecia-me o momento mais adequado para promover uma limpeza do entulho depositado no fundo das represas.

Represa de Atibainha: depois das águas de março

Represa de Atibainha: depois das águas de março

Tivesse falado com as paredes, teria obtido o mesmo resultado. Carcaças continuam lá, como se sua presença fosse natural. O perigo que oferecem a navegantes e a banhistas não comoveu nenhuma autoridade.

As águas de março continuaram enchendo os reservatórios. Já quase não dá pra distinguir os restos de automóveis mergulhados. Longe dos olhos, longe do coração. Levantemos um brinde – com água! – a nosso brilhante futuro.

Saúde!

Malhação e aleluia

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 4 abr 2015

Que tenham sido um ou dois milhões nas ruas, dia 15 de março, tanto faz. A conta pouco conta. Que ministros deem as costas e se ponham a renunciar pode surpreender, mas tampouco é capital. Que assessores e porta-vozes se contradigam, que deixem o dito pelo não dito, que troquem os pés pelas mãos também não é o fim do mundo.

Cabo de guerra 1

Cabo de guerra

Que antigo presidente ameace soltar nas ruas exército paralelo, à imagem das milícias de Hitler e de Mussolini que impunham lei particular na valentona, não é plausível. Ainda que o Brasil esteja «esticando a corda», como confessou um ministro recentemente, o cabo de guerra não há de rebentar tão já.

Que o Congresso e a presidente andem às turras, que se mordam reciprocamente as excelsas orelhas, que se assestem mútuas pedradas é coisa de somenos. Que subam o dólar e a inflação, que baixem os reservatórios e a credibilidade do País são coisas da vida. Sobreviveremos.

Milicia 1

Milícia de Mussolini

Nossa presidente tem couraça rija, daquelas que não cedem a pressõezinhas. Forjada no enfrentamento, já passou por outras e não é de se assustar com miudezas.

No entanto, tudo tem limite. Cada um tem seu calcanhar de aquiles. Presidentes podem, peito aberto, dispensar louvor de áulicos, prescindir de ministros e até encarar congressistas. Um único pilar lhes é vital e imperativo: o apoio do povo que os elegeu.

Não há que se diga: o fator maior de desestabilização de Dilma Rousseff é sua vertiginosa queda no barômetro de popularidade, aferida por pesquisa recente. O que era apenas percepção tornou-se fato.

A presidente pode (dizem as más línguas que costuma) oferecer demorados chás de cadeira a assessores e outros visitantes. Pode humilhar publicamente, como de fato já fez, embaixador estrangeiro. Pode desconsiderar, como tem feito, críticas e alertas trombeteados pela mídia daqui e de fora. Existe algo, no entanto, que ela não pode fazer sem correr perigo funesto: passar por cima do descontentamento e da reprovação daqueles que nela depositaram confiança e que ora se sentem defraudados.

Há quem aposte em eventual destituição da mandatária pelo Congresso. Hipotética e traumática, a solução seria sobretudo desastrosa – deixaria sombras e amargor por muitos anos. Quem tem mais de 30 anos já assistiu a esse filme, verdadeiro traumatismo ainda vivo na memória.

ba Claudius Ceccon, desenhista gaúcho

by Claudius Ceccon, desenhista gaúcho

Sejamos objetivos. Dois fatores conjugados foram necessários para alçar Dilma à presidência. Por um lado, ao registrar candidatura, ela mostrou a decisão de dirigir a República. Por outro, ela se submeteu ao voto popular, universal e direto para obter o posto. Por coerência, eventual quebra de mandato tem de ser produto da interação dos mesmos fatores que a içaram ao cargo maior: vontade popular e decisão da interessada.

Nos dias de hoje, destituí-la por decisão de parlamentares pega mal. Ainda que tenham sido eleitos pelo povo, nossos congressistas têm feito tantas artes que são percebidos como descompromissados com o bem comum. Decidido pelo Congresso, eventual impedimento da presidente pode até ser tachado de conluio. Não convém seguir essa via.

Magnânima, a história guarda exemplos de como fazer. Uns casos são mais edificantes que outros. Entre os marcantes, está a despedida de De Gaulle, em 1969. Passada a enxurrada de protestos do ano anterior, o general sentiu-se desprestigiado. Começou a dar-se conta de sua desconexão com a nova realidade.

De Gaulle 1

Charles De Gaulle

Antes que o despedissem, afronta insuportável para velho leão, ele encontrou a parada: convocou um plebiscito – um mero subterfúgio. Na teoria, os cidadãos deveriam referendar uma reforma administrativa. Na prática, De Gaulle queria certificar-se de que o povo ainda o queria como presidente. Foi logo avisando que, caso a reforma fosse rejeitada, renunciaria ao mandato. Dito e feito. Derrotado pelo voto popular, o presidente deixou o cargo no dia seguinte.

Em outras ocasiões, dona Dilma já acariciou a ideia de plebiscito, sem nunca ter chegado aos finalmentes. Pois a hora é agora. Que escolha um pretexto qualquer, que o submeta à decisão popular e que deixe bem claro que, em caso de rejeição, renunciará ao que lhe resta de mandato.

Se for derrotada, sairá de cabeça erguida: terá saído porque quis e não por bilhete azul dado pelo Congresso. Se for respaldada, terá recebido a confirmação de que os brasileiros desejam sua permanência. Seja qual for o resultado, desonra não haverá.

Malhação do judas by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), artista francês

Malhação do judas
by Jean-Baptiste Debret (1768-1848), artista francês

Hoje, malha-se o judas. Possa o domingo de Páscoa serenar ânimos e perenizar a aleluia. Ninguém merece este clima por mais quatro anos.