Só quem tem gato sabe o que é

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

by Pedro Grehs Leite (1983-), desenhista gaúcho

Controle canino

José Horta Manzano

Você sabia?

Na Suíça, como nos países do norte da Europa, não há cães errantes. Todo cachorro tem dono. E não é só: todos têm de estar identificados por tatuagem ou chip sub-cutâneo e devidamente registrados na prefeitura, com nome e endereço. Para completar, todo proprietário paga uma taxa anual à prefeitura municipal, pelo direito de possuir um cachorro. É conhecido como imposto-cão, sem trocadilhos.

cachorro-35Embora fosse tão mais cômodo, cães não se resignam a fazer suas necessidades numa caixa de areia, como os gatos. Seria prático para o proprietário, mas não é assim. Cachorro tem de ser levado à rua. Regras existem também para passear com o bicho. Na entrada de cada parque, uma tabuleta indica se a entrada do animal é permitida ou não. Caso seja, a placa informa se ele pode andar solto ou se tem de ser preso pela coleirinha. Pelas ruas, estão espalhados distribuidores de sacos plásticos especiais para coletar cocô. Assim que o cão faz suas necessidades, o dono vem com o saco, apanha os dejetos e leva embora pra descartar no lugar apropriado.

Cada cantão tem liberdade para impor regras e fixar tarifas. Aqui estão alguns exemplos tomados ao acaso:

cachorro-34Cantão de Friburgo
Para ter mais de 2 cães, é necessário obter autorização

Cantão de Berna
Proibição de passear na rua com mais de 3 cães ao mesmo tempo

Cantão de Genebra
Taxa anual para o 1° cão: 50 francos (170 reais)
Para o 2° cão: 70 francos (240 reais)
Para o 3° cão: 100 francos (340 reais)

Todos os cantões
Todo futuro proprietário de cão é obrigado a seguir formação teórica e prática. O diploma lhe dará direito a ser dono de cão. Os cursos ‒ pagos, naturalmente ‒ são dados por monitores credenciados cujo título oficial é ‘educador comportamentalista canino’. O curso teórico deve ser completado antes da aquisição do animal. As aulas práticas devem ser tomadas no ano que se segue à chegada do bichinho.

Para dissuadir pessoas de possuírem mais de um animal, numerosos cantões estudam aumentar o valor da taxa anual, sobretudo a partir do segundo cão. A argumentação prende-se ao fato de que o melhor amigo do homem carrega reminiscências do instinto de malta. Ao avistar o que lhe parece ser uma presa ‒ criança pequena, animal menor ‒ um cão solitário não ousa atacar, ao passo que três ou quatro juntos se podem incentivar mutuamente e assumir comportamento bem mais agressivo.

cachorro-36Por enquanto, possuidores de gatos estão livres de cursos e de taxas. No entanto, em certos cantões já se cogita introduzir imposto (pesado) a ser cobrado dos que possuírem gato não-castrado. A motivação é evitar a proliferação de felinos que, na primavera, sobem às árvores e dizimam filhotes de pássaros.

Interligne 18cPasseando de fom-fom
Permite-se a entrada de cães em transporte público ‒ desde que estejam acompanhados pelo dono, naturalmente. Os bichinhos pagam passagem, como os humanos. Para evitar ter de comprar bilhete a cada vez, pode-se tomar assinatura. O documento, tamanho cartão de crédito, traz a foto do animal.

A companhia nacional de estradas de ferro transporta gratuitamente cães de até 30cm de altura, desde que estejam dentro de bolsa ou de jaula. Nesse caso, viajam de graça, como bagagem. É bom pra cachorro.

Fiz um gato

José Horta Manzano

Gato escondido 2As coisas, às vezes, acontecem na hora errada. Aliás, para coisas indesejadas, nenhum momento é propício. Pelas 11 da noite de ontem, quando costumo dar uma espiadinha na internet pra saber das novidades, não consegui entrar no primeiro site. Tentei um segundo, e nada. Depois do terceiro site fora do ar, tive de reconhecer que o sinal estava interrompido.

Aqui em casa ‒ como é comum por estas bandas ‒, eletricidade, televisão, telefone e internet são fornecidos pela mesma empresa. Como é a fiação? Não sei. Talvez venha tudo pelo mesmo buraco. Técnica, física, matemática e mecânica celeste nunca foram meu ponto forte. Fato é que ontem, de golpe, perdemos internet e telefone fixo. Por sorte, a eletricidade e a tevê continuaram firmes e fortes.

Na Suíça, depois do horário comercial, assistência técnica é tão difícil de achar como agulha em palheiro. A melhor notícia que o «serviço de emergência» da fornecedora conseguiu me dar é que um técnico entraria em contacto comigo na manhã seguinte. Tá.

Gato 1Que fazer? Nada. Panes aqui são muito raras, o que faz que a gente não esteja preparado para elas. Só pra dar uma pequena ideia, nenhuma casa tem caixa d’água. Nunca se ouviu falar nesse apetrecho. Armazenar água em casa, para um suíço, soa tão fora de esquadro como instalar sistema de calefação em Manaus.

Eis senão quando me vem à memória que, anos atrás, por razão que ora me escapa, chegamos a utilizar, por curto período, o sistema wi-fi do vizinho de parede. Com anuência dele, evidentemente. Na época, ele gentilmente nos forneceu a senha de acesso.

Gato escondido 16Aquela situação excepcional durou pouco porque logo tomamos assinatura internet e nunca mais utilizamos o sem-fio do vizinho. Só ontem, no momento da pane, a coisa me voltou à lembrança. O velho laptop que usávamos na época, embora já aposentado, não foi jogado fora. Aqui em casa, ninguém se lembrava mais da senha do vizinho mas… o velho computador de colo, que bobo não é, não se esqueceu. Como o vizinho é assinante de outra empresa, seu sinal estava perfeito.

Retirada temporariamente da aposentadoria que gozava no porão, a maquineta ressuscitou. Aparentemente orgulhosa de voltar à ativa, mostrou seriedade ao captar sem problema o sinal do vizinho, armazenado em sua inesgotável memória. É verdade que a velha maquininha é de uma lentidão à qual não estamos mais acostumados. Mas é sempre melhor que nada.

Graças a ela, pudemos assistir, ao vivo, à destituição do Lula. Não foi um lapso. Para mim, dona Dilma não passou de comparsa desastrada. Os escorraçados foram Lula & caterva.

Fiz um gato que valeu a pena.

Interligne 18c

Observação
O vizinho de parede, a quem deixo aqui meu agradecimento, mantém o apartamento montado embora raramente esteja por aqui. Estes dias, por exemplo, está de viagem.

Só para terminar: depois de 12 horas, internet e telefone voltaram.

Carta aberta ao gato do José

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Cachorro 22Prezado amigo felino,

Sabíamos que você, gato inspirado,
Estava deveras acabrunhado e curioso
Dos motivos do tal instituto ter entrado
Em um sono misterioso

Alvíssaras, prezado companheiro,
Folgamos em lhe dizer que o pessoal acordou
E colocou mais brasa no braseiro
Através de duas pesquisas o fim do governo indicou

Informam que a rejeição subiu, como já sabíamos todos
E que a oposição seu patrimônio manteve intacto
E esperavam, impávidos, com esses dados causar impacto
Resgatar sua credibilidade junto aos tolos

Mas, oh, quanta ingenuidade
Já mais ninguém aguenta
Constatar a desdita da presidenta
E desacreditar no fim de sua impunidade

Só faltou explicar
Se, para tudo isso, contribuiu o ocorrido na Venezuela
Ou se o que eles buscavam era só confirmar
Que o Brasil não mais comporta esse bando de Zé Arruela.

Em tempo, será que o Papa Francisco podia
Rezar uma missa de réquiem e colocar um ponto final nessa agonia?

Um abraço carinhoso de suas amigas cachorras.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.

Félix

Wilma Schiesari-Legris (*)

O Félix apareceu nas nossas vidas sorrateiramente, vagando pelos corredores do prédio, passeando pelo jardim de boa terra quente e dormindo num nicho da parede até ser adotado pelos habitantes do imóvel que assim o batizaram por ser ele um pleonasma em branco e preto do gato Félix.

Gato 1Todas as velhinhas do condomínio adoravam falar com o Félix, mesmo sem saber miar. Uma delas resolveu adotá-lo ensinando ao animal abandonado os caminhos pavlovianos para chegar a seu apartamento situado no sexto andar. Primeiro galgaram juntos as escadas e depois o percurso começou a ser feito por elevador porque a velhinha era mais idosa que o gato.

Félix foi subjugado pela carne fresca cortada a tesouradas e devidamente apresentada num pratinho de porcelana, primeiro à porta do apartamento, depois no seu interior.

A astuta e felina velhinha concebeu então uma campainha para que o gato, assim que chegasse diante da porta, mostrasse a sua presença faminta agitando a patinha no carrilhãzinho colocado estratégicamente ao pé da porta. Assim, pouco a pouco, o gatinho foi voltando e permanecendo no interior da casa com a liberdade de sair quando quisesse e regressando a cada caçada infrutífera tentada no jardim. Não era um gato que se deixasse afagar: ia, comia e partia, voltando sistematicamente.

Quando o bichinho se sentiu realmente à vontade, começou a tirar umas pestanas na sala e foi com grande surpresa que a senhorinha descobriu que o suposto macho era uma fêmea: tinha ela uma enorme e cirúrgica cicatriz ventral, separando suas tetinhas em duas colunas estéreis.

O tempo passando e a confiança se instalando, Madame Félix deixou-se acariciar sem jamais entrar na categoria dos gatos descritos por Miguel Torga, nunca mostrando submissão, e mesmo, ao contrário, submetendo.

O gato (ou gata) pôs a pobre velhinha de quatro patas e, para selar a sua autoridade, passou a utilisar sistematicamente o elevador, onde todo eventual ocupante lhe servia de ascensorista, abrindo-lhe a porta da cabina no sexto andar. Dali em diante, a gata passou a olhar nos olhos da velhinha.

Cada vez que estavam juntas, era ela quem fazia as observações sobre o estado da casa ou o moral da velhinha. Aquela gata com olhos verdes e diabólicos sabia. Sabia da subserviência da velha, da sua submissão milenar, do seu altruísmo e da sua mesquinharia. Acompanhando com o olhar a anfitriã, passava as horas a conjecturar a miséria da vida humana comparada com a dos gatos vagabundos, a ponto de convencer sua senhora a abandonar a casca humana e tornar-se gata como ela.

Era o fim das gatas borralheiras e o começo da reflexão. Aquela velhinha estava começando a entender de filosofia com sua arrogante gata!

Que melhor vida para uma fêmea, mesmo comparando com aquela da gata castrada, do que ser apenas um animal no qual a humanidade se manifestava mais pungente? A gata nunca miou, nunca se deixou pegar no colo, nunca arranhou, sequer destruiu o tecido do sofá onde se pôs a passar as tardes a observar sua serva.Gato 1

Ela considerava as maneiras da velhinha presenciando as vulgaridades comportamentais cometidas pelas pessoas que vivem sós e se descuidam dos aparatos de educação requeridos pela vida em sociedade.

Quantas não foram as frases ditas em voz alta ― que repugnariam um vizinho mais avisado ― e que a bichana ouviu calada?

Quantos não foram os telefonemas não atendidos ou, se assim não ocorresse, que eram recheados de mentiras ou inverdades que o animal descompreendeu?

Que continham aquelas cartas que chegavam ao apartamento ou que dele saíam para um neto distante ou um filho interesseiro, herdeiro único, que seria o dono do espaço da gata no tempo em que a morte colhesse a sua hospedeira?

A suposta ordem dos objetos e da decoração, pensava o bicho, escondiam uma desordem qualquer?

Quem eram aqueles parcos visitantes que às vezes iam jantar com elas, apreciando mais a gatinha que a senhorinha?

Por que tantos livros nas bibliotecas e tão poucas e murchas as flores nos vasos?

Gato 1Todas essas questões ficaram sem resposta até o dia em que a senhorinha resolveu comer no mesmo pratinho que a gata, agachada ao chão, ao lado dela. A bichana partilhou a ração e permitiu que a dona se sentasse com ela no sofá da sala. Às vezes ambas faziam a sesta dentro do armário embutido do quarto ou espreguiçavam juntas sobre o tapete bordô.

Quando a gata curvava o dorso esticando as patas dianteiras, sua dona se sentia melhor da lordose. Quando o animal lambia as patas para depois limpar o pelo da cabeça e das orelhas, a velhinha sentia-se mais asseada. Quando Félix procurava uma réstia de sol vinda da janela, dividia o espaço com ela.

O único senão é que, naquela altura, a velha e a gatinha eram da mesma velhice e o animal não era mais visto da janela, nas horas em que ficava fora de casa, a trepar nos muros altos, escalar as árvores ou a caçar os passarinhos desavisados que bicavam no jardim.

O apartamento foi legado em cartório à bichana.

A velhinha morreu tentando saltar dum galho alto do jardim. Ela havia tomado por hábito caçar lagartixas e passarinhos que, a quatro patas, levava para Félix subindo a pé os seis andares com a presa entre os dentes.

(*) Wilma Schiesari-Legris é escritora