A dignidade do cargo

José Horta Manzano

O mandato de doutor Pezão, governador do Rio de Janeiro, expira no último dia deste ano. Acontece que o doutor está preso, acusado de participação em organização criminosa, corrupção ativa, corrupção passiva e lavagem de dinheiro ‒ crimes que rendem folha corrida de bom tamanho. Sem mandato, ele vai perder o direito a foro privilegiado. E, por supuesto, perde também o direito a ocupar cadeia privilegiada.(*)

Para evitar que o cliente seja transferido, a partir do dia primeiro de janeiro, para cela comum em prisão comum, seus defensores solicitaram ao STF o especial favor de deixá-lo onde está, num batalhão especial da Polícia Militar do RJ.

Condenados por lavagem de dinheiro

Solícito como de costume, o ministro Toffoli concedeu o afago. Entre outros argumentos para embasar a gentileza, ensinou: «a medida se justifica diante da dignidade do cargo ocupado».

Como é que é? Sua Excelência se enganou. Quem está preso não é o cargo, mas seu indigno ocupante. O cargo continua digno como sempre foi. Indigno foi doutor Pezão. A aura de dignidade que deveria cercar todo governador foi posta a perder pelo ocupante delinquente. Os crimes dos quais ele é acusado são tão graves que prisão comum, para ele, já está de bom tamanho.

(*) É revoltante constatar que, trinta anos depois da entrada em vigor da Constituição dita cidadã, ainda haja dois tipos de cadeia: um pra gente fina e outro para a ralé. É repulsivo constatar que a dignidade do cargo público, aviltada pelo ocupante indigno, assim mesmo continua a protegê-lo na cadeia.

Doutor Pezão está longe de ser o único a beneficiar-se desse olhar meigo que nossa sociedade reserva para marginais de colarinho branco. O beneficiário mais emblemático é Lula da Silva.

Essa chocante dualidade de tratamento prisional explica o descalabro de nosso sistema penitenciário. Os que fazem as leis não estão preocupados com a tragédia que se desenrola detrás dos muros da penitenciária comum, visto que, se presos, serão acolhidos em estabelecimento cinco estrelas. Mesmo que percam o mandato, poderão contar com a caneta amiga de Suas Excelências do STF. Os da ralé, portanto, que se lixem.

Collegium

José Horta Manzano

Artigo publicado pelo Correio Braziliense em 29 dezembro 2018.

A palavra colégio, relacionada ao latim collegium, é formada pela preposição cum (com) e pelo verbo leggere (colher). Vale dizer: colher junto. Na acepção original, os integrantes dum colégio se reúnem para colher juntos o que vieram plantar. O colégio eleitoral, por exemplo, colhe o sentimento de cada integrante e apresenta resultado unificado. Toda instituição colegiada é formada por membros com poderes iguais que, após deliberação, dão decisão única, unívoca e uniforme.

Excelente exemplo de colégio eficiente, em função há dois séculos, é a Presidência suíça. A chefia do Executivo não é confiada a um único indivíduo, mas a sete presidentes, todos com o mesmo poder. Reúnem-se a portas fechadas e dão despacho unificado. Jamais alguém saberá quais membros estiveram a favor ou contra cada decisão. Jamais será divulgado se o voto foi unânime ou disputado. Publica-se a decisão do colegiado. Ponto e basta.

Em dezembro de 1941, no dia seguinte ao do ataque desfechado pelo Japão contra a base militar do Havaí, o presidente Franklin D. Roosevelt pronunciou discurso no Congresso americano. Na fala, ele declarou que aquela seria «a date which will live in infamy» ‒ uma data marcada pela infâmia. A citação me passou pela cabeça outro dia, quando doutor Marco Aurélio, ministro do STF, de uma canetada, causou comoção nacional. Naquele dia, em ato solitário, ele mandou soltar os encarcerados que ainda não tivessem esgotado os recursos processuais ‒ um total estimado em 160 mil indivíduos. Um ucasse desajuizado!

Hoje, passada a exacerbação de sentimentos provocada pelo magistrado, não vale a pena lançar lenha à fogueira. É mais útil especular sobre a origem do mal e farejar o melhor caminho pra corrigir a distorção. Sim, porque distorção há. O STF é, por definição, tribunal colegiado. As normas da colegialidade ensinam que decisões serão sempre tomadas pelo conjunto dos membros, jamais por um só. Deliberações públicas e, pior ainda, transmitidas ao vivo são incompatíveis com a colegialidade. Propiciam a quebra de coesão e favorecem a eclosão da vaidade.

Ah, a vaidade!… É irmã gêmea do orgulho e mãe de muitos defeitos. Traço inerente ao ser humano, afeta-nos a todos, em maior ou menor grau. Na vida do mortal comum, ataques de vaidade explícita não fazem mais que azedar o entorno do vaidoso. Já quando o soberbo exerce função pública de destaque, é mais grave. Imodéstia descontrolada pode extravasar a banheira do poderoso e alagar o país inteiro. Isso ocorre a cada vez que um magistrado é acometido por xilique de prima-dona ferida.

Por que razão esses sentimentos se exacerbam no Judiciário, enquanto se mantêm sob controle nos outros Poderes? A resposta é clara: integrantes do Executivo e do Legislativo são eleitos por mandato limitado no tempo. Se se deixarem levar por paixões em desacordo com o comportamento que deles se espera, correm o risco de ser sancionados na próxima eleição. Se ministros do Tribunal Maior se permitem a impudência de atropelar jurisprudência e bom senso, é porque sabem que nada têm a temer. O caráter vitalício do cargo é perfeita blindagem contra retaliações. Inalvejáveis, Suas Excelências permanecem longe do alcance da turba, por mais enfurecida que esteja. Que se lhes manche a biografia, não parece ser a preocupação maior dos magistrados. Outros interesses, à evidência, passam adiante.

Que fazer pra refrear o ímpeto dos togados-mores e pra blindar o país contra sacolejos? O mal se extinguirá no momento em que o cargo de juiz supremo deixar de ser vitalício. Num próximo e bem-vindo reajuste do arcabouço institucional, essa questão deveria ser levantada. É de crer que o será. Como ocorre em outras repúblicas, mandato não vitalício (e renovável) deveria ser outorgado a ministros do STF. Será de quatro, cinco, seis anos ‒ melhor menos que mais.

A designação dos togados tampouco deveria ser atribuição solitária do presidente, ainda que sacramentada por sabatina parlamentar pro forma. Um colégio de grandes eleitores ‒ olhe o conceito aí de novo! ‒ deverá ser criado para o fim específico de escolher novos ministros. Será formado por parlamentares e por personalidades de reconhecida erudição. Vitaliciedade e decisões monocráticas caem bem em monarquias, regime que o golpe de 1889 aboliu.

Classe é pra quem tem

José Horta Manzano

Classe é pra quem tem, não adianta fazer de conta. Quem não tem, fica sem. O mundo nos tem brindado com alguns figurões políticos que brilham justamente pela falta de classe.

Mr. Donald Trump tem doutorado na matéria. Suas escorregadelas são diárias. A última surpreendeu até admiradores. Foi quando, no dia de Natal, perguntou a uma criança de sete anos se ainda acreditava em Papai Noel. Fez isso diante das câmeras que levavam a cena a todas as famílias do país. Baita pisão de bola.

Chirac na praia de meia preta

Certa feita, quando era presidente da França, Jacques Chirac hospedou-se no Forte de Bregançon ‒ residência presidencial de verão. Uma bela manhã de sol, dirigiu-se à praia em companhia de dois assessores. Os acompanhantes iam convenientemente trajados de bermuda e chinelo ou sapatinho raso sem meia. Monsieur Chirac respeitou o código vestimentar com exceção de um detalhe: calçava meias pretas. A caminho da praia. De bermuda. Passaram-se anos, mas os franceses comentam até hoje.

Nos últimos anos de vida, quando já o chamavam «coma andante», Fidel Castro deixou-se fotografar algumas vezes no retiro secreto onde definhava aos poucos. A cada vez, seu agasalho portava, bem visível, o logo de conhecida marca alemã de roupas esportivas. Nas costas alquebradas do dono de uma ditadura comunista, essa adesão explícita à fé capitalista pegou mal.

Bolsonaro de Nike

Lula da Silva, quando inaugurou seu primeiro mandato, não tinha mais classe do que tem hoje. Antes de ser repreendido por seu entourage, apresentou-se mais de uma vez em público vestindo terno e gravata e levando, picado na lapela, un pin com a estrela vermelha do PT. Todos ficaram chocados de constatar que o recém-empossado não se considerava presidente de todos, mas chefe de um partido. Precisaram sacudi-lo pra ele acordar.

O atual presidente eleito e excelentíssima senhora também têm, visivelmente, um problema vestimentário. Semana passada, doutor Bolsonaro mandou ao ar um vídeo com uma espécie de prestação de contas. Inspirado ironicamente no falecido ditador cubano, apareceu vestindo um agasalho de conhecida marca americana de roupas de esporte. Pra quem se declara nacionalista e defensor dos interesses da pátria, ficou esquisito. Em se tratando de presidente eleito, ficou pior ainda.

Dona Michelle Bolsonaro e seu lulu

Doutora Michelle Bolsonaro mostrou comportamento concordante com o do marido. Esta semana, passado o Natal, chegou de barco ao Iate Clube de Itacuruçá, no Rio. No desembarque, foi fotografada carregando seu lulu no colo e vestindo camiseta preta com os seguintes dizeres estampados: «Se começar nesse tom comigo, a gente vai ter problema». Como se lembram todos, a frase foi pronunciada pela juíza Hardt, quando do mais recente interrogatório de Lula da Silva. Ficou a pergunta: o que é que tem o interrogatório do Lula a ver com as férias de madame? Tivesse ela usado camiseta com o escudo do Corinthians ou do Flamengo, não teria sido mais brega.

Faz tempo que bom-tom e presidência não rimam.

Desconvite seletivo

José Horta Manzano

Fazer política externa na base do xilique é a receita certa para o fracasso. Poucos dirigentes conseguem distinguir onde termina o governo e onde começa o Estado. E vice-versa. A maioria tende a confundir e enfiar as duas concepções no mesmo saco. Erram. Governos passam, o Estado fica.

Entre as atribuições do governo, a política externa é a que se encontra mais ligada ao Estado brasileiro. Saúde, Instrução Pública, Economia e demais funções ‒ embora devam submeter-se aos interesses maiores do Estado ‒ costumam assumir os contornos do governo de turno. A escola tornou-se mais politizada no governo do Lula. A Economia se abriu durante a gestão Collor. A Saúde teve até intervenção cubana no governo da doutora.

A política exterior e as Forças Armadas devem, mais do que as outras funções do topo da República, servir a interesses de longo prazo. Não são campo em que se deva mexer a cada instante. Estratégias diplomáticas e militares são de longo alcance.

Como ensina o manual de bons procedimentos, os dirigentes de todos os países com os quais o Brasil mantém relações diplomáticas são convidados para a tomada de posse do novo presidente. Por descuido da Constituinte de 1988, o mandato começa num 1° de janeiro, data incômoda que obriga muitos chefes de Estado ou de governo a mandar representante. Que fazer?

Rolls-Royce presidencial

Doutor Ernesto Araújo avisou que estava cancelando o convite feito aos presidentes da Venezuela e de Cuba. Estavam desconvidados. A quem se surpreendeu com a descortesia, logo explicou que a intenção do novo presidente era, logo no início do governo, romper relações diplomáticas com esses países. Está justificado.

Ontem entrou mais um país para a lista dos indesejados. Foi a Nicarágua. A alegação é de que está sob a férula de regime ditatorial. Só que não foi anunciado rompimento de relações com esse país, o que nos põe diante de uma incongruência. O Brasil convida todos os países com os quais mantém relações diplomáticas. Uma vez que se anunciou que as relações serão rompidas com Cuba e com a Venezuela, o desconvite faz sentido. Dado que não há perspectiva de rompimento com a Nicarágua, fica esquisito.

O pretexto de que se trata de ditadura não tem consistência. Na prática, a maior parte dos países africanos tem regime ditatorial. Todos os países árabes também entram nessa lista. Se o critério para desconvite for a falta de democracia, restam muitos por desconvidar.

Vê-se que os interesses do Estado brasileiro passaram ao largo nessa decisão do futuro ministro Araújo. Esses desconvites seletivos não respondem a critério consistente, mas a antipatia pessoal. Juntando essa presepada ao anúncio, feito pelo futuro presidente, de mudança de endereço de nossa embaixada em Israel, temos rematado contraexemplo de diplomacia. É exatamente o contrário do que deveria ser. Começamos mal.

Os automóveis

José Horta Manzano

Você sabia?

Nos primeiros anos dos século XX, a língua francesa vivia um período de prestígio mundial. Embora já não exercesse predominância absoluta como nos anos 1700, sua influência ainda era notável. No Brasil, a moda, os remédios, os alimentos enlatados, os livros e as revistas vinham de Paris.

Aprisionado a seu desterro tropical, o brasileiro endinheirado só tinha olhos para o que chegasse da França. Tudo o que de lá viesse era bem-vindo. Chique mesmo era mandar vir uma preceptora francesa para guiar os pequerruchos ‒ privilégio só concedido a muito poucos.

Por aqueles anos, os primeiros automóveis começaram a rodar sobre os sacolejantes paralelepípedos das ruas brasileiras e pelos caminhos do interior, picadas poeirentas que só costumavam ver passar carros de boi. Dá pra imaginar o espanto das gentes que, à beira da estrada, observavam bólidos malucos, que desafiavam as leis do bom senso ao disparar a 25 ou 30 quilômetros por hora!

O ‘vehiculo automovel’ descrito no Almanaque Richards de 1909
Repare que a palavra automóvel é usada indistintamente como substantivo e adjetivo

A maior parte das peças que compõem o automóvel tem nome francês. Embreagem, capô, freio, marcha, banco, carburador, virabrequim, manivela, escapamento, volante, vela, radiador, alternador, pistão, biela, bobina, distribuidor, bateria, condensador ‒ cada uma dessas palavras é o aportuguesamento ou a tradução literal do original francês.

A palavra automóvel, naturalmente, também vem de Paris. A curiosidade é que, no início, era um adjetivo. A expressão original é «veículo automóvel», que designa o veículo que se move por si mesmo, como uma geladeira autodescongelante ou um profissional autodidata. Nos primeiros anos, a palavra importada foi utilizada como adjetivo. Na França, ainda hoje, um carro pode ser chamado indiferentemente de automobile ou de véhicule automobile.

No Brasil, essa flutuação vigorou durante uns poucos anos. Rapidamente, na certa por ser expressão muito comprida, o antigo vehiculo automovel saiu de cena e abriu passo para o substantivo automóvel. Bênção e praga dos tempos modernos.

Quotistas expulsos

José Horta Manzano

Racismo é uma coisa, ódio racial é outra. Racismo é sentimento difuso, difícil de definir. Pode assumir formas diferentes: vai da indiferença à discriminação insolente. Ódio racial é racismo elevado ao grau supremo. Quando as circunstâncias o permitem, o ódio explode em violência.

Racismo é inerente a todas as sociedades. Basta coabitarem dois grupos diferentes, e pronto: estarão presentes as condições para o surgimento de mútua antipatia. É da natureza humana o reflexo de rejeitar o dessemelhante.

A receita pra aumentar as tensões entre diferentes grupos é simples. Basta privar uns de privilégios que serão concedidos a outros. É fermento infalível. Os EUA são exemplo do dano que tais decisões da autoridade pública podem causar. Naquele país, anos de explícita segregação racial fomentaram o ódio, que explodiu em distúrbios violentos. Tumultos começaram nos anos 1960 e continuam até o presente, numa espiral infernal e, aparentemente, sem fim.

No Brasil pós-abolição, a segregação entre grupos raciais não foi explícita. Não se chegou nem perto do ódio explosivo. Não se tem notícia de enfrentamentos violentos como os que se viram nos EUA, em Ruanda, no Biafra, no Sudão. Faz alguns anos, no entanto, uma política oficial veio jogar um grão de areia na engrenagem. É a política de quotas, dita ‘racialista’. A meu ver, é medida equivocada, um passo na direção errada, um sopro na brasa dormida. Conceder privilégio a um grupo ‒ seja pelo motivo que for ‒ e não o conceder aos demais é receita certeira pra atiçar antipatia. Não é bom caminho.

Estes dias, a Universidade Estadual Paulista prepara a expulsão de algumas dezenas de estudantes que, admitidos pelo sistema de quotas, não preenchiam as condições. Em claro: não eram pretos nem pardos, portanto não pertenciam ao grupo racial ao qual o privilégio era destinado. Uma Comissão Central de Averiguação(sic) foi criada especialmente para analisar esses casos. Levam em consideração a pigmentação da pele e dos olhos, o tipo de cabelo, a forma do nariz, a espessura dos lábios.

Dá arrepio na espinha. A gente se sente na Europa dos anos 1940, nos países ocupados pelos exércitos de Hitler. Naqueles tempos tenebrosos, judeus eram obrigados a levar uma Estrela de Davi bem visível, costurada à roupa à altura do peito. Quando havia dúvida sobre a judeidade de um cidadão, ele era submetido à análise de uma Comissão de Averiguação, constituída nos mesmos moldes e com a mesma finalidade dessa da Unesp.

Estamos a dois passos de conflitos raciais. A continuar assim, perigam explodir a qualquer momento. No Brasil, o melhor caminho será abandonar essa tresloucada ideia de separar indivíduos por raça. Que se melhore o ensino fundamental e médio para todos os alunos ‒ pretos, brancos ou azuis. E que cada um siga sua estrada conforme os próprios méritos. Se quiser cursar faculdade, que curse. Se não quiser, há mil ofícios à espera do candidato. Mas que não tenha de carregar, pelo resto da vida, o estigma de ter tido de recorrer ao privilégio das quotas pra entrar na escola.

Voto eletrônico ‒ 2

José Horta Manzano

A democracia semi-direta suíça se assenta sobre dois pilares: a representação popular e a consulta direta ao eleitor. O grande número de cidadãos impede, por razões práticas, que cada suíço seja individualmente consultado a cada decisão legislativa ou administrativa a ser tomada. Para contornar essa pedra, existe um parlamento, como nos demais países. Os eleitores elegem representantes que, agindo em seu nome, farão leis e tomarão decisões.

Além desse sistema afunilado, em que um só parlamentar carrega a voz de milhares de concidadãos, o país dispõe ainda de um azeitado sistema em que o eleitor participa diretamente, passando por cima de representantes. A cada três meses, em média, todos são convocados a votar. Há vários objetos em jogo. O votante poderá dar opinião sobre leis já votadas, projetos de lei, medidas administrativas, mudanças constitucionais ‒ tanto no âmbito federal, quanto cantonal ou municipal.

Vota-se este fim de semana

Nos tempos de antigamente, no dia designado, todos se dirigiam ao local eleitoral e depositavam o boletim na urna. Já faz tempo, há uma segunda opção: o voto por correio. Um mês antes de cada voto, os eleitores recebem em casa as informações e o material necessário. Votam e devolvem pelo correio, o que não deixa de ser prático. Mas os tempos têm mudado. A chegada da internet oferece mais uma opção: o voto eletrônico.

Muitos estão ainda reticentes à novidade. O temor está ligado à insegurança do sistema. Histórias de hackers, piratas russos e invasores chineses assustam muita gente. Por enquanto, somente 3 dos 26 cantões adotaram o novo método. As autoridades garantem que se trata de sistema confiável e inviolável. Já o eleitor fica meio assim, desconfiado, com receio de que seu voto não chegue a bom porto.

Voto de cabresto

É questão de tempo. Mais alguns anos, e os temores estarão dissipados. Já no Brasil, a questão não é tão simples. Tecnicamente, o voto eletrônico podia ser instaurado. Quem consegue a proeza de organizar a urna eletrônica em todo o território nacional deve estar em condições de garantir que cada eleitor possa votar a partir do próprio telefone ou computador, em toda segurança. Só que o problema é mais complexo.

Os brasileiros se espalham num leque muito aberto de classes sociais, com abissais disparidades de nível de instrução entre elas. Essa realidade é um freio ao exercício do voto longe do olho vigilante de mesários. O voto em casa seria porta aberta para o voto vendido. Bastaria que o vendedor entregasse ao comprador o material eleitoral e a senha. O perigo é demasiado grande. Na Suíça, o voto eletrônico tende a se alastrar. No Brasil, vai demorar um bocadinho mais.

Formado e atravancado

José Horta Manzano

Na prática, a teoria é outra ‒ taí uma verdade difícil de contestar. O jovem, ao escolher uma profissão, sonha com o dia em que há de sair da escola com o canudo debaixo do braço. Já imagina o emprego de bom nível, o laboratório montado, o ateliê abrindo as portas, o consultório equipado, o escritório funcionando, clientela crescendo. É normal (e é bom) ter projetos.

Canudo recebido, no entanto, a situação pode não se revelar exatamente como sonhada. O Ipea ‒ Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada ‒ acaba de publicar um levantamento cujas constatações são alarmantes. Nada menos que 38% dos que batalharam pra conseguir diploma trabalham fora da área em que se formaram. Entre a população jovem, o número é ainda maior: são mais de 44%. E a situação tende a agravar-se. A série histórica só cobre sete anos, mas já mostra que os números aumentam ano após ano.

Se o distinto leitor se encontra nessa situação, só posso apresentar-lhe minha solidariedade. Se não é o caso, tente imaginar o drama de alguém que, depois de ter sonhado, feito projetos e batalhado duro pra chegar ao objetivo, é obrigado a seguir caminho diferente do que tinha planejado. É drama pessoal que deixa gosto amargo de derrota e impotência.

Cada caso é um caso, não há dúvida. Que um indivíduo aqui, outro ali, tenha de desviar da meta é coisa que acontece. São as incertezas da vida. Um acidente, uma doença ou outro acontecimento podem fazer que a prática se dissocie da teoria. Quando, no entanto, metade dos jovens tem de sobreviver exercendo em área diferente daquela em que se formou, já não se pode falar de acidente pessoal. É praga de dimensões nacionais.

Não acredito que o brasileiro seja menos inteligente nem menos capaz que um alemão, um mongol, um havaiano ou um malgache. Isso posto, sobram duas possibilidades. Por um lado, pode ser que o jovem não esteja sendo corretamente orientado no momento de escolher uma carreira. Essa é a hipótese mais branda. Pra resolver, basta instituir um serviço nacional de orientação profissional, equipado e capacitado pra secundar o jovem que deixa o ensino obrigatório, no momento de eleger profissão.

Por outro lado ‒ e esta é a hipótese mais complexa ‒ é possível que o ensino oferecido pelas faculdades e escolas profissionalizantes não esteja sendo capaz de formar bons profissionais. Se assim for, o problema é bem mais espinhudo. Não é impossível de resolver, mas vai levar tempo. E é bom começar logo.

Ministério da Defesa

José Horta Manzano

Em 1999, a nomeação de doutor Élcio Álvares para o posto de ministro da Defesa causou frisson. Mal passados quinze anos do fim do regime militar, um civil chefiaria Exército, Aeronáutica e Marinha ‒ pela primeiríssima vez na história da República. Almirantes, brigadeiros e generais haviam de prestar continência a um civil! Uma revolução.

De lá pra cá, os espíritos estão menos toscos. Ainda assim, se um civil na Defesa é hoje visto como natural, esse civil tem de ser necessariamente do sexo masculino. Mulher comandando milico? Nestas terras de Santa Cruz, nem pensar!

No entanto, em terras menos pudendas, ninguém mais se espanta de ver alguém de saias dando instruções a fardados. No momento, dez países europeus têm uma mulher como titular do Ministério da Defesa. São eles: Espanha, França, Holanda, Alemanha, Itália, Albânia, Macedônia, Montenegro, Bósnia-Herzegovínia e Eslovênia.

Com a designação de Frau Viola Amherd para a chefia do Ministério da Defesa, com tomada de posse prevista para 1° de janeiro 2019, a Suíça entra para o clube. Serão onze países europeus.

Um século de pérolas presidenciais ‒ bis

Texto publicado originalmente em 28 jun° 2015

“Hoje eu estou saudando a mandioca, uma das maiores conquistas do Brasil!”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“É verdade: eu sou uma mulher dura cercada de homens meigos.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“O meio ambiente é uma ameaça para o desenvolvimento sustentável.”
Presidente Dilma Vana Rousseff

“Fui agora ao Gabão aprender como é que um presidente consegue ficar 37 anos no poder e ainda se candidatar à reeleição.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Sou filho de uma mulher que nasceu analfabeta.”
Presidente Luiz Inácio da Silva, dito Lula

“Nem parece África!”
Presidente Luiz Inácio da Silva, sobre Windhoek, capital da Namíbia, África

Presidentes

“Acho que nós, brasileiros, ainda não entendemos que a política externa é interna.”
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“A caneta que nomeia é a mesma que demite”.
Presidente Fernando Henrique Cardoso

“Em Minas Gerais, a política é como crochê: não se pode dar ponto errado, sob pena de ter de começar tudo de novo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Seja legal com seus filhos. São eles que vão escolher seu asilo.”
Presidente Itamar Augusto Cautiero Franco

“Neste presidente, ninguém coloca uma canga.”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Eu tenho aquilo roxo!”
Presidente Fernando Affonso Collor de Mello

“Governo é como violino: você toma com a esquerda e toca com a direita”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

“No Maranhão, depois dos 50, não se pergunta a alguém como está de saúde. Pergunta-se onde é que dói.”
Presidente José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, dito Sarney

Presidente 3“Esperteza, quando é muita, come o dono.”
Presidente Tancredo de Almeida Neves, quando governador de Minas

“Sei que o país é essencialmente agrícola. Afinal, posso ser ignorante, mas não tanto.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“Um povo que não sabe nem escovar os dentes não está preparado para votar.”
Presidente João Baptista de Oliveira Figueiredo

“É muita pretensão do homem inventar que Deus o criou à sua imagem e semelhança. Será possível que Deus seja tão ruim assim?”
Presidente Ernesto Beckmann Geisel

“O Brasil vai bem, mas o povo vai mal.”
Presidente Emílio Garrastazu Medici

“O poder é como um salame, toda vez que você o usa bem, corta só uma fatia, quando o usa mal, corta duas, mas se não o usa, cortam-se três e, em qualquer caso, ele fica sempre menor.”
Presidente Arthur da Costa e Silva

“A esquerda é boa para duas coisas: organizar manifestações de rua e desorganizar a economia.”
Presidente Humberto de Alencar Castello Branco

“Não troco um só trabalhador brasileiro por cem desses grã-finos arrumadinhos.”
Presidente João Belchior Marques Goulart

“Bebo porque é líquido. Se fosse sólido, comê-lo-ia.”
Presidente Jânio da Silva Quadros

Presidentes galeria

“Intimidade gera aborrecimentos e filhos. Com a senhora não quero ter aborrecimentos e muito menos filhos. Portanto, exijo que me respeite”.
Presidente Jânio da Silva Quadros, quando prefeito de SP, dirigindo-se a uma jornalista que o havia tratado por você.

“O otimista pode até errar, mas o pessimista já começa errando.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Costumo voltar atrás, sim. Não tenho compromisso com o erro.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Deus poupou-me o sentimento do medo.”
Presidente Juscelino Kubitschek de Oliveira

“Quanto menos alguém entende, mais quer discordar.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“Eu sempre desconfiei muito daqueles que nunca me pediram nada. Geralmente os que sentam à mesa sem apetite são os que mais comem.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“No ministério tem gente capaz, o problema é que a maioria é capaz de qualquer coisa.”
Presidente Getúlio Dornelles Vargas

“A questão social é um caso de polícia.”
Presidente Washington Luís Pereira de Souza

“Durante a penúltima campanha presidencial, afirmava-se que o candidato não seria eleito; eleito, não seria reconhecido; reconhecido, não tomaria posse; empossado, não transporia os umbrais do Palácio do Catete.”
Presidente Arthur da Silva Bernardes

Inspirado em coletânea organizada por Pedro Luiz Rodrigues e publicada no Diário do Poder.

A falta que um preceptor faz ‒ 1

José Horta Manzano

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Caso n° 1
Dia 29 de novembro passado, doutor Bolsonaro recebeu em casa um visitante de passagem. Era John Bolton, conselheiro de Mr. Trump. Foi o homem apontar no jardim, e nosso Jair nacional levantou-se e imediatamente bateu continência, homenagem que militares de patente inferior prestam aos de patente superior. Sabidamente, doutor Bolsonaro é fã dos Estados Unidos. Ele não é o único, vistos os voos lotados que deixam o Brasil diariamente em direção à Disneylândia. Ainda assim, pega mal o presidente eleito do Brasil prosternar-se diante de mero conselheiro de presidente estrangeiro.

Caso n° 2
Esta semana, doutor Bolsonaro aprontou mais uma. Apareceu num vídeo lançado nas redes sociais vestindo um agasalho de marca, com imenso logotipo Nike estampado, no melhor estilo Fidel Castro. (Todos se lembrarão de que o bondoso ditador fez, nos últimos anos de vida, propaganda para a firma Adidas, cujo logo era bem visível nos agasalhos que o cobriam.) Pega mal o presidente eleito do Brasil fazer propaganda pra marca comercial.

Italiano macarrônico: muito erro pra pouco texto

Caso n° 3
Ontem, animado pela ordem de prisão emitida contra o condenado Cesare Battisti, signor Matteo Salvini, dirigente político italiano, soltou um tweet de desabafo em que confessava enfurecer ao ver «um condenado à cadeia perpétua gozando a vida nas praias brasileiras, fazendo pouco caso das vítimas». Dizia ainda que ficaria muito reconhecido ao presidente Bolsonaro «se pudesse ajudar a fazer justiça à Itália ‘presenteando’ Battisti com um futuro nas masmorras da pátria (dele)».

Uma hora depois, doutor Bolsonaro tuitou em resposta a Salvini. Respondeu em italiano. Considerando que Bolsonaro foi eleito chefe de Estado, enquanto signor Salvini não é nem chefe de Estado nem mesmo chefe de governo ou primeiro-ministro, responder na língua do estrangeiro não chega a ser sinal de submissão, mas é deferência rara, inusitada, pra lá de especial. Ainda assim, tal resposta teria de ser redigida em italiano correto. Infelizmente, não foi o caso.

Doutor Bolsonaro ‒ ou os assessores que lhe dão respaldo ‒ estropiaram o belo idioma de Dante. Há erros de grafia (diffeso se escreve com dois ff). Há incongruência nos pronomes de tratamento (quem começa a tratar o correspondente por voi, ao dizer vostra considerazione, tem de continuar com esse tratamento formal, coisa que nosso nacional Jair não fez, ao passar a utilizar o tu, marca de inadequada familiaridade). Com o perdão de tupis, goitacazes e tumucumaques, ficou parecendo escrita de índio. Deu a imagem de que, além de submisso, o novo presidente é inculto. Lamentável.

Socorro! Um preceptor, urgente!

Assalto frutuoso

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor tenha ficado sabendo do caso do habeas corpus concedido a homem que tinha roubado uma maçã de uma idosa. Se não soube, vai abaixo o essencial da história.

Acompanhado de um cúmplice, um valentão atacou uma idosa e exigiu que lhe entregasse ouro e joias. A senhora retrucou que nada tinha de valor e que a única coisa que levava era uma maçã. Pra não sair de mãos abanando, os marmanjos carregaram a fruta. A crônica não registra como se deu a prisão dos assaltantes miseráveis. Encarcerado, o cabeça do duo requereu à Justiça estadual lhe concedesse habeas corpus para aguardar julgamento em liberdade. O pedido foi negado.

Não abatida com o entrave, a defesa do assaltante recorreu ao Superior Tribunal de Justiça e novamente requereu soltura do cliente. O colegiado de uma das turmas do STJ se debruçou sobre o caso e deu-lhe a mesma atenção que dedicaria a crime maior, com pareceres e citações de artigos de lei. Ao final dos considerandos chegou aos finalmentes: em contradição à decisão da Justiça estadual, habeas corpus foi concedido ao criminoso, que pode agora esperar tranquilamente em casa pelo julgamento do assalto.

Não quero entrar aqui no mérito da questão. Não é esse o ponto. A pergunta é se a movimentação da máquina judiciária foi, neste caso, proporcional à importância da coisa julgada. A meu ver, a resposta é negativa. Movimentar o Superior Tribunal de Justiça ‒ uma das altas instâncias da judiciárias do país ‒ para o roubo de uma maçã? Parece-me rematada extravagância.

Não sei onde está o erro. As normas de processo penal certamente permitem que se chegue a situações disparatadas como essa. Se assim for, é urgente repensar e reequilibrar o sistema. A Justiça já costuma ser lenta. Se for sobrecarregada com bagatelas, só tende a piorar. Saem todos perdendo, principalmente os que dela realmente precisam.

O primeiro passo

José Horta Manzano

Faz alguns anos, morei num prediozinho de poucos apartamentos, situado num vilarejo de 1.500 almas. Meus vizinhos no prédio eram: um engenheiro aposentado, uma vendedora de loja de roupa, um arquiteto, um auxiliar de mecânico, um médico, um eletricista. Todos proprietários. O eletricista, por sinal, era dono do maior e mais caro dos apartamentos.

Agora falemos francamente, distinto leitor. Dá pra imaginar, num imóvel brasileiro, uma convivência tão disparate? De um lado, arquiteto, engenheiro, médico. De outro, vendedora de loja, auxiliar de mecânico, eletricista. Soa exótico a nossos ouvidos, não? Pois é coabitação corriqueira em países mais adiantados. E como é possível?

Em grandes linhas, é consequência do desnível social relativamente pequeno que vigora, em países adiantados, entre os de cima da pirâmide e os das camadas inferiores. Mais precisamente, essa convivência é possibilitada pela tradicional valorização dos «pequenos ofícios». Refiro-me a profissões da construção, da hotelaria, dos serviços, que são encaradas na Europa com respeito e dignidade, enquanto são depreciadas no Brasil.

Já contratei pedreiro que morava em casa própria com piscina. Já tive encanador que passava as férias de inverno esquiando com a família numa estação alpina. Já me vali do serviço de faxineira que vinha com carro próprio e hora marcada. No Brasil, filho de azulejista que se forma doutor é caso pra ser contado no Fantástico. Em outras plagas, não surpreende ninguém.

Trabalho de paciência: o serrador de pedra

Por maior que fosse o esforço, o Brasil levaria muito tempo para desfazer-se do preconceito e da discriminação de classe social. Num país em que a ordem medieval ainda sobrevive nos fatos e gestos do quotidiano, isso é obra de gerações. Mas, como dizem os chineses, toda longa caminhada começa com o primeiro passo. Se queremos ter um dia um país onde a justiça social reduza drasticamente a criminalidade, há que dar esse primeiro passo. Será bom para todos, tanto para o doutor como para o auxiliar de mecânico.

Doutor Carlos Alexandre da Costa, jovem economista, acaba de ser indicado para chefiar a Secretaria Geral de Produtividade e Emprego, no governo entrante. Li a entrevista que deu ao Estadão dias atrás. O moço parece disposto a incentivar a valorização dos pequenos ofícios. É intenção da nova secretaria lançar um Plano Nacional de Qualificação de Capital Humano, com o objetivo específico de elevar a qualidade da mão de obra do país.

Não vai bastar melhorar a formação de profissionais. Vai ser preciso vencer preconceitos profundamente enraizados na sociedade ‒ essa será a parte mais difícil. Não se esperem resultados imediatos, que a caminhada é longa. Mas ela começa com esse primeiro passo que está pra ser dado.

País anfitrião

José Horta Manzano

Sobre as cinzas da Segunda Guerra Mundial, pairava uma certeza: guerras dificilmente têm final feliz. O saldo do conflito tinha sido de dezenas de milhões de mortos, sem contar feridos e desabrigados que perambulavam sem rumo. Todos tinham perdido. Além disso, nenhum dos objetivos tinha sido alcançado. Os participantes saíram da guerra mais pobres do que tinham entrado.

Diante de constatação tão amarga, ressurgiu a ideia de instalar uma organização que congregasse os países do mundo inteiro, um parlamento onde todos pudessem dialogar antes de dar voz ao canhão. Foi dessa necessidade ressentida por todos que nasceu a ideia das Nações Unidas.

Ficou acertado que a sede principal se construiria em Nova York. Aproveitando o palácio construído nos anos 1920 para sediar a falecida Sociedade das Nações, a cidade de Genebra (Suíça) foi designada como sede europeia da ONU. Desde 1945, a cidade é sede secundária da organização.

Embora seja a sede europeia da ONU e de mais uma trintena de agências internacionais, a Suíça não solicitou adesão à organização. A população do país não julgou fosse importante associar-se. Foi somente em 2002, quando a ONU já completava 57 anos de existência, que o povo suíço, por meio de plebiscito, aprovou a adesão do país.

A ONU e as agências internacionais respondem por cerca de 10 mil empregos diretos em Genebra ‒ sem contar as recaídas indiretas. É inestimável fonte de riqueza para a cidade. Faz funcionar o comércio, os serviços, o aeroporto, o mercado imobiliário, hotéis, restaurantes, táxis, escolas. A lista dos benfeitos é longa.

Já em Brasília, para certos luminares, a ideologia partidária fala mais alto que os interesses do Estado brasileiro. Semana passada, nossas autoridades fizeram saber que o Brasil renuncia a acolher a COP 25, conferência internacional sobre mudança climática prevista para 2019.

No câmbio oficial, restrições orçamentárias são o pretexto. No paralelo, está o cepticismo de algumas de nossas autoridades quanto aos efeitos das alterações do clima. Que me relevem a crueza de propósitos: é burrice pura. Acolher a conferência não é sinônimo de subscrever a suas conclusões. Se a Suíça pôde acolher a sede da ONU por 57 anos sem ser membro, por que não poderia o Brasil receber a COP por alguns dias sem tirar carteirinha de membro?

São tolos. Estão desperdiçando excelente ocasião para mostrar ao mundo que o Brasil mudou, que a ideologia já não dirige nossos negócios, que temos capacidade de organizar eventos internacionais, enfim, que amadurecemos. Mas… será que amadurecemos?

A solução peruana

José Horta Manzano

A corrupção no mundo político é uma praga tão mais intensa quanto maior for a desigualdade social do país. É fenômeno marginal em sociedades igualitárias como os países escandinavos, a Alemanha, a Holanda, a Suíça. É mato rasteiro alastrante em países da África, da Ásia do Sul, da América Latina.

No Brasil, cuja sociedade é irremediavelmente desigual, a corrupção habita nas vísceras do tecido social. Até outro dia, o mal parecia incurável, e o país, em estado terminal. A Operação Lava a Jato trouxe uma luzinha de esperança. Tem feito muito. No entanto, ainda que continue caçando ladrões pelas próximas décadas, será difícil que chegue a incomodar o cidadão que dá gorjeta ao guarda na esquina, naquele ponto em que corrupção é sinônimo de jeitinho.

O Peru, nosso vizinho, tem estrutura social semelhante à nossa. A corrupção na área política é lá tão grande ou maior que aqui. Só pra dar uma ideia, os cinco últimos presidentes da República estão enrolados com a Justiça. Um deles, doutor Kuczynski, foi obrigado a renunciar no bojo do escândalo Odebrecht/Peru. Outro, doutor Fujimori, foi condenado a 32 anos de prisão. Outro ainda tentou estes dias, sem sucesso, obter asilo na embaixada do Uruguai.

O presidente atual, doutor Martín Vizcarra, tem dado mostra de estar bem-intencionado. Decidiu fazer meia dúzia de reformas constitucionais. Em princípio, bastaria o voto do Congresso. No entanto, desconfiado (não sem razão) do comportamento dos eleitos, preferiu recorrer ao mecanismo do plebiscito. Uma das mudanças propostas era importante: a proibição de reeleição de parlamentares. Por avassaladora maioria de 85%, o povo aprovou a novidade. Assim, a assembleia que sairá das urnas em 2021 será constituída inteiramente de novatos, dado que nenhum dos atuais eleitos poderá se recandidatar.

Não há dúvida de que a medida é radical. Radical até demais. Equivale a guilhotinar paciente pra eliminar dor de cabeça. Assim mesmo, tem um lado atraente. Imagina-se que um mandato único não dê tempo pra deputado armar conluio com empreiteiras a fim de sugarem dinheiro do erário.

No entanto, há que convir que a bandidagem é agil e acaba se adaptando a condições novas. É de acreditar que, no novo desenho, os novatos sejam «enquadrados» pelos pagadores de propina desde os primeiros dias de mandato. E que a punção aos cofres do Estado continue, exatamente como sempre foi.

A novidade peruana tem, além disso, um lado negativo. Parlamentares honestos e competentes serão compulsoriamente afastados da função, ainda que tenham feito bom trabalho. É um desperdício.

Acho um exagero jogar o bebê com a água do banho. Acredito que uma solução como a da Lava a Jato, com perseguição tenaz a toda bandidagem do andar de cima, ainda seja mais bem adaptada a nossa realidade.

Do fundo da cela

José Horta Manzano

Em 1884, numa época em que Belo Horizonte ainda não existia, Ouro Preto era capital da Província das Minas Gerais. Em setembro daquele ano, O Liberal, jornal da cidade, publicou por seis edições consecutivas um anúncio pago que revelava história triste.

Um certo Demetrio Soares dos Santos, encarcerado em Ouro Preto, narrava a desventura de que tinha sido vítima. Sua mãe, vindo trazer-lhe uma carta contendo a quantia de cem mil reis ‒ valor considerável para a época ‒, tivera a infelicidade de perder o envelope com dinheiro e tudo. Por estar preso, portanto impossibilitado de buscar pessoalmente, o anunciante apelava para a caridade de quem tivesse encontrado a quantia. Que devolvesse, que seria gratificado.

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A história não registra se o dinheiro foi encontrado, muito menos se terá sido devolvido. Mas isso não vem ao caso. Minha observação é outra. Faz semanas que Lula da Silva insiste em solicitar autorização para conceder entrevista apesar de encontrar-se encarcerado. Em resumo, exige lhe seja reconhecido o direito de dirigir-se ao distinto público, ainda que o faça de dentro da cela.

A Justiça, perplexa com a solicitação fora de esquadro, hesita em liberar a entrevista. Com base no documento aqui reproduzido, venho afirmar que o pedido do demiurgo não é tão excêntrico quanto parece. No longínquo 1884, mais de 130 anos atrás, um encarcerado já publicou pronunciamento ‒ em nome próprio e às claras ‒ em importante quotidiano de capital de província. E o mundo não acabou.

Portanto, a jurisprudência é favorável. Há precedente. Pode falar, Excelência!

Casa onde muitos falam

José Horta Manzano

Casa em que todo o mundo fala
Qualquer palavra apunhala

Nestes tempos de internet e de redes sociais, se já é complicado garantir a integridade da própria imagem, que dirá proteger a da família toda?

Doutor Bolsonaro deixou-se inebriar pelo bom desempenho eleitoral dos rebentos. Também, pudera! Milhares de votos para um, milhões para outro ‒ é pra deixar qualquer pai inchado. Só que o doutor não se deu conta de detalhe importante: se os filhotes estouraram no hit parade eleitoral de modo tão fora de série, devem mais ao sucesso do pai do que ao próprio mérito.

Passando por cima da evidente transferência de votos que garantiu aos filhos, doutor Bolsonaro há de ter sentido muito, mas muito, orgulho. A partir daí, amoleceu. Deixou a porteira aberta para os bolsonarinhos. Pode tudo! E cada um saiu, desembestado, aprontando o diabo.

Hoje é um que, em visita aos EUA, enfia na cabeça um boné marcado «Trump 2020». Amanhã é outro que se faz tratar de pit bull pelo pai embevecido. Em seguida, é mais um que reitera que nossa embaixada vai mesmo pra Jerusalém. Um festival de asneiras infantis, desnecessárias, constrangedoras.

Com essa promiscuidade entre o público e o privado, o que vai ficando no ar é que a palavra dos filhos vale tanto quanto a do pai. Na plateia, o sentimento é de que não elegemos um presidente, mas um clã. Isso pode funcionar em outras partes do mundo, aqui fica esquisito. E pode ser perigoso. Compartilha-se entre os membros tudo o que é bom ‒ e isso é ótimo. Já o mal que atinge qualquer um do clã acaba fatalmente atingindo a imagem do capo.

Foi o que aconteceu estes dias. Veio à tona uma obscura história, ainda mal esclarecida, de dinheiro pra cá e pra lá, girando em círculo restrito, passando por mãos diversas entre as quais as de um dos bolsonarinhos. Não se sabe ainda quem é quem na história, quem fez que papel, se o dinheiro é lícito, se, se, se…

Pouco importa. O que se sabe desde já é que a imagem do doutor foi atingida em cheio. O petardo teria sido menos violento se cada um dos familiares se tivesse contentado com o próprio sucesso. O fato de ter jogado os votos da família numa bacia comum atou o destino de todos num único feixe. Vamos ver como é que desatam esse nó. Não vai ser fácil.

Em casa de muita fala
A discórdia se instala.

Firme pero no mucho

José Horta Manzano

Quando uma afirmação é martelada repetidas vezes, é sinal de que não há grande certeza de ela ser verdadeira. Tomando a coisa pelo avesso: quando a gente tem certeza de algo, não sente necessidade de ficar repetindo o tempo todo.

A Constituição que reinstaurou a democracia plena em nosso país completou 30 anos faz algumas semanas. Os mais jovens nem fazem ideia de como poderia ser um regime não democrático. Parece até que o atual regime faz parte dos direitos adquiridos da população.

No entanto, não se passa um dia sem algum figurão repetir que «nossa democracia está consolidada» ou que «nossas instituições funcionam». É tão frequente ouvir isso, que a gente se pergunta se essa tal democracia está tão consolidada assim. Fica a impressão de que a repetição do mantra faz parte de um exorcismo, um ritual de esconjuro celebrado pra afugentar todo risco de retrocesso.

Felipe VI, rei da Espanha

Esta semana, a Constituição espanhola completou 40 aninhos. Ela marcou o fim de longo período de ditadura franquista. A data foi celebrada como se deve. O rei atual, o rei emérito e todos os primeiros-ministros ainda vivos estiveram no parlamento para a ocasião. Em fala solene, Dom Felipe VI mandou: «Nuestra democracia es firme y consolidada!».

Liguei uma coisa à outra. Entendi que, no país das touradas, também parecem estar esconjurando um retrocesso. Se o próprio rei acha necessário sublinhar que a democracia é um bem adquirido, sólido, seguro e garantido, é justamente porque não tem tanta certeza assim quanto à perenidade da situação.

Dá pra imaginar Theresa May, Donald Trump ou Angela Merkel afirmarem algo parecido com «Nossa democracia é firme e consolidada»?

Fora, todos!

José Horta Manzano

Toda vez que líderes mundiais se reúnem, há quem manifeste desagrado, quiçá enrolado em bandeira e marchando sobre o asfalto aos gritos de «Fora este!» ou «Fora aquele!». É sacrossanto o direito a protestar, não há democrata que o negue. De lá a protestar por protestar, com objetivo nebuloso, só pra armar confusão ‒ já não estamos falando da mesma coisa.

Aconteceu quando doutor Trump estava para se encontrar com aquele excitado líder (dono?) da Coreia do Norte. Reuniram-se, cumprimentaram-se, conversaram. Muita gente ‒ na Coreia do Sul, nos EUA, no Japão ‒ contrária à ideia de os dois se encontrarem, manifestou indignação. Conversaram assim mesmo. Ao final, se o mundo não consertou, pelo menos ficou menos tenso do que antes. Mal não fez, a conversa.

Dias atrás, os grandes do planeta estiveram na reunião do G20 em Buenos Aires ensaiando acertar o passo no tango planetário que nos rege. De Mr. Trump a Frau Merkel, de doutor Temer a Monsieur Macron, estavam todos lá. Não deu outra: avenidas da capital argentina foram tomadas por manifestantes irados que ordenavam, sem sutileza nenhuma: «Fuera FMI!, Fuera G20!, Fuera imperialistas!, Fuera todos!». Edificante.

Fico perplexo com essas manifestações. «É conversando que a gente se entende» ‒ é moto repetido à farta entre nós. Ao observar os que protestam ruidosamente na rua, fico a imaginar que seria lógico proporem outra forma de resolver o problema contra o qual se insurgem. No entanto, nenhuma proposta aparece. Protestam por protestar. Mandam todos embora sem apresentar nem a sombra do esboço de um caminho novo.

Francamente, esses que gritam «Fora!» a todos não têm solução alternativa a propor. Nesse caso, mais vale ignorá-los e perseverar nos encontros e nos diálogos. Post nubila Phoebus. Depois das nuvens, sai o sol. Há de sair.

Júbilo suspeito

José Horta Manzano

Outro dia, o novo presidente mexicano, recém-subido ao trono, anunciou que pretende contratar médicos cubanos, nos mesmos moldes do que fez o programa Mais Médicos no Brasil. Para o observador comum, a notícia é daquelas que não fedem nem cheiram. Cada dirigente organiza seus programas da maneira que lhe parecer mais eficiente. Foi eleito justamente pra isso.

Num gritante ato falho, nossa incendiária parlamentar Gleisi Hoffmann soltou entusiasmados rojões em comemoração à iminente contratação pelo México dos três mil médicos que estão deixando o Brasil.

A (quase ex-) senadora não se mostrou particularmente preocupada com o ganha-pão dos esculápios. Senão, vejamos: caso o presidente mexicano tivesse anunciado estar contratando médicos bielorrussos, vietnamitas ou zimbabuenses, ninguém imagina que ela estivesse festejando, pois não?

Fica claro, portanto, o motivo do júbilo de doutora Hoffmann. Está feliz de saber que os milhões de dólares extorquidos dos infelizes profissionais da saúde cubanos continuarão a irrigar a ditadura dos bondosos irmãos Castro.