Bernardo Guimarães

José Horta Manzano

Em março de 1884, morria Bernardo Guimarães, homem de letras mineiro. Sua obra mais conhecida, o romance A Escrava Isaura, daria a volta ao mundo, cem anos mais tarde, nas asas de uma telenovela exportada para 150 países. Infelizmente para ele, esse sucesso planetário só viria um século depois de sua morte. Bem que teria ajudado se tivesse chegado enquanto o autor vivia.

O jornal Liberal Mineiro, de Ouro Preto, na edição de 29 de março de 1884, publicava a notícia de uma comissão formada para coletar fundos para ajudar a viúva do escritor e os filhos, todos menores. Vai com a grafia e o saboroso estilo da época:

«Consituio-se nesta cidade uma commissão central, que se encarrega de promover em toda a provincia uma subscripção em beneficio da viuva e filhos do finado poeta e romancista, Bernardo Guimarães.

Este homem illustre não deixou de certo sua familia na indigencia, mas não legou-lhe riquezas, que nunca ambicionou, nem sua viuva e parentes as possuem para poderem educar seis meninos, cujos talentos, que herdarão (=herdaram) do pai – honra dos mineiros – não se deve permittir que fiquem incultos.»

E o artigo segue com a menção dos integrantes da commissão, todos eles figurões da capital da província das Minas Gerais.

Liberal Mineiro (Ouro Preto), 29 março 1884

Fui conferir e encontrei, em outra fonte confiável, a informação de que Bernardo Guimarães teve oito filhos, não seis. Imaginei que pudesse haver um erro, um falando em seis, outro fazendo conta de oito. Mas o artigo que falava dos oito filhos dava o nome de cada um, acompanhado do ano de nascimento e morte. Não, não havia margem para erro. Com nome e data? Tinha cara de ser verdade. Por seu lado, o anúncio inserido pela commissão, redigido dias após a morte do escritor, tampouco podia estar errado. Era muita gente assinando embaixo. Como explicar o disparate?

Pensei um pouco, reli o nome dos filhos e… descobri! Quando o sujeito é constituído de nomes masculinos e femininos, nossa língua exige que o plural vá para o masculino. Ex: ‘laranjas, maçãs, uvas, peras, bananas e figos são bons para a saúde’. Na mesma linha, quando a filharada conta com meninos e meninas, costuma-se falar “dos meninos” do casal, expressão que agrupa todos os filhos. Esmiuçando o nome das crianças, constatei que, entre os oito filhos de Bernardo Guimarães, havia seis rapazes e duas moças.

Quando a commissão pediu contribuições para educar os filhos «para evitar que ficassem incultos», referia-se apenas aos rapazes. Para as meninas, não havia necessidade, que o caminho estava traçado: haviam de se casar, ter filhos, ficar em casa e cuidar da família. Não precisavam de maiores cuidados com a educação formal. Nas melhores famílias, o máximo que se ensinava à meninas era piano e bordado. Escola? Só a elementar. Estudos superiores? Isso não passava pela cabeça de ninguém. De lá pra cá, o mundo mudou.

Do fundo da cela

José Horta Manzano

Em 1884, numa época em que Belo Horizonte ainda não existia, Ouro Preto era capital da Província das Minas Gerais. Em setembro daquele ano, O Liberal, jornal da cidade, publicou por seis edições consecutivas um anúncio pago que revelava história triste.

Um certo Demetrio Soares dos Santos, encarcerado em Ouro Preto, narrava a desventura de que tinha sido vítima. Sua mãe, vindo trazer-lhe uma carta contendo a quantia de cem mil reis ‒ valor considerável para a época ‒, tivera a infelicidade de perder o envelope com dinheiro e tudo. Por estar preso, portanto impossibilitado de buscar pessoalmente, o anunciante apelava para a caridade de quem tivesse encontrado a quantia. Que devolvesse, que seria gratificado.

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A história não registra se o dinheiro foi encontrado, muito menos se terá sido devolvido. Mas isso não vem ao caso. Minha observação é outra. Faz semanas que Lula da Silva insiste em solicitar autorização para conceder entrevista apesar de encontrar-se encarcerado. Em resumo, exige lhe seja reconhecido o direito de dirigir-se ao distinto público, ainda que o faça de dentro da cela.

A Justiça, perplexa com a solicitação fora de esquadro, hesita em liberar a entrevista. Com base no documento aqui reproduzido, venho afirmar que o pedido do demiurgo não é tão excêntrico quanto parece. No longínquo 1884, mais de 130 anos atrás, um encarcerado já publicou pronunciamento ‒ em nome próprio e às claras ‒ em importante quotidiano de capital de província. E o mundo não acabou.

Portanto, a jurisprudência é favorável. Há precedente. Pode falar, Excelência!

Dinheiro perdido

José Horta Manzano

Prisioneiro 2Até o finalzinho do século 19, a capital da Província de Minas Gerais era Ouro Preto. A cidade de Belo Horizonte, uma das primeiras cidades brasileiras planejadas numa prancheta, foi concebida exatamente para substituir Ouro Preto e se tornar capital. A transferência oficial da sede do governo só ocorreu quase no final do século, quando Deodoro da Fonseca já havia dado o golpe que tinha derrubado a monarquia e instalado a República.

Naqueles tempos, não havia rádio nem tevê nem muito menos internet. A informação só circulava por dois caminhos: boca a boca ou imprensa escrita. Os jornais, geralmente publicados com quatro ou seis páginas, eram muitos. A maioria não vingava ‒ alguns não passavam de algumas edições. Assim mesmo, eram imprescindíveis por constituir a única fonte de informação da população letrada. Toda notícia que não chegasse por via oral tinha de ser propagada por escrito.

Nos anos 1880, circulou em Ouro Preto um jornal chamado Liberal Mineiro. Como os outros, publicava notícias locais, avisos oficiais, notas de falecimento. Trazia também notícias requentadas, reproduzidas de jornais da corte. O Rio de Janeiro, no século 19, abrigava a família imperial e a corte, daí o epíteto.

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Na edição de 11 setembro 1884, saiu um aviso curioso que reproduzo aqui. Normal para a época, seria impensável nos dias de hoje. É verdade que mais de 130 anos se passaram, assim mesmo, parece que mudamos de planeta.

A inserção trazia um pedido feito por um preso. Contava história triste. A mãe do encarcerado, ao dirigir-se à cadeia para visitar o filho, carregava uma carta e a quantia de cem mil réis, montante considerável na época. Por infelicidade, perdeu tudo no meio do caminho ‒ carta e dinheiro. O preso rogava «à consciência escrupulosa da caridade pública» que o montante lhe fosse devolvido por quem o tivesse encontrado.

O anúncio foi publicado em seis diferentes edições do mesmo jornal. Tudo indica que, já naqueles tempos recuados, a caridade pública fosse surda.

Memória ameaçada

José Horta Manzano

Dos edifícios antigos que subsistem nas cidades brasileiras, raros são os que têm mais de um século. Poucas casas foram levantadas no século XIX num País escassamente povoado à época. Assim mesmo, dentre as poucas que restam, boa parte anda abandonada ao deus-dará.

Interesses comerciais primam sobre considerações históricas. Um século atrás, as cidades eram bem menores e seu perímetro construído, restrito. As aglomerações cresceram vertiginosamente. As construções mais antigas se encontram hoje, naturalmente, em regiões valorizadas, em pleno centro das metrópoles.

Com a valorização das regiões centrais, o proprietário de construções antigas tende a vendê-las a promotores. Novos edifícios ― altos e modernos ― surgirão dos escombros da História destruída. Para o brasileiro padrão, mais vale um belo prédio moderno de 20 ou 30 andares, dotado de todas as comodidades da vida moderna, do que um velho casarão. Diferentemente do que ocorre na Europa, a velha construção aparece como mancha urbana, excrescência a ser eliminada quanto antes. Afinal, em Miami não há essas velharias.

Crédito: Germano Neto

Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Ouro Preto
Crédito: Germano Neto

É triste, mas assim é. E assim seguimos. O grosso de nossa população não aprendeu a conceder o devido valor aos (poucos) testemunhos históricos que nos restam. E, como ninguém consegue dar o que não tem, os adultos de hoje estão desarmados para transmitir às novas gerações a formação e a informação que eles mesmos não receberam. Assim, nossos jovens não dispõem de fontes onde impregnar-se.

Um exemplo noticiado pela Folha de São Paulo de 16 de abril vem a calhar. A reportagem nos informa que a igreja de Nossa Senhora da Conceição, erguida em Ouro Preto na primeira metade do século XVIII (1724), foi obrigada a fechar suas portas ao público visto o risco de desabamento.

Há mais: o templo abriga o túmulo e o Museu do Aleijadinho, o maior escultor barroco que o Brasil conheceu. Cansado de esperar por providências das autoridades pagas para cuidar de nosso escasso patrimônio arquitetural, o próprio vigário tomou a iniciativa de interditar a igreja.Igreja N. Sra. Conceição 2

Há mais ainda: o edifício está tombado como patrimônio nacional desde 1949. Portanto, está há mais de 60 anos sob os cuidados do Poder Público.

A região das cidades históricas das Minas Gerais abriga o coração de nosso patrimônio arquitetônico. Ouro Preto, antiga capital da província, é sua expressão maior. Qualquer aluno de escola média sabe quem foi Antônio Francisco Lisboa, o Aleijadinho. O que nem todos sabem é que, do jeito que vão as coisas, nossos netos perigam apenas conhecer sua obra através de belas fotos, nada mais. Serão fotos digitais e, com um pouco de sorte, em alta resolução. Naturalmente.

Vamos esperar que o tempo, a umidade e os cupins se encarreguem da demolição? Não vai precisar esperar muito.