Ministério da Defesa

José Horta Manzano

Em 1999, a nomeação de doutor Élcio Álvares para o posto de ministro da Defesa causou frisson. Mal passados quinze anos do fim do regime militar, um civil chefiaria Exército, Aeronáutica e Marinha ‒ pela primeiríssima vez na história da República. Almirantes, brigadeiros e generais haviam de prestar continência a um civil! Uma revolução.

De lá pra cá, os espíritos estão menos toscos. Ainda assim, se um civil na Defesa é hoje visto como natural, esse civil tem de ser necessariamente do sexo masculino. Mulher comandando milico? Nestas terras de Santa Cruz, nem pensar!

No entanto, em terras menos pudendas, ninguém mais se espanta de ver alguém de saias dando instruções a fardados. No momento, dez países europeus têm uma mulher como titular do Ministério da Defesa. São eles: Espanha, França, Holanda, Alemanha, Itália, Albânia, Macedônia, Montenegro, Bósnia-Herzegovínia e Eslovênia.

Com a designação de Frau Viola Amherd para a chefia do Ministério da Defesa, com tomada de posse prevista para 1° de janeiro 2019, a Suíça entra para o clube. Serão onze países europeus.

Eleitorado conservador?

José Horta Manzano

É frequente ouvir dizer que, em política, o brasileiro está cansado de tudo o que está aí e quer mudança, novos ares, novos personagens. De tanto ouvir falar nisso, a gente quase acaba acreditando. E se a realidade não fosse exatamente essa?

Recentemente, o Grupo Record encomendou uma pesquisa a um certo Instituto Real Time Big Data(*), do qual nunca ouvi falar e sobre o qual não encontrei nenhuma referência. A pesquisa, que procura descobrir que tipo de presidente o brasileiro gostaria de ter, deve ser portanto encarada com um pé atrás. Assim mesmo, vale a pena olhar de esguelha.

A sondagem indica que dois terços do eleitorado preferem que a presidência seja ocupada por um homem. Após um desastre chamado Dilma Rousseff, o ressabiamento é compreensível.

Num rasgo de conservadorismo explícito, a sondagem informa que, de cada 4 brasileiros, 3 gostariam que o ocupante do cargo maior fosse branco. Sabendo que mais da metade da população do país é mestiça, dá pra medir o tamanho do preconceito: metade da população mestiça optaria por um branco no trono mais alto.

Nove entre dez compatriotas exigem que o chefe do Executivo acredite em Deus. A pesquisa não indagou se exigem também que pratique uma religião ou se basta dizerem que acreditam.

Uma estranha pergunta foi incluída: se preferem que o presidente venha de família rica ou pobre. Estranheza por estranheza, o povo se dividiu. Pouco mais da metade prefere que o homem tenha tido infância pobre, o que pressupõe que a outra metade prefira o contrário.

Confirmando a ancoragem na tradição, os eleitores ‒ numa proporção de 4 contra 1 ‒ fazem questão de que o eleito tenha experiência política, sinalizando preferir um político tradicional, à exclusão de todo novato.

Escaldados pela pobreza de ideias da era lulopetista, mais de três quartos dos eleitores exigem que o novo mandatário tenha formação universitária. Nunca se sabe ‒ formação mais sólida evita gafes internacionais e patacoadas internas.

Com lógica evidente, esmagadora maioria de 85% dos entrevistados não querem saber de ter de novo um presidente investigado por corrupção. Interessante é analisar a resposta pelo avesso. Por exclusão, 15% não se importam que o homem seja investigado. Ora, ora.

Aí está. Quem buscar lógica integral vai se sentir decepcionado. Repito que a sondagem deve ser olhada com certo distanciamento. Assim mesmo, não há de estar muito longe da verdade.

(*) Se o distinto leitor puder lançar alguma luz sobre o perfil desse instituto, convido-o a deixar comentário. Agradeço antecipadamente.

Paridade científica

José Horta Manzano

Você sabia?

Vamos começar a semana com notícia leve. Em meio a tanta catástrofe, uma treguazinha é sempre bem-vinda. Desde que se começaram a formar, as sociedades humanas dispensaram cuidados diferenciados a seus membros, segundo o sexo de cada um. Homens e mulheres não tinham atribuições idênticas.

by André-Philippe Côte (1955-), desenhista canadense

Em eras recuadas, era mais que compreensível. Ao homem, fisicamente mais avantajado, cabiam tarefas pesadas como a busca de alimento e a defesa do grupo. À mulher competia cuidar da prole e garantir a retaguarda. Mas os tempos mudaram e, com eles, os costumes.

Na Europa, duas grandes guerras foram determinantes para forçar o rearranjo das atribuições. Entre 1914 e 1918 e, em seguida, de 1939 a 1945, os homens foram convocados para a carnificina dos campos de batalha mas cada país tinha de continuar funcionando. Mulheres tiveram de preencher o vácuo criado pela ausência masculina. Nos campos, lavradoras assumiram todo o trabalho. Nas fábricas e nas cidades, operárias, condutoras de bonde, cozinheiras e artesãs passaram a cumprir missões antes exclusivamente masculinas.

Elsevier Foundation
Publicações científicas assinadas por homens e por mulheres
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Essas mudanças bruscas modificaram a visão da sociedade quanto ao papel feminino. A cada dia, as mulheres provavam ser capazes de fazer muito mais do que cuidar da casa e dos filhos. Algumas esquisitices demoraram a ser abolidas. O direito de voto foi, pouco a pouco, sendo estendido ao sexo feminino. Por incrível que possa parecer, até os anos 1970, na França, mulher casada não tinha direto a abrir conta bancária sem o assentimento do marido ‒ singularidade que, felizmente, já desapareceu.

Nas Américas em geral e no Brasil em particular, a distinção entre atribuições de cada sexo nunca foi tão rigorosa quanto na Europa ou em outras partes do mundo. Os tempos difíceis do desbravamento das novas terras contribuiu para isso. Desde o tempo em que bandeirantes se embrenhavam na mata atrás de riqueza, as mulheres foram obrigadas a assumir tarefas que, na Europa, não seriam destinadas a elas.

Talvez esteja aí um princípio de explicação para o que vem a seguir. Diferentemente de muitas estatísticas internacionais ‒ como as classificações Pisa e Gini ‒ em que o Brasil aparece na rabeira, notícia alvissareira nos chega estes dias. A Fundação Elsevier, baseada nos Países Baixos e dedicada a apoiar o desenvolvimento da ciência, acaba de anunciar suas estatísticas sobre a «paridade científica», a proporção de publicações científicas assinadas por mulheres.

by Aleutie, desenhista canadense

Nesse particular ‒ pasme, distinto leitor! ‒, nosso país ocupa o primeiro lugar. A pesquisa compara a situação em numerosos países: os 28 membros da União Europeia, os EUA, o Canadá, a Austrália, o Japão, Portugal, o México e o Chile. No período que vai de 2011 a 2015, 49% das publicações brasileiras foram assinadas por mulheres, em posição de empate com Portugal. Nos Estados Unidos, na Grã-Bretanha ou na França, por exemplo, apenas 40% dos artigos foram produzidos por mulheres. O Japão aparece no fim da lista. Por lá, os homens, responsáveis por 80% das publicações, dominam amplamente o segmento.

Em termos práticos, podemos nos gabar de haver atingido a paridade entre sexos no campo científico. É grande passo na boa direção.