Assalto frutuoso

José Horta Manzano

Talvez o distinto leitor tenha ficado sabendo do caso do habeas corpus concedido a homem que tinha roubado uma maçã de uma idosa. Se não soube, vai abaixo o essencial da história.

Acompanhado de um cúmplice, um valentão atacou uma idosa e exigiu que lhe entregasse ouro e joias. A senhora retrucou que nada tinha de valor e que a única coisa que levava era uma maçã. Pra não sair de mãos abanando, os marmanjos carregaram a fruta. A crônica não registra como se deu a prisão dos assaltantes miseráveis. Encarcerado, o cabeça do duo requereu à Justiça estadual lhe concedesse habeas corpus para aguardar julgamento em liberdade. O pedido foi negado.

Não abatida com o entrave, a defesa do assaltante recorreu ao Superior Tribunal de Justiça e novamente requereu soltura do cliente. O colegiado de uma das turmas do STJ se debruçou sobre o caso e deu-lhe a mesma atenção que dedicaria a crime maior, com pareceres e citações de artigos de lei. Ao final dos considerandos chegou aos finalmentes: em contradição à decisão da Justiça estadual, habeas corpus foi concedido ao criminoso, que pode agora esperar tranquilamente em casa pelo julgamento do assalto.

Não quero entrar aqui no mérito da questão. Não é esse o ponto. A pergunta é se a movimentação da máquina judiciária foi, neste caso, proporcional à importância da coisa julgada. A meu ver, a resposta é negativa. Movimentar o Superior Tribunal de Justiça ‒ uma das altas instâncias da judiciárias do país ‒ para o roubo de uma maçã? Parece-me rematada extravagância.

Não sei onde está o erro. As normas de processo penal certamente permitem que se chegue a situações disparatadas como essa. Se assim for, é urgente repensar e reequilibrar o sistema. A Justiça já costuma ser lenta. Se for sobrecarregada com bagatelas, só tende a piorar. Saem todos perdendo, principalmente os que dela realmente precisam.

Dilma cuspiu nos médicos

O dia em que a presidenta Dilma em 10 minutos cuspiu no rosto de 370.000 médicos brasileiros

Autora: Juliana Mynssen da Fonseca Cardoso
Cirurgiã-geral no Hospital Estadual Azevedo Lima, no Rio de Janeiro
CRM-RJ 822370
Publicado em 24 junho 2013

Há alguns meses eu fiz um plantão em que chorei. Não contei a ninguém (não é nada fácil compartilhar isso numa mídia social). Eu, cirurgiã-geral, “do trauma”, médica “chatinha”, preceptora “bruxa”, que carrego no carro o manual da equipe militar cirúrgica americana que atendia no Afeganistão, chorei.

Na frente da sala da sutura tinha um paciente idoso internado. Numa cadeira. Com o soro pendurado na parede num prego similiar aos que usamos para pendurar samambaias. Ao seu lado, seu filho. Bem vestido. Com fala pausada, calmo e educado. Como eu. Como você. Como nós. Perguntava pela possibilidade de internação do seu pai numa maca, que estava há mais de um dia na cadeira. Ia desmaiar. Esperou, esperou, e toda vez que abria a portinha da sutura ele estava lá. Esperando. Como eu. Como você. Como nós. Teve um momento que ele desmoronou. Se ajoelhou no chão, começou a chorar, olhou para mim e disse “não é para mim, é para o meu pai, uma maca”. Como eu faria. Como você. Como nós.

Pensei “meudeusdocéu, com todos que passam aqui, justo eu! Nãããão! Porque se chorar eu choro, se falar do pai eu choro, se me der um desafio vou brigar com 5 até tirá-lo daqui”.

E saí, chorei, voltei, briguei e o coloquei numa maca retirada da ala feminina.Interligne 28

Já levei meu pai para fazer exame no meu HU. O endoscopista, quando soube que era meu pai, disse: “Por que não me disse? Levava no privado, Juliana!” Não precisamos, acredito nas pessoas que trabalham comigo. Que me ensinaram e ainda ensinam. Confio. Meu irmão precisou e o levei lá. Todos os nossos médicos são de hospitais públicos que conhecemos, e, se não os usamos mais, é porque as instituições públicas carecem. Carecem e padecem de leitos, aparelhos, materiais e medicamentos.

Uma vez fiz um risco cirúrgico e colhi meu sangue no meu hospital universitário. No consultório de um professor, ele me pergunta: “E você confia?”

“Se confio para os meus pacientes, tenho de confiar para mim.”

Eu pratico a medicina. Ela pisa em mim alguns dias, me machuca, tira o sono, dá rugas, lágrimas, mas eu ainda acredito na medicina. Me faz bem. Com ela aprendo, cresço. E ela me torna humana. Se tenho dívidas, pago-as assim. Faço porque acredito.

Nestes últimos dias de protestos nas ruas e na mídia, brigamos por um país melhor. Menos corrupto. Transparente. Menos populista. Com mais qualidade. Com mais macas. Com hospitais melhores, mais equipamentos. E que não faltem medicamentos. Um SUS melhor.

Estetoscópio

Estetoscópio

Briguei pelo filho do paciente ajoelhado. Por todos os meus pacientes. Por mim. Por você. Por nós. O SUS é nosso.

Não tenho palavras para descrever o que penso da “presidenta” Dilma. (Uma figura que se proclama “presidenta” já não merece minha atenção.)

Mas hoje, por mim, por você, pelo meu paciente na cadeira, eu a ouvi.

Eu a ouvi dizer que escutou “o povo democrático brasileiro”. Que escutou que queremos educação, saúde e segurança de qualidades. “Qualidade…” ela disse.

E disse que importará médicos para melhorar a saúde do Brasil.

Para melhorar a qualidade?

Senhora “presidenta”, eu sou uma médica de qualidade. Meus pais são médicos de qualidade. Meus professores são médicos de qualidade. Meus amigos de faculdade. Meus colegas de plantão. O médico brasileiro é de qualidade.

Os seus hospitais é que não são. O seu SUS é que não tem qualidade. O seu governo é que não tem qualidade.

O dia em que a senhora “presidenta” abrir uma ficha numa UPA, for internada num hospital estadual, pegar um remédio na fila do SUS e disser que isso é de qualidade, aí conversaremos.

Não cuspa na minha cara, não pise no meu diploma. Não me culpe pela sua incompetência.

Somos quase 400mil, não nos ofenda. Estou amanhã de plantão, abra uma ficha, posso atendê-la. Não demora, não.

Médicos não faltam, mas não posso garantir que tenha onde sentar. Afinal, a cadeira é prioridade dos internados.

Hoje, eu chorei de novo.