O primeiro passo

José Horta Manzano

Faz alguns anos, morei num prediozinho de poucos apartamentos, situado num vilarejo de 1.500 almas. Meus vizinhos no prédio eram: um engenheiro aposentado, uma vendedora de loja de roupa, um arquiteto, um auxiliar de mecânico, um médico, um eletricista. Todos proprietários. O eletricista, por sinal, era dono do maior e mais caro dos apartamentos.

Agora falemos francamente, distinto leitor. Dá pra imaginar, num imóvel brasileiro, uma convivência tão disparate? De um lado, arquiteto, engenheiro, médico. De outro, vendedora de loja, auxiliar de mecânico, eletricista. Soa exótico a nossos ouvidos, não? Pois é coabitação corriqueira em países mais adiantados. E como é possível?

Em grandes linhas, é consequência do desnível social relativamente pequeno que vigora, em países adiantados, entre os de cima da pirâmide e os das camadas inferiores. Mais precisamente, essa convivência é possibilitada pela tradicional valorização dos «pequenos ofícios». Refiro-me a profissões da construção, da hotelaria, dos serviços, que são encaradas na Europa com respeito e dignidade, enquanto são depreciadas no Brasil.

Já contratei pedreiro que morava em casa própria com piscina. Já tive encanador que passava as férias de inverno esquiando com a família numa estação alpina. Já me vali do serviço de faxineira que vinha com carro próprio e hora marcada. No Brasil, filho de azulejista que se forma doutor é caso pra ser contado no Fantástico. Em outras plagas, não surpreende ninguém.

Trabalho de paciência: o serrador de pedra

Por maior que fosse o esforço, o Brasil levaria muito tempo para desfazer-se do preconceito e da discriminação de classe social. Num país em que a ordem medieval ainda sobrevive nos fatos e gestos do quotidiano, isso é obra de gerações. Mas, como dizem os chineses, toda longa caminhada começa com o primeiro passo. Se queremos ter um dia um país onde a justiça social reduza drasticamente a criminalidade, há que dar esse primeiro passo. Será bom para todos, tanto para o doutor como para o auxiliar de mecânico.

Doutor Carlos Alexandre da Costa, jovem economista, acaba de ser indicado para chefiar a Secretaria Geral de Produtividade e Emprego, no governo entrante. Li a entrevista que deu ao Estadão dias atrás. O moço parece disposto a incentivar a valorização dos pequenos ofícios. É intenção da nova secretaria lançar um Plano Nacional de Qualificação de Capital Humano, com o objetivo específico de elevar a qualidade da mão de obra do país.

Não vai bastar melhorar a formação de profissionais. Vai ser preciso vencer preconceitos profundamente enraizados na sociedade ‒ essa será a parte mais difícil. Não se esperem resultados imediatos, que a caminhada é longa. Mas ela começa com esse primeiro passo que está pra ser dado.

Frase do dia — 88

«O mau humor com Dilma hoje é tamanho que, durante sua fala, o dólar chegou a bater nos R$ 2,42. Logo depois, quando começaram em Davos os boatos de que Guido Mantega não mais ficaria no cargo, o real voltou a se valorizar.»

Sonia Racy comentando o discurso pronunciado por dona Dilma em Davos. In Estadão, 25 jan° 2014.