Bernardo Guimarães

José Horta Manzano

Em março de 1884, morria Bernardo Guimarães, homem de letras mineiro. Sua obra mais conhecida, o romance A Escrava Isaura, daria a volta ao mundo, cem anos mais tarde, nas asas de uma telenovela exportada para 150 países. Infelizmente para ele, esse sucesso planetário só viria um século depois de sua morte. Bem que teria ajudado se tivesse chegado enquanto o autor vivia.

O jornal Liberal Mineiro, de Ouro Preto, na edição de 29 de março de 1884, publicava a notícia de uma comissão formada para coletar fundos para ajudar a viúva do escritor e os filhos, todos menores. Vai com a grafia e o saboroso estilo da época:

«Consituio-se nesta cidade uma commissão central, que se encarrega de promover em toda a provincia uma subscripção em beneficio da viuva e filhos do finado poeta e romancista, Bernardo Guimarães.

Este homem illustre não deixou de certo sua familia na indigencia, mas não legou-lhe riquezas, que nunca ambicionou, nem sua viuva e parentes as possuem para poderem educar seis meninos, cujos talentos, que herdarão (=herdaram) do pai – honra dos mineiros – não se deve permittir que fiquem incultos.»

E o artigo segue com a menção dos integrantes da commissão, todos eles figurões da capital da província das Minas Gerais.

Liberal Mineiro (Ouro Preto), 29 março 1884

Fui conferir e encontrei, em outra fonte confiável, a informação de que Bernardo Guimarães teve oito filhos, não seis. Imaginei que pudesse haver um erro, um falando em seis, outro fazendo conta de oito. Mas o artigo que falava dos oito filhos dava o nome de cada um, acompanhado do ano de nascimento e morte. Não, não havia margem para erro. Com nome e data? Tinha cara de ser verdade. Por seu lado, o anúncio inserido pela commissão, redigido dias após a morte do escritor, tampouco podia estar errado. Era muita gente assinando embaixo. Como explicar o disparate?

Pensei um pouco, reli o nome dos filhos e… descobri! Quando o sujeito é constituído de nomes masculinos e femininos, nossa língua exige que o plural vá para o masculino. Ex: ‘laranjas, maçãs, uvas, peras, bananas e figos são bons para a saúde’. Na mesma linha, quando a filharada conta com meninos e meninas, costuma-se falar “dos meninos” do casal, expressão que agrupa todos os filhos. Esmiuçando o nome das crianças, constatei que, entre os oito filhos de Bernardo Guimarães, havia seis rapazes e duas moças.

Quando a commissão pediu contribuições para educar os filhos «para evitar que ficassem incultos», referia-se apenas aos rapazes. Para as meninas, não havia necessidade, que o caminho estava traçado: haviam de se casar, ter filhos, ficar em casa e cuidar da família. Não precisavam de maiores cuidados com a educação formal. Nas melhores famílias, o máximo que se ensinava à meninas era piano e bordado. Escola? Só a elementar. Estudos superiores? Isso não passava pela cabeça de ninguém. De lá pra cá, o mundo mudou.

Saiu corrido

José Horta Manzano

Weintraub, nosso pranteado ministro da Educassão, abandonou o Brasil às carreiras, antes de sua exoneração ser publicada no Diário Oficial. O atropelo tinha dois motivos.

Em primeiro lugar, fugiu por razões sanitárias. O governo norte-americano restringiu, em razão da covid-19, a entrada de pessoas provenientes do Brasil. O ‘esperto’ Weintraub aproveitou que ainda tinha no bolso um passaporte diplomático(*) e escafedeu-se. Conclui-se que, na curiosa contabilidade americana, diplomatas estão imunizados, razão pela qual sua entrada é permitida. É que o governo americano não sabe, mas o risco representado pelo ex-ministro é de outra natureza. O moço é bem mais nocivo do que aparenta.

Em segundo lugar, fugiu por pânico. Ao perder o cargo, o doutor perde o foro por prerrogativa de função (foro dito “privilegiado”). Em termos simples: se bobear, dança; e vai pra cadeia. Com a procissão de acusações que seu comportamento rasteiro acumula, o risco é real. Nos EUA, fica temporariamente longe dos braços da Justiça brasileira. Mas um dia acaba voltando. Que tome cuidado!

(*) Já me exprimi, em outras ocasiões, sobre o uso – e principalmente o abuso – que vêm sendo feitos do tal passaporte diplomático. Em princípio, o documento destina-se a diplomatas e a funcionários que viajam a serviço do país. No entanto, depois que Lula da Silva, no último dia de mandato e antes de apagar a luz, concedeu passaporte diplomático a todos os parentes, avacalhou de vez.

Doutor Weintraub, que não está nos EUA em missão oficial, não tem direito a viajar com o documento. Mas vivemos uma situação em que crimes maiores ofuscam ‘delitozinhos’ como esse. Estivéssemos em país civilizado, ele ainda teria de responder, diante da Justiça, pelo uso indevido de documento oficial não autorizado. Seria gratificado com pesada multa. Em país civilizado, disse eu.

Pós-crise

José Horta Manzano

A pesada crise provocada pela epidemia de covid-19 surge como inesperado revelador de realidades dormentes ou encobertas. Quando o tempo é bom, todo o mundo é capitão, todos sabem navegar. Quando o céu vem abaixo e o temporal desaba, aí é que são elas.

Nas bandas da oficialidade, o mundo está assistindo, entre surpreso e inquieto, à cena bizarra de holofotes iluminando líderes que não lideram. Se o distinto leitor voltou o olhar para os lados do Planalto, acertou. Nas altas esferas da República, o pandemônio faz companhia à pandemia. Leigos dão receita médica; médicos aconselham beijos e abraços em momento de contágio. Um mundo de ponta-cabeça.

Outras verdades, normalmente encobertas por véu pudico, vêm à luz. A solidariedade nacional corre pra ajudar os que têm menos. Mas primeiro precisa saber quem e quantos são. Constrangido, o governo reconheceu, a contragosto, que 70 milhões de compatriotas estão no grupo de trabalhadores informais. Setenta milhões! Esse imenso contingente representa quase metade da população ativa – um despropósito que, não fosse a crise sanitária, continuaria invisível aos olhos da outra metade dos ativos.

Não é um punhadinho de gente, é uma multidão. É gente que pode até ter família, mas não tem carteira assinada; que pode existir para o pastor, mas não existe para a Receita. Não é aceitável que metade da força de trabalho nacional opere nas sombras, como se abstração fosse.

Quando essa epidemia se acalmar, algo vai mudar. Tenho certeza de que doutor Bolsonaro, que, a estas alturas, já tomou ciência dessa desordem, vai agir. Preocupado que está com o bem-estar da população, vai dar início a um processo de reconhecimento do contingente oculto. Ficará na história como aquele que descobriu o outro Brasil. Ou não.

O presidente e os sem-voto

José Horta Manzano

Quando se dispõe a atacar o Judiciário – uma atitude que adota com frequência –, doutor Bolsonaro costuma encher a boca para proclamar a própria legitimidade. Argumenta que recebeu 57,8 milhões de votos, enquanto os magistrados não receberam nenhum.

À primeira vista, o raciocínio parece cristalino. No entanto, quando se tenta seguir essa lógica até o fundo, a imagem se turva. Se o número de votos fosse determinante da legitimidade do homem político, um bocado de gente passaria à frente dos sem-voto.

Logo após Bolsonaro, viria – adivinhem quem? – Fernando Haddad, ora pois. Seus 47 milhões de votos lhe conferem legitimidade comparável à do presidente, muito acima do magma dos que não passaram pelas urnas. Está correto o que estou dizendo? De onde sai essa salada?

O distinto leitor há de ter se dado conta de que, esticado até o limite da ruptura, o raciocínio do presidente acaba por romper-se. É que, ainda que tenha recebido um caminhão de votos, ele não será nem mais nem menos legítimo do que o vereador de pequeno município, escolhido por poucas dezenas de eleitores. A legalidade do presidente tampouco será menor que a de um ministro do STF ou de um parlamentar. Todos eles, escolhidos segundo as normas da lei, estão no mesmo nível de legitimidade.

Portanto, será falácia o presidente pretender-se mais ‘legítimo’ do que parlamentares ou ministros do Judiciário. Desde que o caminho que os levou lá tenha seguido rigorosamente os preceitos legais, gozam todos de idêntica legitimidade.

Só pra chatear 1
Pela lógica de doutor Bolsonaro, que confunde os conceitos de legitimidade e de proporção de eleitores, tanto o Lula quanto a doutora eram mais ‘legítimos’ que ele. Vejamos o resultado de cada um (em proporção do total de votos válidos):

2018  Jair Bolsonaro  55,1%
ooooooooooooooooooooooooooo
2010  Dilma Rousseff  56,1%
2006  Lula da Silva   60,8%
2002  Lula da Silva   61,3%

Só pra chatear 2
Há questão de 3 meses, doutor Bolsonaro afirmou que as eleições de 2018 haviam sido fraudadas. Garantiu ainda que tinha provas disso. Ora, desde que o mundo é mundo, a fraude em votações serve pra garantir a eleição de um dos candidatos. Quem ganhou foi ele; portanto, conclui-se que, se fraude houve, foi a seu favor. Será por isso que, até hoje, não mostrou as provas de que dispõe. Se o fizer, a fraude ficará comprovada e sua eleição será impugnada.

A contabilidade da epidemia

José Horta Manzano

Até a presente data, os três países que contabilizam maior número de mortos por covid-19 são, na ordem: os EUA, o Brasil e o Reino Unido. Não há como escapar à evidência de serem exatamente aqueles cujos dirigentes ousaram fazer pouco-caso da epidemia. E fizeram isso publicamente.

No começo da onda de contágio, escorregaram os mandatários dos três países. Jair Messias rotulou a doença de ‘gripezinha’ e mandou que todos saíssem às ruas. O inglês Boris Johnson declarou que não via problema em “continuar a apertar muitas mãos” como sempre tinha feito. Por seu lado, Donald Trump deu de ombros e afirmou que os melhores cientistas do mundo eram americanos, e que logo encontrariam um remédio.

Deu tudo errado. O inglês apanhou a doença, foi pra UTI e faltou pouco pra bater de dez e sair de pé junto. O americano anda contrariado por ver que seu país é campeão de mortos por covid-19, fato que hipoteca sua reeleição. Jair Messias, embora não confesse, parece que também apanhou a doença. Ele se safou, mas 40 mil compatriotas seus não tiveram a mesma sorte; são eles que deixam o Brasil na lista incômoda dos países onde a curva de contágio não quer achatar de jeito nenhum.

Países que tiveram a bênção de contar com dirigentes esclarecidos já estão saindo da fase aguda da epidemia. Ao verem desempinar a curva, estão desconfinando e voltando à rotina. Já os que tiveram o azar de serem comandados por mandatário obtuso ainda estão contando mortos aos milhares. Nada acontece por acaso.

Viva São João!

José Horta Manzano

Hoje é dia de Santo Antônio, aquele que encontra as coisas. Nossas avós já ensinavam que, quando se perde alguma coisa, o melhor é invocar Santo Antônio. Não costuma falhar.

Santo Antônio ― Sermão aos peixes

Santo Antônio ― Sermão aos peixes

Diz-se de Santo Antônio que é casamenteiro. Encontrar um par para almas solitárias há de fazer parte de suas atribuições.

Na verdade, a hagiologia é um tanto vaga e um bocado imprecisa quanto a esse personagem. Sabe-se que nasceu em Lisboa pouco antes do ano 1200, que se tornou grande orador, que abraçou a Ordem Franciscana, que morreu com trinta e poucos anos, em 1231. Descendente de Carlos Magno, nasceu em berço aristocrático e adquiriu elevada cultura. Foi canonizado a toque de caixa, menos de um ano após sua morte.

É o padroeiro da capital portuguesa, onde o conhecem como Santo Antônio de Lisboa. Já no resto do mundo é mais conhecido como Santo Antônio de Pádua, epíteto que lhe foi pespegado por ter vivido algum tempo na cidade italiana.

Por que encontra objetos? Não há consenso quanto à origem da lenda. Muito mistério envolve a vida desse santo. Atribuem-lhe o dom da ubiquidade ― dizem que conseguia estar em dois lugares ao mesmo tempo. Dizem também que tinha o poder de falar aos animais. Tão difícil é contestar quanto provar essas habilidades.

Quadrilha

Quadrilha

Mas hoje não é dia de missa, podemos nos dedicar a atividades mais profanas. A dança, por exemplo. Estamos em época de festas juninas. Falemos um pouco de quadrilha, vamos lá?

A dança de grupo que se costuma praticar no Brasil nesta época não é de origem nacional. Nem portuguesa tampouco. É possível que suas raízes estejam plantadas em terras inglesas. O que se sabe com segurança é que a quadrilha se pôs de moda na França no começo do século XIX. Sobreviveu mais de um século, até a Primeira Guerra Mundial, quando foi varrida dos salões pelos novos ritmos trazidos pelos militares americanos que tinham vindo combater nas trincheiras europeias.

A quadrilha francesa era dança de salão rigorosamente codificada. Naqueles tempos anteriores à valsa vienense, liberdade de inventar seus próprios passos não era deixada a cada par. Obedeciam todos a um ritual imutável. Os participantes tinham obrigatoriamente de formar pares, cavalheiros e damas em número igual.

Os movimentos da quadrilha eram classificados em grupos e subgrupos. Alguns passos juntavam os homens e os apartavam das mulheres. Outros reagrupavam os participantes em pares. Alguns compositores se dedicaram a escrever música especialmente para essa dança.

Quadrilha

Quadrilha

Na França, algumas reminiscências da quadrilha sobrevivem, nada mais que em associações folclóricas dedicadas à conservação do patrimônio cultural. Não sei como andam as coisas no Brasil estes últimos anos, mas é bem capaz de essa dança de salão ― ou de terreiro, depende do clima… ― estar mais vivaz em terras de Pindorama do que na pátria gaulesa.

Um detalhe interessantíssimo é o fato de a quadrilha brasileira ter mantido, para alguns dos passos codificados, os nomes originais franceses. Estão um pouco arrevezados, é verdade. Assim mesmo, por detrás dos sons deturpados e amoldados à nossa fonética, ainda dá para reconhecer alguns comandos de 200 anos atrás. Em francês, naturalmente. Eis alguns:

Balancê = balancé
movimento do corpo para a frente e para trás

Tur = tour (de main)
passo que reaparece no rockn’ roll

Alavantu = à l’avant tous / en avant tous
todos para a frente

Alavandê = à l’avant deux / en avant deux
dois passos à frente

Anarriê = en arrière
para trás

Changê = changer (de dame)
mudar (de dama)

Visavi = vis à vis
pra frente e pra trás com as damas paradas em frente

Quadrilha

Quadrilha

Alguns outros passos foram conservados no Brasil, mas tiveram seus nomes traduzidos ou adaptados:

Caminho da roça
promenade, demi-promenade

Grande roda das damas
chaîne des dames

Grande roda
chaîne, chaîne anglaise

O importante é que Santo Antônio dê a cada um o que ele estiver procurando. E quentão, pinhão e pé de moleque para todos nós!

Publicado originalmente em 12 jun° 2013.

Polindo a biografia

José Horta Manzano

Se, antes da eleição, Jair Messias tivesse sido sincero e confessado aos brasileiros que seu futuro governo se resumiria a passar o tempo manobrando pra escapar da cadeia, em defesa do clã e esquecido do povo, certo não teria sido eleito. Não era de conhecimento público que a família Bolsonaro estivesse tão envolvida com milícias e outros círculos perigosos. O Brasil já elegeu muito estropício, mas capo mafioso é a primeira vez. Foi descuido terrível, que nos está custando caro.

Já houve presidentes bons; já houve presidentes medíocres; já houve presidentes ruins. Mas não me lembro de ter visto presidente sem projeto para o Brasil, que governasse exclusivamente para si e para o clã.

Se espremer bem esse primeiro ano de mandato, o que é que sai? Um caldo esquisito, com ministro do Meio Ambiente trabalhando pra destruir o meio ambiente; ministro da Educassão semianalfabeto; benesses distribuídas, à luz do dia, a parlamentares fisiológicos; incentivo oficial ao armamento da população; negacionismo escancarado da maior pandemia global do último século.

Os Três Patetas (os originais)

A lista de «esquisitices» é longa e conhecida. Não vale a pena gastar tinta com isso. A mais recente delas é a ocultação das estatísticas da pandemia no Brasil. Ignaro por falta de estudo e mal aconselhado por falta de visão, doutor Bolsonaro acha que, uma vez camuflada, a realidade some. Em sua estratégia rudimentar, acredita poder assim driblar a contagem macabra e dar a todos a impressão de que os mortos são poucos. «Não é tudo isso que dizem aí, pô!»

Será desmentido rapidinho por instituições sérias que já organizam contagem paralela – que vai acabar se tornando oficial. A biografia do moço vai guardar para sempre a marca do dirigente apavorado, que não teve peito pra enfrentar a grande peste de 2020.

Nos anos 1970, ao dissimular a realidade da epidemia de meningite que grassava em São Paulo, a ditadura deixou para a história a lembrança do bizarro triunvirato militar que tinha assumido o comando do país em 1969. De tão atrapalhado, o conjunto ficou conhecido com o apelido que lhes pespegou Ulysses Guimarães: «Junta dos Três Patetas». Doutor Bolsonaro tem lugar reservado nessa galeria de horrores: será o quarto pateta.

A gente lamentamos

José Horta Manzano

«A gente lamenta todos os mortos, mas é o destino de todo o mundo».

A edição impressa da Folha de São Paulo traz na capa desta quarta-feira as palavras que doutor Bolsonaro dirigiu ontem a uma apoiadora. A curta frase dá ensejo a três reflexões.

Impiedade
Mais uma vez, fica confirmada a ausência de compaixão do presidente. Aquele “mas” inserido entre as orações é terrível: ele anula a primeira parte da fala e transforma o lamento do capitão em pronunciamento burocrático saído da boca de um espírito seco. Mal comparando, faz lembrar o General Figueiredo, último presidente militar, que preferia a companhia de cavalos à do povo. Mas há uma diferença. Doutor Bolsonaro, como não é general, dispensou os cavalos e preferiu cercar-se de burros.

Correio Braziliense
Capa da edição impressa – 3 jun 2020

Poltronice
O doutor não tem a coragem dos próprios posicionamentos; esconde-se atrás de um ruborizado “a gente” em vez de se apresentar peito aberto com um sonoro “eu”.

Déficit de inteligência
Depois de a pandemia ter derrubado crenças e certezas através do globo, o doutor continua a tratá-la como se fosse assunto menor, sem importância. Mostra que ainda não entendeu a gravidade do momento mundial. Não consegue se dar conta de que, nos futuros relatos da história do Brasil, seu mandato estará irremediavelmente ligado à covid-19 e seu nome ecoará como o de um Nero que soprou nas brasas da discórdia nacional. Para todo o sempre, já está marcado.

O rumor, o boato e a notícia falsa

José Horta Manzano

Desde os anos 1300, o nome da coisa é rumor. Dois séculos mais tarde, a língua se enriqueceu e a coisa ganhou mais um nome: boato. A modernidade do século 20 trouxe expressão nova para designar a mesma coisa: notícia falsa. E a vassalagem pós-moderna do século 21 obrigou a língua a importar expressão inglesa para a mesmíssima coisa: é “fake news”. São variações em torno do mesmo tema. A abundância de nomes dá a dimensão da importância que o boato adquiriu em nossos dias.

A disseminação das redes ditas ‘sociais’ – que chamo, maldosamente, associais – inunda os usuários com um magma de informação que chega em jorro contínuo. O portentoso volume dificulta a separação do joio e do trigo. A cada notícia nova, vem a dúvida: é verdade ou boato? Em compreensível reação de impotência, cada um tende a botar fé naquilo que lhe soa simpático, naquilo que lhe afaga as crenças. E acaba abonando notícia falsa.

Dirigentes populistas exploram essa insegurança de leitores que passam por cima de todo pensamento crítico para abraçar a notícia que vai de encontro a suas esperanças. É desse alimento que se fortalecem os oportunistas instalados no andar de cima.

Neste momento, tramita no Senado um projeto para combater “fake news”. Combater boatos é tão irrealista quanto combater erupções vulcânicas, terremotos ou aguaceiros. O que se gostaria, na verdade, é de reprimir a propagação de notícias falsas por redes (as)sociais. Essa judiciarização é sintomática dos tempos que vivemos.

Cinquenta anos atrás, os produtos alimentícios não vinham com data de validade. Minha avó abria, observava, cheirava e dava o diagnóstico: está (ou não está) bom. Cada um usava a própria capacidade de tomar decisão sem muleta. Hoje mudou. Se dou com uma notícia inesperada no meu grupo virtual, me falta expediente pra decidir sozinho se é verdadeira ou falsa. Daí a necessidade de uma lei que faça o trabalho por mim. Daí a utilidade do projeto que tramita no Senado.

É pena assistir a essa crescente infantilização da população, que não consegue mais distinguir sozinha entre o joio e o trigo das informações. E pensar que a solução é simples: para ter certeza, basta informar-se nos grandes órgãos da mídia. Não é garantia absoluta, mas ainda é o melhor caminho pra escapar de boatos e deixar de engolir gato por lebre.

Déficit de inteligência

José Horta Manzano

Nosso país nasceu torto, cresceu enrolado, está chegando enviesado à maturidade. A continuar assim, o futuro é sombrio. Mas este blogueiro é daqueles que ainda acreditam que o Brasil tem jeito. Ainda não acertamos o passo, mas há esperança. Não é coisa pra amanhã, mas nossos descendentes ainda hão de viver num país civilizado e justo.

Nos tempos em que o Lula rondava os 100% de popularidade (enquanto seus companheiros esvaziavam os cofres da nação), nunca escondi minha oposição àquela maneira de fazer política. Quando saíam aquelas pesquisas com a fabulosa taxa de popularidade de nosso guia, cheguei a me perguntar se eu era o último dos moicanos, aquele que se recusava a aderir ao preferido das multidões.

Ao longo dos anos, escrevi centenas de artigos de crítica frontal e aberta ao lulopetismo. Como resposta, em meio a frequentes mensagens de apoio, recebi um ou outro escrito de desagrado. Assim mesmo, as reações aborrecidas atinham-se a palavras veementes, nunca ofensivas. O tempo passou, o Lula saiu do noticiário e seus companheiros silenciaram.

O aventureiro da vez tem por nome Bolsonaro. Quanto aos dinheiros da nação, (ainda) não se tem notícia de ataque maciço. No entanto, há coisas que me incomodam imenso naquele que, por ironia, costumo chamar de doutor. O homem tem evidente déficit de inteligência(*), é ignorante, rasteiro, não tem capacidade intelectual para entender o que é o Brasil e para que serve um presidente. Com ele, todos os caminhos levam à catástrofe.

Desde que me convenci das más intenções de doutor Bolsonaro, escrevi dezenas e dezenas de artigos fortemente críticos. Meus leitores são inteligentes: a maioria nutre pelo presidente, em maior ou menor grau, certa prevenção (pra não dizer desconfiança). Assim mesmo, como é natural, um ou outro discorda do que digo, e não deixa de me fazer saber. É aqui que entra a diferença marcante entre os adoradores do Lula e os que chamam Bolsonaro de mito.

Lulistas eram veementes, mas não descambavam para a vulgaridade. Bolsonaristas parecem não conhecer limites: entram com os dois pés no peito, que é pra derrubar. Palavrões são seu modo habitual de se exprimir. Ofensas pessoais são seu modo habitual de argumentar.

Quando o atual pesadelo acabar – esperando que seja o mais breve possível –, os efeitos da freada serão intensos. Mais forte é o tranco, mais doído será o solavanco. Vamos torcer para que a alternativa ao bolsonarismo não seja a volta dos assaltantes nem a ascensão de um novo aventureiro qualquer. Segurem-se. É bom rezar novena e fazer promessa pra São Benedito. Não vai ser fácil.

(*) Déficit de inteligência
Normalmente, deve-se dizer que o homem é burro. Sinto-me, no entanto, incomodado de atribuir a pessoa tão nefasta o nome de bicho tão simpático. Prefiro dizer que o presidente é falto de inteligência. Chamar Bolsonaro de burro é fazer ofensa ao animal.

O país de ressaca

José Horta Manzano

Pra quem achava que os (longos) anos do lulopetismo eram o pior que se podia imaginar em matéria de governo, aqui está doutor Bolsonaro pra provar que o que já é ruim pode sempre ser piorado.

O lulopetismo roubou os dinheiros da nação; o bolsonarismo está roubando a alma do povo. Dinheiro, trabalhando e economizando, sempre se consegue juntar de novo; alma, já fica mais complicado. Não há trabalho nem economia que conserte alma arranhada.

Se não for logo interditado, este governo vai deixar um rastro de desolação em que todos sairão perdendo. Dirigentes que desprezam a cultura, desdenham a ciência e destroem a natureza estão agindo pior do que os que assaltaram o erário: estão hipotecando o futuro do Brasil como nação civilizada.

Não sei quantas reuniões ministeriais já houve desde que doutor Bolsonaro assumiu. Alguém acredita que as anteriores tenham sido diferentes dessa que foi desvelada? Moro não apontou a reunião de 22 de abril porque havia nela palavrões, mas porque escorava sua acusação de que o presidente tencionava intervir na PF.

Reunião ministerial

Incivilidades, impropérios e rasteiras parecem ser o prato do dia, servido em todas as refeições àquela gente insaciável. Todos os presentes, excluídos o cinegrafista e a mulher do café, estão na mesma salada. Ainda que alguns aparentem constrangimento, não leve a sério. Se constrangidos estivessem, já faz tempo que teriam entregado o chapéu. Se lá continuam, é porque se sentem entre iguais. Damares inclusive, com toda a pureza que exibe, deve ter os ouvidos acarpetados de palavrões.

Falando em Moro, é curioso que tenha se segurado quietinho durante ano e quatro meses, calado, apagado, apático. Há de ter ouvido muito palavrão, muita impropriedade, muitos planos antidemocráticos. No entanto, não soltou um pio. Só decidiu abandonar o barco quando a água já estava batendo na cintura.

O Centrão acaba de aceitar, com volúpia, convite pra integrar essa caravana de insanos. Como moscas atraídas pelo mel, os do baixo clero só têm olhos para as vantagens que virão em troca de apoio ao governo. Esquecem que toda moeda tem dois lados.

Ao fazer barragem a um processo de impeachment, estão levando água ao moinho do aprendiz de ditador e contribuindo para o sucesso de seu projeto autoritário. Caso o pior acontecesse e o golpe se consumasse, o Congresso seria fechado e eles – tolinhos! – seriam as primeiras vítimas. Perderiam o mandato e só com muita sorte não terminariam na cadeia. A cupidez é defeito muito feio.

Cloroquina – 3

José Horta Manzano

Acaba de sair a notícia. The Lancet, uma das três revistas médicas mais respeitadas do mundo, publicou hoje o resultado de pesquisa sobre ganhos & perdas ligados ao uso da cloroquina em pacientes atingidos pela covid-19.

O estudo, levado a cabo entre dezembro 2019 e abril 2020 em 671 hospitais ao redor do globo, esmiuçou o prontuário de 96 mil doentes internados. Chegou à conclusão de que o uso desse remédio não trouxe nenhum benefício, enquanto os malefícios foram notáveis. Mesmo nos casos em que foi associada a antibióticos, a cloroquina aumentou em 45% os casos de morte por arritmia cardíaca ventricular. Com ou sem tratamento coadjuvante, a esperança de vida dos doentes encurtou.

É imprecionante como esse pessoal age. Vejam só: 96 mil doentes e 671 hospitais unidos em perfeita cumplicidade – e ao redor do mundo! – de propósito só para contradizer as orientações de doutor Bolsonaro. É imprecionante a desonestidade intelectual desse pessoal. Fazer isso logo com nosso presidente, sempre tão ponderado, refletido e preocupado em acertar. É injusto! É um complô comunista! Assim não dá.

Projeto para o país

José Horta Manzano

Assim que doutor Bolsonaro foi eleito, achou que estava com a bola toda e pretendeu reinar sozinho, sem apoio de ninguém. Com a bola toda, até que estava – afinal, acabava de receber votação majoritária. Só que o ingênuo não se deu conta de que presidente, sozinho, não faz a lei. Quem faz lei é o Congresso. Os parlamentares podem legislar e até derrubar veto presidencial; já presidente não pode se opor ao voto majoritário da Câmara.

É surpreendente que um homem que vegetou por 28 anos no baixo clero não tenha aprendido como funciona o sistema de contrapesos da República. É compreensível: ocupado em delinquir, há de ter negligenciado todo aprendizado.

Neste quase ano e meio de mandato, o doutor apanhou um bocado. No atacado, levou cascudos da Câmara e do STF; no varejo, ouviu pito da imprensa, de dirigentes internacionais, até do embaixador da China. Assim mesmo, preferiu desviar os olhos da realidade – não achou importante construir base de apoio parlamentar.

Só agora, com a água batendo no pescoço, com seus podres (e os da excelentíssima família) revelados ao distinto público, decidiu que era urgente lotear os altos escalões do serviço público e entregar, de mão beijada e porteira fechada, fatias inteiras da República a mensaleiros ex-presidiários. Em troca de apoio, uma espécie de seguro anti-impeachment.

Mais uma fez, fica exposto o déficit de inteligência do presidente. Incapaz de prever o alcance dos próprios atos, ataca o problema de cada dia, sem se inquietar com o amanhã.

Mais grave, ficou mais uma vez confirmada sua absoluta falta de projeto para o país. Enquanto era o futuro do Brasil que estava em jogo, pouco importava que projetos enviados ao Congresso fossem aprovados ou não. Um Parlamento «amigo» só passou a ser vital quando o perigo passou a rondar a família, hoje suspeita de variados crimes. Blindar a família, sim; blindar o país, tanto faz.

As passeatas de antigamente

José Horta Manzano

Houve uma época, não faz tanto tempo assim, em que opinião política se manifestava no grito. Na rua, de preferência. Havia quem chamasse de passeata; alguns diziam desfile; outros preferiam protesto. Faixa, megafone, cartaz, palavras de ordem eram de rigor. Por fim, o mais importante de tudo: a cor da indumentária. Aquela maré humana, principalmente fotografada do alto, não teria o mesmo encanto se não estivessem todos uniformizados. Boné, camiseta e bermuda respeitavam o código.

Manifestações assim sempre houve. Foi um lulopetismo desmascarado por mensalões e petrolões que cuidou de dar relevo a elas. Quando a seita já caminhava para o fim, multidões de aluguel vestiram o vermelho das bandeiras progressistas enquanto uma maré de gente se apresentou de verde-amarelo. Era o bom senso nacional despachando os vermelhinhos pra fora da pista.

A roda gira. Desfiles, passeatas e protestos andam meio fora de moda. Palavras de ordem (palavrões?) não saem mais de megafones, mas brotam de redes associais. Mas palavras não têm cor. Onde foi parar a alegre paleta dos velhos dias?

Ela hoje está à porta do palácio presidencial, contida num cercadinho destinado a amestrados prontos a aplaudir o que Seu Mestre disser. Os vermelhinhos sumiram, e os figurantes se vestem de verde-amarelo. É manifestação unívoca, sem contestação possível, senão… «Cala a boca!».

Tudo estaria na santa paz, só que Seu Mestre só diz besteiras. As enormidades presidenciais vêm em modo mesa de pizzaria quando proferidas ao vivo, e em modo balcão de boteco quando são ditas em ambiente restrito. Quem quiser mostrar desagrado e não estiver disposto a escrever palavrão nas redes teria caminho certo: organizar contramanifestação. Só que vai enfrentar um problema espinhoso. A turma do ódio é que trocou o vermelho pelo verde-amarelo. Portanto, que cor o cidadão equilibrado deve vestir?

Está explicado o porquê do silêncio das ruas. Por um lado, a ala do bom senso não se anima a soltar palavrão pela internet. Por outro, dado que o verde-amarelo foi parar em mãos indevidas, gente fina está hesitando em manifestar nas ruas. Tá complicado, parceiro.

Cloroquina – 2

José Horta Manzano

Primeiro
A cloroquina (vendida sob o nome comercial Plaquinol) estava, até outro dia, em venda livre nas farmácias do país, sem obrigação de apresentar receita médica. Continua disponível, embora seja obrigatório apresentar receita.

Segundo
Todo médico está livre de escolher o melhor tratamento para o paciente, desde que aja debaixo do Juramento de Hipócrates e nos limites das leis do país.

Considerando que as duas premissas estejam corretas, tenho dificuldade em entender o objeto do decreto que doutor Bolsonaro queria (ainda quer?) assinar «liberando o uso da cloroquina» para tratamento da covid-19. (Assinou?)

Vendida para tratamento da malária, a cloroquina já está liberada há séculos. Já faz tempo que todos os médicos estão livres de utilizá-la. De todo modo, não cabe ao presidente dar orientação terapêutica à profissão; seria aberrante. Portanto, a grita do medalhão é metafórica e inócua. Não passa de esperneio.

Por que confinar?

José Horta Manzano

Se o confinamento foi imposto na maioria dos países da Europa, não foi pra castigar ninguém, mas pra preservar o sistema nacional de saúde. E funcionou. Quanto mais cedo foi instaurado, menor foi a taxa de mortalidade. Na maioria dos países, visto que a curva de contágio entortou pra baixo, o desconfinamento gradual já começou.

No início da pandemia, o governo do Reino Unido foi reticente, o que significou um baita escorregão para o país, que virou um caso à parte. Boris Johnson chegou a debochar do perigo ao dizer que continuava, sim, apertando a mão de muita gente. Deu no que deu. O figurão apanhou a covid-19, deu entrada no hospital, foi tratado na UTI, quase empacotou – parece até que foi castigo. Quando, finalmente, instauraram o confinamento, o contágio já corria solto. Como resultado, a epidemia foi lá mais grave do que na maioria dos vizinhos.

O Brasil vive uma situação peculiar. O sistema nacional integrado de saúde (SUS) convive com um sistema paralelo de asseguradoras privadas (convênios), que asseguram, grosso modo, os mesmos riscos. O resultado é sui-generis: boa parte dos brasileiros são sobreassegurados (=overassured, surassurés). Sustentam, do próprio bolso, dois sistemas concorrentes. Pra quem olha do exterior, parece um despropósito, um desperdício. Afinal, apesar de pagar dois sistemas, o cidadão só recorre a um deles de cada vez. Desse modo, terá pago o outro por nada. A meu conhecimento, nenhum país rico procede assim. No entanto, pensando bem, se ninguém reclama, é porque devem estar satisfeitos.

Seja como for, que se considere o SUS ou as seguradoras privadas, no frigir dos ovos, a capacidade de atendimento hospitalar será sempre o resultado da soma dos dois sistemas. Portanto, o princípio que compeliu outros países a decretarem confinamento da população vale também para o Brasil. O objetivo é preservar o(s) sistema(s) de saúde. É afligente que doutor Bolsonaro não tenha entendido isso.

Os exames do presidente

José Horta Manzano

A divulgação dos exames que o presidente fez para detectar coronavírus desconforta os brasileiros aflitos. Responde a dúvidas, mas leva a reflexões.

Era verdade
Já em março, este blogueiro tinha levantado a hipótese de que doutor Bolsonaro pudesse ter sido infectado pelo vírus e que, após ingerir comprimidos de Plaquinol (=cloroquina), estivesse atribuindo sua cura a essa molécula. O esperneio destas últimas semanas confirma amplamente a hipótese, se não da cloroquina, pelo menos da contaminação. Tivessem os testes de março dado resultado negativo, teriam sido publicados imediatamente. E com orgulho de “atleta” invulnerável. Não vieram a público então, o que nos permite duvidar da veracidade dos que acabam de sair. Quem é que já não viu atestado falso assinado por médico de verdade? Quando é para o presidente, então, deve ter fila pra assinar.

Numeração
Uma semana atrás, escrevi um artigo sobre a estranha propensão presidencial de numerar as pessoas de seu entorno. Considerando que seus quatro filhos homens já ocupam as primeiras posições (01, 02, 03 e 04), eu estava curioso de saber que número o doutor teria reservado para si. Seria talvez 00? Não era. O teste do coronavírus (que ele jura ter dado negativo) revela que o capitão, como bom chefe de clã, põe os filhos à frente. Um dos laudos foi feito sob o “codinome” 05. Brasil acima de tudo e a famiglia acima de todos! –, que ninguém é trouxa.

O Estadão não hesitou: mandou brasa.

Sinônimos?
Palavras parecidas nem sempre são perfeitamente sinônimas. Há várias maneiras de designar um nome inventado. Pode ser pseudônimo, apelido, alcunha, apodo, nick – sem contar variedades eruditas como heterônimo, epíteto, cognome, alônimo, criptônimo ou o assustador onomatópose. Há ainda o curioso codinome, cunhado a partir do inglês code + name = nome de código. Cada falante escolhe as palavras que prefere, mas é bom tomar cuidado com codinome. Nos anos 1970, esse termo estava muito em voga pra designar terroristas. De doutora Dilma, afirma-se ter usado diferentes codinomes, entre eles Wanda e Iolanda. Se puder evitar, evite. A menos que esteja se referindo a organização criminosa. (Há quem jure haver uma, instalada no Planalto.)

Não nos representa

José Horta Manzano

Não gosto nem desgosto de Regina Duarte. Pra mim, como dizia minha avó, a moça não fede nem cheira. Lembro vagamente de alguma cena de tevê em que ela aparecia, trinta anos atrás. Mais nada.

Fiquei surpreso quando soube que ela tinha aceitado o cargo de Secretária da Cultura. Me pareceu decisão arriscada visto o contexto. Por um lado, concordava em ser sucessora daquele destrambelhado aprendiz de nazista; por outro, ia trabalhar sob as ordens de doutor Bolsonaro, que é outro perturbado. Imaginei que daí não saísse nada de bom. Parece que não está saindo mesmo.

É de hoje a notícia de um coletivo de mais de 500 artistas que acaba de lançar manifesto contra a secretária da Cultura. Em 150 palavras veementes, o grupo repudia o comportamento da moça quando de recente entrevista a uma emissora de televisão. Parece que ela andou pondo as manguinhas de fora. O manifesto termina com a frase choque: «Ela não nos representa».

Faço coro com os artistas que se declaram contrários a todas as mazelas do governo atual. No entanto, o protesto deles sofre de um mal de nascença: a secretária da Cultura, assim como todos os seus colegas ministros e secretários, não estão lá para representar ninguém.

Em nosso sistema político, os representantes do povo são os parlamentares, que são eleitos exatamente para essa função. Ministros e secretários são auxiliares pessoais e diretos do presidente da República, que tem o direito de os escolher e de os demitir ad nutum(*).

Portanto, não faz sentido apontar o dedo para a secretária e dizer que ela «não nos representa». A moça não está lá pra representar ninguém. A função dela é pôr em prática a política de seu chefe, o presidente. É a este senhor que toda reclamação tem de ser dirigida.

(*) Ad nutum é expressão latina. A tradução literal é ‘com aceno de cabeça’. Vem daí nosso verbo anuir (=consentir, autorizar). Usa-se essa locução adverbial para indicar uma decisão instantânea, fruto de poder absoluto e discricionário.

No caso presente, ad nutum informa que o mandato de ministros e secretários é revogável a qualquer momento, bastando para isso um simbólico “aceno de cabeça” do presidente.

Dabelou seven

José Horta Manzano

Nos anos 1960, surgiram os filmes de James Bond. O intérprete que apareceu nas primeiras fitas e deu vida ao personagem foi o escocês Sean Connery, galã de 1,90m que contracenou com beldades esculturais. O contexto da Guerra Fria era pano de fundo propício para histórias de espionagem. O agente secreto 007 – dabelou seven, na pronúncia original – bisbilhotava o mundo a serviço de Sua Majestade, a rainha da Inglaterra.

Lembro-me de uma cena bizarra de uma daquelas películas. O nome do filme agora me escapa; pode bem ser Thunderball (1965), aquele que, no Brasil, recebeu o longo e desgracioso título de 007 Contra a Chantagem Atômica.

A certa altura, reúnem-se os integrantes de uma organização criminosa. Serão entre 15 e 20 em volta de uma espécie de mesa baixa. Do chefe, não se vê o rosto, só se percebe que ele afaga obsessivamente um gato persa branco sentado no seu colo. O mandachuva não chama os integrantes da pequena assembleia pelo nome, mas por número. São todos numerados: o 05, o 03, o 09 e assim por diante. Presume-se que o dono do gato seja o 01. A cena acaba trágicamente, com dois participantes sendo precipitados, com cadeira e tudo, para dentro de minicrateras abertas repentinamente.

Eram histórias de ação, empolgantes, emocionantes, mas… não passavam de historietas de cinema. Não era pra levar a sério. Eu, por exemplo, não levei. Só me ficou uma informação: em facções e organizações criminosas, é praxe os participantes serem numerados.

Acredito que nosso presidente, adolescente à época, tenha se entusiasmado demais da conta com essa história de numerar gente. Deixou-se impregnar de tal maneira que guardou o curioso costume até hoje. De fato, não se refere aos filhos pelo nome, mas por número. Não está claro o porquê de ele se sentir à vontade numa família numerada. Gosto pela matemática? Identificação com a secta do filme de James Bond? Fica o mistério no ar.

Observação
Segunda-feira passada, naquela conversa amena em que, com elegância, mandou jornalistas calarem a boca, nosso presidente deixou claro que a numeração das pessoas não se restringe ao clã. Referindo-se às mudanças na chefia da PF do Rio, revelou que havia convidado um determinado senhor “para ser o zero dois”.

Resta saber qual é o número que o doutor reservou para si. Visto que, na famiglia, a numeração está toda tomada, sobrou o 00 (= o dabelou). Cai bem para o doutor. Os anos vazios de sua gestão cobrarão a conta. A história, que é cruel, guardará desta presidência de intrigas uma lembrança próxima do zero. Zero à esquerda.