O rumor, o boato e a notícia falsa

José Horta Manzano

Desde os anos 1300, o nome da coisa é rumor. Dois séculos mais tarde, a língua se enriqueceu e a coisa ganhou mais um nome: boato. A modernidade do século 20 trouxe expressão nova para designar a mesma coisa: notícia falsa. E a vassalagem pós-moderna do século 21 obrigou a língua a importar expressão inglesa para a mesmíssima coisa: é “fake news”. São variações em torno do mesmo tema. A abundância de nomes dá a dimensão da importância que o boato adquiriu em nossos dias.

A disseminação das redes ditas ‘sociais’ – que chamo, maldosamente, associais – inunda os usuários com um magma de informação que chega em jorro contínuo. O portentoso volume dificulta a separação do joio e do trigo. A cada notícia nova, vem a dúvida: é verdade ou boato? Em compreensível reação de impotência, cada um tende a botar fé naquilo que lhe soa simpático, naquilo que lhe afaga as crenças. E acaba abonando notícia falsa.

Dirigentes populistas exploram essa insegurança de leitores que passam por cima de todo pensamento crítico para abraçar a notícia que vai de encontro a suas esperanças. É desse alimento que se fortalecem os oportunistas instalados no andar de cima.

Neste momento, tramita no Senado um projeto para combater “fake news”. Combater boatos é tão irrealista quanto combater erupções vulcânicas, terremotos ou aguaceiros. O que se gostaria, na verdade, é de reprimir a propagação de notícias falsas por redes (as)sociais. Essa judiciarização é sintomática dos tempos que vivemos.

Cinquenta anos atrás, os produtos alimentícios não vinham com data de validade. Minha avó abria, observava, cheirava e dava o diagnóstico: está (ou não está) bom. Cada um usava a própria capacidade de tomar decisão sem muleta. Hoje mudou. Se dou com uma notícia inesperada no meu grupo virtual, me falta expediente pra decidir sozinho se é verdadeira ou falsa. Daí a necessidade de uma lei que faça o trabalho por mim. Daí a utilidade do projeto que tramita no Senado.

É pena assistir a essa crescente infantilização da população, que não consegue mais distinguir sozinha entre o joio e o trigo das informações. E pensar que a solução é simples: para ter certeza, basta informar-se nos grandes órgãos da mídia. Não é garantia absoluta, mas ainda é o melhor caminho pra escapar de boatos e deixar de engolir gato por lebre.

Fake news ‒ 1

José Horta Manzano

Assim como o Lula não inventou o suborno, tampouco Donald Trump é o criador da «fake news», a notícia falsa. O mérito de ambos ‒ se é que se pode chamar de mérito ‒ é ter elevado essas práticas duvidosas ao nível de política de Estado.

O Lula até que conseguiu se sustentar sobre o tablado durante muito tempo. A técnica durou tantos anos que, como era inevitável, ele e a companheirada se acostumaram a seguir pela via paralela e a dobrar pela direita. Agir na base do toma lá dá cá tornou-se uma segunda natureza, entrou para o quotidiano. O exagero levou à perdição.

Suborno, cooptação, prevaricação, corrupção e outros males desse jaez já eram conhecidos antes de os gregos antigos implantarem a democracia. E nunca saíram de cena. Usados com moderação, são como o vinho: não fazem mal à saúde e, de quebra, podem até ajudar a destravar negócios enrolados. Em excesso, no entanto, destroem criadores e criaturas.

«Fake news» ‒ que antigamente a gente dizia boato ‒ é outra prática antiga. Seus parentes são o rumor, a calúnia, a injúria, a falsa denúncia. Todos eles já existiam antes que a bíblia fosse escrita. Tanto quanto a corrupção, a boataria é praticamente inócua desde que se mantenha dentro de certos limites. Ao tornar-se prática difundida, universal e diária, enguiça a máquina. Ninguém consegue sobreviver em chão de areia movediça.

Internet e redes sociais têm usado e abusado de verdades mascaradas. Exatamente como no caso dos poderosos brasileiros, a falta de freios está se tornando procedimento normal. Cada um distorce a verdade como lhe parece mais conveniente. O mais recente escândalo está centrado no futebolista luso Cristiano Ronaldo, cuja fama de excelência subiu mais um pouco quando seu clube conquistou a Copa da Liga dos Campeões da Uefa dias atrás.

A firma de equipamentos esportivos Nike, que aparece entre os principais patrocinadores do rapaz, bolou rapidamente uma campanha publicitária. Encontrou uma foto em que o jogador aparece ainda jovem e tratou de difundi-la. Antes disso, tomou o cuidado de dar-lhe uma “photoshopada” e de acrescentar o característico logotipo e uma legenda: «This boy knew» ‒ este menino sabia. Deu-se mal.

Um observador atento tratou logo de espalhar pelas redes a foto original. No retrato verdadeiro, o futebolista não veste agasalho Nike, mas da maior concorrente, a firma Adidas. Pegou mal pra caramba.

Como os corruptos inveterados, os difusores de «fake news» estão ultrapassando os limites da razoabilidade. O mundo vai mal. Já não se pode mais nem acreditar em boato.