Dabelou seven

José Horta Manzano

Nos anos 1960, surgiram os filmes de James Bond. O intérprete que apareceu nas primeiras fitas e deu vida ao personagem foi o escocês Sean Connery, galã de 1,90m que contracenou com beldades esculturais. O contexto da Guerra Fria era pano de fundo propício para histórias de espionagem. O agente secreto 007 – dabelou seven, na pronúncia original – bisbilhotava o mundo a serviço de Sua Majestade, a rainha da Inglaterra.

Lembro-me de uma cena bizarra de uma daquelas películas. O nome do filme agora me escapa; pode bem ser Thunderball (1965), aquele que, no Brasil, recebeu o longo e desgracioso título de 007 Contra a Chantagem Atômica.

A certa altura, reúnem-se os integrantes de uma organização criminosa. Serão entre 15 e 20 em volta de uma espécie de mesa baixa. Do chefe, não se vê o rosto, só se percebe que ele afaga obsessivamente um gato persa branco sentado no seu colo. O mandachuva não chama os integrantes da pequena assembleia pelo nome, mas por número. São todos numerados: o 05, o 03, o 09 e assim por diante. Presume-se que o dono do gato seja o 01. A cena acaba trágicamente, com dois participantes sendo precipitados, com cadeira e tudo, para dentro de minicrateras abertas repentinamente.

Eram histórias de ação, empolgantes, emocionantes, mas… não passavam de historietas de cinema. Não era pra levar a sério. Eu, por exemplo, não levei. Só me ficou uma informação: em facções e organizações criminosas, é praxe os participantes serem numerados.

Acredito que nosso presidente, adolescente à época, tenha se entusiasmado demais da conta com essa história de numerar gente. Deixou-se impregnar de tal maneira que guardou o curioso costume até hoje. De fato, não se refere aos filhos pelo nome, mas por número. Não está claro o porquê de ele se sentir à vontade numa família numerada. Gosto pela matemática? Identificação com a secta do filme de James Bond? Fica o mistério no ar.

Observação
Segunda-feira passada, naquela conversa amena em que, com elegância, mandou jornalistas calarem a boca, nosso presidente deixou claro que a numeração das pessoas não se restringe ao clã. Referindo-se às mudanças na chefia da PF do Rio, revelou que havia convidado um determinado senhor “para ser o zero dois”.

Resta saber qual é o número que o doutor reservou para si. Visto que, na famiglia, a numeração está toda tomada, sobrou o 00 (= o dabelou). Cai bem para o doutor. Os anos vazios de sua gestão cobrarão a conta. A história, que é cruel, guardará desta presidência de intrigas uma lembrança próxima do zero. Zero à esquerda.

Um pensamento sobre “Dabelou seven

  1. Pingback: Os exames do presidente – Brasil de Longe

Dê-me sua opinião. Evite palavras ofensivas. A melhor maneira de mostrar desprezo é calar-se e virar a página.

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s