As passeatas de antigamente

José Horta Manzano

Houve uma época, não faz tanto tempo assim, em que opinião política se manifestava no grito. Na rua, de preferência. Havia quem chamasse de passeata; alguns diziam desfile; outros preferiam protesto. Faixa, megafone, cartaz, palavras de ordem eram de rigor. Por fim, o mais importante de tudo: a cor da indumentária. Aquela maré humana, principalmente fotografada do alto, não teria o mesmo encanto se não estivessem todos uniformizados. Boné, camiseta e bermuda respeitavam o código.

Manifestações assim sempre houve. Foi um lulopetismo desmascarado por mensalões e petrolões que cuidou de dar relevo a elas. Quando a seita já caminhava para o fim, multidões de aluguel vestiram o vermelho das bandeiras progressistas enquanto uma maré de gente se apresentou de verde-amarelo. Era o bom senso nacional despachando os vermelhinhos pra fora da pista.

A roda gira. Desfiles, passeatas e protestos andam meio fora de moda. Palavras de ordem (palavrões?) não saem mais de megafones, mas brotam de redes associais. Mas palavras não têm cor. Onde foi parar a alegre paleta dos velhos dias?

Ela hoje está à porta do palácio presidencial, contida num cercadinho destinado a amestrados prontos a aplaudir o que Seu Mestre disser. Os vermelhinhos sumiram, e os figurantes se vestem de verde-amarelo. É manifestação unívoca, sem contestação possível, senão… «Cala a boca!».

Tudo estaria na santa paz, só que Seu Mestre só diz besteiras. As enormidades presidenciais vêm em modo mesa de pizzaria quando proferidas ao vivo, e em modo balcão de boteco quando são ditas em ambiente restrito. Quem quiser mostrar desagrado e não estiver disposto a escrever palavrão nas redes teria caminho certo: organizar contramanifestação. Só que vai enfrentar um problema espinhoso. A turma do ódio é que trocou o vermelho pelo verde-amarelo. Portanto, que cor o cidadão equilibrado deve vestir?

Está explicado o porquê do silêncio das ruas. Por um lado, a ala do bom senso não se anima a soltar palavrão pela internet. Por outro, dado que o verde-amarelo foi parar em mãos indevidas, gente fina está hesitando em manifestar nas ruas. Tá complicado, parceiro.

Uma fábula contemporânea

Myrthes Suplicy Vieira (*)

Coroa de rei

Era um reino grande, bonito por natureza e relativamente poderoso, mas sempre às voltas com a indolência e a indisciplina de seus cortesãos. Buscavam todos com avidez formas de agradar o rei, sem que para isso tivessem de fazer muito esforço. O fundamental, diziam, era que o rei acreditasse piamente que era amado por seu povo, respeitado por outros reinos e que sua fama de ser capaz de superar as piores adversidades jamais seria maculada.

O tesoureiro do rei era um dos mais criativos nessa missão. Sempre que o rei extrapolava nos gastos com guerras, acordos internacionais, recepção festiva a embaixadores estrangeiros, saraus, importação de cosméticos e roupas especiais para a rainha ou brinquedos para os príncipes, ele conseguia convencê-lo a introduzir novos tributos.

Rio Alma 1

O reino já tinha até mesmo conquistado fama além-fronteiras por ter inovado na geração de novas receitas. Cobrava-se, por exemplo, pela utilização dos espaços públicos, assim como pelo uso das águas dos rios e córregos. “Tudo isso reverte em favor das pessoas”, orgulhava-se em alardear o tesoureiro. “Afinal, a população não teria como sobreviver, cuidar de suas plantações e animais e transportar suas mercadorias se não pudesse contar com a generosa natureza de nosso reino e com a magnanimidade de nosso rei que não se opõe a compartilhá-la com o gentio. Nada mais justo, então, que todos paguem para usufruir dessas benesses”, concluía ele.

Secretamente, o tesoureiro vinha trabalhando na criação de um novo imposto que incidiria sobre o ar respirado, demorando-se apenas na finalização do difícil trabalho de estabelecer alíquotas proporcionais à estatura, peso, gênero, idade e condição física de cada cidadão. Mesmo antevendo novas e virulentas revoltas da população, nada abalava seu ânimo, já que sabia que podia contar com o fervor da guarda palaciana para refrear a fúria da população.

by Robert Thaves, desenhista americano

by Robert Thaves, desenhista americano

Outro que se esmerava em projetar uma imagem de dinamismo e inovação para o atendimento dos interesses do rei era o administrador do principal burgo do reino. Sabia ele que o rei apreciava fazer longos passeios diários em visita a suas múltiplas herdades, sempre cercado por seu séquito. Com isso, as estradas do reino estavam sempre congestionadas e, para facilitar a passagem de tantas carruagens e carroças de apoio, o administrador optava por interditá-las por longos períodos. Não havia como estipular a duração exata da obstrução na ida e na volta, uma vez que o rei não podia ser importunado com a pequenez de problemas administrativos.

Trafic 1Pouco tempo se passou para que as primeiras reclamações furiosas começassem a chegar. Muitos camponeses se queixavam das dificuldades para levar seus produtos até o burgo e alguns, descrentes de que a situação pudesse mudar a curto prazo, optavam por fazer o percurso a pé, carregando nas costas enormes cestos de palha.

Fosse como fosse, os congestionamentos e os vários acidentes envolvendo cavalos, pessoas, cestos, carruagens e carroças começaram a incomodar o administrador. Temendo que os sinais de descontentamento da população fossem percebidos pelo rei, ele teve, então, a ideia de dividir todas as estradas e ruas do burgo em duas faixas: uma mais larga para uso exclusivo da família real e de seu entourage – à qual deu o nome de faixa nobre; e outra, bem mais estreita, para o tráfego de carroças e uso dos cidadãos comuns, que passou a designar como faixa de serviço. O projeto amainou os conflitos por algum tempo, mas logo novas reclamações começaram a pipocar.

Trafic 2Os conflitos mais sérios passaram a acontecer nos dias em que o rei decidia ir à caça, acompanhado de membros da família real, dos cortesãos de praxe, de seus auxiliares diretos, de suas matilhas de cães e, ainda, dos servos encarregados de alimentá-los, hidratá-los e recolher suas fezes. Se os cortesãos podiam se valer da faixa nobre para sua locomoção, aos demais participantes dessas empreitadas só restava utilizar a faixa de serviço, compartilhando-a com os cidadãos comuns.

Embora os enormes congestionamentos na faixa de serviço fossem o ponto focal da maioria das reclamações, os vários acidentes e incidentes envolvendo agora cavalos, cães e pessoas de todas as estirpes tornaram-se alvo de agudas críticas e novas preocupações para o administrador.

Ciclofaixa do futuro

Ciclofaixa do futuro

Num dia em que o rei perdeu dois de seus melhores cães atropelados, o administrador percebeu que não havia mais como adiar a tarefa de refazer a divisão das faixas de trânsito. Relutantemente, diminuiu alguns poucos centímetros da faixa nobre e dividiu o espaço restante em duas novas faixas: uma pela qual deveriam circular as carroças dos auxiliares diretos e os servos do rei, a população e suas carroças de transporte de mercadorias; a terceira e nova faixa destinava-se exclusivamente à circulação dos cães da matilha real.

O que aconteceu após a implantação da nova regulamentação de tráfego? Um imprevisto e incontrolável aumento no número de queixas, vindas desta vez tanto da nobreza quanto dos cidadãos comuns. O problema agora era que as faixas de tráfego haviam se tornado tão estreitas que, inevitavelmente, as carruagens e carroças colidiam umas com as outras, as pessoas eram pisoteadas por cavalos e mordidas por cães, e estes continuavam a ser atropelados e mortos por não respeitarem as divisórias de faixas – uma situação compreensível não só por se tratar de animais irracionais, mas principalmente porque os cachorros do rei não estavam acostumados a obedecer a limites.

(*) Myrthes Suplicy Vieira é psicóloga, escritora e tradutora.