Por que confinar?

José Horta Manzano

Se o confinamento foi imposto na maioria dos países da Europa, não foi pra castigar ninguém, mas pra preservar o sistema nacional de saúde. E funcionou. Quanto mais cedo foi instaurado, menor foi a taxa de mortalidade. Na maioria dos países, visto que a curva de contágio entortou pra baixo, o desconfinamento gradual já começou.

No início da pandemia, o governo do Reino Unido foi reticente, o que significou um baita escorregão para o país, que virou um caso à parte. Boris Johnson chegou a debochar do perigo ao dizer que continuava, sim, apertando a mão de muita gente. Deu no que deu. O figurão apanhou a covid-19, deu entrada no hospital, foi tratado na UTI, quase empacotou – parece até que foi castigo. Quando, finalmente, instauraram o confinamento, o contágio já corria solto. Como resultado, a epidemia foi lá mais grave do que na maioria dos vizinhos.

O Brasil vive uma situação peculiar. O sistema nacional integrado de saúde (SUS) convive com um sistema paralelo de asseguradoras privadas (convênios), que asseguram, grosso modo, os mesmos riscos. O resultado é sui-generis: boa parte dos brasileiros são sobreassegurados (=overassured, surassurés). Sustentam, do próprio bolso, dois sistemas concorrentes. Pra quem olha do exterior, parece um despropósito, um desperdício. Afinal, apesar de pagar dois sistemas, o cidadão só recorre a um deles de cada vez. Desse modo, terá pago o outro por nada. A meu conhecimento, nenhum país rico procede assim. No entanto, pensando bem, se ninguém reclama, é porque devem estar satisfeitos.

Seja como for, que se considere o SUS ou as seguradoras privadas, no frigir dos ovos, a capacidade de atendimento hospitalar será sempre o resultado da soma dos dois sistemas. Portanto, o princípio que compeliu outros países a decretarem confinamento da população vale também para o Brasil. O objetivo é preservar o(s) sistema(s) de saúde. É afligente que doutor Bolsonaro não tenha entendido isso.

Confinamento light

José Horta Manzano

A Suíça é um país federal. Cada cantão tem ciúmes da própria autonomia, visto que ela lhe concede ampla liberdade em muitos aspectos da vida administrativa. Tanto o Estado central quanto os cantões costumam respeitar essa independência; cada parte evita se meter nos assuntos da outra.

No final de fevereiro, quando a ameaça do coronavírus ribombou, ficou claro que teriam de ser tomadas medidas urgentes para limitar a propagação da epidemia. Uma dúvida surgiu: deixar que cada cantão cuidasse de sua jurisdição ou centralizar as decisões? A primeira opção poderia resultar numa desordem geral, cada cantão optando por diretivas diferentes. Já a segunda parecia mais estruturada, mas feria a sacrossanta autonomia regional. Como fazer?

Numa decisão fora dos padrões, o governo federal optou por centralizar a orientação. Ainda que de nariz torcido, os cantões acompanharam. O governo, confiante no espírito disciplinado do povo, achou desnecessário decretar confinamento rigoroso como o de países vizinhos (França e Itália).

Dia 16 de março, comércio e escolas fecharam. Empresas de serviço que recebem público também tiveram de parar de trabalhar. Continuaram funcionando os comércios essenciais: supermercados, farmácias, lojas de comida para animais de companhia.

As empresas que podiam instauraram o teletrabalho. As demais – construção civil, por exemplo – tiveram de parar porque não havia meios de respeitar a distanciação social. Os transportes públicos continuaram funcionando, ainda que em ritmo reduzido. As ruas esvaziaram, pois ninguém tinha para onde ir. Deu para ouvir passarinhos cantando, coisa comum nesta época do ano, mas difícil de perceber nas cidades maiores.

Trompa alpina (Alphorn), instrumento nacional suíço

Nos primeiros dias, um movimento de pânico se instalou. Como se o país se preparasse a entrar em guerra, o povo tomou de assalto os supermercados e acabou com determinados artigos. Ovos, farinha, fermento, papel higiênico e papel toalha sumiram. As gôndolas de enlatados ficaram com espaços vazios. Parece que o pessoal tinha mais medo de morrer de fome do que de contrair a doença.

Semana passada, começou o desconfinamento. Vai por etapas. Cabeleireiros e terapeutas já podem trabalhar, paramentados com luva e máscara, e munidos de álcool em gel. Semana que vem, escolas começam a receber a criançada e o comércio abre. Festivais, manifestações esportivas e outros ajuntamentos vão ter de esperar mais um pouquinho. Para esses casos, ainda não há previsão de autorização.

Tanto o governo federal quanto as administrações cantonais foram generosas para com os que ficaram sem emprego. Os pequenos empresários que perderam faturamento também não foram esquecidos. Medidas pontuais foram adotadas para paliar o problema de cada um.

Ninguém sabe até quando a população vai continuar com medo de contágio. Imagino que, por um bom tempo, a vida será diferente do que era antes. O mundo só voltará ao que costumava ser no dia em que encontrarem uma vacina contra esse mal. Antes disso, uma inocente tossidinha será capaz de esvaziar um ônibus inteiro.

Tuíte – 8

José Horta Manzano

Um estudo publicado hoje pelos epidemiologistas da respeitada Escola de Estudos Superiores de Saúde Pública, da França, revela que o rigoroso confinamento que a população está obrigada a cumprir salvou o país de uma hecatombe.

As regras extremamente rígidas da quarentena à la française evitaram 60 mil mortes a mais nos hospitais. Se essa multidão tivesse de ser acolhida, as UTIs do país não teriam conseguido acompanhar, os hospitais teriam entrado em colapso e o sistema de saúde pública teria desmoronado.

Hoje, diante do achatamento da curva de novos casos, o desconfinamento já está em curso; será progressivo, devendo se estender até o mês de junho.